PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 30 de abril de 2017

Divagações | Turista de volta à base

Sua excelência eu acaba de regressar a Benguela, depois de nove loucos dias a viajar para a parte sul e costeira da república da Namíbia em turismo de baixo orçamento. Em princípio, esta semana sairão umas fotos e crónicas da experiência. Até lá, a certeza mesmo é que é sempre um acontecimento regressar à casa e comer um funji. Como diria o outro, Deus abençoe o gajo que inventou viajar. Ainda era só isso. Obrigado

sábado, 29 de abril de 2017

Quando sais de casa com a missão de praticar o inglês e de esquebra acabas cruzando com o Inglês em pessoa

Divagações | De procurar metralhadoras no bolso

Contavam-nos, meninos ainda, relatos de soldados cujas armas eram furtadas durante o sono e não só, soldados estes que, em instintivo gesto de desespero, apalpavam tudo o que era bolsos das calças e camisas, a ver se localizavam as metralhadoras Akm 47. Sua excelência eu está um pouco nesta condição. Cada mensagem ou a notificação nas redes sociais...  é um potencial anúncio de ter sido localizada a minha pasta de decumentos pessoais, sempre crente na boa fé do ladrão que, já se tendo assenhorado das poucas centenas de U$ dólares, certamente, como bom angolano e porque acho que agiu apenas numa base profissional e nada pessoal, saberá que a massada de tratar de novo tantos documentos (entre a  excessiva burocracia e crise logística) é de um preço incalculável. Para todos os efeitos, reedito o...

S O S
Pede-se a quem tenha encontrado ou eventualmente venha a encontrar uma pasta de bolso castanha feita em cabedal contendo documentos pessoais em nome de Daniel Gociante Patissa... (nomeadamente, Bilhete de Identidade, carta de condução encarnada, cartão de eleitor, passe de membro da União dos Escritores Angolanos, cartão de contribuinte, cartão da segurança social, cartão multicaixa e cartão visa Kamba, ambos do banco BAI. Havia também junto a estes algum valor em moeda estrangeira) ... o favor de capturar os citados documentos lá onde forem encontrados, em virtude de os mesmos se terem evadido, provavelmente depois de ganharem pernas, na madrugada de sexta-feira, 21 de Abril, na cidade de Benguela. Aproveita sua excelência eu o ensejo para agradecer a pronta cooperação das rádios Benguela e Morena, logo que contactados no quadro do seu serviço de agenda pública. Ainda era só isso. Obrigado PS: o gestor de conta entra também nos agradecimentos pela prontidão com que bloqueou/desactivou os cartões electrónicos bancários.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Divagações | Imune a esta febre

Do jeito que as redes sociais, enquanto reflexo da sociedade, andam, sou feliz em saber que sou saudável. Sua excelência eu há-de ser dos poucos. Não tenho clube, logo escapo deste surto que caminha para o alienante, o da militância futebolística e fracturante (por clubes europeus), com tanta coisa mais premente que bem mereceria prioridade no debate transversal em que reside o exercício da cidadania. Sei que isso pode soar intolerante, apesar do exagero nas entrelinhas, mas... excelências, isso de realmadrilenismos, barcelomessismos, benfiquismos, sportinguismos, ou o que seja, no final do dia não fabricam um só tijolo na vida de ninguém por cá. Sabem por acaso eles (os endeusados) de quantos cortes de luz fazem a nossa semaninha? E se canalizássemos as energias para diagnosticar as causas do raquitismo do nosso desporto? Ainda era só isso. Obrigado.
www.angodebates.blogspot.com

Divagações | DA AJS

Evitei sempre uma intervenção próxima da agenda dos partidos políticos durante os anos que integrei o corpo directivo da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade), ONG que co-fundei em 1999 no Lobito e cujo vínculo de membro tive de suspender em virtude de algum desgaste, volvida uma década queimando cérebro.

Outros tempos, outros sonhos. Dissera eu à saída acreditar que mais tarde ou mais cedo, a AJS encontraria o seu caminho, o que para já é visível e louvável, desde logo porque se mantém a casa aberta a caminho do décimo oitavo aniversário daquele pontinho na constelação da sociedade civil. Se a AJS morresse pela minha saída, então seria porque nunca chegou a existir. Pelo que ela existe e está aí, é o que basta, não importa eventualmente a que distância do sonho original.

