PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

Poesia

SERVIÇAIS DO PARQUE
Na primeira
das horas
do patrão
vai morta
a manhã
do poeta
A saliva
corta
o vidro
Já não sigo
o curso dos lábios
tão curtos
como os pés
e os anos
Sei de cor o pregão
como o bocejar
com que se coze o jejum
da segunda classe
onde o pó cai
e vai
antes da chuva
e do avião
Toques atrevidos
antecipam-se
no lugar da saudação
oh
e na mão
o vapor do trapo
entorpecido
que roça o veículo
e a ponta do nariz
“Vou limpar, patrão?”

Gociante Patissa, pág. 33. in «Almas de Porcelana» (poesia reunida). Editora Penalux. São Paulo, Brasil, 2016.
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PREGUIÇA DA CABAÇA

O deserto tem sua pressa
parece que passa
parece que pára

O céu vai sem gotas
há muito
a vegetação
absorta escapa
bebendo dos meus olhos

e o deserto
parece que passa
parece que pára
brincando aos tempos

Mas tinha já que passar
não sobra muito mais
na cabaça
das lágrimas


Gociante Patissa. In «Guardanapo de Papel», 2014. NósSomos, Lda. Vila Nova de Cerveira, Portugal.
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RASTOS NA LINHA DO FAROL

Reincidente olhar inquieta-se
à volta do pingo de luz
aquele tímido ponto veludo
quando o céu todo é negra nuvem.

Aquela luz

para lá do mar
útero da mesma aragem
que outras velas vai apagar
ainda há-de ser minha
antes que caia do céu a manhã e o fim do cenário
ou façam-me tudo então
menos perdoar.

Gociante Patissa, in «Guardanapo de Papel», 2014, pág. 12. NósSomos. Vila Nova de Cerveira, Portugal
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TRÍADE DO TEMPO DA PEDRA E ADA OBRA

 Na madrugada
 acelera-se a pulsação 
no movimento irreversível do tempo 
os fantasmas da responsabilidade cantam
ecoam as lembranças 
é a despedida do repouso

De dia 
o suor espalha-se 
pelos poros afora 
na orquestra de quem trabalha 
estradas rasgam-se na curva dos seios 
na nudez do arco-íris 
a vida é infindável caminhada

De noite 
o corpo exausto cobra pelo descanso 
os olhos carregados enganam as almas 
que adormecem masturbadas

Ontem foi partida
hoje é caminhada
e o amanhã uma promessa ainda

Gociante Patissa 
In «Consulado do Vazio» (KAT-Consultoria e empreendimentos, LDA, Benguela, Maio 2008)
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SEM VIDA NO PÉ

… e as sentenças correram seu caminho

ao asfalto cedeu
esse campo não é o seu
sem vida no pé
conserva olhos de lição
milho, chuva e café

Todos os dias, todo o dia
passos escassos
quase nulos
clemente
vai com as formigas dançar
pelos caminhos da obra
eis o brotar de fecundas veredas
que importa se sem vida no pé?

Gociante Patissa, pág. 9. In «Guardanapo de Papel», 2014. NósSomos. Vila Nova de Cerveira, Portugal.
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RETRATO ITINERANTE
Pela vidraça do turista
três pescadores
dois a remar
tão certos da partida
como não é da canoa parar

Sungas e peitos desnudos
picanha ou acarajé
o suor perdeu-se nos trapos
a chuva inflama os graus
está visto
um pouco mais a leste
grudadas casas da altura da girafa

Boceja agora o sol
no pátio da capelinha
um pouco abaixo do nível da favela
por lá não se ouve Mandela
por cá a maré promete

E some a canoa da vista
para lá do salvador farol
partindo as ondas
ao compasso das asas
do pássaro que no cipó se acoita.

Mestre é o mar
tácita bênção de mulher
é de noite que se ganha o dia
o pão e amar na Bahia.

Salvador da Bahia, Brasil, 6 de Dezembro de 2013

Gociante Patissa, in «Almas de Porcelana» (poesia reunida). Editora Penalux. São Paulo, Brasil, 2016.
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ALÇADO POSTERIOR DA ÁGUA



E começou
gota atrás da outra
chover

no tecto solteiro a orquestra
o asfalto a renascer
na sanzala porém é reza
para o tecto não ceder 


Gociante Patissa, pág. 84. in «Almas de Porcelana» (poesia reunida). Editora Penalux. São Paulo, Brasil, 2016
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REQUERIMENTO 


Se
não
posso
pedir
que
não
cortejem 

holofotes
que
encandeiam
borrachos

Peço ao menos que não me incluam.
 Gociante Patissa, in «Almas de Porcelana» (poesia reunida). Editora Penalux. São Paulo, Brasil, 2016.
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Lá longe, bem longe
desfilam sonhos
pintados
sobre a tábua côncava
uma vela difusa
a mesma vontade de chegar

Do lado de cá
colhe o chão 
a semente
lençol de asteriscos
oh casuarinas
o mar guarda o céu
as águas os encontros
estes a vida

Correm as horas
a mesa partida e chegada
para lá do sombreiro
amanhã é regresso
à mão deste chão

Gociante Patissa, in «Almas de Porcelana» (poesia reunida). Editora Penalux. São Paulo, Brasil, 2016.


