PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

terça-feira, 31 de maio de 2016

Agora já é oficial | CRIANÇAS SÃO O TEMA DA EXPOSIÇÃO DE ESTREIA DO FOTÓGRAFO GOCIANTE PATISSA


Onze fotografias que retratam o quotidiano de crianças dos municípios do Lobito, Benguela, Balombo e Baía Farta constituem a exposição de Gociante Patissa, a primeira do autor enquanto fotógrafo, a ter lugar a partir das 10 horas desta quarta-feira (01/06) na Aldeia de Crianças SOS de Benguela, localizada no bairro Kapyandalu.

A exposição enquadra-se no programa de comemoração do Dia da Criança, que inclui a dança e outros atractivos. Gociante Patissa empresta o seu olhar autoral para retratar as aspirações, limitações, alegrias, liberdade criativa e a relação da criança com a natureza.

A. Lourenço, a curadora (in facebook)
A impressão do espólio para a exposição fotográfica foi feita na república do Kenya e contou com o patrocínio da educadora social Anaína Lourenço (Nina Loren, na foto), que é também curadora, uma amiga do autor desde os tempos do "Comboio de Amizade", um programa infanto-juvenil da Televisão Pública de Angola, entre 1996-97.

Gociante Patissa tem uma relação com a fotografia que data de 1993, na época do preto-e-branco analógico (a rolo) quando, ainda a caminho de completar 15 anos de idade, a procura de um emprego para sustentar os estudos da sétima classe o levou a bater à porta de um estúdio artesanal no bairro Santa Cruz, no Lobito. Depois de alguns anos como aprendiz, viria a trabalhar por conta própria como retratista ambulante, usando uma máquina compacta a rolo de um irmão seu.

O compromisso mais sério com a fotografia digital viria a reacender em 2013, uma vez em posse de uma máquina Nikon D3100 que recebeu de oferta do seu chefe numa empresa do ramo da aviação. Intensificou-se a partir dali a aprendizagem auto-didacta, não perdendo cada oportunidade que surge de interagir com nomes de referência na fotografia feita em Benguela e em Luanda. A sua motivação junta o turístico, o artístico e alguma intervenção para a cidadania.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Crónica | Saurimo é da melhor vista aérea que há

Tive hoje o grato prazer de sobrevoar parcialmente a cidade de Saurimo, capital da província da Lunda-Sul, no leste de Angola, onde durante duas horas estive a trabalhar (embora sem sair do Aeroporto Deolinda Rodrigues). A rota foi CBT-VHC (uma hora e quinze minutos), VHC-LAD (hora e meia de vôo) e LAD-CBT (45 minutos). Para quem vem de realidades cosmopolitas, como Benguela e Luanda, a ideia inicial que ocorre, à medida em que o voo perde altitude e se torna nítida a visão panorâmica, é de um relativo choque, tendo em conta a predominância da típica cor castanha em casas de adobes (blocos de barro maciço) em praticamente o bairro todo. De longe contrasta com a realidade dos bairros emergentes na periferia, que se confunde com o cinzento dos blocos de cimento e areia de que são erguidas as alvenarias. A mais imediata hipótese, sociologicamente falando, é de estarmos em presença de um meio com pouco poder de compra ou, no mínimo, parado no tempo e desajustado às novas tendências estéticas de construção sobretudo no litoral. Esta visão negativa entretanto dissolve-se, como que em sobreposição de imagens, diante da invejável arborização, do alto vista como malha perpendicular. Como se ao pormenor projectado, Saurimo parece ter mais tectos verdes do que outra coisa, e nem estou a falar de condóminos. Uma ou mais árvores de generosa fronde em cada cada parece ser a regra. É de facto um retrato drasticamente contrastante, neste caso ainda bem, com o rosto seco, poeirento e aquele caos de zinco e parabólicas que geralmente nos invade a vista ao aterrarmos em Benguela e/ou Luanda. À primeira vista, Saurimo é da maior ecológica vista aérea que em Angola há.
Gociante Patissa. Saurimo, 30.05.2016
www.angodebates.blogspot.com

(arquivo) Crónica | Em que estou a pensar? No milagre das rosas...

Texto: Arlindo Macedo (cedido pelo próprio)

Meu amigo enviou um e-mail contando o milagre dele, mas não das rosas, sim do carro. Vou repassar: «Pela primeira vez na minha vida, por curiosidade, na semana passada fui a uma reunião da tão criticada Igreja Universal para ver como é que aquilo era. O Pastor aproximou-se do lugar onde eu estava. Olhou-me fixamente e, apontando-me o dedo, disse “ajoelha-te, irmão!”. Ajoelhei-me, ele colocou então as mãos na minha cabeça e clamou em voz alta: “Você vai caminhar, irmão”. Eu respondi-lhe baixinho: “Mas não tenho nenhum problema de locomoção”. Ele nem ligou e continuou, agora gritando: “Irmão, você vai caminhar!!!”. Toda a Assembleia, com as mãos ao alto, começou a gritar e a chorar: Ele vai caminhar! Ele vai caminhar!!!” Mais uma vez, tentei explicar que não tinha nenhum problema com meus membros inferiores, mas foi em vão. Ele nem ouvia. Cada vez mais forte e com mais energia, ele repetiu: “Você vai caminhar!!!”, enquanto a Assembleia entrava em transe gritando ainda mais forte: “Irmão, você vai caminhar!!!”Sem saber o que fazer deixei-me ficar quieto até ao fim da sessão. Quando o acto acabou, deixei a Assembleia e, acreditem ou não, o pastor tinha razão: Tinham-me fanado o carro!!!...»
Maio 2015

domingo, 29 de maio de 2016

Opinião | Uma reconciliação que mata: A propósito da intolerância política e o que falta fazer

A tragédia recente na localidade da Kapupa, município do Cubal, interior da província de Benguela, onde uma delegação parlamentar da Unita foi atacada com armas brancas (segundo a polícia por populares não identificados), saldando-se em três mortos e alguns desaparecidos, volta a levantar dúvidas quanto aos mecanismos de preservação da paz efectiva, alcançada em 2002. Pode-se falar em paz sem coabitação?

