PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sexta-feira, 31 de julho de 2015

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Teatro da vida | Capítulo 1 | Acto 1

Teatro da vida | Capítulo 1 | Acto 2

Teatro da vida | Capítulo 1 | Acto 3

No KERO de Benguela, pode-se adquirir por 1800 Kz o livro "Rosas & Munhungo", contos de Joao Tala, que muito recomendo

O autor foi um dos impulsionadores da Brigada Jovem de Literatura Alda Lara, na província do Huambo na década de 80, onde cumpriu a vida militar. Com obras em poesia e prosa premiadas pela União dos Escritores Angolanos e pela Associação Cultural Chá de Caxinde, Tala - não se sabe bem porquê - não é (ainda) dos que mais interessam ao poderoso (uns diriam paternalista) lobby do livro made in África "lusófona" pelas livrarias de Portugal e Brasil.

terça-feira, 28 de julho de 2015

"Cagando" literalmente para o símbolo da cidade

O Lobito, que elegeu o flamingo como a sua mascote, terá se calhar de encontrar uma forma de comover o sentido cívico de quem ganha a vida na praça do Compão. Como ali não há latrinas, é mesmo no mangal que muitos cidadãos e cidadãs vão "desapertar", ameaçando a o ambiente que é de todos, incluindo as indefesas das aves

Diário | Ponto de situação

Começo por elogiar a elevada quantidade de e-mails que nos chegam de cidadãos interessados em obter a brochura "Quadro actual de Legalidade dos Cursos de Graduação ministrados nas Instituições de Ensino Superior Públicas e Privadas", da responsabilidade exclusiva do Ministério do Ensino Superior, que faz um balanço geral da situação legal dos cursos ministrados por universidades angolanas, estatais e privadas. Por uma questão de proximidade afectiva, ressaltamos no texto as instituições do ensino superior de Benguela. 

domingo, 26 de julho de 2015

Um contributo do teatro à história de Angola | Desabamento do prédio da DNIC e morte de reclusas retratados no Cine Monumental

«04H30», a peça do conceituado grupo Miragens Teatro, vindo de Luanda, está em cartaz nos dias 25 e 26 de Julho na cidade de Benguela, com a exibição às 20h00 e a mil kwanzas o ingresso. É baseada na tragédia da derrocada do edifício da então DNIC (Direcção Nacional de Investigação Criminal), ocorrida na madrugada de 29 de Março de 2008, onde pereceram soterradas mais de dez reclusas confinadas nas celas da cave.

O blog Angodebates assistiu à sessão de sábado (25), destacando-se pela positiva a pontualidade, a iluminação, a acústica, a caracterização e o entrosamento dos actores. E neste domínio, apuramos que o elenco incluiu seis actores residentes para estimular a cooperação entre visitantes e anfitriões, sinergia que contou com a Associação Provincial do Teatro e a Rádio Benguela. Nota negativa vai para a assistência, que não passou da metade da sala. Espera-se por uma adesão maior no segundo e último dia.

sábado, 25 de julho de 2015

Diário | Nada a esconder

É impressão minha ou voltamos àquela fase cíclica de aumento de pedidos de amizade no Facebook de contas/perfis suspeitos que usam rostos de meninas como ardil, geralmente com atributos sensuais avantajadíssimos ou tratamento de pele a roçar a perfeição? O que depois se nota é que tais perfis, geralmente ocupados por publicações de terceiros ou com poses sexistas, fúteis, acabam se denunciando contraditórios tendo em conta a criteriosa seleção dos "alvos" a "amigar", por exemplo jornalistas, escritores e outros do sector da palavra/ideia/pensamento. Seja quem for que se esconde em tais perfis falsos, era já altura de saber que esta fórmula está velha. Só hoje já rejeitei três, sendo uma alegadamente de Cabinda e duas de Benguela. É muita perda de tempo, pois nada este cidadão tem a esconder, "além daquilo que deve ser convencionalmente escondido", se me permitem cabular um veterano jornalista.

Última hora | LICENCIATURAS DE INSTITUIÇÕES DO ENSINO SUPERIOR PRIVADAS DE BENGUELA SÃO NULAS PARA EFEITOS ACADÉMICOS POR FALTA DE DECRETO

A fazer fé numa brochura a que o blog Angodebates teve acesso, denominada "Quadro actual de Legalidade dos Cursos de Graduação ministrados nas Instituições de Ensino Superior  Públicas e Privadas", do Ministério do Ensino Superior, datada de Julho de 2015, os cursos para graduação de licenciatura pelas vulgo universidades privadas que operam na província de Benguela, nomeadamente Maravilha, Lusíada, Jean Piaget e Católica, são irregulares, uma vez não estarem devidamente respaldados em decreto.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Da série visitando o baú | DESAFIOS DE UM TRADUTOR/INTÉRPRETE

Como já disse bwé de vezes, a minha trajectória e tudo o que um dia for ou fizer, a par do inconformismo estrutural e do poder criativo, tem duas bases determinantes: uma é a educação e legado cultural da minha MÃE, outra é a língua inglesa.

A minha relação com o Inglês data de 1993, aos 15 anos. Seguiram-se anos de muita leitura e exercícios, inicialmente com ajuda do Paulino Sõi (parente por afinidade), do bairro da Pomba no Lobito, cerca de 10 Km do bairro Santa Cruz, onde morava eu, ligação que fazia a pé, muitas vezes a fome. O país enfrentava a penúria alimentar, com o reacender da guerra civil pelo fracasso eleitoral de 1992. Paulino tinha livros, paciência e deixava-me passar horas e horas no seu quarto a transcrever vocábulos. Ao mesmo tempo, para resgatar o televisor das mãos do mestre, vendia estátuas de madeira lá de casa a capacetes azúis britânicos da ONU e assim praticava com falantes nativos.

Uma curiosidade: o primeiro projecto da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade), ONG ainda consolidação, teve o financiamento da Oxfam (aprovado durante o consulado da holandesa Erika, verba desbloqueada já com Tuca Manuel a representar aquela agência britânica). Mas foi num domingo de praia em 2003, na ponta da Restinga, que acidentalmente se teve um diálogo descontraído com a Erika, até então desconhecida. A jovem disse que era representante da Oxfam, que tinha financiamento para projectos de luta contra ITS e VIH/SIDA e que devíamos concorrer. Os activistas voluntários teriam conhecido por conta do projecto «Viver Contra a SIDA» a oportunidade de servir na comunidade de Santa Cruz, Lobito, e Curral e Alto Chimbwila, na Catumbela.