E porque volta e meia chegam a mim questões sobre a postura da ONG e a nova identidade da sua actuação, com toda a perplexidade de quem, fazendo parte da sua história, entretanto não é necessariamente "dono da empresa", talvez ajude informar que já lá vão pelo menos seis anos que deixei de frequentar o espaço físico da AJS e se fez o respectivo distanciamento, literalmente​, do seu elenco. Isso mesmo. Portanto, e distorcendo o filósofo, só sei que já nada mais sei.

Ainda era só isso. Obrigado.
Daniel Gociante Patissa
www.angodebates.blogspot.com

terça-feira, 25 de abril de 2017

S O S:

Pede-se a quem tenha encontrado ou eventualmente venha a encontrar uma pasta de bolso castanha feita em cabedal contendo documentos pessoais em nome de Daniel Gociante Patissa... (nomeadamente, Bilhete de Identidade, carta de condução encarnada, cartão de eleitor, passe de membro da União dos Escritores Angolanos, cartão de contribuinte, cartão da segurança social, cartão multicaixa e cartão visa Kamba, ambos do banco BAI. Havia também junto a estes algum valor em moeda estrangeira)  ... o favor de capturar os citados documentos lá onde forem encontrados, em virtude de os mesmos se terem evadido, provavelmente depois de ganharem pernas, na madrugada de sexta-feira, 21 de Abril, na cidade de Benguela. Aproveita sua excelência eu o ensejo para agradecer a pronta cooperação das rádios Benguela e Morena, logo que contactados no quadro do seu serviço de agenda pública. Ainda era só isso. Obrigado PS: o gestor de conta entra também nos agradecimentos pela prontidão com que bloqueou/desactivou os cartões electrónicos bancários.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Crónica | Homólogo, eu?!

O pai, meu e de mais umas duas dezenas, foi dono de um apurado sentido de precisão. Um dom. Na verdade tinha vários outros. Raramente usava o novelo, ou o prumo, ou a régua das vezes que o vi envolvido em construção civil. Guiava-se pelo olho só. De todas as habilidades, a maior graça nele residia no jeito natural para actor. Poderoso dom da palavra, um narrador, melhor que isso, tecelão. Havia sempre qualquer coisa mais nas palavras, um tempero que as enchia de cor, de vida própria dentro ou fora da frase. Eu vi-me, adolescente mais ou menos precoce, na necessidade de pedir tradução.

As ligações para a comuna da Kalahanga, onde era o velho o primeiro cidadão no aparelho da Administração do Estado, faziam-se a bordo de camiões de lenha e carvão, cujas guias de marcha dactilografavam-se lá em casa. Na véspera de cada viagem, dizia ele assim: «Por estas horas, o almoço hoje é na Kalahanga». Ora, eu então entendia que ele iria almoçar à Kalahanga mas voltaria no mesmo dia, já que nada disse do jantar. Ou seja, que lógica haveria em ressaltar o almoço quando se vai lá passar mais de um mês?

Cada alegoria, cada metáfora, cada mobilização política faziam do homem um tecelão. Os ciclos seguiam-se. Guarda-costas confundiam-se nos direitos com os rapazes mais velhos da casa (um deles, da primeira vinda ao bairro Santa Cruz, receberia a mais insólita das ordens. «Então, passou bem a noite?» E ele: «Não, chefe.» Mas porquê? Inquiria o velho. «Muito mosquito, chefe». Ora, «Tu não és tropa? Faz tiro!» Nós era só rir).

Os camiões deixavam para trás vários dias de saudades e incomunicabilidade. Outra via não havia senão a da carta trazida ao bolso aleatoriamente por carvoeiros, sem data de chegar. Aos 12 anos, mais coisa, menos coisa, só podia ser violência contra a criança ter de ler aquilo dos beijos, e saudades, e te amo muito, e estas e outras intimidades às esposas dos tropas e guarda-costas, cujos maridos se esqueciam da condição delas de iletradas.

Meses depois lá estava o pai de volta ao conforto do lar, embora já soubéssemos que boa parte do tempo seria gasta na solidão do seu pequeno escritório, onde rabiscava madrugadas à mão (a missão de dirigente em localidades vulneráveis aos ataques inimigos de guerrilha destruiu o direito de dormir as oito horas, iminente que se fazia o risco de captura e servir de arma de propaganda). Pessoas assim, confesso-me também eu, possuidoras de um rápido pensar e aprender, costumam andar perto do defeito do perfeccionismo.