Os angolanos têem sido elogiados sob o ponto de vista sócio-histórico pela sua grande capacidade de pôr fim às três décadas de guerra civil, por si mesmos, depois de fracassadas tentativas de mediação da comunidade internacional.

A Unita acusa a polícia (que escoltava a delegação) de conivência, apontando o dedo a simpatizantes do seu arquirrival e partido no poder, o Mpla. Por seu turno, a polícia desmente, sublinhando a desproporcionalidade de forças, tanto mais que entre as vítimas está um oficial da corporação.

Resumo Literário | poemário"ALMAS DE PORCELANA" na leitura da ensaísta brasileira Letícia Monteiro

"Ao mergulharmos no universo de Almas de Porcelana, temos que nos desamarrar daquilo que guardamos do significado de “fragilidade”. Agarrado à imagem da porcelana, Patissa sabe construir a beleza daquilo que um dia foi apenas mero barro, mas graças ao calor da poesia e ao talento do poeta transfigura-se em algo de inestimável valor. Sua fragilidade reside na apreciação pacífica que emana de seus poemas sensíveis, preciosos; há neles belas filigranas de esperança, como num delicado conjunto de fina porcelana, em cujas peças brilha um arremate de debruns nostálgicos. No vigor destes poemas, evidencia-se a demonstração de como se processa a força nos indivíduos, herdeiros de passados árduos, roubados e massacrados (ou, no mínimo, ignorados). Indivíduos que, através da própria resiliência, transformam sua vida em arte. De alto nível. As terras verde-amarelas, tão fatigadas com histórias estereotipadas sobre nossos irmãos africanos, não poderiam mais esperar para apreciar as importantes – e inevitáveis – palavras de Patissa, poeta com quem comungamos os Cantos da África e a Língua de Camões." (Texto de Letícia Monteiro, orelha do livro, nota do editor)
Eis o link da loja virtual da editora http://www.editorapenalux.com.br/loja/product_info.php?products_id=401

sábado, 28 de maio de 2016

Mergulho no passado

Passamos a tarde de hoje no Lobito a mergulhar num álbum de fotografias da família alargada, herdado de um tio que faleceu em 1996. Levei a lente 40mm micro para reproduzir o acervo. O livro vai muito além de guardar retratos, tem mesmo um inequívoco registo documental que inclui dados biográficos e nalguns casos breve retrato de personalidade de cada um. A maior das curiosidades reside no critério de selecção, digo mais de exclusão. Só civis. Era tempo de guerra e podia ser perigoso manter o registo de familiares ligados directamente ao combate, pelo que terei de consultar outras fontes para a recolha deste lado. Viajar nas memórias familiares é um turbilhão de emoções. Para já, partilho o retrato de um parente distante meu quando tinha oito anos, captado na Foto Maia, sita no bairro da Bela Vista, Lobito, por ocasião das matrículas escolares da segunda classe em 1986

Diário | Vocês não vão espantar a caça, ou vão?

(I)
"Atenção, atenção!!! Assim estamos a passar. A praça é grande, cada um fica já com o dinheiro na mão! Xé!, você aí, ó cidadão! Não estás a ver que a Fiscalização está a passar?"
"Como o caminho não passa na minha testa, ainda achei que não devia ter medo."
"Passa a taxa, rápido!"
"Taxa de quê?"
"O pagamento diário da bancada! Estamos aonde afinal?! Essa merda tem leis ou não?"
"Acho que o país tem uma história..."
"Meu camarada, o tempo é dinheiro. Já Arranquei a ficha do bloco de facturas. É só pagar e mais nada!"
"Então não estou a ver bem o porquê que lutei. Um gajo entrou na tropa criança, combater sem folga de estudar, desmobilização sai sem emprego. Assim se hoje tenta na venda precária, ainda é perseguido pelo Estado que serviu?"
"Estás a brincar... É a tua última palavra?"

"ALMAS DE PORCELANA" NA IMPRENSA BRASILEIRA | A primeira resenha crítica à minha poesia vem de fora

Ainda não tive tempo de digerir, para daí qualificar, a reacção que me envolve em relação à história do meu livro mais recente, que nasceu sem contar com isso. Fui contactado no início do ano por um editor, Tonho França (até então desconhecido), em nome de uma editora brasileira, Penalux, (também ela desconhecida), a pedir que lhes mandasse material literário para avaliação e possível publicação por conta daqueles. Tinham interesse em conhecer outras vozes mais da literatura angolana. Reuni então um compilado dos meus livros "Consulado do Vazio" (escrito entre 1996-2008 e com que me estreei localmente em Benguela) e "Guardanapo de Papel (publicado em 2014 pela Editora NósSomos, de Luandino Vieira em Portugal), bem como textos dispersos em antologias, para além de quatro poemas inéditos. Pouco meses depois, a editora co-dirigida por Wilson Gorj colocava no mercado de São Paulo o livro, cuja alma era resumida no texto de Letícia Monteiro, que aparece na orelha do livro. Ontem mesmo saiu uma resenha no site «Homo Literatus», pelo punho da escritora Vivian de Moraes (de quem me tornei amigo virtual). Eu sei que para quem se inicia no árduo labor literário, alcançar o reconhecimento, por muito que alguns artistas tentem minimizar o seu valor simbólico, é dos principais combustíveis. Ter sido editado e elogiado por um Luandino é uma recompensa enorme ao meu nível, sem falar do facto de ter merecido por duas vezes o convite e inclusão na revista literária semestral  "Di Versos - Poesia e Tradução", de José Marques, em Portugal, mas não me posso iludir. Sei que a nível interno, olhando para as reacções de académicos e vozes com autoridade, a minha produção poética ainda não suscitou uma única resenha, ensaio ou algo assim, o que deve reflectir, quiçá, estar atrás do grande salto. O que vem a seguir não sei. Por agora resta agradecer a todos e a cada um pela aposta, pelas sugestões e pelas críticas. Decidi e mantenho a ideia do planeamento familiar no que ao parto de livros respeita, depois de chegar a sete desde 2008. "Nós aqui só temos um lema: o nosso trabalho é trabalhar!" Gociante Patissa

