PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Crónica | É do apoio ao cliente? Poupem-me só, sim?

Daqui a uma hora entra em vigor a nova tabela de preços por UTT em Angola. Fala-se em um aumento na ordem dos 40%. As empresas de telefonia móvel não cabem em si de tanta ansiedade, quais noivos loucos pela chegada da noite de núpcias e poderem fazer o que já há muito vinham fazendo, mas agora com o sabor da legitimação: o coito, antes fornicação, agora comunhão. O mesmíssimo paralelo ocorre-me relativamente ao preço do consumo no ramo das telecomunicações, onde em boa verdade já há muito se deu conta de falarmos cada vez menos por um mesmo serviço/pacote. Basta lembrar que há coisa de cinco anos, com um cartão de 625UTT (AKZ 4.500,00) tínhamos internet por 30 dias, mas que de lá para cá o saldo evapora mais rápido que o gás butano. Até provas em contrário, mais a mais não tendo o INADEC (Instituto Nacional de Defesa do Consumidor) algum tipo de estaleca técnica para aferir a transparência do sector, o cidadão é tentado a abraçar a hipótese segundo a qual a lei só vem legitimar o que ocorria em forma de "adultério", entenda-se um aumento que já estávamos com ele. Não sei se haverá alguma relação ou não, mas não posso deixar de partilhar uma cena trágicómica que testemunhei acidentalmente ao passar por uma taberna da minha rua. Tendo recebido mais uma dessas SMS a raiar o spam, ora do apelo ao registo para o voto, ora de campanhas aparentemente beneficentes das operadoras, ora da polícia a apelar a isto e aquilo, certo conviva ligou para o serviço de apoio ao cliente aos berros: Meus senhores!, observava ele, só quero vos avisar de uma coisa. Me tirem da vossa lista, ok?! Eu não sou cidadão angolano, portanto párem de me enviar essas mensagens, ouviram?! Por acaso o tipo era angolano, mas fiquei a pensar com os meus botões se não deveria haver uma cláusula que permitisse o utente escolher se quer, ou não, ser recipiente de mensagens em massa... Porque em muitos dos casos o conteúdo não passa de publicidade, justamente vinda da quem nos cobra impiedosamente por cada cêntimo que gastamos, às vezes nem chegamos a gastar. Aquela coisa de mandar madres levarem filhos à vacinação, ou de me dizerem a mim para não conduzir se beber (provocação barata esta), quando o próprio álcool sabe que há para aí mais de dois anos que não nos beijamos. E digo mais! Até porque quer a Unitel, quer a Movicel não nos fazem favor algum com os seus serviços. Alguma vez eu telefonei de graça, hã?! Meus senhores, peço-vos também eu: párem só de me chatear com as vossas mensagens. Já não sou mais criança, se eu quiser uma informação, sei onde encontrar. Poupem-me só, sim? Ainda era só isso. Obrigado.
Gociante Patissa, Benguela, 31.10.2016

Ulandu wocisola | Tratado do amor | Love treaty

1.
UMBUNDU | Kefetikilo, ovo valisanga vokololo
PORTUGUÊS | No começo, encontraram-se na rua
ENGLISH | It all started as they met on the street
2. 
UMBUNDU | Eye wosapwila olondaka visonsa vokañunuñunu petwim
PORTUGUÊS | Ele segredou-lhe doces palavras ao pé da orelha
ENGLISH | He told her sweet secrets by the ear
3. 
UMBUNDU | Okwiya vafetika okuliyonja
PORTUGUÊS | A seguir começaram a seduzir-se
ENGLISH | Next they started seducing each other
4. 
UMBUNDU | Noke valisisita
PORTUGUÊS | E depois acariciaram-se
ENGLISH | Then they touched each other

Sua excelência eu. Ainda era só isso. Obrigado

excursão turística à cidade de Mainz

UMBUNDU | eteke twatundile okukulihinsa imbo lyo Mainz, vofeka yo Alemanha, muna kosimbu umwe ulume londuko ya Gutenberg asovola ovikete vyokumyoñolõlã volwali wosi upange wo "imprensa".

PORTUGUÊS | excursão turística à cidade de Mainz, na Alemanha, onde no passado um homem chamado Gutenberg inventou a prensa, a máquina que viria a revolucionar na história universal a indústria da imprensa.

ENGLISH | excursion to the city of Mainz, in Germany, the land of a man named Gutenberg, who invented a machine that turned out to be a revolution in the world printing industry. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Os transportes públicos são eficientes em cidades do continente europeu

UMBUNDU | Ulala wovyendelo vyowiñi wendisiwa ciwa mwalupale vocifuka co Europa.
PORTUGUÊS | Os transportes públicos são eficientes em cidades do continente europeu.
ENGLISH | Public transports system is efficient throughout the European continent cities.

De passagem por Lisboa, em Portugal, já no percurso de regresso à casa, encontrei-me com as minhas amigas. Foi uma alegria enorme!