Não faltavam momentos hilariantes nos barafustares de Victor Manuel Patissa (1946-2001). Certa vez recebeu carta de cobrança feita por um tarefeiro. «Ao meu omorco», iniciava assim a missiva. «Homólogo, eu?!» Resmungou o velho, face à enunciada igualdade cujo sentido não conseguia achar. «Mas o fulano não é só escavador de fossas de WC? Assim somos colegas?! E ele escreveu ‘Ao meu homólogo’. Como assim?!»

Não respondemos. Nossos sorrisos marotos transformados em gargalhada disfarçada. Imaginávamos o filme da comparação na cabeça do queixoso: um dirigente de excelente aparência, eloquência, alguma escolaridade, prestígio (pelo menos até onde conseguiu resistir a sua estabilidade emocional), equiparado logo a um maltrapilho tarefeiro e dado a bebedices. Estava visto que o tarefeiro só quis caprichar na deferência, talvez não fazendo ideia do sentido de precisão do pai. Pronto. Ainda era só isso. Obrigado. Hahaha

Gociante Patissa, Benguela 17 Abril 2017 www.angodebates.blogspot.com

Das saudades que ficam do sector voluntário, poder enfiar o trabalho na mochila e perder-se, viajando

(sua excelência eu em finais de 2006 numa expedição Benguela-Lubango-Namibe-Lubango-Kunene (Angola) - Oshikango-Windhoek- Oshikango (Namíbia) -Lubango-Benguela)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Sua excelência eu, aos 14-15 anos (1993), empregado como ajudante de fotógrafo para custear os estudos na 7.ª classe (com uma escola de caminhar a pé 10 quilómetros dia em ida e volta), ao tempo do preto e branco analógico, aproveitando sobejos, montou e imprimiu este postal que à época se considerava foto artística, na artesanal Foto Kodak, bairro Santa Cruz, Lobito

Memória descritiva da montagem

Com uma caneta, escrevi os dizeres "feliz natal e boas festas" sobre o cartão postal em papel comprado a uma das tabacarias/livrarias da cidade do Lobito. Seguidamente, o mestre Lopes fotografou o postal e recortou-se o negativo para servir de maquete, obviamente depois de processado na câmara escura, onde passa por dois líquidos de efeito químico, o revelador e o fixador, mais tarde exposto (o negativo) ao sol para secar. Feito isso, de volta à câmara escura, insere-se o negativo no ampliador, uma máquina óptica em forma de busto com pescoço flexível e em cuja cabeça está a lâmpada que incide a luz pelo negativo e grava no papel fotográfico. O mesmo processo é repetido com o negativo do modelo, garantindo que se grava na metade do papel que andava protegida por uma venda escura. A parte final é passar o papel no revelador até divisar-se a imagem, sob a luz encarnada da câmara escura, depois pelo fixador, por água e então expôr ao sol para secar. E pronto, está contada a trabalheira que este aparente postal simples deu, coisas que na era digital faz-se a dois clics no computador. Ainda era só isso, obrigado. Daniel Gociante Patissa

Utwe (umbundu) | Cabeça (português) | Head (english)

Citação

"A arrogância passa com a experiência, garanto, depois de doze livros meus publicados e uns quarenta traduzidos.
Até porque se descobre o óbvio: literatura não é nada neste país, não nos projeta, não nos faz reconhecidos, apenas nos torna partes de um grupo de gatos pingados cujos miados não fazem maior ressonância. E, quando debatemos e nos arranhamos com os egos eriçados, o que somos é netunianos debatendo com venusianos, nada que remotamente interesse ao planeta Terra."

