PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sábado, 31 de dezembro de 2016

Advertência

Parece que esta noite, graças ao esforço do executivo, vamos ter um ano novo. De facto é uma mais-valia. Agora se faz favor, encontrem-me em 2017. Ainda era só isso. Obrigado
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Para fechar oano 2016, que não foi de todo cócegas, partilhamos com amigos e amigas três anedotas que recolhemos na aldeia global sem a identificação do autor.

1.     UMA FORMIGA A PASSAR A LINHA DO COMBOIO entala um pé, depois de um esforço e a ver o comboio aproximar-se desiste e diz:
- Que se lixe, se descarrilar, descarrilou ...
2.     GAROTO À PROFESSORA:
- Não quero alarmá-la, mas o meu pai diz que se as minhas notas não melhorarem, alguém vai levar uma sova!
3.     DOIS VELHINHOS NA CONVERSA:
- Você prefere sexo ou o Natal?
- Sexo, claro! Natal há todos os anos, enjoa.
.....
Da nossa parte, ainda era só isso. Obrigado. Até para o ano. Boas entradas. Cumpra-se. Assina: Sua excelência eu.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Humor | Os tomates frios...

Três esposas estão a conversar sobre os seus maridos, e a primeira diz:
– Os testículos do meu Manel são frios!!
A segunda diz:
– Os do meu Xico também são frios!!
A terceira diz:
– Por acaso nunca reparei isso no meu marido. Hoje à noite vou ver e amanhã conto-vos.

No dia seguinte a mulher aparece toda roxa, magoada, sem dentes e com um braço partido. As amigas então perguntam:
– Maria, o que te aconteceu?!

Ela diz:
– Ontem à noite meti a mão nos tomatesdo meu marido e disse-lhe: “Que estranho, os teus estão quentes, os do Manel e do Xico são frios!”

Não vi mais nada, acordei no hospital.

* De autor desconhecido.

(arquivo) Diário | FALA JÁ: MAS PERDOAS OU NÃO?!

“Ouve, vizinho! Eu vim a bem. Estou aqui para falar contigo, porque, é assim… na igreja, falaram uma coisa que até agora não consigo dormir bom sono.”
“Outra vez, vizinha?! Mas você não me deixa só em paz porquê?”
“É mesmo a paz que me trouxe, homem! Falaram tudo o que não está perdoado na face da Terra, no céu também não. Se eu morrer amanhã, não tenho direito ao paraíso.”
“Isso é problema teu!”
“Problema meu? Disseste quê?! O vizinho está a brincar comigo. Só pode!”
“Não, é engraçado que não estou. As feridas que me ofereceste ainda não curaram. Volta quando eu tirar o gesso e continuamos esta conversa.”
“Esperar mais o quê?! Mas o vizinho não ouviu aquele jovem na televisão, hã, português já não é português na ponta da língua, engravatado, que falou que o limite de vida do angolano é só 46 anos? Com 50 anos nos cornos, você pensa que estamos a comer para crescer mais? Estamos mais é a viver para morrer. Fica já saber!”
“O gesso sai daqui a 45 dias. Nessa altura você aparece e te digo se já estou em condições de falar de perdão, ou não.”
“E se eu cair amanhã aí na rua, atropelada como um cão? Já viste o risco de perder o reino dos céus, só porque o torto do meu vizinho não me quer perdoar? Afinal esta tortice vai-te levar aonde? É por essa coisa de complicar já muito que se lutamos…”
“Desculpa, não lutamos. Com mulher não luto. Foi mais uma agressão histérica tua. E porquê? Por ter dito que não era correcto a vizinha levar para a casa um vaso de flores que todos os vizinhos contribuíram para enfeitar a rua no dia de Natal”.
“Eu só levei porque não tinha árvore de Natal em casa… Aliás, mesmo até desde que plantamos a árvore no vaso, como eu até era a pessoa que mais regava… né?”
“Sim, mas a ideia não era essa. O que é de todos deve ser decidido por todos.”
“Eu também, se tivesse marido que me comprasse árvore de Natal, não ia levar para casa o vaso… mesmo a minha prima, que mora noutro bairro, também construiu quintal e cercou o chafariz do bairro em casa. Como é solteira, ninguém lhe chateou. O vizinho já como é que tem boca comprida, viu que sou mulher, queria se meter comigo. Você pensa que a tal mulherice está espalhada em todo o corpo ou quê? Eu te parto os cornos, ouviu? Agora estás ali com o braço no gesso.”
“Vizinha, agora, se faz favor, vai tomar banho, que eu vou descansar, ya?”
“Mas é preciso ressuscitar Mahatma Gandhi para o vizinho entender? Já naquele tempo ele dizia que o perdão é dos fortes, os fracos não sabem perdoar.”
“Ah, também chegaste a agredir o coitado do Mahatma Gandhi?”
“Eu já falei, vizinho. A bem ou a mal, vais ter que me perdoar. Se for necessário vou lutar outra vez contigo. Daqui é que não saio sem perdão. Fala já: mas perdoas ou não?!”
Gociante Patissa. Benguela, 30.12.15
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(Do baú) Outubro de 2005, província do Huambo

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Crónica | Devolvida à noite

A vivência do homem resumia-se a umas quantas ruas, a da escola, a do serviço, a das refeições em casa da mãe. Esta última saía-lhe agridoce, por serpentear entre o hospital e a casa mortuária e, como tal, o embaraço em tomar por rotina o contacto com pesares alheios — confundindo-se a origem de pesadelos esporádicos, entre o caminho ou algum prato indigesto.