UMBUNDU | Okupita vo lupale wo Lisboa, ko Putu, vungende wokutyuka konjo, ndalisangapo lovakamba vange. Cakala esanju lyalwa!
PORTUGUÊS | De passagem por Lisboa, em Portugal, já no percurso de regresso à casa, encontrei-me com as minhas amigas. Foi uma alegria enorme!
ENGLISH | Passing through Lisbon in Portugal, in my trip back home, my friends were there to see me. It was such a great joy!

Citação

"A professora disse: amanhã é prova, quero o cabelo dos homens bem penteado. Não podem vir com o cabelo só assim..."

Olwi wupita vokati kolupale wo Frankfurt

UMBUNDU | Olwi wupita vokati kolupale wo Frankfurt

PORTUGUÊS | O rio atravessa a cidade de Frankfurt
ENGLISH | The river runs through the city of Frankfurt

O simpático cavalheiro de Frankfurt

UMBUNDU | Ulume ukwesanju volupale wo Frankfurt
PORTUGUÊS | O simpático cavalheiro de Frankfurt
ENGLISH | The Frankfurter friendly gentleman

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Reportagem da DW | Gociante Patissa: Literatura africana em baixa na Feira de Frankfurt

O angolano é o único escritor dos PALOP a participar na edição deste ano. Versátil, mas com uma ligação especial ao conto, Gociante Patissa entende que a atribuição do Nobel ao músico Bob Dylan é uma "mensagem perversa".
Foto: Nádia Issufo (DW)
Gociante Patissa é o único escritor dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) a participar na Feira do Livro de Frankfurt 2016, a decorrer de 17 a 23 de outubro. Menos do que uma gota no oceano do evento, considerando a sua envergadura. Esta é uma das maiores feiras do livro do mundo e, além de abranger o mercado livreiro, inclui o jornalismo. 


DW África: O que conseguiu na Feira do Livro de Frankfurt?
Gociante Patissa (GP): O que estamos a conseguir é este ambiente de intercâmbio, com vários autores e vários profissionais do sector livreiro vindos de várias partes do mundo. Tem sido uma oportunidade internacional de conhecer um pouco do que cada um traz da sua realidade. Mas, fundamentalmente, tem sido uma oportunidade de mergulhar na realidade alemã do sector do livro, mercado, distribuição, temas, autores.

DW África: Relativamente à presença africana, principalmente dos PALOP, o que há a destacar nesta feira?

Gociante Patissa publicou 5 livros de vários estilos literários
GP: Para ser franco, muito pouco mesmo, quase nada. Venho a convite do Instituto Goethe, no programa de visitantes internacionais. Este ano, Angola é o único país de expressão portuguesa presente. De África não há quase nada aqui de literatura representada. Tem de se valorizar o consumo de experiências e tentar reverter isso para a nossa realidade.
DW África: Este ano, o Prémio Nobel da Literatura foi atribuido a um músico, Bob Dylan, um "desvio padrão" no que se refere à atribuição deste prémio. Qual é a sua apreciação?
GP: Tem sido um debate e ainda bem que é assim, porque diz-se que só o que não vale é que não suscita debate. Eu honestamente acho que é uma má mensagem que se passa ao sector da música. Se Bob Dylan recebe o Prémio Nobel da Literatura porque capricha nas suas letras, porque tem um alcance estético profundo, estamos a dizer, por outro lado, que a música não precisa disso. Ou seja, aquele que caprichar na elaboração das letras deixa de ser músico e passa a ser escritor. Penso que é uma mensagem perversa que estamos a passar.

Feira de Frankfurt é, para o autor angolano, sobretudo uma oportunidade para conhecer profissionais de todo o mundo
Naturalmente, poderá haver opiniões que contrariem a minha. Eu pessoalmente acho que o músico tem de ser valorizado dentro do circuito da música, considerando que a música tem a sua estética e que uma das áreas, para além da harmonia, do potencial vocal, é também a letra. Agora, elogiar um músico, transformá-lo em escritor porque tem uma letra bem feita, penso que é uma mensagem negativa, sobretudo para realidades como a nossa, Angola, onde o kuduro é quase um símbolo nacional, muitas vezes, mais não sendo que um canal de transmissão do oco. Então, com essa mensagem, está-se a dizer que a música oca é muito bem-vinda.
DW África: Muitos africanos e não só torciam para que Ngũgĩ wa Thiong'o ganhasse esse Prémio Nobel da Literatura. Não acha que escritores africanos deveriam ser mais agraciados com uma distinção como o Prémio Nobel da Literatura?
GP: Isso para mim tem duas leituras. Eu li esse autor na Universidade, na cadeira de Literatura Africana, mas li fragmentos.Não conheço a obra dele, de maneira que não consigo ter uma posição favorável ou não. Mas ganhar só por ser africano, penso que também não é por aí. Um Prémio Nobel é um Prémio Nobel e é preciso não reduzir a importância da literatura mundial à acreditação do Nobel, que tem os seus critérios e que são discutíveis.