Resenha crítica | ALMAS DE PORCELANA E UM CORAÇÃO ANGOLANO QUE CANTA A SUA PÁTRIA

Texto de Vivian Moraes, Brasil
in portal Homo Literatus"
A forte poesia de porcelana de Gociante Patissa chega ao Brasil 

quando não se tem direito
a ter medo do relento
só deus pode ser pai

Gociante Patissa é um poeta experimentado. Depois de oito livros lançados em seu país de origem, Angola, e também em Portugal, ele chega ao público brasileiro — com uma edição que compila seus principais conjuntos de poemas — pelas mãos da Editora Penalux.

O livro brasileiro é Almas de Porcelana (2016), o que já revela o quanto tem de forte (uma alma não se finda, segundo as religiões) e delicado (porcelana). Um ser que se vê no papel de poeta enfurecido pelos males que assolam seu país – Gociante nasceu em 1978, três anos depois da independência do jugo colonial português, mas a libertação viria a ser seguida por três décadas de guerra civil entre angolanos, findas somente em 2002 – , além de se constituir um autor que resgata a beleza estética no que é feio ou grotesco, ou simplesmente errado, como no poema África mãe Zunqueira:

Esta que se aproxima
carrega uma criança às costas
outra no ventre
uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa
lembrando que é hora de parar e amamentar
e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar
gestora de um ovário condenado a não parar
porque é património social
penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade

[…]

quinta-feira, 26 de maio de 2016

[Oficina] Crónica | Quem não tem dinheiro não vai ao Céu

Texto de Albano Epalanga
Lubango 25/05/2016
Sentado num dos bancos da Igreja, olhos fitos no altar como um telespectador atento, não me distraio e muito menos pisco os olhos, ao meu lado estava uma série de irmãs cujo comportamento dentro daquele lugar não era mais adequado, não era de espantar começando com os ultrajes que me fizeram cogitar comigo mesmo "será que confundiram igreja com passarel ou então a igreja é que se tornou uma passarel?"

Diário | Assim já queres ofender?

“Oi.”
“Oi.”
“Incomodo? Aqui é o teu amigo virtual “Batejá”. Se calhar não te lembras. Ainda falamos no mês passado. Sempre sigo o teu mural, gosto das tuas publicações, amiga.”
“Podes dizer, “Batejá”. Já nem me lembro. Como não tens foto nenhuma no teu facebook, é um pouco difícil lembrar…”
“Posso-te fazer uma crítica?”
“Podes. É sobre o quê?”
“Não é só contigo, mas acho que as nossas figuras públicas, personalidades assim da intelectualidade, são egoístas…”
“Pode ser. Mas estás a falar de quê?”
“É assim, eu até te acho uma maravilhosa artista plástica.”
“Ah, és apreciador de artes plásticas? Consegues interpretar a representação do mundo e do caos nas minhas expressões artística e semiótica?”
“Não. Nunca vi as tuas obras. Só costumo ouvir que és maravilhosa. Fico muito revoltado quando em situações como o filho da Doutora Felismina, Decana da faculdade Fotografia, que escapou violar a filha da doméstica dela, você não fala nada. Será que não ouviste? Ou a última exposição já te custou a consciência?”
“Ouvi, sim. Mas o que é que tem a mãe a ver com uma violação praticada pelo seu filho já maior de idade? Este ano ainda não emiti uma posição pública sobre violações. Aliás, e no teu mural também, se bem me lembro, não publicaste nada sobre o assunto.”
“Mas é diferente! Você é figura pública, tem mais obrigações de condenar. Falta coragem, isso sim! Na terra dos outros, artista plástica tem que impor a voz.”
“Sinto muito, pois até agora não preciso de autorização e ainda só publico de acordo com a minha consciência. Quando tenho de criticar, faço-o; não espero ordens.”
“Wô! Assim já queres ofender? Onde é que já se viu uma artista que só critica de vez em quando? Tenha mais é coragem, pá!”
“Mas tu é que andas no facebook sem cara nem nome nem morada, tens identidade completamente anónima, e eu é que tenho a falta de coragem?!”
Gociante Patissa. Benguela, 26 Maio 2016
www.angodebates.blogspot.com

(arquivo 2011) Nota solta: AMIZADES INUSITADAS

Veio ter connosco alguém a pedir ajuda porque a sua máquina fotográfica avariou, quando bem ansiava umas fotos em plena restinga do Lobito. Entendi usar a minha para o efeito, só que a tal pessoa também não tinha pendrive ou outro dispositivo qualquer de armazenamento de dados. A responsabilidade de levar ao vietnamita para impressão é vossa. "Não tem problema", destacou-se ela do grupo de três amigas, "não custa nada te fazer a obra de caridade de ir a Benguela para nos entregares as fotos." No dia seguinte me procurou e lhe passei fotos num CD, num encontro suficientemente breve.  Entre as várias perguntas "intragáveis" de que me lembre: Daqui ao Bocoio quantos quilómetros? E eu, 70 km. E essa pessoa: e de lá para cá? E eu, desculpa? Assim tu que nasceste em 1978 tens 33 anos, né? E eu, sim terei quando chegar Dezembro, o mês em que nasci. E essa pessoa: então quem nasceu em 1988 assim tem quantos anos? E eu: é questão de fazermos contas. Na manhã seguinte, um telefonema: como passaste a noite? E eu sem muitas palavras, bem e tu? Essa pessoa: passei com disenteria.
Acredite se quiser, caro leitor, cara leitora, mas uma pessoa ao menos não poderá duvidar minimamente, o Salomão, que esteve comigo.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Diário | A vítima mais é que tem a culpa?