Voltando ao Inglês e às traduções, assinalo aqui três momentos marcantes: um foi por contrato da Handicap em 2006 para intérprete de um jornalista irlandês que veio dar workshop sobre audiência e técnicas de mobilização mediática (com drama e vinheta) a associações que trabalham na causa de pessoas com deficiências. Aprendi bastante; o outro foi ao realizar a fantasia de traduzir do Inglês para Umbundu, dispensando o Português, quando uma delegação humanitária se reuniu com sobas e autoridades tradicionais no Cubal. A mais complexa empreitada, no entanto, foi em 2006 a contrato do Programa Nacional de Reabilitação, a que a foto faz referência.

Os termos do contrato indicavam quatro dias de tradução/interpretação para o Dr. Ron, americano, especialista em «hearing impairment» (deficiência auditiva). Incluíam consultas na Escola do Ensino Especial, visita a escolas com turmas de integração no Lobito, e aplicação de prótese auditiva. Cinquenta dólares/dia era o meu preço de base.

Ainda ao primeiro dia, tive de reclamar: passavam das 14h00 e nada de pausa para o almoço. O dia de trabalho começava às 08h30. A adaptação ao ambiente da escola em si era o maior desafio. Muito barulho, dispersão de atenção, para quem vem de fora. Havia equipamentos técnicos que eu via pela primeira vez. O amigo Jesmim, técnico sénior da instituição, complementava a comunicação com utentes mudos, pois o código gestual angolano difere do americano. O semblante estafado, ainda a meio do contrato, era inevitável. E o americano tocava-me no ombro e repetia num tom motivador, que soava irónico: «I feel that you like it. You’re good!» (sinto que gostas disso. És bom!). E aqui termina o quarto texto da série de minhas memórias sócio-profissionais.

Gociante Patissa, Benguela 23 Julho 2015

Turma B do curso de Ciências Sociais nocturno no PUNIV (Centro Pré-Universitário) do Lobito, terceiro e último ano, 2002/2003

Alguns nomes que consegui recordar: Lau, Nelito, David, Abel Catraio, Amorim, Benvinda, Valéria, Nany, Paulo Nogueira Nogueira. Algum colega que consiga por acaso completar a legenda? hahahah

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Diário | Pela nomeação, obrigado mas... não!

Numa brincadeira do amigo Jesse Lufendo que consiste em parodiar um tal de governo de salvação nacional para a província de Benguela em caso de crise, sou nomeado para assumir a Direcção Provincial da Cultura, ao lado do compatriota Dickyaminy Bokolo Ras Bokolo. O que acho é que a brincadeira tem piada, mas infelizmente não tenho apetência nenhuma para cargos de governação hahahah Já me bastou ver o que o meu pai viveu nesta coisa de disciplina partidária e hierárquica hahaha Sou rebelde e em princípio não consigo engolir certos sapos. Haverá certamente mentes com maior potencial do que o meu para o pelouro da Cultura. Estou bem no meu canto, com os meus livros, minhas ideias, à portinha fechada e com o direito de escolher quem realmente me der vontade de ver hahahah Portanto, pela generosidade da "nomeação", obrigado mas... não!
Gociante Patissa, Benguela, 21.07.15

terça-feira, 21 de julho de 2015

Diário | Quando os extremos se tocam

A foto ilustra o exaltar dos ânimos entre os activistas negros (ou afro-americanos, como preferem ser chamados nossos irmãos "ex-africanos") e os sumpremacistas brancos, com duas manifestações autorizadas pelas autoridades no sábado passado. Em causa esteve a materialização da ordem judicial de retirada da "Bandeira das Confederações", que remonta aos séculos da escravatura, precisamente símbolo adoptado pelos estados pró-esclavagistas. A decisão foi precipitada por manifestações de milhares de negros (com o apoio de alguns brancos, naturalmente), em função de sucessivos casos de assassinatos de pessoas desarmadas por parte da polícia. Há observadores que não dissociam o aumento da violência racial com o facto de os EUA, um país com visível espectro de segregação, terem na presidência um "não-branco". No calor dos ânimos, para não dizer de ódios - estúpidos quanto a mim por terem como base a origem étnica/racial do ser humano, coisa que ninguém escolheu - o jovem negro atira-se às "feras". Gociante Patissa (Foto do New York Times)

O polícia, negro, que socorreu o militante da organização extremista pela supremacia racial branca, denominanda Ku Klux Klan, nos Estados Unidos, diz que o papel da polícia é ajudar as pessoas, "independentemente de suas crenças".

Ler artigo completo do The Guardian 

Citação

"Hoko, ó coisa!, eu fiquei a desconfiar. Porque ele não falou mais de 'namorada'. Vai-me falar logo, logo, já mesmo, 'queres ser minha mulher?!' Porquê eu?!
(De uma jovem para a outra pelas ruas de Benguela. 21.07.15)

domingo, 19 de julho de 2015

Citação

"Meu mano, há uma coisa que não estou a gostar. Estou a falar contigo como homem. Eh pá, acho que a minha esposa fala demais de ti, meu. Até quando tento lhe resolver a tarefa da escola, diz sempre que já tem o colega fulano que pode fazer" (de um colega de serviço para o outro, há qualquer coisa como 15 anos)

Num dia como hoje, há dois anos, falecia o pintor

Crónica | Imortal como um pincel... UM ANO SEM DÉLIO BATISTA


Quando já não tivermos o fulgor do pintor, nada estará perdido enquanto restar a plasticidade… do pincel. O contrário é chorar por algo que nunca foi nosso - a vida - não celebrando, por involuntária justiça que seja, o que de tangível possuímos - a obra.


