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domingo, 26 de março de 2017

Homenagem | Panchita Coelho da Rua 11, musa até no jeito de partir

A coincidência de datas entre o nascimento e a morte de Esperança Lima Coelho Vilhena “Panchita” é de inspirar. Veio ao mundo há 89 anos num dia 25 de Março (fim-de-semana) e precisamente num dia 25 de Março, ontem portanto na cidade de Benguela, congelou o fôlego (de causas naturais). Imagina-se que tenha apanhado de surpresa familiares e mais próximos que preparavam o carinhoso bolo e a vela a apagar. Feliz aniversário, querida, dá lugar ao Adeus, paz à sua alma.

Há pessoas que marcam a história de emblemáticas cidades e se tornam figuras públicas pelo simples facto de existirem tal como são, inspiradoras. Uma dessas pessoas, falando de Benguela, é a beldade esperança Lima Coelho Vilhena “tia Panchita”, celebrizada pelo poema “Meu Amor da Rua Onze”, de Aires de Almeida Santos (Bié 1921 - Benguela 1992).

O poema, datado ainda da época colonial, quando ela morava na Rua 11 do Bairro Benfica, subúrbio, vigora aos dias de hoje, tão intemporal que a Banda Maravilha o musicou e por esta via vai dando corpo a versões e roupagem bwé.

“Meu Amor da Rua Onze” acabaria por constituir uma espécie de mistério, porquanto retrata um fulgurante romance reivindicado como facto consumado e desfeito por força-maior, o que no entanto a musa não viria a confirmar, repetindo em várias entrevistas que teriam sido ligados, musa e poeta, por nada mais do que uma relação de profunda amizade. Consta, como curiosidade adicional, que Aires teria (também de causas naturais) dado os últimos suspiros ao colo de Panchita. Não se conhecem, todavia, registos do poeta a dizer de sua justiça quanto haveria de verdade ou de pura ficção no poema. A este respeito, o que se pode, sem medo de errar, é afirmar que o poema cumpriu o seu papel enquanto obra de arte, o de perpetuar a inquietação na mente do leitor.

Para além de ser tia de um amigo e amiga de vários outros, nunca pessoalmente cheguei a um dedo de prosa com a “tia Panchita”. O único diálogo que tivemos ela e eu foi tácito, aquele olhar de anuência para a objectiva da minha máquina fotográfica, seguido de um já muito rouco “obrigada”, no passado dia 9 de Janeiro de 2017, quando concedeu o que julgo ter sido a sua última entrevista ao jornalista e escritor Kajim Ban-Gala. Antes disso, tinha ocasionalmente cruzado com ela pela cidade meia-dúzia de vezes, nos últimos tempos já acomodada em cadeira de rodas, rendida ao peso dos anos e da frágil saúde.

Foi-se um dos mais significativos (e raros) símbolos da literatura angolana. Nem tudo está perdido. Como li algures certa vez, "se um escritor se apaixona por ti, então tu jamais morrerás".
Gociante Patissa, 26.03.2017
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MEU AMOR DA RUA ONZE

Tantas juras nós trocámos,
Tantas promessas fizemos,  
Tantos beijos nos roubámos  
Tantos abraços nós demos.

Meu amor da Rua Onze,
Já não quero  
Mais mentir.  
Meu amor da Rua Onze,  
Meu amor da Rua Onze,  
Já não quero  
Mais fingir.

Era tão grande e tão belo
Nosso romance de amor  
Que ainda sinto o calor  
Das juras que nós trocámos.

Era tão bela, tão doce
Nossa maneira de amar  
Que ainda pairam no ar  
As vezes promessas, que fizemos.

Nossa maneira de amar
Era tão doida, tão louca  
Qu´inda me queimam a boca  
Os beijos que nos roubámos.
  
Tanta loucura e doidice  
Tinha o nosso amor desfeito  
Que ainda sinto no peito  
Os abraços que nós demos.

E agora
Tudo acabou
Terminou   
Nosso romance  

Quando te vejo passar  
Com o teu andar  
Senhoril,  
Sinto nascer  
E crescer  
Uma saudade infinita  
Do teu corpo gentil  
de escultura  
Cor de bronze  
Meu amor da Rua Onze.

(Aires de Almeida Santos)

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