(I)
“Doutora Felismina! Venha só ver. O que é que eu fiz para merecer isto???!!!”
“O que foi, doutora Ernestina, para tamanho alarido?”
“O seu filho, um matulão destes, que até leite do biberão dei, hã!, hoje vai pegar à força a minha filha?! E quando vou-lhe perguntar me responde com duas bofetadas?!”
“Mas a doutora Ernestina já viu a gravidade da acusação? Qual é o corpo de delito?”
“Repare, doutora Felismina, as escoriações no corpo da menina, a lingerie rebentada…”
“Credo! A doutora agora sente o monstro que pari, né? É isso! Quando eu batia no gajo ou ralhava, a doutora defendia, ‘ah não, não podemos muito apertar com os miúdos’. Que me perdoe Deus, mas não somos mães para passar a vida a limpar as cagadas, quer dizer desvarios, dos filhos. Está aí ele, é maior de idade. Faça o que achar correcto.”

(II)
 “Alô! É do 113? Preciso patrulheiro, é urgente!!! Tenho uma queixa. O senhor polícia está a ver o filho da doutora Felismina?” (…) “Ah, não conhece? Eu explico. É assim um pouco alto, músculo de pedreiro. Então não é que apanhei o gajo a violar a minha filha! Como mãe que sou, lhe chamei um nervo. E a resposta? Duas chapadas da minha cara. Pwá! Pwá! Isto assim é legal?” (…) “Onde fica a minha casa? Na casa da patroa! Moro no anexo atrás da casa.” (…) “O meu nome? Doutora Ernestina.” (…) “Como assim, ‘doutora é o seu nome?!’ Então, mas uma empregada doméstica não pode ter licenciatura, ó senhor agente? Desculpe-me lá, mas há cada pergunta!…

terça-feira, 24 de maio de 2016

OS ABSURDOS DO PROFESSOR DE EVP (crónica do livro «O Apito Que Não Se Ouviu», edição União dos Escritores Angolanos. 2015, pág. 58), a pedido da mana Reinalda Tchimbali

A folha de prova era o único laboratório funcional que algumas escolas possuíam. Foi assim que a escolaridade de muitos de nós ficou marcada, fosse química, biologia ou física. Cheguei a conhecer permanganato de potássio, só de ver à distância, uma espécie de comprimido escuro. Para que serve? Olha, já nem me lembro. Serve mesmo para quê?!

Conheço pessoas que tiveram de nota final vinte valores, a máxima que o sistema de ensino prevê, em programação de computadores na década de 1990. Obtiveram ricas médias no certificado e na defesa da tese de conclusão de curso no Instituto Médio Industrial de Benguela, sem que tivessem chegado a um metro sequer do aparelho. Como digo, era só teoria, que tinha como campo de ensaio a folha de prova. Agora que penso nisso, noto que o meu fascínio com a palavra não é de agora (tal como não é de agora a minha estrondosa fraqueza em contas).

EM BENGUELA: disponíveis na Livraria Sucam (ao lado do Bar Ferreira) e na Tabacaria Grilo (edifício do Mercado Municipal) EM LUANDA: disponíveis na rede Kero e na União dos Escritores Angolanos | (Crónicas em "O Apito Que Não Se Ouviu", 2015, e novela em "Não Tem Pernas O Tempo", 2013) Mil kwanzas o exemplar

Diário | Mas assim no cemitério não vão duvidar?

“Ó sócio, há um sentimento no meu peito que não estou a sentir só assim bem. Viste aquela notícia de mais de 300 poliangues nas ruas? Eh pá, acho que devíamos ainda dar uma pausa…”
“Relaxa, rapaz. Bebe ainda essa birra nova. O fabricante já pensou em nós mesmo, vamos fazer mbora mais como?”
“É, mô mano, galei mesmo bem, a gente ganha muito mal o nosso kumbú, yá?”
“Falaste, mo wí! Até as mboas nunca deviam só nos chular. É lixado o salo dum gajo.”
“Mas se não adiamos, então é deixar carta. Se o mambo der bum, a sociedade vai entender porque é que andamos a tramancar cubicos. É por uma boa causa. Esses poliangues balaziam mesmo a sério, meu. Olha, se poeramos durante a operação, com a carta, é igual a suicídio. E no suicídio, o morto é sempre compreendido.”
“Não fala assim! Suicídio é uma palavra negativa. Não é o nosso caso. Nós então somos mbora heróis, wé! Não é qualquer um que se mete na noite, só com um carregador de sete balas no calmante, faz assalto atrás de assalto e organiza mbora a vida, xé! Até uma vez galei num filme: ‘os piratas são iguais aos políticos, só que uns roubam protegidos pela coragem e os outros roubam protegidos pela lei.’ Gostaste?”
“Mas em cada missioneira, estamos sujeitos a morrer. À pedrada, à faca ou a tiro ou quê… Depois a minha mboa está pwã, tipo vai ser menino…”
“Mas assim esses anos todos que andamos nesta vida, você alguma vez já morreu?”

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Memórias de 2013 num dia como hoje

Numa entrevista televisiva em directo do Cine Kalunga a propósito do 396º aniversário da cidade de Benguela

Entrevistadora (uma pergunta aproximada a): "O que achas da mulher na sociedade actual?"
Convidada (aparentemente modelo/manequim): "É simpática e acolhedora."
Entrevistadora: O que tens a dizer sobre a mulher de Benguela?"
Convidada: "A mulher de Benguela é tudo."