No mês em que se assinala um ano desde que o pintor Délio Batista faleceu, volto a partilhar a relevância que ele teve na minha trajectória. Quando em 2008 precisei, por recomendação da editora, de um quadro para capa do «Consulado do Vazio», o livro de poemas com que me estreei, e após fracasso com outros artistas, Cláudio Silva “Pepino” apresentou-me a Délio Batista, um artista plástico de curriculum vastíssimo. Eram nove e tal da manhã. E por volta das 11h00, o kota Délio já me havia cedido «De Pernas Cruzadas», com que me enamorei dentre o seu acervo. Tudo a custo zero.

sábado, 18 de julho de 2015

Oratura | "MANGOLÉ" OU "MWANGOLÉ", EIS A QUESTÃO

Por Kamuatata Kyami Kasule, in Jornal A Capital, Luanda, 18.07.15)

"Mangolé de sucesso”. Muitos angolanos deparam-se não poucas vezes com a expressão que invade as residências dos cidadãos por intermédio de um canal de televisão por satélite. 

A expressão chama atenção, pois é apresentada em letras garrafais, apelando os feitos dos angolanos um pouco espalhados pelo mundo, sob apresentação da simpática Angélica Costa. Porém, a razão deste artigo é justamente analisar, segundo a língua kimbundu, claro, caso o termo seja realmente retirado desta língua banthu, o que merecerá uma curta análise. 

Ora vejamos: Se “Mangolé” subentende angolano para a realização do programa, então há uma gralha de concordância e estrutura morfológica da frase na língua kimbundu, visto que a designação apropriada na língua em questão usa-se o prefixo "Mukwa” para formação dos vários adjectivos e substantivos. Exemplo: Mukwa Ngola (originário ou natural de Angola). 

Outrossim, há um termo ou prefixo comumente usado como forma de indicar origem, proprietário ou naturalidade, resultante da forma curta de “Mukwa”, na qual toma a forma curta de “ Mwa”. Exemplo: Mwazanga (ilhéu, natural da ilha) - forma do singular Akwazanga (ilhéus, naturais da ilha) - forma do plural Mwangola ou mwangole (angolano, originário de Angola)- forma do singular Akwbangola (angolanos, originários de Angola)- forma do plural Akwa Kisama (naturais da Kisama) Akwa Uíje (naturais do Uíje) Akwa Malanje (malanjinos ou naturais) Portanto, se o programa é trazer os angolanos naturais, deveria sim trazer também a forma correcta dos naturais de Angola. 

Assim sendo, não é aceitável e nem deve ser considerada tal expressão, pois não transmite nada na língua kimbundu, ao menos que seja uma gíria unicamente falada por quem nunca balbuciou a língua em análise.

Diário | Uma igreja cada vez mais distante do seu papel?

Nascido num lar evangélico, não havia outra escolha senão frequentar a escola bíblica dominical como herança, que para além das aulas doutrinais compreendia o grupo coral e algum teatro/presépio na época de Natal. É certo que houve momentos em que a sobrevivência da educação religiosa ficou ameaçada, muito por conta das aulas de lavagem cerebral socialista/comunista que o pai absorvia na escola provincial do partido (1987-1991). Aos poucos fui deixando de acreditar na coerência dos homens que representam Deus (ultimamente quase que indústria da fé apenas). Não me cabendo o direito de julgar, deixei a porta entre-aberta, na esperança de que mais tarde ou mais cedo a igreja reencontraria o seu papel. As minhas dúvidas crescem a cada dia com a mediatização das realizações sociais da instituição vocacionada na moral e no fortalecimento da fé. Por exemplo, (a) ao ver a foto do bispo "reformado" de Benguela e a pompa com que "abençoou" a nossa compatriota na altura recém-eleita miss universo, fiquei a me questionar que relevância um concurso de miss teria para a instituição que aquela entidade representa. (b) Há dias, ao passar pelo mercado, vi um cartaz de uma igreja que anunciava a sua morada ao lado da "chapa da Cuca". Seria uma armadilha para captar almas viciadas no álcool? (c) Ontem, li algures que a igreja Universal reclamava falta de apoios do governo, no argumento de que outras - disso sabia a IURD - têm recebido mais. Fiquei também a saber que a rede comercial "Alimenta Angola", com lojas em expansão pelo país, pertence àquela "multinacional" de origem brasileira. Encaixa-se no ideal cristão? (d) Na feira industrial do ano passado, no estádio de Ombaka, abordei uma simpática voluntária portuguesa da ONG Leigos para o Desenvolvimento, ligada à igreja católica, até que ponto numa realidade como a nossa "ficava bem" receber financiamento da cervejeira Soba Catumbela (o que inclui obviamente dar visibilidade à sua marca) quando se trabalha com jovens nas comunidades com grande risco de vícios. (e) Falaram-me da moda em certa igreja evangélica de concursos de passagem de modelo em actividades de senhoras e, porque não, bons números de dança, com o nosso vibrante abanar de nádegas, o ku-duro, no espaço sagrado. A lista é longa. Não defendendo o maniqueísmo como tal, começo a ficar preocupado se estas pazes entre Deus e César não incubam uma guerra no futuro. Se calhar, século 21 é isso mesmo.
Gociante Patissa, Benguela 18.07.15

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Da série visitando o baú | O TEATRO, O INGLÊS E A OKUTIUKA DEFINIRAM RUMOS

O fim do contrato com a Sonamet (Sociedade Nacional de Metalurgia) e a entrada para o sector voluntário dá lugar a um desafio ainda maior. Estamos em 2000, tenho 22 anos, e a guerra civil tem fome de jovens sem poder de sobrenome. O sonho a realizar chama-se AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade). ONG legalizada, equipa motivada. Recursos e capacidade metodológica… zero. E agora, por onde começar?

Ao mesmo tempo, não deixava de passar pela cabeça a ideia de emigrar em busca de melhores condições de formação, quando um só centavo não dispunha na conta bancária. O auto-didactismo na aprendizagem do inglês, iniciado aos 15 anos, fazia sonhar com uma chance de formação em comunicação num meio de expressão inglesa. Um aventureiro, eu? Talvez. Por vezes, o único recurso que resta a um sonhador é aquela certeza (estrutural) de que ainda não se é a pessoa que nascemos para ser nem se está no lugar que nascemos para estar. Este lugar pode ser cá, pode ser lá. Nunca ninguém o sabe ao certo, excepto o tempo, que cala sempre ao que a cada um reserva.
 
Sem escritório sequer, as reuniões aconteciam na escola Rei Mandume, não poucas vezes debaixo da árvore, por má-fé da direcção. Era preciso convencer a sociedade da nossa força interior, mais importante ainda era convencer a própria equipa internamente. A ADAMA chegou a ser sede provisória, gentileza do Bráulio (paz à sua alma).