O ciclo do dia fechava-se faltando poucas horas para o outro. Visto do seu relevo, tudo o resto ficava a norte, noutra margem do século. No dia seguinte, estava outra vez a vida a imitar-se a si própria, nos mesmos caminhos e desencontros. Sorte era não ter de quem se esconder, já que «ofeka yinene ño nda okasi mo lesunga.» (o país só é grande se levas a vida com justiça).

Numa qualquer noite, ia ele a conduzir devagarinho, o que bem podia ser atribuído à digestão, se não à chatice que era ir para a cama com a bomba de embraiagem na cabeça, agendada que estava a oficina para as primeiras horas da manhã. Quando a amizade com o mecânico aumenta, está na hora de nos desfazermos do carro.

Sobre a rotunda do Kulinji, estava uma mulher de dedo em riste, trajo de festa, em dia normal de serviço. Não devia ter mais de vinte e cinco anos. Parecia ter pressa. Não parecia, tinha mesmo! O homem pára, ela ocupa de imediato o assento do morto. «Obrigada, moço! Vamos», apela, como se estivesse a ser perseguida. São dez da noite. A aflição da rapariga, revelada em fracção de segundos, deixa o homem perplexo, pois contrastava com a harmonia que se auferia do lugar.

«De onde vens? Aonde vais?», indaga, como que a ganhar a dimensão real da situação em que acabava envolvido. «Fui atacada há pouco por um maluco. Fomos se esconder numa casa, mas mesmo assim…» Um olhar dos pés à cabeça é inevitável. Tudo muito aprumado, para quem andou a correr. «Maluco, como? Desses sujos, ou alguém que se portava mal?», ainda o motorista inconformado. «Maluco mesmo! Sorte foi a polícia. Pulamos o muro e fugimos. Meu Deus! Nem sei onde está a minha amiga…» O homem disfarça a estranheza, pois os dois agentes na rotunda eram reguladores de trânsito, quando a unidade de antimotins ficava perto dali. Que alvoroço seria tão invisível?

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

(arquivo) Oratura | KAPALANDANDA, UM HERÓI INJUSTAMENTE ESQUECIDO?


1. NOTA PRÉVIA

Você já ouviu a expressão «no tempo do Caprandanda?» É provável que sim, apesar do seu erro crónico. O correcto seria grafar Kapalandanda, pois não temos «R» na língua Umbundu, ao passo que o «C» é pronunciado [t∫i], e como tal diferente de «K».

Como veremos mais adiante, a história de Angola pode estar a cometer uma injustiça por omissão, relativamente ao papel heróico da figura do sul que atende pelo nome de Kapalandanda. A dúvida académica que fica é: que critérios foram usados para enaltecer Mandume, Lueji, Njinga, Ekwikwi e entretanto nada se dizer oficialmente de Kapalandanda? É que para além de ser personagem de um tema de evocação no cancioneiro Umbundu, de si muito explorado até 1991 enquanto trilha sonora pela Vorgan [Voz da Resistência do Galo Negro], rádio da Unita [então forças rebeldes na guerrilha], pouco ou nada da figura de Kapalandanda se passava de geração em geração.

A minha adolescência foi marcada por um quadro complexo no Lobito, onde a residência se confundia com dependências das administrações comunais da Equimina e Kalahanga (não ao mesmo tempo). Como a circulação de pessoas e bens era mediante guias de marcha, “trabalhei” como dactilógrafo do meu pai, na sua condição de Comissário e/ou Administrador Comunal, mas sobretudo como pombo-correio da correspondência familiar entre Lobito, Catumbela e Benguela, na maioria destes casos até… a pé.

A exposição à propaganda despertou cedo o meu interesse de observador da política (talvez se deva a isso o facto de me ser hoje inócua). Evidentemente, havia parentes que (às escondidas) não alinhavam com o Mpla. Estamos a falar entre 1988 e 1991. Calhava encontrar este ou aquele a ouvir a Vorgan, com o volume baixinho. A trilha sonora dizia: «Kapalandanda walila / walilila ofeka yaye/ kapalandanda walila /eh/ walilila ofeka yaye»  (Kapalandanda chorou / chorou pela sua Terra/ Kapalandanda chorou / oh/ chorou pela sua Terra). Mas quem foi ele e chorou porquê? GP

2. AGORA O PERFIL DE KAPALANDANDA E SUAS FAÇANHAS:

Reproduzimos a seguir, com pequena adaptação do blog www.ombembwa.blogspot.com, o valioso contributo de Carlos Duarte, publicado no «Jornal o Chá», da Chá de Caxinde, Nº 10 - 2ª série, Luanda, Abril/Maio 2014:

«Kapalandanda era sobrinho do Soba Kulembe, da Catumbela. Ia ser Soba. Agiu de 1874-1886. Adolescente, ganhou fama por ter morto sozinho um leopardo que andava a comer as cabras (…) Ainda jovem, inconformado com a passagem e estadia de caravanas de (…) comércio, levando panos e sal para o Huambo – Bailundos – e trazendo borracha, cera, mel e marfim – sem pagamento, pediu uma audiência ao Soba, seu tio, e aos sekulus, onde tentou convencê-los a que fosse cobrada uma taxa – «Onepa» - a essas caravanas. O Soba, acomodado e com medo da reação dos colonos, não concordou. Kapalandanda então reuniu um grupo de guerreiros e foi para o mato, armar emboscadas e assaltar as caravanas, cujo produto, confiscado, era em parte distribuído pelos kimbos do sobado.