DW África: Publicou já cinco livros entre poesia, novela e contos. Como explica esse carácter multifacetado na sua obra?
O que eu acho e o que eu relaciono com esta feira, é que parece que há um esquecimento relativamente à responsabilidade da Europa em relação aos países onde andou como colonizadora. É tudo muito egocêntrico, olhar para a Europa. Eu estou a falar português como língua oficial. Eu penso que isso deveria representar um marco para a Europa se lembrar da sua passagem por outros países como colonizadora e não se esquecer de também considerar essas literaturas. Portanto, resumindo e concluindo, o nigeriano ganhar só por ser africano não seria de todo construtivo.
GP: Não há uma explicação objetiva. O conto, que eu penso que é o campo em me sinto mais à vontade, é, na verdade, a sistematização de uma riqueza que a pessoa absorveu no meio rural. Eu tenho uma dupla vicência entre a cidade e o campo. Eu vivi no interior só até aos 7 anos. Mas tive a sorte de ter pais que se preocuparam, dentro do nosso lar, de fazer do lar um vetor de transmissão da nossa oralidade. Portanto, isto é uma potencialidade que a gente traz do campo, do interior, daquela vivência rural. Quanto à poesia, foi a primeira manifestação em termos mais objetivos quanto já a pensar no livro. Há escritores que trabalham com um carácter mais de especialidade: há quem só faça poesia, contos , romances. Enfim, acho que tenha essa sorte de fazer um pouco de tudo.

Angola na Feira Internacional do Livro de Frankfurt | Dia 4

A segunda conferência do dia de ontem, 19/10, versou sobre Tendências digitais e desafios no universo editorial Alemão, tendo como orador o influente Mr. Sebastian Posth (da firma Posth Verlag), editor e consultor editorial. Posth é referência obrigatória no segmento de distribuição e comercialização online de livros. Articula com plataformas como a amazon.

Ficamos a saber que enquanto no mercado americano o autor pode negociar directamente com as plataformas de venda/distribuição (websites), na lei alemã tal deve ser feito por uma instituição intermediária (agregator em inglês).

Soubemos igualmente que, pelo menos na Alemanha, as chances de o livro tradicional, o impresso, ser engolido pelo digital são poucas, sendo que o e-book nem chega sequer a 5% do consumo, portanto insignificante. Um dos factores pode ser a lei que regula o mercado pela política do preço fixo, colocando o livro em papel e o digital ao mesmo preço, o que provavelmente dá vantagem ao formato tradicional. Seja como for, na hora de investir na produção do livro impresso, há que levar em conta que irá custar o mesmo preço que a sua versão digital, pelo que o equilíbrio deve imperar.

E por falar em consumo, o leitor alemão prefere romances, depois vem mais ou menos o conto. E quando se fala de literatura alemã, eles incluem também a Suiça e a Holanda, onde se fala/escreve na língua da tia Merkel.

Quanto à literatura estrangeira, consome-se alguma, muito pouca, que chega da Itália e França e traduzida por editoras locais. A única referência de Portugal foi enquanto lugar da cena de uma obra escrita por autora oriunda do antigo bloco soviético, ou seja, até dentro do espaço Europeu as pontes de diálogo intercultural através do consumo de livros ainda são muito frágeis. Os países/autores de expressão inglesa acabam obviamente beneficiando da posição mundial da língua. Foram citados alguns nomes da Ásia. Obras africanas também praticamente não são "conhecidas".

Quanto à tradução é outro desafio, uma área em que os profissionais se queixam da subvalorização, já que são pagos uma única vez, quando por vezes o livro vai ser um sucesso mundial de vendas.

Procura de paradeiro. Pede-se a quem tenha ou venha a achar na via pública um bem chamado calor. O mesmo desapareceu da vida do seu proprietário, sua excelência eu. Ainda era só isso. Obrigado.

Um bom motivo com que sonhar

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Angola na Feira Internacional do Livro de Frankfurt | Dia 3

O objectivo é aproximar profissionais do sector do livro, por um lado, e fundamentalmente mostrar aos visitantes como funciona o sector da cultura, e do livro em particular, num programa de intercâmbio que inscreve durante os cinco intensos dias várias conferências sobre o ramo, tendo como oradores proeminentes académicos e influentes entidades do mercado editorial. O enfoque é posto na diplomacia cultural visando repensar o papel do livro como forma de expressão dos povos, culturas e imaginário. A divulgação ocorre neste segmento e não tanto na vertente de exposição e vendas. É seguramente um investimento do governo alemão e parceiros no sentido de promover a imagem do seu país.

Somos um grupo de 22 convidados internacionais constituído por escritores, gestores culturais, jornalistas, editores e tradutores, vindos da Ásia, Europa do Leste, da América Latina, e do Norte de África. Os países africanos presentes são África do Sul, Angola, Côte D’ivoir, Uganda, Nigéria e Etiópia.

A Feira Internacional do Livro de Frankfurt tem uma natureza que contraria em certa maneira a noção comum de feira, entendida como um espaço para venda massiva de produtos, pois ela privilegia os contactos entre profissionais do ramo mais do que as vendas promocionais. Dito de outra forma, a Feira do Livro de Frankfurt tem a duração de cinco dias, sendo que os três primeiros dias são reservados exclusivamente para profissionais do ramo e só nos dois últimos dias é que o evento abre as portas ao público.

