PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Excertos| Graça Machel

"Tu não podes sonhar se estás com o estômago vazio."
(...)
"Independência é dirigir e controlar sectores decisivos e estratégicos."
(...)
"Temos de revisitar as prioridades na formação. Hoje, tu perguntas a um jovem, todos querem seguir gestão de empresas. Poucos querem seguir engenharia, agronomia, veterinária. Quem está a construir as nossas obras? Os chineses, os portugueses, os brasileiros. Não estou contra isso, mas... que competências teremos para dizer que aqui e ali estão a nos aldrabar?!"
(...)
"Finalmente, tenho algo a dizer: é preciso reinventar as utopias, reinventar as utopias para os próximos trinta anos; resgatar a generosidade; repensar e conjugar aquilo que é meu interesse pessoal e o projecto nacional; a pátria não é só de heróis, é de todos; reinventar o sentido de pertença. O ensino superior tem de desenvolver para repensar o povo, a narrativa do povo; formar não só para servir o mercado, mas para servir o povo."
(...)
"Temos de formar jovens que saibam ter o sentido de humildade. Os nossos jovens, hoje, saem "muito doutores"; doutores disso, doutores daquilo. Eu também não sou doutora?! É preciso ter jovens formados e que se identificam com a mãe, tirar da cabeça essa coisa de "os pobres".
________
Graça Machel em palestra sobre "A Visão Estratégica para o Ensino Superior", na sua condição de Ministra da Educação no primeiro governo de Moçambique, transmissão da STV Notícias, canal 9 da Dstv, 30.09.14

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Diário| Espreitando o desenho

“Esses dois que desenhaste vão aonde, Tái?”
“Eles ainda não sabem; pensaram que vão à festa, afinal é casamento.”
“Postos lá, vão ver que estavam enganados?”
“Ya! Agora queriam fugir, o noivo lhes agarrou: Xê, vocês vão aonde?”
“O noivo?”
“Esse pequeno atrasou porque tomou banho, os outros foram só mesmo assim, sujos.”
“Mas casamento não é festa?”
“Não. Festa é que as crianças dançam, kuya bwé; casamento, não.”
“E lá aonde foram é muito longe de casa?”
“Não.”
“E foram de quê?”
“A pé… Ah, de mota!”
“Agora têm que voltar para casa, porque casamento não é festa, né?”
“Sim, tio. Esse pequeno ainda não sabe; está a gostar, porque acha que vai assistir bonecos…”
“Ah, é?”
“Afinal o pai dele está em casa, não foi trabalhar.”
“Assim, ele não pode ver bonecos?”
“Não, porque o pai está a ver o noticiário.”

(Diálogo que ocorreu na presença dos pais do menino de 5 anos, Benguela, 28.09.2014)

Livongh e o sintetizador feito viola "lá na frente de combate" qual Beto d'Almeida

Jorge Neto e o recado à Rosinha... "Nosso casamento é só na voltada"

Kyaku Kyadaff, ou como fazer de uma "sete e sete rosas"

Célsio Mambo e o voo em lira

Ricardo Lemvo e o momento sublime

Na hora de seleccionar fotos, o velho conflito entre o artístico e o jornalístico. E com a carência de espaço, pouco menos de quatro seguem. Como diz um jornalista amigo que é correspondente de semanários editados na capital, faz grande FALTA um jornal para abordar assuntos de Benguela!

Crónica| O sindicalista

Vejo-o passar, ainda hoje durante as horas vagas dos meus olhos, naquele jeito seu quase caricatural, quarenta e alguns aniversários, calças largas - por talvez lhe faltarem trocos para o alfaiate, profissão cada vez mais rara por cá. Andava de cima a baixo, seus sapatos - deformados, de tão experientes - parecendo terem a sola feita de pó. Em mãos, um monte de papéis pouco dados à harmonia, pois bastava um pouco de vento para se meterem a voar. Parecia empenhado em constituir o núcleo sindical, não deixando de soar estranha a insistência no encontro com o patrão e as visitas às horas próximas ao refeitório. Falava da Lei (geral do trabalho), aquele amontoado de artigos entre a autoridade e boas intenções que, de tão geral, nada podia contra despedimentos arbitrários onde qualquer greve evolui para ilegal logo que comece. E no fim desta, a selectiva vassourada. Ainda o vejo, tantos anos passados, de bigode farto, peito erecto, mas já sem tanta graça, direi. Sapatos quadrados, briefcase e até um carrito de quarta mão... da mesma marca, modelo e série que outros cedidos por abate pelo patronato. Qualquer percentagem, tanto não anula, como é sempre mais proveitosa que o um porcento cascado ao proletariado. Como dizia um memorável instrutor, "as instituições não existem senão em função das pessoas que as representam." Viva o sindicato!