Uma boa notícia para o turismo interno

Segundo a Rádio Nacional de Angola, já decorrem os trabalhos de reparação da estrada que liga as províncias de Benguela e Huíla, mais concretamente o troço que vai do Catengue ao Chongoroi. A empreitada está a cargo do Instituto de Estradas de Angola (Inea)

domingo, 22 de maio de 2016

Visor

Citação

"Continuo a sobreviver na área onde me sinto mais confortável para usar as palavras com a significação exacta que lhes pretendo atribuir."
(Maria Luísa Rogério, jornalista angolana, in Facebook)

(arquivo) Recordando ainda as lições com o velhote

O meu pai (que foi também militar, político e dirigente) dizia, na sua condição de patrão em uma parcela agrícola no Dombe-Grande na década de 1990, que se toda a vez que você visita a lavra, o camponês está sempre (literalmente) a trabalhar, é hora de considerar mandá-lo embora. O trabalhador honesto fica cansado e de vez em quando tem de ser encontrado a descansar; de contrário, mais não faz do que controlar os passos do patrão. Melhor do que o empenho está a honestidade.
www.angodebates.blogspot.com

sábado, 21 de maio de 2016

Diário | E quem é a fonte?

"Ora, cá está o sindicalista mais famoso da província!..."
"Famosa é a vossa digna casa."
"É, né? Seja bem-vindo. Olha que o nosso diferencial no panorama jornalístico e informativo está mesmo na abertura, isenção e pluralidade. É que aqui, censura não mora. Não é fácil neste nosso país com o passado histórico que temos, como imagina... Pronto, está ligado o microfone..."
"Mas preparam ao menos as entrevistas? Ultimamente as entrevistas são feitas a free style, e é em todos os órgãos de informação..."
"Bem, caro sindicalista, esta parte não posso publicar assim como disse..."
"Mas é a minha opinião!"
"Pode ser mal recebido. Mas entendo o que o senhor quis dizer. Vou escrever que o sindicalista defende maior cobertura das actividades reivindicativas, é isso?"
"Estou a dizer que o habitual é que convidam mas não se faz a mínima pesquisa do que o entrevistado faz, às vezes nem do nome dele sabem. E isso não é nada bom para a tradição de rigor que o jornalismo tinha."
"Mas, sabe? -- E isso falo como amigo, já não é na qualidade de jornalista -- É bom não criar anti-corpos, até mesmo porque a imprensa tem um poder que nem o amigo imagina."
"Isso quer dizer o quê?"

Citação

“O doutor coiso gosta muito. A pessoa ainda não acabou de explicar o que sente, ele já acabou de assinar a receita. Haka!”

sexta-feira, 20 de maio de 2016

[Oficina] Crónica | Cabinda e a mística da noite

Foto: JA imagens
Faziam-se dias e as mágoas hibernavam no canto suplicante do sentimento irrepreensível. Sentia-se a dureza dos dentes comendo-se na fricção do esmalte protetor.

A voz do sol avisava que a imprudência que a levou a desnudar em danças no Tchizo (nome de um monte local) faria dela progenitora da luz. Foi numa noite de comemorar a lua nova, onde saiu despregada do grupo que dançava Kintweni (dança típica da região) e se faz aos braços fortes de Franque Bueia, o jovem de olhos verdes cor da clorofila.

Diário | Com a minha sobrinha de quatro anos

"Vem brincar com o cabelo do tio. Vai vendo se tem caspa, ya?"
"Ó tio, vou trançar bobi e spirro, ouviste?"
"Está bem. Só não puxes com força, porque dói. Mas já sabes mesmo trançar cabelo?"
"Sei."
"Aprendeste com quem?"
"Já me nasceram assim. Ouve, ó tio, há pessoas que lhes nascem mesmo assim... já sabem trançar."
GP. Benguela, 18.05.2016

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Conto | Uma prenda demasiado profissional

Ó profissional, espera ainda! Gritava a mulher com alguma autoridade (ou ao menos determinação) na voz. Parei de imediato. E lá vinha ela de salientes ancas em natural coreografia. Na primeira vez que me chamaram por esta alcunha, Profissional, reagi com um certo congelamento, não sabendo se aceitava ou se rejeitava. E tive mesmo de ir a correr para o Dicionário, alcunha de um bar lá do bairro, onde professores e jornalistas gostavam de desfilar o peso de seus diplomas, regados com aguardente, vaidades e cerveja nacional, como se conseguissem pagar o que consumiam sem ser a crédito e no fim do mês. Profissional é quem vive do que faz, disse-me o primeiro. Fiquei na dúvida, dado o avançado estado de embriaguez do homem. Ora, meu caro, e disso sabe todo o gajo que um dia sentou diante de um bom professor, profissional é quem tem sofisticação no saber e nos meios para a tarefa que se propõe. E mal disse a última palavra, o segundo orador caiu em coma, pelo que fiquei sem saber se o levava a sério ou não. Aí, abordei o terceiro, dono de uma grande boca, todavia muito mal aproveitada, tão taciturno que era. Se calhar pouco perderia a mãe dele se parisse um mudo. Profissional é aquele que faz das técnicas a sua segunda natureza. Confuso, dei um soco na parede e acendi um cigarro. Porra, pá! Como é possível haver tantos tentáculos teoréticos sobre uma só palavra?

Lugares de cá (Baía Farta)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Back in time, winter 2010

[Oficina] Crónica | Afinal, João Bernardo é kinhungueiro

Foto: http://www.jornaldoestadoms.com/
Estrutura bastante para uma boa apresentação, o homem era completo, um bom partido para as bonitonas. Coisa rara só vista em passarelas. Ó meu Deus! O peito desenhado à medida dispensava palavras de convite feito aos desejos da mulherada para, no mínimo, um apalpar. Tão fofo, tão gostozinho, era sortudo nesta temática!