De entre as mirabolantes ideias, agarrámo-nos à de adaptar para a televisão uma peça de teatro de minha autoria. A trama envolvia casal de pescadores e uma criança de rua por acolher, quando a penúria definia o próprio lar. Como mobilizaríamos nós a produção televisiva? Foi então que batemos à porta do líder da ONG Okutiuka, Zétó Patrocínio, que pelo projecto (hoje associação) Omunga fazia um notável serviço na área. Excluída a utopia da TV, ganhámos o convite para o workshop sobre elaboração de projectos, visando pertencer à Rede Municipal da Criança de Rua do Lobito (apoiada pelo INAC e Save the Children) e fomentar o teatro entre adolescentes. A partir dali a AJS definiu o seu rumo. Da minha parte, tudo o que vim a ser e fazer depois partiu de tal parceria.

Em 2003, conseguiu-se financiamento para o projecto «Palmas da Paz», que incluía programa radiofónico de debates, o qual realizei e conduzi através da Rádio Morena. Era o regresso ao aprender-fazendo em comunicação social, passados sete anos sobre o distanciamento do microfone da TPA, em cujo programa infanto-juvenil participava.

Quanto à experiência com ONG internacionais, em outubro de 2005 veio o contrato de consultoria pela Save the Children como Assistente de Líder de Pesquisa de grupos focais sobre crianças órfãs e vulneráveis no município da Tchikala Tcholohanga. Antes disso, tinha sido pesquisador também em grupos focais pelo NDI (National Democratic Institute) no Lobito. Em Março 2006, fui contratado pela Handicap International como Assistente da Coordenadora do Projecto RBC (Reabilitação Baseada na Comunidade), do qual me desvinculei ao cabo dos três meses experimentais devido ao baixo salário (USD 500) e ao ingresso na universidade Agostinho Neto em Benguela, que mais tarde se passou a chamar Katyavala Bwila, onde me licenciei em Linguística/Inglês em 2012.

Este é o 3.º relato do Baú, um encontro com as minhas memórias a rolo.
Gociante Patissa, 16 Julho 2015

terça-feira, 14 de julho de 2015

Diário | Nota positiva pelas melhorias no papel do moderador do debate da TPA

No debate de hoje, houve uma melhoria visível no desempenho do papel de moderador da parte do jornalista Mário Vaz, a quem tivemos de dar a merecida nota negativa na semana passada pela "conivência" com que permitia que uns convidados falassem mais e atropelassem sistematicamente outros. Não soube, na edição passada, cronometrar o tempo nem atribuir o espaço de intervenção com justeza. Hoje foi diferente, a asfixia não teve lugar. Por isso mesmo, a mesma consciência que nos levou a protestar, desligando o televisor na semana passada, obriga-nos a deixar cá um elogio. Assim, sim, compatriota. Se não quer que fale, pois não convidem.

Da série visitando o baú | O SOLDADOR QUE O INGLÊS NÃO ME DEIXOU SER


A meio do curso de pedreiro, em 1997, o meu irmão Amós comprou uma Canon automática compacta a rolo, com o advento da fotografia colorida e as lojas de vietnamitas. Voltava ao ganha-pão de retratista ambulante, no qual me iniciei em 1993, aos 15 anos, como aprendiz na rudimentar Foto Kodak do bairro Santa Cruz, Lobito.

No início de 1998, no INEFOP (Instituto Nacional do Emprego e Formação Profissional), houve inscrições para a Sonamet (Sociedade Nacional de Metalurgia), de gestão francesa, estaleiro na iminência de abrir. Havia rumores de fabulosos salários. O exame de português correu-me de feição, já o de matemática foi para esquecer.

Por sorte, rasurei o enunciado e pedi outro, curiosamente um em que o formador-observador (Avelino Kalupeteka) exercitava. Com cinco valores (alheios) a matemática e 15 a português, safei-me. Apenas 74 sobreviveram aos testes, de um conjunto superior a 300 candidatos a caldeireiros e soldadores. Na etapa seguinte, só 38 sobreviveram ao crivo da entrevista. Eu estava quase apurado, quase porque o nome na lista veio Domingos [e não Daniel] Gociante Patissa. Bastou exibir o BI para ficar com a vaga.

Mas… passavam os meses e nunca mais chamavam, numa fase em que o negócio de retratista caminhava para a falência, tal era a proliferação de “foteiros”. O tão esperado arranque do curso em 1998 trouxe uma desilusão: de subsídio de formação, ficamos pelos USD 20, menos cinco do que no curso de pedreiro. De azar em azar, o curso, programado para seis meses, viria a ser encurtado para a metade. Fui um dos devolvidos ao desemprego por fraco rendimento em Agosto.

Entretanto, dois meses depois, a empresa readmitiria ex-formandos (com noções elementares de inglês) para ajudantes de angolanos, nigerianos, filipinos, paquistaneses e indianos. O maior domínio do inglês, no meu caso, acabou sendo um estorvo. Fui usado como intérprete do superintendente de soldadura, que não sabia português. Outros ajudantes voltavam ao curso e progrediam, menos eu e o vencimento. Trabalhador n.º 20, atendia no contentor que fornecia material consumível aos soldadores (ou puxava cabos e apanhava beatas de eléctrodos). Nas horas vagas, escrevia provérbios, sátiras e parábolas em superfícies de metal e na porta do WC.

Não sendo tudo mau, o chefe permitia-me ausências prolongadas, conquanto me apresentasse na hora de entrada, na hora das refeições e na hora de saída. Com tal brecha, dediquei o poder do meu génio inconformado na legalização da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade), ONG angolana com sede no Lobito, que brotou em 1999 dos balanço e perpectivas que faço a cada 17 de Dezembro, data do meu nascimento, daí ser o marco do aniversário da instituição também. A Sonamet terminou o meu contrato volvidos 22 meses, em Agosto de 2000.

Finalmente livre do meu pior emprego de sempre, firmava lugar no sector da sociedade civil, escola que muito contribuiu para o amadurecimento da consciência cidadã e permitiria exercer jornalismo freelance (disso falarei mais tarde). E em 2001, voltei para a escola para concluir o ensino médio, o que ocorreu em 2002.