Pereambulando entre uma conferência e outra


Intensidade

Quem disse que o dinheiro nunca foi bom amigo tem muita razão. Acho que falava de viajares para o estrangeiro, e o teu banco não conseguir carregar o teu próprio dinheiro no mesmo cartão visa que te "vendeu" como sendo um KAMBA. É que nem já um amigo da onça...

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Humanismo e aproximação dominaram discursos | ABERTA OFICIALMENTE A FEIRA DO LIVRO DE FRANKFURT

O encarceramento de intelectuais na Turquia e na Síria, bem como a necessidade de uma Europa que faça da diferença dos povos um motivo de fortalecimento das relações, dominaram os discursos de abertura oficial da Feira Internacional do Livro de Frankfurt, na Alemanha. Testemunhada por mais de duas mil pessoas, a cerimónia teve lugar esta terça-feira, 18/10, no edifício de exposições denominado Messe e foi prestigiada pelas presenças da rainha Mathilde, da Bélgica, e do rei Willem-Alexander, da Holanda.

O presidente da Associação Alemã de Editores e Livreiros, Heinrich Riethmüller, teceu críticas ao que qualificou de papel passivo da legislação em proteger o sector do livro. Em seu entender, tal quadro leva a uma apatia perigosa do panorama literário na Alemanha. Não escondeu uma certa desilusão, já que várias tentativas junto da classe política, segundo disse, não têem produzido resultados palpáveis.

Por outro lado, Riethmüller denunciou a prisão da romancista turca Asli Erdogan, juntamente com outros 20 jornalistas, acusados de participarem na tentativa de derrube do presidente Tayyip Erdogan. E de críticas nesta matéria não é tudo. O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, não perdeu a oportunidade de fazer campanha contra “líderes e candidatos populistas”, cujo discurso promove o ódio.

Várias outras intervenções seguiram a mesma linha, com realce para a reparação de erros históricos cometidos por uns povos contra outros. Para sublinhar o quanto a união é possível, recordou-se o gesto de perdão com que a Holanda estendeu a mão à Alemanha, poucos anos volvidos sobre incidentes de torturas e matanças. “É um dom que não deveríamos nunca esquecer”, advogou um dos oradores alemães.

Já no período da manhã tinha sido registada uma concorrida conferência de imprensa, que serviu de antecâmara para o resto do programa. A atracção principal foi o pintor inglês David Hockney, 79 anos, convidado de honra da Feira. A sua obra combina o talento e o uso de novas tecnologias digitais, sobretudo o iPad, umas vezes com traços originais, outras com a recriação usando a técnica da colagem, na tese segundo a qual a fotografia lida com a superfície enquanto a pintura alcança a profundidade.

Ainda durante a conferência de imprensa, a organização da Feira fez apelos para a libertação de intelectuais perseguidos, afiançando que a liberdade de criação é um direito não negociável. Na sequência, uma das participantes quebrou o protocolo e quis saber que ajuda podiam ter os escritores e cientistas do Chile, diante do que considera perseguição e ditadura. Revelou ter em carteira um livro que aborda frontalmente um tema ligado à política, sem no entanto sentir-se motivada a continuar, pois teme represálias. A resposta,dos organizadores foi no sentido de a opção depender de cada editor.

No final do dia, entre os visitantes internacionais, inevitável foi a percepção de terem ficado coisas por dizer, nomeadamente da responsabilidade que a Europa teria para com a literatura de ex-colónias e uma outra palavra quanto à inovação no Prémio Nobre de Literatura, que este ano foi atribuído ao músico americano Bob Dylan.
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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Angola na Feira Internacional do Livro de Frankfurt | Dia 1

Aqui está parte do acervo de literatura angolana que trouxemos para oferecer e estabelecer pontes. O grupo é composto por 22 elementos ligados à escrita, à edição, comércio livreiro e não só. Tudo indica que integra também o Ministro Argentino da Cultura a delegação internacional convidada pelo Goethe-Institut. Por África estão a Costa do Marfim, o Uganda, a Nigéria e o país de suas excelências cada um de vocês e eu: Angola. Ainda era só isso. Obrigado.
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domingo, 16 de outubro de 2016

Sapyruka, in "A Erosão do Fogo", pág. 17. União dos Escritores Angolanos. Luanda, 2002 (escrito entre 1994-98)

Ndisonehã vonduko yelye? | Em nome de quem devo autografar | In whose name should I autograph?

Modelo: Kajim Ban-Gala (escritor angolano)

Ndati? | Como? | Say again?

Modelo: Kajim Ban-Gala (escritor angolano) 

DEBATENDO O MEU CHAPEU (com sobrinho de 5 anos)

"Chapéu do tio é tipo chapéu de polícia, só que esse não tem estrelas."
"Hoko, Ataíde! Isso é chapéu de escritor, é chapéu de artista."
"Gosto mais chapéu de chefe. Artista é capanga."
"Nunca mais!"
"Tio, artista é capanga do chefe."
"Bem, se calhar até tens razão, filho..."