Pouco dado a amizades, bom dia ou boa tarde chegava. Quase não se misturava, talvez rejeitado pela insegurança masculina que se sentia ameaçada junto das namoradas e noivas que o abordavam.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Crónica | Quando se aprende mais com um só livro do que em seis meses de aulas

A minha passagem pelo Piaget atrás da licenciatura em sociologia foi mais ou menos uma colecção de traumas. O primeiro choque veio de um certo desrespeito que residia nas normas, principalmente aquela de não haver uma segunda oportunidade para quem perdesse uma prova (por maior que fosse a força do motivo). Se o estudante perdeu a primeira frequência, vai automaticamente ao recurso, na lógica da improbabilidade de conseguir 20 valores na segunda frequência e com isso a média 10.

Ora essa, como ficaria o meu direito à desordem?! Nunca na verdade fui um estudante disciplinado, nem acredito que vá a tempo de mudar. Se em plena sala de aulas apetece ir para a casa, pego em mim e vou-me embora. Pelo que tive mais tarde de desistir, com o receio de não concluir o curso nos cinco anos curriculares e envelhecer tentando.

Citação

"A inteligência é como a roupa interior; todos deveriam usar mas sem precisar de ostentar."
(De autor desconhecido)
www.angodebates.blogspot.com

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Crónica: Café De Suor E Morte (fragmentos)

Naquele ano os cafezais do norte tinham florido fora do comum. Os fazendeiros esfregavam as mãos de contentes, antevendo colheita abundante, com terreiros cheios de café cereja a secar, para meter a descasque.
(…)
Às sete horas da manhã de certo dia apareceu no terreiro de determinada roça uma mulherzinha com o filho às costas e levava na mão uma cabacinha de quissangua [refresco feito de fuba]. Dirigiu-se ao capataz do grupo das mulheres para lhe pedir dispensa do serviço nesse dia por ter o filhinho doente há mais de dois dias. O capataz negou-lhe a dispensa e marcou-lhe a tarefa habitual, de enchimento de uns tantos cestos de café cereja. A dureza com que a ordem foi dada não permitiu recusa da mulher habituada como outras a ver como eram tratadas em caso de desobediência. Com o filho a escaldar em febre, manteve-o nas costas e foi colhendo bagos com maior ligeireza, na tentativa de abreviar o tempo da empreitada. As horas correram. De vez em quando desapertava o pano de pintado para verificar o estado da criança que amolentada, respirava custosamente pela boca. Retomou a tarefa. Seriam cerca de treze horas quando, de novo, desamarrou o pano. Puxou o pequerrucho para o peito. Tinha os bracinhos descaídos, os olhinhos semicerrados, a boca entreaberta, o corpo inerte e frio. Tinha sido levado pela morte. E aquela mãe ao descobrir que fora despojada do ente querido das suas entranhas, entrou em pranto próprio da mulher africana que, quando dorida, não tem as pragmáticas dos chamados civilizados como se para enfrentar a dor humana seja preciso estudar pelos códigos da etiqueta e civilidade. Aquela mãe estrebuchou pelo chão e as companheiras de trabalho, ao ouvi-la chorar, correram em seu socorro. E o pranto contagiante estendeu-se a todas aquelas mulheres, mães também, servindo à força naquelas plantações de café de suor, dor e morte.

Só o capataz preto, industriado para sacrificar seus irmãos de cor em benefício do capitalista, se manteve insensível à desgraça em que tinha quota parte. Boçal com alma de escravo, não passava de pau-mandado naquela triste época em que os paus-mandados tanto podiam ser pretos analfabetos como brancos componentes da rede administrativa a impor trabalho sem horário com salário de fome.

Raul David, 1989, pág. 55. In «Crónicas de Ontem – para ouvir e contar». União Dos Escritores Angolanos. Luanda, Angola.

Citação

"O exotismo, como culto pelo pitoresco, visando reter tudo o que é curioso e bizarro nos outros, pode transformar-se em ETNOCENTRISMO, quando é acompanhado por uma atitude desvalorizadora a respeito dos outros e em RACISMO quando produz rejeição e hostilidade"
Claude Rivière, in "Introdução À Antropologia", 2011, p. 14. Edições 70, LDA. Lisboa, Portugal

Memórias de há seis anos flutuando pelos EUA. À parte a chatice dos vistos e excessivo aparato fronteiriço, viajar e ler o mundo fora da nossa zona de conforto sabe bem. Wish I could fly away

domingo, 15 de maio de 2016

Just another question

Este gesto do Dr Gildo Matias em levar uns três calhamaços (livros do tamanho de um tijolo) à mesa de dabate na Tv Zimbo para um espaço a quente e com tão pouco ou quase tempo nenhum para ler, assim é para quê só?! Se fosse lá na condição de alfaiate, por exemplo, levaria a máquina de costura? Ou como camponês o saco de adubos? Ainda era só isso. Obrigado 
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Just a question

Quem acompanha a imprensa angolana no que respeita aos fazedores de opinião especializada no ramo da economia acaba inevitavelmente construindo uma imagem positiva das capacidades do presidente da AIA (Associação Industrial de Angola), José Severino. Tem bagagem, sentido apurado de comunicabilidade e diríamos até alguma fotogenia. Talvez por isso tenha uma frequência tão quase diária nos espaços noticiosos. O que não deixa de constituir uma dúvida, tendo em conta que as instituições são entes colectivos, é o seguinte: não haverá na AIA outras vozes/rostos para também se fazerem representar de vez em quando no espaço mediático? Ainda era só isso. Obrigado 
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Nota solta | E se promovêssemos mais o intelecto e o valor interior do que o culto ao corpo?

Há muito que apetecia dizer as palavras que se seguem, vindas do cidadão benguelense Angélico Bonfim sobre os cíclicos casos e descasos em concursos de misses, em jeito de comentário no mural do jornalista Zé Manel:

"Acabem já com esta farsa. Que falta faz isso a sociedade, com problemas mil para resolver, como sendo, saúde, saneamento, educação,  energia, água, para não dizer mais? Benguela jamais morrerá, se não tiver miss. É sempre a mesma coisa."