Gociante Patissa, 14 Julho 2015

Citação

"O meu marido não agradece. Você pode lhe dar mesmo todos os teus prazeres... mesmo assim, ele ainda vai fora."

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Diário | O tempo certo da palavra

"ONE WORD IN TIME IS BETTER THAN TWO AFTERWARDS". Este aforismo inglês, segundo o qual uma palavra atempadamente é melhor do que duas mais tarde, parece ter assim uma pequena relação com nossa agenda noticiosa nos últimos dias.

domingo, 12 de julho de 2015

Resenha literária | DAS BREVES IMPRESSÕES: FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS

Por Cristina Galhardo Amado (Benguela 12 Julho 2013)

Neste livro, o autor, Gociante Patissa, traz-nos catorze textos, apresentados na contracapa como sendo “contos”. Esta tipologia está, sem dúvida, presente em alguns textos, embora vários destes se enquadrem muito mais no sub-género crónica literária. É neste último, sobremaneira, que se notam pontadas de linguagem que se aproxima da jornalística, em apontamentos que auxiliam o leitor (se desnecessariamente ou não, cabe a vós também julgar) a se situar.

Em parte significativa dos textos, o tal “auxílio” ao leitor cede lugar ao enigmático, ao que fica pairando no ar, que vai além da eventual falta de habilidade do leitor, nomeadamente por não dominar a semiótica que permite interpretar não somente literatura, mas tudo na vida. Talvez seja a influência sugerida pelo próprio autor (narrador também, no presente exemplo) no texto “Velho Batalha e a Bicicleta que Não Sabia Correr”, dessa cultura em cuja linguagem “quase tudo é por atalhos, servido na bandeja da metáfora, do fragmentado, da inferência” (p.91). O autor transporta, desta forma, para seus textos essa característica das máximas Umbundu, que têm por norma não oferecer interpretação imediata, fácil ou única ao interlocutor.

No âmbito das que, para mim, se aproximam mais de crónicas, destaco, pelo impacto emocional, “Sapalo e a Avenida do Quase”. Sapalo personifica os tantos que, quem como eu caminha, encontramos nas ruas, perdidos em suas deambulações, nas avenidas “do quase, do sonho por rápidas melhoras, da dor” (p. 84). Em certos momentos, no seguimento do que foi dito acerca do pendor enigmático da narrativa, é endereçado ao leitor um claro convite à interpretação, como sucede particularmente n’”O Calendário da Viúva”, em que o agente se debate com o que classifica como conversa desconexa de Saluquinha, curiosa personagem. Como sugeriu António Lobo Antunes, quem somos nós para dizer que outros são loucos?

Ainda numa tipologia similar, “A Estrela que Não Voltei a Ter” é particularmente tocante, mesclando a crueza não restrita à vida humana e a poesia de quem não esquece o que nos foi arrancado da e na meninice.

Quanto aos que considero contos propriamente ditos, os convites às reflexões e conclusões do leitor estão bem presentes, iniciando logo com o texto que abre o conjunto, o belo “A Minha Mãe é Hortelã”. O conto que dá nome ao livro traz-nos uma personagem que, pela extensão e complexidade de caracterização, parece pedir (logo ele, que também foi biografista) uma narrativa mais extensa.

O último texto, “A Árvore que Dava Leite”, me parece algo desgarrado do conjunto. Sendo um conto de pendor tradicional (como ocorre com “No Reino dos Rascunhos”), é narrado de forma completamente distinta dos anteriores, em que é notória a presença e interferência do narrador, que nos interpela, nos interroga e partilha suas impressões.

O livro, editado pelo GRECIMA [programa «Ler Angola». Luanda, 2014], pode ser encontrado no Kero [rede de mercados]. Boa leitura!

Da série visitando o baú | O PEDREIRO QUE (QUASE) FUI

Inicia hoje cá no meu mural e respectivamente no blog Angodebates a publicação de parte de fotos (do tempo do analógico e que tive de digitalizar), fotos estas que registam momentos marcantes da minha vivência sócio-profissional. 

Mexer em fotos antigas é algo que tanto nos anima, como nos abala, no meu caso particular, pois há sempre algo que julgamos que podíamos ter resolvido de modo diferente, a tal estéril lucidez tardia. Seja como for, decidi avançar. Hoje saem duas do curso de pedreiro (padrão português), o qual concluí com êxito em 1997, ia eu a caminho de 19 anos, quando a falta de condições financeiras para concluir o 2.º Ano do Puniv me levou a cancelar o ano académico e tentar nos exames de admissão do IED (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento). 

Parceira do INAFOP (Instituto Nacional de Formação Profissional) e financiada pela União europeia, o IED era uma ONG, com o Eng.º João Marcelino à cabeça, que tinha o projecto de formação profissional nas vertentes de procura do primeiro emprego e para a reinserção social dos ex-militares desmobilizados, encaixando-me eu obviamente na primeira. Foram seis meses com a mão na massa. O curso era um luxo, pois enquanto formandos tínhamos um subsídio de 25 dólares americanos, que naquela altura estava acima do salário de um professor, talvez até mesmo do meu próprio pai, funcionário público ligado à governação ao nível comunal no município da Baía Farta. 

O segredo para conseguir uma vaga era apresentar o certificado mais baixo possível, sendo que eu concorri com o da 8.ª classe, salvo erro. 

Como é de imaginar, encantavam-me mais as disciplinas teóricas, tais como a tecnologia dos processos, o desenho técnico e a integração dos conhecimentos, tendo sido por conta desta última cadeira que pela primeira vez fui encarregado de elaborar o jornal de parede, que veio a ser, sem falsa modéstia, o mais elogiado pela direcção dentre os demais cursos. Terão valido os manuais de jornalismo que vinha já lendo na (estúpida) ilusão de conseguir um lugar como repórter estagiário do programa infantil da TPA, cujas gravações tinha começado a frequentar no ano anterior (no jardim do museu de arqueologia), com breves aparições a declamar poesia, a contar anedotas ou a fazer produção (bastidores) para entrevistas a clubes desportivos. 