Benguela, 16 Outubro 2014 
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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

(arquivo) Diário | E o senhor é jurista?

"Bem, caros convidados, daqui a pouco o nosso debate vai ao ar. Poderemos ter intervenção de ouvintes via telefone."
"Estamos prontos, caro senhor jornalista."
"Ora, a si já conheço e... a si também. Desculpe-me o senhor que vem pela instituição X: no seu caso, como quer lhe apresente?"
"Vou falar na qualidade de jurista... sem problema nenhum!!!"
"E o senhor é jurista?"
"Bem, eu trabalho na Associação como relações públicas, às vezes estafeta, e auxilio na secretaria com arquivos documentais..."
"E qual é a sua formação?"
"Estou a concluir o Médio, mas ainda dei uma pausa."
"Então o senhor não é jurista mas pode falar na qualidade de jurista?"
"A minha esposa é bacharel em Direito..."
"Pronto, não tem problema, vou-lhe tratar pelo nome."
"Você é que sabe, Ok?

Gociante Patissa, Benguela, 15.04.2016 (Adaptação)
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Just a question

Seria menos discutível se o prémio nobel da literatura fosse atribuído a Paulo Coelho (escritor "light" brasileiro ) do que a Bob Dylan (músico norte americano)? Ou devia a humanidade considerar a possibilidade de se ensaiar uma espécie de declaração por falência epistemológica a instituições vendidas como virtudes universais, nomeadamente os prémios, o jornalismo, a democracia e a fé religiosa? Ainda era só isso. Obrigado
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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Crónica | Crónica de um iPad furtado, um ano depois


Numa das aventuras em turismo interno que fiz ao Wambu (Huambo), finais de Agosto de 2015, regressei com desgosto ao notar que me haviam furtado o ipad mini. Não que não consiga viver sem ele, até porque praticamente pouco ajuda nos campos em que mais me dedico (produção de textos e edição de fotografias). O valor do maldito objecto é simbólico, pois ganhei-o de prémio da categoria de poema, no quadro do Festival de Artes de uma empresa de dimensão nacional (e arredores, diria o outro).

A última memória que guardava dele era a do momento em que descarregava as malas, do quintal da hospedaria para o quarto, lá no Wambu, o que me levou a deduzir que o tivesse deixado por esquecimento sobre o tejadilho do carro. Já em Benguela, inevitável foi telefonar para o amigo Chico Pobre, a pessoa que me sugeriu a hospedaria em causa e com cujo pessoal de serviço lida muito bem, na esperança de surgir alguém que o tivesse levado por um destes enganos muito “nossos”. Do ipad nem vê-lo.

Em mim, para dizê-lo francamente, ficou a desconfiança. Alguém, podia ser um hóspede ou um funcionário, ter-se-ia assenhorado do meu ipad. E por acaso podia eu ter feito, como dizemos terra-a-terra, uma grande confusão, mas optei por me conformar. Conformar, conformar, até ver, né? Melhor dizer que preferi "bater a bola baixa". Podia nesta senda desfazer-me do carregador de corrente, inútil que se saíra pelos cantos da minha casa, só que preferi, também quanto a isso, ficar-me pela inércia. Mas como só acontece nos filmes, eis-que na sexta-feira passada recebia eu um telefonema de número desconhecido, o qual, infelizmente, não pude atender, reunido que me encontrava.

Nas trocas de SMS, viria a perceber que se tratava do responsável pela segurança do aeroporto. O do Wambu, certo? Errado! Era do aeroporto da Katombela, que pedia para eu retornar a ligação logo que possível. Por qualquer razão, não o fiz. Na verdade não fazia a menor ideia do que havia de pessoal para tratar. Anteontem, ao cruzarmos no corredor, diz-me ele que precisava que eu verificasse algo. Ou não perdeste um dispositivo? Indagava ele. Sorri, ao jeito de enrolar, enquanto esforçava a memória a compulsar uma eventual nova perda. Continuei a dizer que não me ocorria nada.

Mas qual não foi a minha surpresa, hoje, ao receber de volta o meu ipad, num enredo típico de filmes policiais. Como seria possível? O ipad fora entregue ao pessoal de segurança há coisa de oito meses por um daqueles jovens que fazem intermediações nem sempre aconselháveis entre passageiros aflitos e aviadoras. Ocorreu-me mesmo traçar umas linhas de gratidão pelo gesto, até ser confrontado com a dura realidade.

Sempre cheguei a trazer o ipad do Wambu mas esqueci-me dele foi no balcão de check in. O jovem tê-lo-á recolhido à socapa e levado para casa, possivelmente para o vender, mas volvidos quatro meses viu-se obrigado a desistir do bem. Porquê? Simples. Logo que o perdi, fui ao site da apple e efectuei o bloqueio. Tal operação gerou a seguinte mensagem: “Este ipad foi perdido. Por favor, contacte-me. 0092354…” Bastou ligarem o aparelho para se chegar até ao proprietário. E pronto. Escapamos! Obrigado anyway.
Gociante Patissa. Benguela, 12 Outubro 2016
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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Do nosso linguajar e arredores

Estava há pouquinho a pagar a conta do almoço num dos restaurantes da cidade do Lobito, aonde tive de vir para cumprir uma promessa familiar, quando a acidentalmente captei parte de um diálogo entre a moça do caixa e a sua colega, referindo-se a um cliente habitual da casa, como inferi:
"Aquele não é o K...?"
"É ele mesmo."
"Ene! Se pagou lá uma namorada o outro..."
"A moça por acaso é bonita!"