Independentemente de estarem em causa balbúrdios privados, o certo é que os concursos de miss pouco ou nada acrescentam em termos de valores. Quanto mais não seja, pelas denúncias que volta e meia surgem do terreno movediço que são os seus bastidores, onde as raparigas, depois terem "esfregado as curvas" em passarela aos olhos de endinheirados e poderosos, acabam sendo presas sexuais, quando organização e proxenetismo se vestem da mesma pele. A lista é longa, bastando por agora recordar as mais recentes e aparentemente ingénuas declarações da miss Angola vigente que diria qualquer coisa como "a miss é sempre tentada, mas ela só fica com o patrocinador se quiser."

E se os altruístas patrocinadores pensassem em valorizar outras belezas mais sustentáveis e viradas para o desenvolvimento colectivo, tais como bolsas de estudo ou projectos de educação sanitária? 

Para suavizar eventuais susceptibilidades lesadas, recordo um poema meu, publicado em 2008 no livro Consulado do Vazio:
_________
SONHOS DE RUA

No dia de São Valentim
vou apanhar flores
e guardá-las bem perto de mim
debaixo do meu banco de jardim
e tenho a certeza que logo à noite
a morena miss dos meus sonhos
a sua prenda virá reclamar
sou criança de rua
mas tenho o sonho
na conta do que a sorte me negar.
_____
Gociante Patissa. Benguela, 15 Maio 2016
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Vai um copo?

sábado, 14 de maio de 2016

Contributos toponímicos

A propósito dos 396 anos que a cidade de Benguela completa no próximo dia 17 de Maio, o Jornal Cultura de 13 a 26 de Maio de 2013 traz um interessante ensaio do historiador, escritor e editor Armindo Jaime Gomes (ArJaGo), do qual partilho o trecho que tem que ver com a origem do nome:

“Do étimo mbenga, Benguela é corruptela do verbo “okuvenga” da língua umbundu; okuvengela (sujar) / okumbengela ovava (sujar-me a água), relativamente às águas estagnadas e em língua portuguesa é entendido como turvar, turvar-se, perturbar, alterar, transtornar, escurecer, embaciar, nublar, enuvear (Pe. Alves, A., 1951). Evoluído de “mbengela”, a toponímia passou asignificar perda de transparência, de limpidez, de clareza, perturbação, fazer perder a razão, cobrir o céu de nuvens, situação confusa, indefinição (op. cit.). Apesar de fazer parte da onomástica planáltica, a exemplo de Katombela, Mbaka, Kakonda, Civangulula, etc., a versão popular admite que o topónimo tenha resultado da distorção linguística nos primeiros contactos entre os portugueses e ambwi. Em vez do nome da região que se pretendia saber, os intrusos receberam a justificação da turvês das águas lacustres e fluviais.”

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Emoção!!!

Acabo de levantar nos Correios de Benguela os 20 exemplares a que tenho direito como autor de "ALMAS DE PORCELANA", poesia reunida deGociante Patissa, com edição e custos próprios da editora brasileira PENALUX, com sede em São Paulo. Agradecimentos aos ilustres Tonho França e Wilson Gorj por me terem identificado e tratado com o mais elevado profissionalismo e rapidez. Os correios merecem também nota positiva, pois não foram necessários os habituais dois meses que correspondem normalmente ao tempo de espera para encomendas vindas do outro lado do atlântico. Como bem traduz a reacção da balconista ao meu elogio, "Os correios melhoraram muito!"
Da minha parte, prevalece a palavra de ordem do personagem Investigador-comandante, do conto A Morte da Albina, do livro A Última Ouvinte: "nós aqui só temos um lema: O Nosso Trabalho é Trabalhar!"

Diário | Ainda não ouviste que agora sou tio de alguém?

(I)
“Quem mais que está ligar? É aquele sobrinho da província, chato… Alô!”
“Alô, tio, muito teeeempo!!!
“Ah, sobrinho! É como a vida na província?! Assim já sei. Você quando liga, é apoio na escola… Ó filho, quer ser doutor até quando afinal?! Arranja um ofício, varre as ruas, faz negócio, qualquer coisa, pá. Estudo já chega!”
“Ah, pois, tio. A escola por acaso já concluí. Telefono para saber da tia, ouvi que está doente.”
“Não se preocupe, a tua tia já não melhora nesta encarnação. Mas você ainda continua no meio de papéis como cabrito? Isso você acha que é futuro de um macho?”
“O tio também… Ah, mas não. O tio já sabe que a província tem um município novo?”
“Ai, a nossa província engordou?”
“Eu fui nomeado há um ano. Sou o Administrador adjunto do município novo…”
“Não fala isso! Eu sabia! Sempre falei: este meu sobrinho cheio de salitre, cabelo nunca viu pente até parece é pele de ovelha, magro como a caneta, é só livros e mais livros no sovaco, um dia será doutor. Está aí! Você é ALGUÉM, sobrinho! Pronto, desliga, até estou a tremer.… Ó mulher, dá cá ainda um copo de cisangwa. Aliás, cisangwa mais não. Só vinho. Ainda não ouviste que eu agora sou tio de alguém?…”

(II)
“Alô, doutor!”
“Viva, tio! Mas, por favor, chama-me mesmo pelo nome; isso de doutor eu dispenso.”
“Então, posso ir ali fazer uma visita de molhar o cargo, não é?”
“Sim, tio. Pode vir amanhã, é só apanhar o autocarro executivo inter-provincial, eu pago aqui.”
“Mas, ó marido, vais passear ou vamos?”
“Vamos com quem?! Eu vou em visita protocolar, e não fica bem levar companhia.”