Nunca cheguei a exercer a profissão e julgava que no ano seguinte voltaria ao PUNIV para concluir o ensino médio, não imaginava que isso estava muito longe de acontecer. Amanhã vem outro relato da série do Baú, um encontro com as minhas memórias a rolo.
Gociante Patissa, 12 Julho 2015

Citação

"O gosto literário não é puro no sentido de ter validade universal. Ele também serve para determinar a identidade do indivíduo e situá--lo em algum lugar, na medida em que, equipado de conhecimentos e valores estéticos respeitantes à sua literatura, pode ser capaz de compreender outras literaturas. Esta abertura para o diálogo com outras culturas e outras literaturas requer um conhecimento mínimo dos consensos gerados pelas comunidades interpretativas que tem autoridade nessa matéria."

Luis Kandjimbo, In «Mutamba», suplemento cultural do Novo Jornal, N.º 388, Luanda, 10/07/2015

Oratura

"Por muito que o galo cante, não pode é esquecer-se de que veio do ovo" (provérbio kikongo, língua que infelizmente não domino).

Crónica | Uma estranha vontade de nos protegermos de nós mesmos

Visitei há uma semana o sítio onde passei a maior parte da minha vida (de 1987 a 2008), o bairro da Santa Cruz, no município do Lobito, contas feitas 21 anos a fio.

Na verdade, vou lá com frequência visitar a família, embora prefira não contabilizar tais vezes, já que acontecem de forma restrita, como é de imaginar. As idas de formato mais alargado, mais social, ocorrem, via de regra e lamentavelmente, quando me chegam notícias da morte de algum conhecido por lá, e com isso o dever de solidariedade. Esta última visita não fugiu à regra. O bairro desvirtua-se com o tempo: muita gente nova, construções e obstruções. Há gente do meu tempo que não via há mais de um ano.

E foi com um certo desconforto que reparei a deferência com que me tratavam. Com boa intenção, é certo. Aliás, sempre fui tratado com algum carinho naquele bairro, não apenas pelo carisma da minha família, mas essencialmente uma recompensa por ter sonhado e liderado a equipa que materializou a AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade), ONG angolana fundada em 1999. Ainda assim, bateu em mim uma forte vontade de me proteger de mim mesmo quando o perfil de "escritor" suplanta a memória do cidadão.

O habitual em óbitos é nos encostarmos a pessoas da nossa turma, nosso tempo, mergulhar naquelas conversas homogéneas. Desta vez, para me pouparem da poeira, do sol (que até não incomodava), fui convidado a ficar numa sombra "mais confortável", isolando-me (mesmo que não o dissessem) de eventuais conversas banais de um ou outro jovem inconveniente e talvez sem escolaridade.

Sim, porque agora não sou apenas aquela alma que o bairro deu oportunidades para com ele crescer; porque agora vou tendo espaço de relevo na televisão, nos jornais, na rádio, inclusive de alcance nacional. Imagino já o que viria a seguir, caso tempo houvesse para comer e beber, um excessivo (a meu gosto) cuidado em “protocolar o escritor”.

Cedi, vi-me obrigado a ceder. Negar seria garantidamente uma afronta, estrondosa deselegância, para com o um amigo com quem andei na mesma escola (7.ª e 8.ª classe), que muitas vezes me deu boleia na sua bicicleta e me permitiu jogar no seu "game".

Um pouco pela falta de tempo (ocupação profissional mais a exigente tarefa de ler e escrever para consolidar a carreira) e outro pouco por causa de algumas lições amargas bem apreendidas nesta vida, tenho optado por uma postura mais introspectiva, mais caseira, diria até menos comunicativa. Mas no essencial sou eu, procuro manter-me autêntico, produto das minhas vivências, da militância cultural e do legado familiar.

O que fiz esta noite (antes que tal barreira venha a dar cabo do que eu preciso para tesouro, nomeadamente as minhas memórias e o direito de pertencer ao meu meio de ontem), foi escolher dezenas de fotografias a rolo para as poder digitalizar. Quero ao menos guardar esse alegre registo de menino. Eu preciso disso! É uma estranha vontade de nos protegermos de nós mesmos, dos efeitos colaterais em nossas conquistas e realizações.

Gociante Patissa, Benguela, 11 Julho 2015

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Citação

"Na minha língua dizemos que 'se dois irmãos lutam, não têm de quebrar o pote de água'. A explicação é que quando terminarem, já cansados de lutar, terão ambos a necessidade de se revitalizar, bebendo água." 
(Tradução minha do relato em inglês de um intelectual sul-sudanês, Elias Wakoson, que falava ao canal Al Jazira. 08.07.15)

Citação

"Cada geração é uma geração de sucesso se consegue vencer os desafios do seu tempo" (Castro Maria, sociólogo. Programa Especial Informação, TPA, 07.07.15)

terça-feira, 7 de julho de 2015

Diário | NA TPA HOJE ESTÁ MAIS RUÍDO QUE DEBATE

Como é que os deputados não conseguem respeitar o espaço de intervenção uns dos outros? Nuno Carnaval Vs. Fuca Muzemba carecem de moderador que saiba agarrar os freios e cronometrar o tempo de cada um no uso da palavra. Just a thought
Pensando bem...
Estou a desligar o meu televisor em jeito de protesto ao papel quanto a mim negativo do moderador do debate, o jornalista Mário Vaz. Creio que não está a conseguir distribuir com justeza os tempos de intervenção, deixando contendores em falta ou com o pensamento volta e meia interrompido. Isso lembra-me de certa vez em que a falecida Anália Pereira integrou um painel na RNA, julgo que foi num tendências e debates onde, diante de frequentes interrupções, teria dito (cito de memória) o seguinte: "Acho que é uma tremenda perda de tempo ser convidada e não me deixarem falar como deve ser. Eu podia fazer outra coisa, ir à praia por exemplo". Esta noite, em minha apreciação, os convidados fariam melhor à sociedade se ficassem em casa a cuidar da família.

Bicos à obra

Partilhando leituras

Como tenho já dito, o meu exercício de leitura é baseado numa pura questão de gosto/sensibilidade, excepto quando me vejo obrigado a estudar um determinado livro para fins académicos ou ensaístas. No campo da poesia, gosto muito mais da escrita que se aproxima ao provérbio, ao espírito da tradição oral, ou quando os parâmetros de paralelismo e contraste são evidentes. Hoje trago este poema da jovem escritora brasileira Ana Estaregui (1987), cuja enunciação remete o leitor a vívidas imagens, qual fotografia, sobretudo na primeira estrofe, onde a forma de tese é afinal uma metáfora da limitação humana. Eis o poema:
…………..

cha
de
jas
mim

o suicídio
da flor de jasmim
é a menina
olhando a rua
e a estranha
possibilidade
de pular

o gosto da folha
morta,
do chá de flores
seu cadáver vegetal
dá início
a uma primavera
cujas pétalas
são
pura ignorância.