(Chico Lopes, escritor brasileiro, hoje, via facebook)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Citação

“Eu acho que a música não pode ser porque tu queres, não; tem que ser dom. Quando é natural, as coisas acontecem naturalmente” 
(Euclides Dalomba, músico angolano. In “Ouvi Dizer”, programa Jovial Cidade, Rádio Luanda e TPA2, 03.02.2017) www.angodebates.blogspot.com

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Volta e meia me acho neste trecho

"Acabei com tudo
escapei com vida
tive as roupas e os sonhos rasgados
na minha saída.
Mas saí ferido,
sufocando o meu gemido.
Fui o alvo perfeito
muitas vezes no peito atingido.
Animal arisco
domesticado esquece o risco"

(Trecho da música brasileira Fera Ferida, atribuída a Erasmo, Betânia e Roberto, trilha sonora da novela com o mesmo título)

Crónica | Um dia em grande

Odeio rotinas pela proeza de remeterem o cidadão
sua excelência eu à consciência de repetição crónica, qual engrenagem de uma máquina. Viver não pode ser só isso. Por isso é que se revestem de motivo duplo de enaltecimento aqueles dias que se superam a si próprios em altura e largura, sendo por isto muito mais do que simples marcha nos calendários. Adoro dias extraordinariamente originais. Vejamos o caso de hoje. Segunda-feira, dia de ressaca, calha-me estar de folga. Ainda bem, diria qualquer um. A minha voz  (se é que ainda tenho) está horrível. Garganta com... com ares de gripe. Um dia daqueles que aconselham tudo, excepto sair de casa. E tu não sais. Faltam-te filmes para  enganar o tempo, mas também não é caso para se fazer drama: de onde saíra a luz que ressuscite a tomada? A fome acende o fogão. Algo prático. Não mora pachorra para comprar peixe, arranjar e ir ao fim da rua descartar guelras e afins. Aí é que entra o surreal. Sai massa de atum e legumes com água mineral. A torneira tipo é na recauchutagem, só sai ar. Um dia em grande, não? Ainda era só isso. Obrigado 
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Gociante Patissa. Benguela, 10.04.2107

domingo, 9 de abril de 2017

Citação

"A fome tem seus caminhos para amenizar as convicções." (Max Lucado, autor americano. In Ele Escolheu os Cravos. 2002, Pág. 63. Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro.  Brasil)
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Diário | PERSONALIDADE FORTE É ISSO?!

"Mas, ó meu! Pára ainda aí! Assim também, não! Desculpa-me lá, mas tudo menos isso!!!"
"É com a minha pessoa?..."
"Ya! Mas estás a pensar que isso é o quê, afinal?! Já ontem foi assim, passas aqui a pé - um, dois, um dois, - e não cumprimentas, com essa cara tipo deputado em carro com vidros esfumados. Pescoço bem duro, tipo avestruz. É o quê afinal?! Tu foste meu colega de escola, naquele tempo em que os exames vinham com soldados da segurança do estado, fugimos juntos, lanchamos bolacha e leite que nos queimava a boca... esqueceste?"
"Mas eu iria te saudar no Facebok. Ou será que o teu chat está off?"
"Mas..."
"Qual é mesmo o tipo de emoji que te alegra mais?"
"Mas não achas que isso é desconsideração? Então me fazes de estátua ao vivo e me esperas nas redes sociais?"
"Fica calmo, sócio. Não sejas arcaico! A evolução está à vista. Há aí gente a fazer grandes negócios, emocionantes reencontros, hã!, casamentos fortes... a partir mesmo só do virtual. O segredo é cortar no pão, na fuba, investir no saldo. Mas tens telefone inteligente afinal para quê, é brinquedo?!."
"Eh! Chegaste a este ponto?! Toda aquela irmandade dos anos de escola evaporaram?!"
"Meu amigo, eu sou uma pessoa de personalidade muito forte..."
"Arrogante? Personalidade forte é isso?!"
"Mas tu achas que eu levo a vida tipo novela mexicana, que é só choramingar e beijar?!"
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Gociante Patissa. Benguela, 9 Abril 2017

sábado, 8 de abril de 2017

Citação

“A dada altura, eu fechei-me em copas. Desapareci. Prefiro ficar em casa com os meus filhos a me fazerem rir do que andar aí por esta Luanda. Porque há muita falsidade no ramo da música, e eu não aprendi a ser falso, não aprendi a dar a mão a quem não se sente bem com a minha presença, não aprendi isso.”
(Flay, músico angolano, via Kutonoka, TPA1, 08.04.2017)

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Anedota | As contas do Joãozinho