EXERCÍCIO: Alguém ajuda a interpretar e contextualizar este pedaço de literatura (porque carregado de conotação, subjectividade e dimensão social) do dia-a-dia típico angolano?
Ainda era só mais isso. Obrigado.
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Alguém patrocina com uma bandeira?

No intercâmbio de Janeiro de 2010 nos Estados Unidos da América, a convite e expensas do Departamento de Estado, na qualidade de membro da sociedade civil, levei comigo uma bandeira da república de Angola, com a qual posei junto da estátua de Einstein, na cidade/Estado de Washington. Sei e estou de acordo que em termos semióticos ela, a bandeira, não é consensual, mas não havendo outra... Desta vez que tal repetir o gesto durante o intercâmbio na Alemanha que, para além da Feira do Livro como tal, tem agendados passeios turísticos, sendo um deles o local em que Gutenberg criou aquilo que viria a ser a tecnica imprensa (no sentido de gravar palavras no papel)? Alguém disponível a patrocinar com um exemplar da nossa bandeira? Ainda era só isso. Obrigado

Just a question

Estive a traduzir o vasto programa de actividades do pacote Feira do Livro de Frankfurt, no qual constam altos momentos oficiais a serem prestigiados por altos dignitários alemães, britânicos e holandeses. Professores doutores, governantes, numa lista de gente importante que nunca mais termina... mas todo o mundo a ser tratado por senhor ou senhora. São sete páginas A4 e não cruzei uma única vez com o epíteto DR, dr (ou que seja). Esse hábito de nos inflamarmos (nós os falantes de língua portuguesa) pelos títulos académicos, doutor disto e doutor daquilo, engenheiro para aqui e engenheiro para lá, mesmo no ambiente informal, afinal é como? Será que fomos os últimos na história da humanidade a ter acesso à formação universitária e a ostentação tem o efeito psicológico de "brinquedo novo"???

Excerto

(...) Certa vez, abriu a cabeça a uma pioneira, o que a fez passar à vítima. E como Ndulu
era todo azares, as queixas caíram nas mãos do Camarada-professor-kambuta-comunal. Severino Paulino, de seu nome completo, chegava a ser severo a dar com pauzinho.
— Quero aqui a tua mãe amanhã, Ndulu!
— Não vai dar, camá-prussó.
— Não o quiêêê?
— Não vai dar. A mamã está incomodada. — mentiu, com cara de meter pena, esperando ser perdoado. Inventou a doença da mãe. Tinha vergonha de ser vista pelos colegas, por causa daquele problema do lixo nos dentes e só falar Umbundu. Mas o resultado lhe saiu pior que a emenda. O Camarada-professor-kambuta-comunal era mesmo duro.
— Então traz o papá, como é você então?!
— Não tenho, camá-prussó, a minha mãe é hortelã…
Uma rajada de gargalhadas ensurdeceu a turma. Ndulu quis dizer que a mãe era viúva, substantivo que, à semelhança de hortelã, em Umbundu se diz "ocimbumba". Mas viúva era palavra rara nos livros da primária, vai daí ser por ele desconhecida. A gargalhada prolongou-se com a cumplicidade do professor, deixando Ndulu acabrunhado. Depois, silêncio. Outra vez risadas. Ouviu-se do fundo da sala uma voz indisciplinada (...)

Gociante Patissa, trecho do conto MINHA MÃE É HORTELÃ, um dos 13 que compõem o livro de contos FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, 2014. GRECIMA, Luanda. Programa LER ANGOLA.

PS: Livro geralmente disponível a quinhentos kwanzas na livraria Texto Editores e rede KERO nas províncias em que estiver implantada e na Livraria Texto Editores (Em Benguela já não se acham em lado algum)

domingo, 9 de outubro de 2016

Citação

"Estão a reclamar do resultado do Top dos mais queridos da música? Experimentem fazer um Top dos "mais queridos" da literatura. Vão rir..." (Divaldo Martins, via Facebook)

Matéria do jornal Follha8: PATISSA PELA PORTA GRANDE

Foto de José Alves para o portal Rede Angola
O escritor angolano Gociante Patissa vai representar Angola, a convite da união dos Escritores Angolanos e do Instituto Cultural Alemão Goethe na Feira Internacional do Livro de Frankfurt a decorrer de 17 a 23 de Outubro na Alemanha.

Segundo a nota de imprensa da União dos Escritores Angolanos (UEA) enviada ao Folha 8, Angola faz parte de um conjunto de 19 países convidados para prestigiar o referenciado certame literário.