Ana Estaregui, in «Di Versos – Poesia e Tradução», N.º 22, pág. 46. Edições Sempre-em-pé. Maia, Portugal, Fevereiro, 2015

Citação

"Você quando vem com essas ideias na economia, xé!, não pode. Porque, assim, você, em vez de tirar dividendos, vai tirar benefícios". (De um cidadão à mesa de bar sobre a crise na Grécia)

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Medida tardia mas ainda assim louvável | Cidadãos chineses só poderão conduzir em Angola mediante exame de condução local

Foto: Angop
A informação consta de uma nota de imprensa da Direcção de Comunicação Institucional e de Informação do Ministério das Relações Exteriores, difundida na tarde de segunda-feira (06/07) pela Angop.

“Esta medida, que consta de uma nota oficial do Ministério do Interior, não abrange ao Corpo Diplomático e Consulares da República Popular da China acreditados em Angola, face aos privilégios, imunidades e facilidades de que estes usufruem no exercício de funções, resultantes de acordos bilaterais ratificados pelo Ministério das Relações Exteriores”, explica.

O documento refere ainda que esta decisão resulta da inexistência de um Acordo Mútuo de Reconhecimento de Títulos de Condução, entre a República de Angola e a República Popular da China.

“A atribuição ou troca da Carta de Condução aos estrangeiros obedece a um critério baseado no princípio da reciprocidade firmado em acordo mútuo entre as partes, e que contempla o cumprimento das regras do Código de Estrada, a não sujeição dos respectivos cidadãos a exame de Código e de Condução, sem excluir a condição ou seu estatuto de estadia neste ou naquele país”, esclarece a nota.

Nota do Blog Angodebates: Vem um pouco tardia a medida, mas é ainda assim louvável, já que os nossos "compatriotas" chineses não trouxeram "mais-valia" alguma ao já complexo quadro de sinistralidade rodoviária. Não é segredo para ninguém, pelo menos em Benguela que, em caso de acidente envolvendo (camiões) chineses, os populares procuravam "sancioná-los" no local à "pancada própria", receando uma certa impunidade ou (como diria um antigo ministro) "confundibilidades" na justiça convencional. É bom que se combata a ideia de impunidade, seja ela com quem for.

Posando a mentalista hahaha

Um retratista carismático de Benguela

Diário | Ao sétimo ano, ao sexto título

Nessa coisa da escrita criativa, temos a possibilidade de impôr a um ou outro personagem passagens que nos são auto-biográficas, o também chamado «alter-ego». O meu preferido é «nós aqui só temos um lema: o nosso trabalho é trabalhar!» do personagem IC (investigador-comandante), no conto A Morte da Albina, um dos contos que compõem o meu livro A Última Ouvinte. Move-nos a certeza de que, estejamos onde estivermos, seremos sempre localizados desde que nos afinquemos no nosso ofício, que é por vocação «um trabalho mudo», como me disse certa vez um grande acadêmico e conselheiro. Daí que não me surpreendesse que só anteontem, ao sétimo ano portanto, me tivesse chegado, por telefone, o interesse das autoridades administrativas do Monte Belo, minha comuna natal, em conhecer o escritor que disse na televisão ser dali natural. Finalmente, a comuna que me viu nascer, que dista pouco menos de 150 km da cidade de Benguela, ouviu oficialmente falar do meu trabalho. Ao sétimo ano e a caminho de publicar o sexto livro. Seja como for, «nós aqui só temos um lema: o nosso trabalho é trabalhar!»

domingo, 5 de julho de 2015

«Reencontros» de Nelo de Carvalho apresentado em Benguela

O músico Nelo de Carvalho escolheu a província de Benguela para o lançamento do seu segundo de disco de originais, intitulado «Reencontros», entre os dias 03 e 05 de Julho. Para além de duas sessões de venda e autógrafos no Jardim do Largo D’Africa, município de Benguela, e num dos supermercados da cidade do Lobito, respectivamente, o músico deu dois espectáculos memoráveis.

O primeiro espectáculo, para um público mais restrito, tendo em conta até a envergadura da casa, teve lugar num dos mais antigos restaurantes da cidade de Benguela, recentemente reaberto. Foram aproximadamente três horas ao vivo com a sua guitarra, interpretando temas originais e vários clássicos da considerada «world music», sessão de resto testemunhada pelo Blog Angodebates na noite de sexta-feira (03/06). Nelo de Carvalho, a quem alguns benguelenses alcunharam de MP3, como forma até de lhe gabar o fôlego e a autossuficiência, soube ser grande sem deixar de ser simples. Se dependesse dos convivas, apreciadores incorrigíveis de boa música, o pobre do artista prolongar-se-ia até amanhecer.

O segundo acto, talvez o mais alargado, teve lugar num restaurante ao Morro da Katombela plantado, no sábado (04/05), estendendo-se até para lá das 4h00 da manhã de domingo.
Com 15 faixas musicais, «Reencontros» é uma sequência temática do primeiro álbum, «Encontros», lançado há coisa de dois anos. De participações especiais, destacam-se Bonga, Rui Veloso, Tanya Saint Val, Nanutu e Mindo Monteiro. «À Cidade com Amor», segunda faixa, é uma dedicatória que o músico faz a Benguela, por si musicada e com letra de Beto Monteiro.

Gociante Patissa (texto e fotos)

sábado, 4 de julho de 2015

E porque não é só com misses e kú-duro que se conquista o mundo | ESTUDANTE ANGOLANA É MEDALHA DE OURO EM ARTES PLÁSTICAS NOS EUA

Jasmim Prakash, que aos 15 anos frequenta a 9.ª classe no colégio Esperança Internacional de Luanda, venceu em Nova Iorque, Estados Unidos da América, a medalha de ouro, na categoria de Arte, num concurso académico em que participaram mais de seiscentos concorrentes de vários países, de 14 a 19 de Junho. O desenho com que concorreu retratou a importância da preservação do meio ambiente e combate à poluição na natureza.