Professor: "Se eu te desse dois gatos, e outros dois gatos e outros dois, quantos tu terias?"
Joãozinho: "Sete."
Mestre: "Não! Escuta com atenção... Se eu te desse dois gatos, e outros dois gatos e outros dois, quantos tu terias?"
Joãozinho: "Sete."
Professor: "Deixa-me colocar a pergunta de maneira diferente: se eu te desse duas maçãs, e mais duas maçãs e outras duas, quantas tu terias?"
Joãozinho: "Seis".
Professor: "Muito bem. Agora, se eu te desse dois gatos, e outros dois gatos e outros dois, quantos tu terias?"
Joãozinho: "Sete!"
Professor: "Francamente, Joãozinho! Mas de que raio de lugar é que foste arranjar sete?!"
Joãozinho: "É que eu já tenho um gato, professor!"

Tradução e título pelo blog www.angodebates.blogspot.com (Do site laugh factory)

Just a question | Os efeitos da pena de morte diferem de país para país?

Numa das habituais visitas ao site da DW (Voz da Alemanha), que tem um serviço em português que cobre o continente africano, de que gosto porque disponibiliza texto e áudio, topei com uma notícia do país irmão Moçambique, cuja oposição optou por boicotar a visita do presidente da Guiné-Equatorial, Teodoro Obiang. A Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), maior partido na oposição em terras de Machel, justifica, na voz da sua chefe da Bancada, Ivone Soares, que "não se compactua” com países ou personalidades que vêm na pena de morte” ou no "golpe de Estado uma solução”. Por seu turno, o repúdio do MDM (Movimento Democrático de Moçambique) veio do deputado José de Sousa, estranhando que se tenha convidado um "indivíduo que defende aquilo que a nossa Constituição" - disse - "não permite, por exemplo, a pena de morte”. Há naturalmente outros defeitos que se apontam a Obiang e seu regime, mas fazer este estardalhaço contra a pena de morte da Guiné-Equatorial, quando se é parceiro de relações formidáveis com os Estados Unidos de América (que não tem dado grandes sinais de abolir a mesma medida), dá assim uma ideia de contrassenso. Por acaso os deputados reagiriam da mesma forma se a visita fosse de um chefe de Estado americano? Fica a questão de retórica. Ainda era só isso. Obrigado.   www.angodebates.blogspot.com

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Proposta de debate

"Nossa ideia de intelectual está, desgraçadamente, presa à do acadêmico — quase sempre um sociólogo — que, figura carimbada dos programas jornalísticos, aparenta ter uma opinião formada sobre os mais variados assuntos. Contudo, nada pode estar mais distante da vida intelectual do que esse esse falso expert que tem soluções mágicas para todos os problemas. Um intelectual é alguém que, ao mesmo tempo, se interroga e interroga o seu tempo; questiona-se e questiona a sua cultura, os valores da sua época, as escolhas e o modo de viver dos seus contemporâneos; investiga o que o passado nos legou e realiza o diálogo crítico entre essa tradição e o presente. Ou seja, ele transcende a ordem imediata das coisas e busca a verdade que nasce desse diálogo com o conhecimento universal, com a inteligência. O comentarista da tevê ou do rádio é, quase sempre, o servidor de um partido ou de uma ideologia — ele se traveste de intelectual, mas, por ser quem é, só consegue repetir fórmulas prontas, tem o desempenho de um ilusionista das palavras. O verdadeiro intelectual está em busca de respostas que independem da ideologia dominante ou dos modismos acadêmicos. O que ele busca é um encontro pessoal com a verdade." 
(Rodrigo Gourgel, académico e escritor brasileiro. 03.04.17. Ler entrevista completa no portal FaustoMag)

Divagações | O lado saudável da crise energética

Sua excelência eu tem dedicado as últimas semanas a um exercício de observação, principalmente​ naqueles dias em que a rotina profissional impede de fazer as refeições em casa. Resulta deste exercício (que não deixa de ser subjetivo, uma vez que sua excelência eu ainda não foi beneficiário do dom de falar pela boca e sensações de outrem)... que, na condição de piscívoro congénito, descobriu que o peixe nos restaurantes resgatou o sabor que é esperado de alimentos apanhados num mar cujas ondam se podem ouvir, tão perto que mora. A razão está na crise energética, que desencoraja investir grandes quantidades de pescado na congelação. Antigamente, dava até a impressão que os restaurantes todos da  cidade de Benguela, passe algum exagero, tinham a mesma fórmula de tempero: só sabia a sal. Há que aproveitar esta fase, o peixe chega no prato à mesa do cliente transpirando saúde. Ainda era só isso. Obrigado hahaha