"Terminar é tão ruim / Por quê tem que ser assim? / Acabar para amanhã chorar / E não querer mais voltar amar" (Matias Damásio)

domingo, 25 de dezembro de 2016

Crónica | Publicidade não tem hora nem idade certa (*)

Riram-se dele, como nunca se devia rir à custa de ninguém. Ele, a muito custo, não soltou disparate algum.


E foram-se rindo, de tal forma que parecia nunca mais terminar. Ele, só raiva no peito. Era um dia com tudo a correr muito bem no quintal. Os mais-velhos, como sempre para celebrar a vida, andavam embalados naquele dialéctico lamentar por isto e aquilo, ladainhas que retiram do foco qualquer mais-novo ali presente. Não é que um olhar fora de mão foi logo espreitar pelo intervalo entre a carne e o tecido dos calções do rapaz?! Pronto, acabou vendo o que não esperava. Lá estava o que devia estar… e o que não devia também. Uma camisinha envolvendo o instrumento do menino de oito anos apenas. Não se via bem com que adereço mais se prendia o insólito, dada a diferença cronológica entre os diâmetros do homem e da borracha. Mas, também, até aí, não é olhar demais?

«Use a camisinha», vive repetindo a máquina da propaganda, muitas vezes lacónica demais para se lembrar de dizer como e quando. «Use». A publicidade não tem hora nem idade certas. Logo, porquê a chacota, se o rapaz estava apenas a usar como muitas vezes ouve?

Para os demais, era com certeza uma iniciativa precipitada e longe do previsto pela máquina da propaganda. Perguntar, que é bom, nada. Talvez com algum tabu implícito. Só depois de se cansarem de tanta consumição se aperceberam de que não se tratava de brincadeira, antes de uma solução para não fazer xixi na cama.

Quer dizer, se um gajo faz xixi na cama, riem-se. Se passa dia e noite com camisinha, como forma de evitar os raspanetes, riem-se. É chato ser-se puto, não é?!

Bairro da Santa Cruz, Lobito, 1 Fevereiro 2012

Gociante Patissa, 25 Maio 2013. In «O Apito Que Não Se Ouviu», 2015. Pág. 41. União dos Escritores Angolanos. 1.ª Edição. Luanda, Angola . 2015 Colecção: «Sete Egos»
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(*) livro de crónicas disponível na Livraria Sucam e na Tabacaria Grilo, em Benguela, ou na sede da União dos Escritores Angolanos, em Luanda, sita no Largo das Escolas. Mil Kwanzas o exemplar

De autoria e origem não identificadas

sábado, 24 de dezembro de 2016

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Fotos de parir livros?

Primeiro captei esta fotografia na comuna do Dombe Grande, que intitulei O
HOMEM QUE PLANTAVA AVES. Depois, com base no título, escrevi um conto que saiu na Antologia Angola 40 anos | 40 Contos | 40 Autores, editada pela Mayamba em 2015. Não se ficando por isso, a ideia sofreria uma adaptação para dar lugar a O MOÇO QUE PLANTAVA AVES, que é para já o título da colectânea de 14 contos de sua excelência eu que possivelmente será publicada no Brasil no ano que vem, por uma chancela paulista. Pelo que literariamente falando, anuncio ter traído a decisão do planeamento familiar durante mesmo a presença na Feira Internacional do Livro de Franfurt (Alemanha), donde recebi o desafio para mais um rebento poroseado (depois do êxito na poesia) em  prol da internacionalização. Portanto, mba estou grávido e o pai é esta fotografia. Haka! Ainda era só isso. Obrigado
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Divagações | TPA Benguela com nova direcção e o meu abraço repartido entre quem sai e quem fica

Gostaria de apresentar os devidos parabéns ao jornalista Ladislau Fortunato, pela nomeação a Delegado/Director da Televisão Pública de Angola na província de Benguela, conforme acabo de tomar conhecimento nas redes sociais, sem que no entanto tal gesto represente desmerecer o seu antecessor, o jornalista Florencio Andre, de quem como pessoa e como fazedor de arte sou grato pela atenção especial que ao meu trabalho foi dedicada, através das oportunidades e/ou coberturas aos eventos (lançamentos de livros), bem como os convites que me foram formulados para os espaços informativos/opinativos.

Por outro lado, estou igualmente ligado ao Ladislau pelo vínculo de gratidão, pois, como tenho feito já público, a descoberta das minhas inclinações para a literatura e para a comunicação social foi revelada depois que fui abordado na Catumbela quando vinha da escola, no distante ano de 1995, por uma equipa de reportagem do então programa infanto-juvenil "Comboio da Amizade", na altura realizado pelo jovem que atendia pelo carinhoso nome de Beto (o Lau de hoje), programa ao qual cheguei a produzir e gravar (com a mão protectora da apresentadora Anaína Lourenço) entre 1996-1997 umas três reportagens enquanto estagiário da rubrica desportiva (uma com a equipa de andebol do Electro do Lobito, outra com os karatekas do Estrela Clube primeiro de Maio e mais uma que me escapa à memória).