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CENÁRIOS DO FUTURO

Pelas artérias da cidade vão
calcorreando atrás do pão
já não surpreende o “não!”
ter sonhos é em vão

A vida é para a frente
e sempre em frente caminham
são um investimento perigoso
cenários do amanhã
de um futuro sem gozo

Na dor basta um “ai!”
mãos de pedinte não podem ambicionar mais
quando não se tem direito
a ter medo do relento
só deus pode ser pai

São o templo vazio
as vítimas do progresso
as lacunas do amor
preenche-as o quotidiano terror
seus azares desfilam
nos pregões dissonantes
perdidos na densidade do silêncio


A vida é para a frente
e sempre em frente caminham
são um investimento perigoso
cenários do amanhã
de um futuro sem gozo.
Gociante Patissa, in «Consulado do Vazio», 2008, KAT-Benguela, Angola
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NÃO SE FEZ MANHÃ AINDA

Sou mais um
um mais apenas
entre milhares de anónimas penas

Pinto nestas linhas de poema desarmado
um marco de respeito pelas ideias
que morreram no peito
sem terem subido à boca
ou descido às mãos
ou beijado montras

Àqueles cuja imaginação e sonhos
se tornaram predilectos rivais
empresto uma certeza
com o calibre das outras e algo mais
não se fez manhã ainda
e não há obstáculo crucial

quando vai o coração aos pedais.

Gociante Patissa, in «Consulado do Vazio», 2008, KAT-Benguela, Angola
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PORQUE EXISTIMOS


São doridas por hábito as linhas que lembram o amor. Não é justo, amor, como se a flecha quebrada, a flor que secou, o pombo correio que perdeu a rota, sei lá, fossem o tudo. Teimo em cantar vigorosa poesia até sobre crateras eternas que parimos. Que seja curto ou longo, agora não importa. Maresia é que não. Para todos os efeitos, existimos." Pág. 55




In ALMAS DE PORCELANA 
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ALMAS DE PORCELANA


Do forno ao desejo
simétricas
almas
capa do livro / book front page
de porcelana

É a linha
exterior
que revela
mais que qualquer
configuração
no centro
dos azulejos

Um em si
não cabe
de quadrado
tão pequeno

Daí galgar
de costas para o chão
onde renasce
em forma de mulher
fecundos cacos de gume
e

verniz.
Gociante Patissa, in «Guardanapo de Papel», 2014. Pág. 28. Nóssomos, Lda. Luanda, Angola / V. N. Cerveira, Portugal.
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Inventário do Camaleão

Foto de autor não identificado

Vi 
ontem
num 
chão
qualquer
camaleão

Até
ser
enjeitado
tinha
a luzir
o amarelo
de quem
ao partir
não 
abdicou
de si.

Gociante Patissa, in «Guardanapo de Papel», "NósSomos", Lisboa, Portugal, 2014
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DISSE A MINHA MÃO


Disse minha a mão que escrevêssemos
porque escrevendo
ou falaríamos como ricos
ou ouviríamos como pobres
ou vice-versa

Disse a minha mão que escrevêssemos
porque escrevendo
ou abrimos o poço no deserto
ou o nosso tutano partilhamos


Disse a minha mão que escrevêssemos
porque escrevendo advogamos
seremos o bálsamo
para milhares de vozes
de almas e ideias farejando pingos de luzes.
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ÁFRICA MÃE ZUNGUEIRA

Esta que se aproxima 
carrega uma criança às costas
e outra no ventre
uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa
lembrando que é hora de parar e amamentar
e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar
gestora de um ovário condenado a não parar
porque é património social
penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade

Conhece bem demais a cidade
não tanto pelos monumentos
mas pela necessidade
viandante como a borboleta
fez-se fiel e histérica amante
da lei da compra e venda de porta à porta
uma lei entretanto não prevista por lei
“depender só do marido? Nunca”
mal acordou a urbe já peleja aliciando clientes
no estômago só o funji do jantar de ontem
sem tempo sequer para escovar os dentes

Lá vai mais uma dobrando a esquina
de pregão firme como a voz do tambor
humilhada aos poucos pelo sol
nos mapas de salitre da poeira que adormeceu no suor
Forte por fora muitas vezes vulnerável no íntimo
veja esta 
nos olhos encarnados grita despercebida
uma mulher mal amada
nunca descoberta
rainha de etapas queimadas
ele que devia ser companheiro
é de se esconder no copo
quando os ventos são ásperos
autêntico chá em taças de champanhe
não estar disposta para mais um suor sagrado
é para ele frontal apelo à violência
habituada a levar da cara
odeia a sinceridade do espelho

Por aqui passou mais uma profissional da zunga
protagonista anónima com mil mestrados da vida
contudo não contada na segurança social
para o turista uma espécie de paisagem
rosto de uma noite que lançou a mulher
às avenidas dialécticas dos centros urbanos
no seu dever de sustentar a sociedade
a mesma que a condenará antes de amanhecer
por não participar da vida política
ou por não saber ler
nem escrever

Gociante Patissa, in «Consulado do Vazio», 2008, pág. 28. KAT-Benguela, Angola

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