Citação

"Não! Por acaso! Sim senhora! Eu gosto muito das ideias, hã, que você publica! É assim mesmo! Tens que continuar mesmo assim, porque ajuda muito a cidadania social, mas... é assim... Sabes como é que é, né? Então, eh pá, pronto, né?, eu só que assim já, eh... como é que vou dizer?... portanto... ora... você até sabe que não é por mal nem receio nem nada disso, né?, sabes que até não sou disso, mas... é só que eu não coloco "gosto" ou "like" nas grandes ideias porque, estás a ver já, né?, pode ser que as publicações comprometam um gajo. Mas... não podes parar, estou contigo! Qualquer coisa, estamos aqui, ya?..."

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Divagações | Um olhar diferente ao 4 de Abril, Dia da Paz em Angola

O Dia da Paz é já por mérito próprio um ponto de interrogação que se impõe relativamente à necessidade de transpor a cortina que teima em relegar para o esquecimento patriotas que deram o litro por Angola nos diversos domínios do país antes de 2002. Por razões históricas, recomenda-se que a "Nova Angola", seus marcos e protagonistas não se dissociem dos ciclos de avanços e recuos que antecedem o fim das armas, sabido que é que a história de um povo deve resistir ao risco da fragmentação.

Declaração de interesse: Para a paz de Angola, conquistada com lutas e guerras, contribuíram Manuel Patissa (dirigente evangélico preso político enviado à cadeia de São Nicolau, hoje Bentiaba, entre 1961-1966) e o seu filho Victor Manuel Patissa (Comissário Comunal da Chila, Bocoio, e Equimina, Baía Farta, e no mesmo município com a mesma categoria só que designação diferente, administrador da Kalahanga). Como digo num conto no prelo, a história dos grandes já foi escrita, teremos um dia de escrever sobre os pequenos. O 4 de Abril tem de se elevar ao nível de congregador de memórias de todo um processo de lutas, não havendo lugar para fragmentos.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Citação

"Você faz só como os outros, dum coro. Não vale a pena querer levar as coisas muito a sério. Vais complicar. Se mete só a ligar nas regras, para ver como vais acabar... Assim você nunca vais ser nada."

Entrevista ao jornal Valor Económico | “HÁ QUE REACTIVAR A INDÚSTRIA DO PAPEL” - Gociante Patissa, escritor

LITERATURA. Gociante Patissa entende que se devia investir “numa crítica literária endógena”, mas nega que o futuro da literatura angolana passe pela diáspora. Em entrevista ao VALOR, o escritor reprova o “’status’ secundário” dado às línguas nacionais.


Nasceu, licenciou-se e trabalha em Benguela. O que falta para haver mais jovens a prosperarem nas suas províncias e não se afunilarem só em Luanda?
Luanda é o centro geográfico do poder e das oportunidades. Em algum momento na minha vida, pensei na possibilidade de deixar Benguela, enquanto melhores oportunidades de formação e progressão profissional surgissem. Não surgiram. Se calhar não era para ser.

Porque é que diz que, em Angola, as línguas nacionais têm ’status secundário’?
Houve uma certa distracção logo que se deu o corte com a dominação colonial. Sabe-se, por exemplo, que, nas comunidades dos trabalhadores dos Caminhos-de-Ferro de Benguela (CFB), era expressamente proibido falar línguas indígenas. E não houve um trabalho posterior no sentido de libertar as mentes durante décadas formatadas. No interior, ainda nos anos 1980, era passível de castigo falar-se umbundu, com direito a uma espécie de caça e denúncia ao erro, para as merecidas reguadas do professor. Herdou-se a pedagogia da estigmatização. Ainda hoje, quando alguém fala mal o português, a reacção é rirem-se dele. A nível institucional, um exemplo é o do designado jornalismo em línguas nacionais, que, na verdade, nos serviços informativos, é apenas uma tradução a quente do texto em português. É frequente ver a preocupação em contratar-se um tradutor quando o país recebe entidades até de países de expressão espanhola. Quando se trata de autoridades tradicionais, vemo-las a esforçar-se num português que mal dominam, expondo-se ao ridículo da estigmatização social.