Neste evento, a delegação angolana vai proceder à entrega de livros de autores angolanos a universidades federais alemãs, estreitar relações bilaterais com instituições congéneres, além de participar nas mesas redondas, sessões de autógrafos e debate digital.

A Feira Internacional de Frankfurt é dos maiores encontros mundiais do sector editorial e conta com cinco séculos de realização. Os países participantes terão a oportunidade de saber mais sobre a história da literatura alemã e ao mesmo tempo dar a conhecer o que se faz e aspira de literatura nas suas sociedades de origem.

A par da comercialização de obras e negociação de direitos autorais, o evento vale ainda por ser uma plataforma de oportunidades intelectuais diversas, com destaque para os ciclos de conferências.

Para a União dos Escritores Angolanos, o convite recebido para uma tão importante montra intelectual representa não só o progressivo reconhecimento da vitalidade da literatura angolana, mas também um saboroso fruto do exercício permanente da diplomacia cultural, que passa pela tradução de antologias e pelo estabelecimento e preservação de boas relações e parceria.

Gociante Patissa é um nome relativamente recente na história da literatura angolana, mas com consideráveis sinais de uma carreira promissora.

BIOGRAFIA. 
Daniel Gociante Patissa nasceu na comuna do Monte-Belo, município do Bocoio, província de Benguela, em Dezembro de 1978. Tem licenciatura em Linguística, especialidade de Inglês, pelo Instituto Superior de Ciências da Educação da Universidade Katyavala Bwila (ex Agostinho Neto).

É membro efectivo da União dos Escritores Angolanos e colaborador do Jornal Cultura, da Edições Novembro. Foi distinguido com o Prémio Provincial de Benguela de Cultura e Artes 2012, na categoria de Investigação em Ciências Sociais e Humanas, «pelo seu contributo na divulgação da língua local Umbundu, na perspectiva das tradições orais, através do conto e novas Tecnologias de Informação e Comunicação».

No sector da sociedade civil serviu como gestor de projectos de desenvolvimento comunitário, tradutor/intérprete (Umbundu-Português-Inglês) e jornalista “free lance”.

Entre 2003-2010, foi realizador e moderador de mesa redonda radiofónica sobre cidadania e saúde preventiva, editando ao mesmo tempo o Boletim informativo, educativo e cultural A Voz do Olho, ao serviço da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade), ONG angolana que ajudou a fundar em 1999. Serviu ainda a Save The Children e a Handi-cap International nas províncias do Huambo e Benguela.

Crónica | Os caminhos do meu tio (*)

Diz-se que a terra é de quem produz, ou constrói. Diz-se que ao cabo de dois anos sem acção, legitima-se a ganhar outro ocupante. Se li a lei? A resposta é não. Já sei que, na febre dos terrenos, não se tem em presença a lei como tal. Por exemplo, alguém estava a assenhorar-se aos poucos de alguns metros de meu tio num subúrbio de Benguela. O mote é o de sempre, presumo: onde anda o (alegado) dono, que nada fez?

Num conto que escrevi há anos, dizia que de um político, como de um missionário, a família só tinha controlo sobre a data e lugar de nascimento; o resto de suas vidas eram os caminhos a decidir. Hoje, acrescento mais um nesta lista, o meu tio que é polícia.

Chamo «tio» só já porque estou a pensar em português. No sentir e falar como a tradição manda, o título é pai mesmo, como qualquer outro irmão ou primo do nosso progenitor. Esse tio responde no serviço pelo nome de registo, que não é para aqui chamado. Na família, é pai Njamba (elefante, em Umbundu, nome dado ao primeiro que nasce entre gémeos). Na minha cabeça, honestamente falando, devia chamar-se distância. É na verdade aquilo que mais imediatamente se associa à sua existência.

Pouco depois de 1992, o tio estava a adaptar-se ao peso dos passadores e, sobretudo, ao regresso à casa, vindo do curso em Espanha. Quer dizer, ele até que começava bem, encaixava a vida social nos eixos, para logo ser transferido. Luanda com ele!

Casa própria, que não chegou a ter cá, tinha-a em Luanda. Fui lá almoçar em 2003. Para mim que estive hospedado junto ao Largo da Independência, Porto Pesqueiro parecia distante, mas o bairro lá tinha suas vantagens. Nunca se está longe quando se é vizinho do intenso mercado Roque Santeiro! O tio chegaria a investir numa pequena farmácia. E lá a vivência: durante a semana, o trabalho e a escola; no fim-de-semana, a igreja. Carrito pessoal para circular, até chegar com a promoção a transferência. Huila com ele!

Maio de 2009. Estava eu de volta ao Lubango. Ia lançar o meu poemário de estreia, “Consulado do Vazio”. A própria viagem conheceu solavancos, mas teve de acontecer, ou não tivesse já consumido quinze dos trinta dias de férias. Hospedei-me em casa do segundo comandante da Polícia de Intervenção Rápida. Sim, o tio tinha já plantado casa própria, num bairro próximo do bom respirar, entretanto longe das decisões.