Passo intencionalmente ao lado do contexto de crispações e incompatibilidades (conforme transpirou nos textos pelos quais soube da novidade), ambiente "carregado" cujos contornos volta e meia saltam do edifício para a opinião pública, o que para já não é algo novo. Quem como eu presenciou, por exemplo, a assembleia (de funcionários e colaboradores) em que se consumou a exoneração de Laurindo Lopes, o então super-delegado da TPA Benguela, substituído por António Estêvão, vindo de Luanda, no período acima referido, recorda bem o clima de quase enxovalhamento no discurso do então Director Geral da TPA, Carlos Cunha, que por sua vez não poupou quem tentasse afiançar o "chefe" caído em desgraça.
Ainda era só isso. Obrigado.
Gociante Patissa, Benguela, 22 Dezembro 2016

Recebida sem identificação do autor da foto e legenda

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A parecer, a parecer...

Parece que daqui em diante, pedir namoro só mesmo mediante exibição do cartão de eleitor. Quando é lei, é lei. Ainda era só isso. Obrigado 
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(arquivo) A Sociolinguística do pão

Uma das coisas que marcaram a minha escolaridade foi a observação dos fenómenos sociais ao longo da caminhada entre a casa e a escola, cujo campo equivalia aos cerca de 15 km diários a pé. E foi a estudar na Catumbela que muitas vezes reparávamos como nossos colegas não abandonavam as filas da padaria, mesmo que em causa estivesse o horário das aulas. Não se imaginava, creio, um dia bom que não começasse por degustar o bíblico produto da farinha de trigo. Se hoje já há uma vasta oferta, com a substituição de fornos à lenha pelos eléctricos, nem por isso se afectou a hegemonia do pão. A tendência das crianças, por exemplo no litoral de Benguela, é classificar matabicho (entenda-se pequeno almoço em Portugal, café da manhã no Brasil) o pão, com chá ou com leite. De manhã, ouvimos crianças dizerem que não matabicharam; só comeram papa, ou arroz de ontem. Anteontem, outro exemplo, um menino que voltava da casa da madrinha às 19 horas disse que tinha acabado de matabichar, quando na verdade jantou foi leite com... pão.
Gociante Patissa, Benguela 21.12.13

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Conto | NO REINO DOS RASCUNHOS

O velho estava velho, muito velho, logo doente. Para ser confirmado inerte, só lhe faltava parar o fôlego. Vendo bem, aquilo até podia ter outro nome, respirar é que não era.
Humilhante o que a velhice faz! É que a pessoa já não é pessoa… Onde é que já se viu um rei que usa bacio?! Até em aldeias frequentadas por tigres, hienas e leões, os homens fazem as necessidades longe dos olhos da família: ou atrás da montanha, ou protegidos pela noite. Mas o caso dele era pior, já que desapertava mesmo nas calças, logo um soberano… A sorte era ter bonsvasekulu-vonjango[1] e akwenje-velombe[2] que sustentavam as aparências.
Um ano naquela situação, era inevitável a substituição. E o herdeiro tinha de ser alguém com ligação consanguínea ao soberano, seguindo os paradigmas do poder real. Havendo descendentes, a cadeira não passa para outra família. Ora, tendo filhos machos, estava fora de questão cooptar um sobrinho da linhagem matrilinear, que alguns costumam julgar mais legítimo do que o próprio filho, na desconfiança de que só a mulher conhece em bom rigor o verdadeiro autor da gravidez (mas é melhor não irmos por aí, que isso é maka para outros contos que não este).
O soberano tinha três lares e um bom número de filhos mas, na hora de sondar o sucessor, foi prioridade a casa mais-velha, a da primeira mulher. Teoricamente fácil, mas difícil na prática, pois havia dois filhos varões com a mesma idade, porque gémeos. Normalmente, é mais-velho o que sair primeiro, e ganha o nome de Njamba[3]; o segundo é Hosi[4]; o terceiro, caso se chegue a tanto, é Ngeve[5]. Costuma-se contar com a perícia da mãe em colocar sinal para os distinguir. Mas, oh tragédia, ela fez o trabalho de parto sem assistência, tendo perdido os sentidos a dado momento e com eles a certeza da ordem de nascimento.
Urgia o desempate para o êxito do ciclo milenar. Como?

Citação

"Banga no vestir e no andar; música é sentimento."

(Recomendação a respeito da vaidade atribuída ao músico angolano Bernardo Jorge “Bangão”, já falecido, segundo o seu pupilo "Bangãozinho")

domingo, 18 de dezembro de 2016

Sugestões do que, onde e a que horas fotografar por Benguela (municípios do litoral)?

Na mochila
- 1 lente fixa 35 mmm 1:8
- 1 lente fixa 50 mmm 1:8
- 1 lente sigma grande angular 10-20 mm
- lente de kit TELE 18-140 mm
- 1 lente tele 50-200 mm
- 1 máquina nikon D7000
- 1 flash com pilhas recarregáveis
- 1 tripé baratinho
- 1 monopé baratinho
- 1 segunda-feira
- 1 vontade enorme de quebrar a rotina
Ainda era só isso. Obrigado.