(III)
“Alô, sobrinho! Já chegamos. Estamos aqui mesmo no terminal dos autocarros.”
“Ok, tio, já aí vou.”
“A viagem correu bem?”
“Oh, doutor, quer dizer, sobrinho!, autocarro executivo é grande categoria! Vim a dormir.”
“Então, mas e este outro senhor?”
“Ah, é meu amigo. Jogamos juntos a bola na primária, começamos a namorar juntos. Veio comigo passear. Sabes como é que é…”

(IV)
“Dá licença! Bom dia. Mais-velho, acorda! Comecem a fazer as malas!”
“Mas quem é você para me acordar?! Não sabes que somos visitas protocolares?!”
“Eu sou do protocolo! O chefe deu ordem: fazer as malas e voltar no autocarro das 05h30…”
“Mas nós chegamos ontem à noitinha. Eu sou tio do chefe, ouviu bem?! Vou ligar para ele (...) Alô, doutor! Aqui é o teu tio. Um dos nossos subordinados ficou maluco…”
“Não, tio, não está maluco. Madruguei para visitar comunas distantes. Eu convidei o tio para me visitar. Eu ficaria com a sopa e o tio com o prato principal. Agora, se acha que traz os amigos, espera até eu ter a minha casa. Eu vivo na casa do Estado, não é para festanças.”
“Mas então você é chefe no governo para quê?! Se temos um pouco, não podemos mostrar?!”
Gociante Patissa. Benguela, 11 Maio 2016
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terça-feira, 10 de maio de 2016

Uma amostra do livro de crónicas «O Apito Que Não Se Ouviu» | O PAPEL DO MULTICAIXA NA PREVENÇÃO DE CONFLITOS (*)

Benguela, cidade, anda movimentada, como devia aliás andar, a caminho de trezentos e noventa e seis anos de existência. É evidente que a data oficial está longe de ser consensual, havendo intelectuais que se indignam por entenderem que, em cada dia dezassete de Maio, festejamos a vitória militar do invasor colonial português, representado por Cerveira Pereira, sobre os nossos antepassados, autóctones Bantu.

Janota, conhecido por doutor muito antes até de tirar a licenciatura, procurava preencher o vazio que tem sido a sua cama, desde que a esposa viajou para a China. Por muito que gostasse e bebesse de filosofia, estava difícil o jejum (devo usar uma linguagem mais ou menos sóbria, já que tenho sobrinhos menores seguindo-me no Facebook). Vai daí que Janota deu um salto ali para as bandas da Sé Catedral, onde se diz haver um bordel. Assim como ao lado de cada direito anda o respectivo dever, pureza e fé têm sempre uma tentação à perna.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

NÃO TEM PERNAS O TEMPO | Disponível na livraria Sucam em Benguela, na rede Kero e na União dos Escritores Angolanos, em Luanda. Mil kwanzas o exemplar

Perdido e Veremos lamentavam-se, ignorando que os funcionários públicos coleccionavam meses de salários em atraso. Os camponeses de subsistência arriscavam o pouco tutano, mas lá vinham os ladrões, quantas vezes mais robustos, colhendo com pás o que um dia se cultivou com enxadas. A fome nunca foi boa professora de ética nem de estética.

Veremos e Perdido recorriam à combinação dos instintos da criatividade gastronómica e nutricionismo. Aos domingos de tarde, quando havia pouco movimento nas lavras, carregavam na pasta diplomática uma frigideira e palitos de fósforos. Aleatoriamente escolhiam uma lavra, onde faziam pipoca de sementes de girassol ou de bagos de quiabo, estes últimos rijos como os próprios dentes.
(…)
Depois surgiram as cozinhas humanitárias do PAM, que chegaram a ser o céu de muitas famílias. O problema é que as filas eram muito longas, e mutilado fica cansado de tanto aguardar com uma só perna. Perdido tinha que partilhar o pouco que recebia, sem esquecer que, pela ordem alfabética, até chamarem os da letra P, a papa chegava já fria.
(…)
Como se isso fosse pouco, havia esporadicamente cadáveres à beira da estrada, aguardando pela intervenção dos serviços comunitários e o tractor de recolha. À primeira vista, havia mais vida em cadáver do que no homem da recolha. Certo dia, António Veremos e Grito Perdido decidiram forçar um encontro com o Delegado Provincial da Secretaria de Estado para os Antigos Combatentes e Veteranos de Guerra. 
(…)
Postos lá, e após várias horas pressionando a secretária em como não deixariam para outra altura, o Delegado recebeu-os de pé, a despachar, no corredor. O anfitrião era kambuta, de uma barriga que teimava em esticar a balalaica, vinco de gume nas calças, sapatos quadrados bem reluzentes, risco no penteado, pente no bolso da camisa, enfim. E saltava à vista o brilho oleoso no rosto do mwata, indicador de que a vida lhe corria bem. O Delegado pediu mais paciência, havia coisas mais urgentes do que a preocupação de dois indivíduos, pois atendia os nove municípios da província. Perdido e Veremos exibiram passaportes de disponibilidade, deixando claro que se tratava de ex-combatentes.
— Meus camaradas, tropa nós todos fomos! Já disse para ter paciência, o processo vai correr os trâmites administrativos normais, o tempo que levar.
(…)
— Mas, senhor Delegado, uma vez que estamos aqui, não podíamos falar já do assunto? — Perdido contestou.
— Delegado, nós viemos de comboio do Lobito, tem que pensar nisso… — António Veremos acrescentou.
— Alto aí! Tu não me mandas, eu sou superior hierárquico! Aliás, vê-se bem que nunca foste tropa mazé, senão batias a pala antes de me dirigires a palavra. Não entendes de disciplina militar e me apareces aqui com passe de desmobilizado de gabinete?
Veremos olhava o Delegado e via as infernais troças de Zé do Norte. E ali, — tomas! tomas! tomas! tomas! — quatro valentes muletadas da cabeça. Quando a guarnição entrou, já o chefe estava desmaiado, a sangrar. O agressor era levado à cadeia.

Gociante Patissa, in «Não Tem Pernas o Tempo», União dos Escritores Angolanos. Luanda, 2013