O que o Estado devia fazer para definir uma política em que as línguas nacionais tivessem melhor ‘status’?
A primeira é a harmonização da grafia das línguas de raiz bantu, acabando-se com isso da grafia católica ‘versus’ a convencional. Até lá, fica comprometida a produção de literatura nas línguas nacionais. A segunda é rever a toponímia e devolver o sentido proverbial dos nomes das localidades. O que existe é a perpetuação da corruptela deixada pelo regime colonial. Deve haver maior diálogo entre os ministérios da Administração do Território e o da Cultura.

Publica regularmente, mas há quem se queixe dos custos para impressão no país…
Não forço nada. O meu trabalho é pesquisar, escrever e caçar gralhas; agora, financiar, promover e distribuir é tarefa de outros agentes do sector livreiro.

Em 2012, foi distinguido com o Prémio Provincial de Benguela de Cultura e Artes. Que impacto teve na sua carreira?
Recebi quase 600 mil kwanzas do Estado, o que sempre cobre alguma despesa. Mas o impacto não é muito grande, desde logo porque os livros não circulam. Contudo, fica o valor simbólico.

Concorda que o futuro da literatura angolana passa pela diáspora?
Negativo. Uma coisa é ter acesso a uma rede de editoras acutilantes, bem relacionada com o ‘lobby’ na academia e na imprensa, outra coisa é julgar-se o mais representativo de uma realidade vivida à distância. O futuro da nossa literatura passa por investir numa crítica literária endógena, que não nos meça pela bitola do leitor europeu. Isso consegue-se com formação consistente, bolsas para os nossos estudantes e pensadores irem ao estrangeiro, depois regressar com uma bagagem técnica que saiba comer funji, lombi, mahini, kitaba, fumbwa. Há que reactivar a indústria do papel. Se temos uma população com uma herança assente na oralidade, então um livro caro não vai figurar entre as prioridades.

Possui um blogue com espaço para críticas a livros, mas alguns nunca foram sequer comentados. Isso ocorre porque se lê pouco em Angola?
Com o ‘boom’ das redes sociais, os blogues passaram a ser passivos quanto a serem comentados. Mas há que lembrar que a crítica literária angolana é ainda inexistente. Quem determina o que tem ou não qualidade são os portugueses, salvo algumas excepções. Os estudiosos de letras enveredam logo para a docência. Talvez haja pouco incentivo à investigação.

De 0 a 10, que nota daria à qualidade da literatura feita actualmente por angolanos?
Não me julgo com autoridade académica para uma tão generalista avaliação.

PERFIL
Daniel Gociante Patissa- nasceu no Bocoio, Benguela, há 38 anos. É licenciado em Linguística, especialidade de inglês, pela Universidade Katyavala Bwila. Além de já ter publicado mais de seis livros, tem participação em diversas antologias, sendo também membro da União dos Escritores Angolanos.
Nota do Blog Angodebates:
Saiu na edição de hoje (03.04) do jornal Valor Económico uma entrevista com sua excelência eu, feita via questionário que me foi endereçado pelo profissional Onélio Santiago. Imagino o trabalho que terá dado essa coisa dos arranjos para o todo caber no espaço concedido pelo jornal, mas no essencial tudo se mantém. Contudo, manda a honestidade intelectual dizer que embora a versão publicada omita, faço uma citação na resposta quanto ao status secundário das línguas. A parte final seria:

"Alguém certa vez reclamou o que lhe parecia injusto, pois é frequente ver a preocupação em contratar-se um tradutor quando o país recebe entidades até de países de expressão espanhola. Entretanto, quando se tratar de autoridades tradicionais, é vê-las esforçando-se num português que mal dominam, expondo-se ao ridículo da estigmatização social."