Para falantes de Umbundu | CONTO PARA EXERCÍCIO DE TRADUÇÃO (vale um dos meus livros ou um mosquiteiro ou uma garrafa de amarula)

UMWE WAYONGWILE UKEMA (*)

Kwakala ukwenje umwe wainda lesakalalo, cokuti lotulo ka kwatele. Wainda lokulipulapula ukwenje wu ndeti. "Cilingila nye okuti, ame ndicimumba cocimatamata, letosi lyukema si kwete?! Cilingila nye okuti layumwe ño, vimbo, ofetika ombangulo yokuti nditukwiwa ame?”
Ukwenje wiya ocisokolola swim… okwiya wakwata ocisiminlõ cimwe “culoño”. Wavanjiliya okuti, catete, kuyuna omunu oyongola ukema, okukulihã pi pakasi omwenyo womanu vimbo. Etambululo lyeli okuti: povava! Omo okuti, ndaño mwenle cina oholwa, alopo yinywã ovava.

Cina mwenle okuti ka kwacile ciwa handi, ukwenje mba olimba vonjila yokocisimo (ale onjombo). Eci apitinlã vali, ka suminle: ofetika okuniã. Eyumbu lyocili, halyo lihenlã syõ, pomenlã wonjombo yovava vokunywã. Noke eye wasyapo oluhaku waye. Olondona eci vyakapitinlã lomenle, oco vitape ovava, vyasaña okuti, hayo!, elundu lyeniñã lyekongo. Vokasimbusimbu, olwiya wowo kowiñi. Eci tumõla nye?!

Ukwenje kefetikilo wasanjukile, ndayu ocipango caye catelinsiwa. Pwãi, oku ceya okupitinlã, ema lyolyo ho. La Sekulu yimbo, Soma haye tiyu yayi, wovanjela ovitangi. Oco Nda hem tulinga tuti Soma ocilyangu, yu wanyõlã ocimumba caye? Cilingila nye okuti ukulu wendamba okulonga ovimumba ka citenla, vakwê?!

Osapi yondaka tunõlãpo yeyi okuti: onjila yokusanda ukema ciyongola okuyenda ciwa, momo ukema kuli vo una ka waposokele.
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(*) Olusapo woponjango kimbo lyetu.

Gociante Patissa, vo Mbaka, keteke lyakwim vavali, kosãi ya Kupemba, kuyãmo wolohulukãi vivali lekwim la umosi

SERVIÇAIS DO PARQUE


Na primeira
das horas
do patrão
vai morta
a manhã
do poeta

A saliva
corta
o vidro
Já não sigo
o curso dos lábios
tão curtos
como os pés
e os anos


Sei de cor o pregão
como o bocejar
com que se coze o jejum
da segunda classe
onde o pó cai
e vai
antes da chuva
e do avião


Toques atrevidos
antecipam-se
no lugar da saudação
oh
e na mão
o vapor do trapo
entorpecido
que roça o veículo
e a ponta do nariz
“Vou limpar, patrão?”


Gociante Patissa, pág. 33. in «Almas de Porcelana» (poesia reunida). Editora Penalux. São Paulo, Brasil, 2016.

Crónica | O APITO QUE NÃO SE OUVIU (*)

Morreu o Kalú, da maneira mais trágica e ao mesmo tempo digna. Soa irónico falar em morte digna, se tivermos em conta o abismo de uma precipitada partida. Daí que seja normal nos indagarmos se as mortes dignas não podiam ao menos aprender a ser generosas também, a ponto de devolver o ente querido aos seus, como seria justo.

Graciano António Canhama Sousa, o Kalú, deixava à vista de todos uma postura de orgulho pelo seu emprego. Apito à boca, estrada, caos e sol. Era agente de trânsito, função a que emprestava — e digo como quem o conheceu desde garoto — o dinamismo de aprendiz de mecânico de motorizadas na oficina de um seu parente de nome Karuta, bem como a visão periférica afinada na infinidade estatística das partidas de futebol no pelado, lá no bairro da Santa-Cruz.

Já liberto da farda, Kalú fazia-se o «Lebo-lebo» da malta, no chão que um dia foi talhão de cana da açucareira 1.º de Maio, lá onde o Lobito se perde na Katombela. Estatura média, aspecto bem nutrido. É neto de Tchikulo, oriundo do município do Balombo, um dos primeiros a ter uma moageira na banda.

Chamado a atender um cenário de acidente na zona da Baía do Santo António, no passado dia vinte e oito de Outubro, fez-se ao local para as medições e demais perícia, protegido pela sinalização reflectora dos cones e pelo bom-senso dos utentes da via que leva à vila piscatória da Baía Farta. O vazamento de gasóleo decorrente do embate entre as viaturas sinistradas aconselhava para aquele perímetro a mais prudente das velocidades, facilitando em certa medida o trabalho dos Serviços de Protecção Civil e Bombeiros, que cuidavam da lavagem do piso. São aproximadamente vinte e duas horas, fora das localidades. O que vem a seguir é a polícia que tem a coragem de contar, que em mim já pouca força resta:

No cumprimento de mais uma missão, depois de o agente ter fixado cones, foi surpreendido por uma viatura de Toyota Dina, cor creme, matrícula LBC-18-93, vindo do Sul para o Norte que, aproximando-se ao local da ocorrência, com velocidade excessiva, desobedecendo ao sinal ali fixado, se apercebeu do perigo. E na tentativa de frear a viatura, desviou-se para o lado direito, atropelando mortalmente o Agente de Trânsito, projetando-o para o veículo ora envolvido no acidente.