E acabei alterando a rotina: às manhãs, um agente motorista levava o chefe ao serviço, ao som de hinos cristãos. A seguir, calculando já ter ocorrido o mata-bicho, vinha-me pegar para o centro da cidade. No leitor do carro, ainda os louvores. Depois, jantar, telejornal e desporto. Não raras vezes, o tio adormecia no cadeirão da sala. Lia-se-lhe no rosto o cansaço dos homens da ordem, por ainda andarem à solta “Mil Homens”, um grupo de criminosos que operavam entre o Cristo Rei e a Nossa Senhora do Monte.

Prometi voltar com outro livro, mas faltou tempo para o fazer em 2010. E a projectar o ano que vem, soube que o tio foi posto, de novo, a caminho. Kuando Kubango com ele!

Os caminhos do meu tio? São os que a pátria quiser, a missão. Mas tem que manter aquele terreno de Benguela intacto, nem que seja pelo simbolismo de suas secundinas.

Gociante Patissa 
(*) Presente no livro "O Apito Que Não Se Ouviu", originalmente publicada pela "Revista Tranquilidade" do Comando Geral da Polícia Nacional, pág. 81, Out-Dez 2012)

sábado, 8 de outubro de 2016

Jacinto Tchipa no Kutonoka da TPA

Na TPA está um "Kutonoka" (entrevista documental biográfica) com o lendário Jacinto Tchipa, importante nome da música feita nas décadas de 1980-90. Infelizmente, a meu ver, está a faltar entrosamento entre o par anfitrião do programa, Marlene Amaro e Dionísio Rocha, com a saída (não sei se definitiva) da "dona do show", Horvanda Andrade. Horvanda articula com maior à vontade do que a Marlene que vem de empréstimo do Janela Aberta. Mesmo sendo um programa gravado, notou-se logo na abertura um certo nervosismo, o que salta ainda mais à vista. Já sem falar da música de fundo (genérico ou separador) que está num volume alto e prejudica a harmonia da conversa.

Só em Luanda e nas "províncias" não?

Diário | MAS A SENHORA ENTÃO COMO É QUE É?!

“Eu só quero falar com o procurador, mais nada!!!”
“Ó senhora, eu já falei. O procurador está ocupado!”
“AFINAL QUAL É O ASSUNTO COM ESTA CIDADÃ, Ó COLEGA CATALOGADOR?”
“Ó doutor!, é um assunto que na qual ela está aqui remintente…”
“NÃO É REMITENTE, PÁ! É RENITENTE. ‘QUE NA QUAL’?! ISSO TAMBÉM É PORTUGUÊS DE ONDE? VÁ, PROSSIGA!”
“Já há uma semana que vem aqui, sem solicitar audiência sem nada, vestida como está, esses lenços na cabeça, esses panos dela. Quer dizer, sem decoro. Ainda ao menos se alisasse o cabelo ou já só uma peruca, né?… E quer falar logo com sua excelência o senhor procurador, assim nada apresentável como está. Não é mau precedente, meu chefe?…”
“MAS A SENHORA ENTÃO COMO É QUE É?!”
“O camarada é o procurador?”
“NÃO. SOU ADMINISTRATIVO SÉNIOR COM LICENCIATURA EM DIREITO, PÓS-GRADUAÇÃO EM CRIMINALÍSTICA E POR ACASO TENHO PLANOS DE FAZER UM DOUTORAMEN…”
“Já entendi. Pronto. Mas é assim: meu irmão, eu vou-lhe pedir desculpas, não perca o seu rico tempo. O meu assunto é com o procurador. Ele afinal está ou não está?”
“A SENHORA QUE FAÇA UMA EXPOSIÇÃO, POR ESCRITO, ESTÁ BEM? HÁ CÁ TRÂMITES! NÃO É SÓ SAIR DE CASA E, PRONTO, DEU NA CABEÇA, VOU FALAR COM OPROCURADOR…”
“Mas eu não venho brincar, camarada! Também sou mulher de homem, ouviu bem?!” 
“QUAL É O ASSUNTO, AFINAL?
“O assunto é justiça. Não quero outra coisa. Repara uma coisa. Um homem quase violou a nossa filha, espancou a menina. Aí fizemos o quê? Metemos o caso na justiça. Foi julgado e condenado a três anos. Ficamos alegres mas, qual é a nossa surpresa?, já anda por aí livre. Ninguém só se preocupou em nos consultar a nossa opinião. Então o ofendido é um e quem perdoa é o outro?”
“DEVE SER DA AMINISTIA, UM INSTRUMENTO MAGNÂNIMO DA MAGISTRATUR…”
“Mas é só para alguns?”
“COMO ASSIM? ISSO É PAULATINO, MINHA SENHORA. É DE LEI...”
“Mas o meu marido, que não se conformou com a liberdade do agressor da filha, pegou nele, lhe enfiou dois socos da boca e bons pontapés no meio das pernas. A justiça vai-lhe prender, por cima da razão dele, vão-lhe condenar para dois anos e não tem amnistia?!”
“ISSO NÃO É BEM ASSIM…”
“E se não é bem assim, é como então essa justiça?”
Gociante Patissa. Benguela, 8 Outubro 2016
www.angodebates.blogspot.com