Citação

«É assim que os mais esdrúxulos “relativismos” pululam por aí. Para escapar das dificuldades da praxis literária, pretende-se que a qualidade da narrativa, ou o desempenho no campo textual, deem lugar ao “vivencial”, ao “testemunho literal do eu”. Mas aí o que temos não é literatura, e sim relatos existenciais quase sempre simplistas e deliriosos» (António Risério. Jornal Folha, Brasil, 30.03.2017)

domingo, 2 de abril de 2017

Divagações | Ainda o pregão do meu voto em leilão

Caros candidatos a governo ou regimes,
Sua excelência eu não pede muito, apenas a abertura de uma rádio FM que privilegie:
1- a promoção de uma pauta cultural (tal como já se conseguiu com a política, a música, as igrejas e o desporto),
2- a visibilidade e sistematização da recolha junto de fontes orais,
3- a investigação dos fenómenos linguísticos, considerando a diversidade etnolinguística e a riqueza que isso representa,
4- mais trabalho de campo do que o ar condicionado da cabine, quer dizer o tal dito jornalismo comunitário,
5- do ponto de vista jurisdicional, a garantia da aplicabilidade funcional da lei do mecenato para assim os empresários pagarem os salários dos profissionais e colaboradores (não havendo garantias da cobertura cabal desta rubrica por via da publicidade),

Assim será que sua excelência eu inflacionou muito o voto? O voto como é meu, e cada um manda no que é dele, ainda mba cumpra-se só. Gabinete de sua excelência eu, aos hoje. Ainda era só isso obrigado. 

sábado, 1 de abril de 2017

Crónica | Bem é pouco

A minha rua sabe colorir-se a preceito dos modernos ventos à angolana, ou seja, é barulhenta. Não é bem minha e nem sei mesmo se é rua. Talvez tenha nome, já até ouvi falar de um, desses pomposos que ficam bem no documento. É uma rua de rostos socialmente bem colocados, entidades umas e outras. Pouco se ganha com isso, entretanto, na vertente cidadã do culto ao silêncio, tão imprescindível ao retempero de energias, à leitura e à paz dos níveis tensionais. Há sempre música alta, à noite, por vezes às altas horas. O Karaoke é sofrível, mas, mas, mas, e quem se manifesta contra? Deixa lá o outro fazer o negócio dele. Ninguém o diz como tal, é como se o dissessem. Se nem a polícia se importa com o caos nisso de poluição sonora, né?... E não é tudo. Se a cantina, uma e outra, para fidelizar etílicas gargantas assim o exigir, venham a nós os berrantes altifalantes. Cai Rap, palavrões na ementa, cu-duro, sobe o volume, sobe mais. Convivência é que é o quê?! Mas gosto mais dos ais e gooolos, e porras, assobios, cantares a benfica, a real, a barça, filha da puta, pá!, do árbitro. Marca, ó burro! A baliza mesmo é ali, e você faz esta porcaria?! E vai, segundo tempo, prolongamento, desconto. Até que, por fim, a êxtase morre e aterramos ao sem chão colectivo. Felizes da vida no caminho de volta à casa, a qual não cativa de quente e apagada, toca a acender as lanternas do telefone para ver onde pisar. Aqui chove mesmo depois de a chuva cessar. Houvesse semente de arroz... Ontem postes de iluminação pública, hoje múmia é favor. Lixo rente com saudades do contentor, leveda em águas vãs, o renovar do imundo e dos medicamentos em vias de faltar algures num banco de urgência. Mas a rua, se é que o é, no recato de muro a muro, do lacónico bom dia, por vezes vultos de cães de raça lavados e bronzeados ao portão, até já faz figas para que chegue a noite e se agigante num abstraído barulho. O de costume. Geradores veteranos. Goooolo! Viva CR7. Ronaldo, não! Viva o Messi. É bom que a equipa não perca, isto é alta competição. Até esse burro do defesa deviam lhe transferir só, mete muita água. Têm que saber que somos hipertensos, e a noite de derrota é perigosa. Tudo menos derrota. Temos que organizar passeata também, como os demais no centro da city. Por cá corre-nos a vida muito bem, obrigado. Correcção: bem é pouco. Ainda era só isso. Obrigado.
Gociante Patissa, Benguela, 01.04.2017

Citação

Está cada vez mais difícil ser angolano. Os fundamentalistas democráticos crescem a cada dia que passa. Esquecem-se de que numa luta há sempre dois lados. Falar bem suscita reacções negativas, criticar pior ainda. Tornou-se sinônimo de falar mal. A independência de cada um torna-se mais difícil que o pão nosso de cada dia. Infelizmente tudo é verdade, apesar de estarmos no dia das mentiras."
(Dani Costa, jornalista angolano, via Facebook)