Aos vinte e sete anos de idade, o Kalú frequentava o segundo ano do curso de Direito na Universidade Jean Piaget, provavelmente perspectivando já uma carreira na corporação, efectivo que era do Comando Provincial da Polícia Nacional há coisa de cinco anos, com última colocação na Unidade de Trânsito de Benguela.

Ironicamente, acabou engolido pelo monstro da sinistralidade rodoviária, quando se encontrava justamente a dar o seu melhor para combatê-la a pedido da pátria. Oh, amigo meu de infância, embora eu tenha alguns anitos mais do que ele, no bairro da Santa-Cruz, onde morei entre 1987 e 2008. Sempre que nossos caminhos se quisessem cruzar, não fazia outra coisa, senão tratar-me por um silabado pronunciamento do meu nome completo, seguindo-se um elegante gesto de mão à pala.

Kalú foi a enterrar [2013]. Todos o sabiam, e foram ter com ele, menos eu que passei o dia enfiado num aeroporto e com o telemóvel inoperante. Paz à sua jovem alma, coragem à viúva e aos dois filhos que deixa. Foi-se o agente de trânsito, inerte ficou o apito, que não mais se ouviu.

Gociante Patissa, Benguela, 11 Dezembro 2015. In «O Apito Que Não Se Ouviu», 2015. Pág. 95-96. União dos Escritores Angolanos. 1.ª Edição. Luanda, Angola. Colecção: «Sete Egos»
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(*) livro de crónicas disponível na Livraria Sucam e na Tabacaria Grilo, em Benguela, ou na sede da União dos Escritores Angolanos, em Luanda, sita no Largo das Escolas. Mil kwanzas o exemplar

sábado, 17 de dezembro de 2016

Sua excelência eu, sete anos nos cornos, recé-chegado do kimbo, captada para matrículas escolares de repetente da primeira classe na Foto Maia, Bela Vista, Lobito (1985/6)

(arquivo) Revirando o baú | A PRIMEIRA VEZ QUE ANDEI DE ELEVADOR


Nesta foto de 4 de Maio de 1982, creio que acabávamos de regressar da Ganda (onde passamos alguns anos) e estivemos hospedados no Hotel Grão Tosco, hoje Hotel Lobito (salvo erro), na zona comercial do Lobito. Durante anos, já de regresso ao Monte Belo, zona rural de nascença, procurei entender a sensação de entrar num quarto que subia e descia a correr connosco lá dentro, o elevador. Da esquerda para a direita, Fernando Manuel e o seu filho Malaquias Fernando (6 anos), bem como o casal Víctor Manuel Patissa e Emiliana Chitumba Gociante mais os filhos Rosa Ngueve Gociante Patissa (6 anos) e Daniel Gociante Patissa (3 anos). Pelas características, aposto que o postal foi tirado na Foto Cine, que ficava ali junto à colina da Saudade (margem direita para quem sai). A vida dá mesmo muitas voltas, não é que acabei sendo o mais alto de todos!... hahahah

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Neste momento na Mediateca de Benguela | ISIDRO SANENE LANÇA "A ESCRAVIDÃO NO TEMPO DE LIBERDADE"

A residir na república do Brasil desde 2011, o jovem benguelense Isidro Sanene
está de volta para apresentar o seu terceiro livro. O acto tem lugar na mediateca de Benguela, tendo iniciado às 15h30 para uma assistência de aproximadamente 40 almas.

"A escravidão no tempo da liberdade", género poesia, fala duas línguas, o português e o espanhol, fruto da vivência que o autor teve enquanto estudante na república da Argentina.

Os textos são uma reivindicação sobre os desafios éticos e ontológicos da humanidade. O livro de aproximadamente 90 páginas, saiu pela TM Editora no presente ano.

Autor de "Utopia das Marés" e "Pedaços da Alma", para além da literatura, Sanene, 28 anos, estudioso de teologia, também se dedica às artes plásticas.
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Às vezes acontece, não é?

Humor à mwangolê

"Nestas lindas reluzadas e luzentes bodas, impele-me a vénia de fazer o repto, rente ao ano que já míngua, para atentar pelo carinho prestativo de quem faz a jornada ao nosso lado. É nesta senil senda que endereço-lhe dias eburenos e que logres bons êxitos em 2017...

*Dr. Tchipilica*

Custava simplesmente dizer _"Festas Felizes"? :) :) :)
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(1) Recebido em cadeia de mensagens sem identificação do autor original. Deve ser mais um floreado excessivo para satirizar o erudito léxico do provedor de justiça
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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Deixei a porta aberta que é para quando regressar, o sono, que foi vadiar, entrar sem precisar de bater

Boa música de Angola em Portugal | WALDEMAR BASTOS EM CONCERTO NO TEATRO DA TRINDADE INATEL

O angolano Waldemar Bastos presenteou os apreciadores da sua música em Lisboa, Portugal, com um show ao vivo intitulado "A Cor do Sentimento", no dia 16 de Dezembro, pelas 21H30. O evento foi da iniciativa da Fundação INATEL, em parceria com a Câmara Municipal de Sines, através do FMM Sines - Festival Músicas do Mundo.