Opinião | Por que razão «Nga Muturi» não é um clássico da literatura angolana?

por Luís Kandjimbo, ensaísta e crítico literário

Em 1980, a União dos Escritores Angolanos publicou a segunda edição da «noveleta», como lhe chamou Mário António, intitulada Nga Muturi cujo autor é Alfredo Troni (1845-1904), um jurista português que na segunda metade do século XIX se estabeleceu em Luanda, tendo desenvolvido outras atividades como advogado, juiz e diretor de jornais, entre os quais se destaca o Jornal de Loanda. Após a sua publicação em folhetins no jornal português Diário da Manhã em 1882, a primeira edição de Nga Muturi saiu em 1973 com a chancela portuguesa das Edições 70.

O ensaísta e poeta angolano Mário António que escreve o prefácio aproveitava então a oportunidade para lançar mais uma pedra no edifício da sua apologia da crioulidade fazendo eco do famigerado lusotropicalismo de Gilberto Freire, doutrina tão cara à ideologia fascista do Estado Novo em Portugal.

Ocorreu muito recentemente (2014) uma terceira edição com a chancela de um projeto de divulgação de «onze clássicos da Literatura Angolana». Ora, se um clássico é uma obra que deve ser recomendável para o ensino das novas gerações, reitera-se aqui o problema da seleção de textos que suportarão o processo de ensino-aprendizagem e consequentemente a formação do cânone literário angolano. Uma década após a polémica travada nas páginas do Jornal de Angola que mobilizou a atenção do público sobre a inclusão/exclusão de determinados escritores numa coleção denominada «biblioteca da literatura angolana», subsistem dúvidas acerca da representatividade de autores e textos no quadro do sistema literário nacional.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

SUMÁRIO DA ANTOLOGIA «DiVersos 22», pelo editor, José Carlos Marques

QUATRO POETAS DE ANGOLA E OUTROS DE TODO O MUNDO

Recebemos há tempos (ver Publicações Recebidas, n.º 21, página 116), como oferta da Associação Porta Treze, de Vila Nova de Cerveira, animada por Luandino Vieira, quatro pequenos livros de quatro poetas angolanos, todos editados na coleção Vozes de Grilo, da editora NósSomos, de Luanda e Cerveira. Graças à gentileza do editor, conseguimos contactar os quatro autores e convidá-los a colaborar neste número da DiVersos. Mais adiante uma explicação complementar.

Uma poetisa sueca (Edith Södergran), um clássico do Século de Ouro espanhol (Francisco Quevedo), a grande poetisa chilena Gabriela Mistral e o poeta argentino Rodolfo Alonso como presença da América Hispânica, e dois poetas gregos do século XX, um Prémio Nobel (Giorgos Seféris) e outro de estatura equiparada por muitos (Nikiforos Vrettakos), e pela primeira vez na DiVersos um poeta traduzido de uma língua africana (umbundu), traduzido pelo próprio, Gociante Patissa, para português, são mais alguns poetas de todo o mundo, de diferentes línguas, dois deles ainda nossos contemporâneos, incluídos neste número. Após seis números (16 a 21) de edição bilingue na DiVersos, surge desta vez adiante uma curta explicação para esta escolha.

A opção bilingue manifesta-se habitualmente tendo o português como língua de chegada. Com a tradução para catalão de poemas em português de Pedro Silva Sena por Gabriel de la S. T. Sampol (DiVersos n.º 18) iniciámos traduções bilingues em que o português é a língua de partida. Neste número, temos algo idêntico com a tradução de poemas de Cristino Cortes para alemão por Maria de Nazaré Sanches, ambos já anteriormente presentes na DiVersos quer como autores quer como tradutores.

Outros poetas de língua portuguesa, agora do Brasil, enfileiram lado a lado com os poetas angolanos a que já aludimos, os jovens Ana Estaregui e André Argolo. Do Brasil igualmente o tradutor de Rodolfo Alonso, Anderson Braga Horta, também ele poeta, de que publicaremos no próximo número alguns poemas. Poetas portugueses, alguns com obra extensa ou significativa já, como José Carlos Breia, Nuno Rebocho e Paulo Pego, este último já presente anteriormente na DiVersos quer como autor quer como tradutor. E finalmente Vergílio Alberto Vieira, de que inserimos uma miniantologia em que se procura dar uma panorâmica breve de uma obra vasta (quadratura de círculo?), como já anteriormente fizemos com Pedro Tamen, Glória de Sant’Anna, Albano Martins, António Manuel Pires Cabral, Matilde Rosa Araújo, e alguns outros.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Conforme a nota de imprensa que chegou ao meu blog | Prémio Literário UCCLA, NOVOS TALENTOS, NOVAS OBRAS EM LÍNGUA PORTUGUESA

Terá lugar no próximo dia 7 de julho, às 18h30, a apresentação do Prémio Literário UCCLA “Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa”, na Sala dos Espelhos do Palácio Foz (Praça dos Restauradores), em Lisboa, Portugal.
O Prémio Literário UCCLA - iniciativa conjunta da UCCLA e do Movimento 2014 – destina-se a promover e divulgar a literatura em língua portuguesa e tem como objetivo estimular a produção de obras literárias em língua portuguesa por novos escritores.
Lisboa, 2 de julho de 2015

Minha nota: Até ver o regulamento do Prémio, prevalece o cepticismo quanto ao zénite dos olheiros na busca destes "novos talentos na escrita do espaço de língua portuguesa" (Angola, Macau, Brasil, Moçambique, Guiné, São Tomé, Cabo-verde Portugal) ir além daquilo que o lobby academia-arrastão editora-imprensa em Portugal e Brasil já nos acostumou. É desculpar a inconveniência da verdade, but... We'd better not get our hopes up! Gociante Patissa

Mais uma internacionalização | ACABO DE RECEBER O EXEMPLAR DA ANTOLOGIA "Di Versos", PUBLICADA PELA PORTUGUESA "Edições Sempre-Em-Pé. Outros autores angolanos são Lopito Feijó, David Capelenguela e Carlos Ferreia "Cassé". É a segunda presença de Gociante Patissa neste projecto (em que os autores são selecionados pelo editor e não têm que pagar rigorosamente nada), a primeira foi na 18.a edição