Citado por diversos veículos de comunicação, Waldemar Bastos considerou o show “um regresso ao porto de partida, um regresso ao insubstituível som da inebriante beleza da música acústica”, salienta no texto enviado à imprensa. “Aí a voz, os violões e a percussão acasalam e interlaçando-se, fundem-se para, já diluídos, se metamorfosearem dando origem a um ‘Canto e Poesia Únicos’ que nos eleva numa viagem deslumbrante a lugares não ‘específicos’ de incomensurável e indelével beleza.”

(Foto cartaz conforme recebido por e-mail directamente da firma que o agencia, da qual obviamente não faremos publicidade)

Utilidade pública (infelizmente o texto está em inglês e não tenho tempo para traduzir) | ANÚNCIO DE PROGRAMA INTERNACIONAL DE INTERCÂMBIO PARA ALUNOS ENTRE 18-ANOS E PROFESSORES, PATROCINADO PELO GOVERNO AMERICANO. INSCRIÇÕES ATÉ 29 DE DEZEMBRO

The Public Affairs Section at the U.S. Embassy in Luanda is pleased to invite candidate nominations for the 2017 Pan-Africa Youth Leadership Program (PAYLP).  

The program gives secondary school youth (ages 15-18 years old) and adult educators the opportunity to explore themes such as entrepreneurship, civic education, youth leadership and economic development, and respect for diversity.  Through three-week, intensive exchanges in the United States, participants engage in workshops on leadership and service, community site visits related to the program themes and subthemes, interactive training in conflict resolution, presentations, visits to high schools, local cultural activities, and homestays with local American families.  A key component of the program is to develop community-based projects in their home communities to affect change upon their return home.  

For example, two students from Togo developed a girl’s empowerment program with a social entrepreneurship aspect built in via beading projects.  Two other participants worked with young inmates in a local prison to develop vocational skills to help prepare them for their reintegration into society.  A young participant from Chad developed a community library at a local high school to decrease the school’s high drop-out rate. 

Crónica | O PAPEL DO MULTICAIXA NA PREVENÇÃO DE CONFLITOS

Benguela, cidade, anda movimentada, como devia aliás andar, a caminho de trezentos e noventa e seis anos de existência. É evidente que a data oficial está longe de ser consensual, havendo intelectuais que se indignam por entenderem que, em cada dia dezassete de Maio, festejamos a vitória militar do invasor colonial português, representado por Cerveira Pereira, sobre os nossos antepassados, autóctones Bantu.

Janota, conhecido por doutor muito antes até de tirar a licenciatura, procurava preencher o vazio que tem sido a sua cama, desde que a esposa viajou para a China. Por muito que gostasse e bebesse de filosofia, estava difícil o jejum (devo usar uma linguagem mais ou menos sóbria, já que tenho sobrinhos menores seguindo-me no Facebook). Vai daí que Janota deu um salto ali para as bandas da Sé Catedral, onde se diz haver um bordel. Assim como ao lado de cada direito anda o respectivo dever, pureza e fé têm sempre uma tentação à perna.

Em coisa de minutos, Janota tinha uma rapariga, expedita vendedora de orgasmos simulados e um canto para o labor e o sabor, não sem antes ficar claro o preçário. A menina fê-lo chegar à China por alguns instantes. Ora, completada a viagem, surgia um tipo de conversa mais ou menos imprevista para aquele segmento de negócio. «E agora, como vamos fazer? Posso pagar com cartão?», indagava o saciado, enquanto calçava as meias antes de botar a calça.

A rapariga olhou para ele, como quem diz, caramba!, está aqui um espertalhão. E antes mesmo que ela emitisse uma palavra, o cliente continuou justificando-se: «Sabes como é que é. É fim-de-semana, a função pública pagou. Já circulei pela cidade e cercanias, mas nenhum aparelho tem dinheiro. Mesmo a nível de macroeconomia, honrar os salários dos professores é um caso sério, já que eles não produzem como tal. É um sector nobre, muito importante, mas pobre. Com os militares é a mesma coisa. Não sei como vamos fazer, sabes? Eu gosto de pagar as minhas contas, acontece que não consigo tirar dinheiro do banco, sabes que aquilo enche que nem uma coisa doida.»

A rapariga ouvia, franzindo progressivamente a testa. Pensava por dentro, do tipo, esse gajo não quer com este monte de palavras que no final fique tudo por um crédito sine die, não? «Doutor, pela próxima, quando é assim, avisa antes. Estás a ver se hoje eu não trouxesse o TPA, íamos mesmo se pegar nas camisas. E até não fica bem. Vá, dá lá o cartão multicaixa. Hôko!, assim também querias quê?!»

Bom, ao menos o final foi feliz para o professor Janota, uma vez que a menina, sendo profissional com visão empreendedora, tinha a sua máquina de pagamento electrónico na mesma bolsa em que guardava os preservativos, pensos e lubrificantes íntimos, não tendo sido necessário, como ela mesma disse, «se pegar nas camisas». Como diria o ditado, para um esperto, esperto e meio.
Benguela, 25 Maio 2013
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Gociante Patissa, Benguela, 11 Dezembro 2012. In «O Apito Que Não Se Ouviu», 2015. Pág. 60-61. União dos Escritores Angolanos. 1.ª Edição. Luanda, Angola . 2015 Colecção: «Sete Egos»

(*) livro de crónicas disponível na Livraria Sucam e na Tabacaria Grilo, em Benguela, ou na sede da União dos Escritores Angolanos, em Luanda, sita no Largo das Escolas. Mil kwanzas o exemplar

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Divagações | Do olhar a um campo que me é alheio

Independentemente do resultado que advier das eleições de 2017, que invariavelmente será o de não ganhar, o conterrâneo Carlos Contreiras, proprietário do partido PREA, bem que merecia um prémio nacional de cultura e artes, pela originalidade. É o único que ainda consegue emprestar à política partidária um cunho de comédia. Os demais parece que levam a coisa demasiado a sério. Por hoje, nesse campo que até me é alheio, o da política, ainda era só isso. Obrigado.
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Crónica | O ZÉ DO 28, O INGLÊS E EU NO PORTO (*)

Aleija-me profundamente a mentira: a das mulheres, a dos mestres, a dos mecânicos, a dos políticos, a das crianças. Nunca fui, todavia, o primeiro a atirar pedras.


À chegada do interior, tive a felicidade de morar no morro da Quileva. Tem-se vista avantajada do coração da cidade. Cintura verde, a sul, as salinas, no centro, e o mar, a norte. Se desci o morro, foi somente atrás da máquina burocrática para questões escolares. Para lá dos jardins, uma vez na baixa, a cidade sumia, daí o desejo de logo regressar à prateleira. Por exemplo, disputávamos a titularidade de carros que víamos circularem na linha do horizonte.

Em cidades singulares, as portas todas costumam dar em uma só com alma, o porto. Às marés ou aos caudais, faz-se entrada e saída, ao mesmo tempo, o cais. E é este desfile aparentemente desconexo dos navios que adensa na história do meu Lobito o fio.

Com a greve dos professores, foram três meses de tédio, agora no bairro da Santa Cruz, zona com vista limitada, sem o televisor em casa, que por sua vez somava meses no conserto. Tudo levava a crer que o eletrotécnico não despacharia o trabalho sem a paga, posição quanto a nós injusta, porquanto o dinheiro que lhe faltava a ele faltava-nos a nós também. Estamos em 1995, e a presença, às centenas, de capacetes azúis da ONU e demais agências humanitárias ilustrava bem o quadro de penúria que o país atravessava, resultado do retorno à guerra civil entre as forças guerrilheiras da Unita e o exército governamental, com o fracasso da primeira experiência democrática, tendo como mote a não-aceitação pela oposição dos resultados das eleições de 1992.

Não me ocorrendo a posição do pai, decidimos entre irmãos tirar proveito da ONU. Coube-me a missão de juntar a coragem ao meu arrojado inglês e comercializar, tipo zunga, as estátuas de madeira lá de casa. Arrecadaríamos cinquenta e cinco dólares norte americanos, o equivalente a dois salários de professor. Em vão. O televisor já tinha sido extraviado.

O contacto com os capacetes azúis era fruto proibido em certos quartéis. Recordo quando o Eliseu viu o seu negócio confiscado, digamos que de modo ilícito, pela guarnição do Hotel Términus. Mais conversa, menos conversa, prometeu-se subornar o guarda angolano, penhorando o Bilhete de Identidade. Parvo do guarda, já que ficava sempre mais fácil tratar outra via do documento.

Lá conheci o Zé, mais novo e mais alto do que eu. Até em sua casa, no 28 (Zona Comercial), cheguei a beber água. Causava impressão ver-me, baixote, falar «fluentemente» com os estrangeiros, ganhando esporadicamente desde livros, cassetes, a produtos de higiene. Foi o Zé quem decidiu levar-me ao Porto do Lobito, onde esteve naquele dia um navio britânico da ONU. Atleta de basquetebol na escola da Casa do Pessoal, o Zé passava pelo portão sete como água pela garganta. Como entraria eu?

O Zé instruiu-me a dizer ao polícia que iria ter com o guindasteiro Frederico Carlos, meu «pai». O polícia fitou-me, e autorizou. Ainda melhor, disse para voltar a ter com ele, caso alguém me molestasse. Tinha resultado! Antes de degustarmos as iguarias do navio, observei ao longe o guindasteiro. De facto, tínhamos algumas semelhanças, no tom de pele ligeiramente clara e no semblante aparentemente mentalista, enfim.

Hoje, o Zé é um homem feito, fazendo carreira como professor de educação física em colégios. Um dia desses lembrar-lhe-ei aquela emocionante aventura, todavia reprovável.
Benguela, 11 Dezembro 2012

Gociante Patissa, 25 Maio 2013. In «O Apito Que Não Se Ouviu», 2015. Pág. 60-61. União dos Escritores Angolanos. 1.ª Edição. Luanda, Angola . 2015 Colecção: «Sete Egos»

(*) livro de crónicas disponível na Livraria Sucam e na Tabacaria Grilo, em Benguela, ou na sede da União dos Escritores Angolanos, em Luanda, sita no Largo das Escolas. Mil kwanzas o exemplar