Gociante Patissa, Benguela 29.09.14

domingo, 28 de setembro de 2014

Cantor Joaquim Viola Reedita "Tchyungue"

Texto: Jornal de Angola, 27/09/14
O músico Joaquim Viola anunciou, no Lobito, que vai lançar uma versão “mais modernizada” de “Tchiyngue”, que dá o título ao primeiro disco que editou, em 1986. O tema “Tchiyungue” fala da história de dois gémeos (Hossi e Tchiyungue), um rapaz e uma rapariga. Ela humilde e obediente e ele indisciplinado e desleixado. O cantor iniciou a carreira aos 18 anos em 1966, a tocar uma viola com apenas três cordas feita por ele. Actuou pela primeira vez em público em 8 de Dezembro de 1976 por ocasião das festas da Nossa Senhora da Graça. “Tchiyungue” já conheceu mais versões interpretadas, entre outros, por Patrícia Faria e Sabino Henda. Joaquim Viola lançou em 2006 o segundo disco, “Rádio Nacional de Angola”, com 12 temas, dez das quais de sua autoria e as outras, do filho, Paulove.

Divagando| A corruptela como regra

Os nossos compatriotas "geniais" que defendem essa ideia pouco aconselhável de castrar as consoantes K, W e Y dos nomes de localidades de matriz africana, tanto recorrem ao seu "know-how" (que entretanto não grafam /nóu háu/), como fazem "marketing" (que por acaso não grafam /marqueting/). E das vezes que vão ao Kunene (que imaginam /Cunene/), não perdem a chance de visitar Oshikango, Oshakati, podendo mesmo esticar para Windhoek, na República da Namíbia, com quem partilhamos o projecto Okavango Zambeze, mas não aproveitamos para beber da sua experiência no que respeita à preservação de alguns dos mais elementares aspectos da nossa matriz de bantu e pré-bantu, quer sejamos da elite, quer sejamos da plebe. Custa dizer, já que de colonização não há uma melhor que a outra, mas parece que as sequelas de alienação cultural nas ex-colónias portuguesas são bem mais graves do que França e Inglaterra deixaram. Os nomes pessoais e das localidades são geralmente adoptados de rios, montanhas, plantas e animais que, até provas em contrário, já existiam. Ensinar as línguas nacionais e ao mesmo tempo adoptar a degeneração como paradigma de registo só pode ser um "desencontro de esforços" onde claramente sai prejudicada a preservação da memória colectiva. Not a way to go!

Nos tempos do curso básico de jornalismo e técnicas de redacção promovido pela APHA (Associação de Promoção do Homem Angolano) em parceria com o Instituto Camões e a Direcção Provincial da Comunicação Social, Benguela 2005

sábado, 27 de setembro de 2014

«O ‘K’ tem de voltar a ser colocado onde parece que querem retirá-lo» - António Fonseca

Texto e foto: Semanário Angolense, edição 548, Luanda 27/09/14

O desaparecimento do «K» das palavras de origem angolana, so­bretudo no que diz res­peito aos topónimos (nomes pró­prios de localidades), tem gerado muitas discussões. Kwanza Norte, Kwanza Sul e Kuando Kubango, por exemplo, que depois da independência na­cional passaram a ser escritos com «K» em vez do «C» imposto pelo regime colonial português, volta­ram a ser escritos como antes por determinação do Ministério da Administração do Território.

Na opinião de António Fonseca, renomado escritor angolano, numa entrevista concedida ao Semanário Angolense, publicada no essencial na sua última edição, «o ‘K’ tem de voltar a ser colocado ali onde pare­ce que querem retira-lo». «Porquê desapareceu?», questiona o tam­bém economista e professor uni­versitário da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto.

No entender do escritor, dian­te dessa polémica, «quem defen­de que tem que escrever com ‘C’, está muito equivocado», já que «se as outras palavras do português mantêm os seus radicais, nós te­mos o direito e o dever de manter os radicais das palavras com ori­gem nas nossas línguas». Aos seus olhos «é claro que (essa palavras) se vão adaptar à norma, mas tem que respeitar a sua história».

Ele não leva em conta o ponto de vista dos que defendem o uso do «C» no lugar do «K», por se tra­tar da Língua Portuguesa e deve ser usada como ela é. Em contra­ponto, António Fonseca replica que «o Português não é uma lín­gua morta; é uma língua viva. En­tão temos que ter a nossa matriz».

Na opinião de António Fonseca, o desaparecimento do «K» nos to­pónimos «é uma espécie de recuo» perante o avanço que foi a procla­mação da Independência Nacio­nal, ocasião em que conquistamos o direito de ser soberanos.

«Digo isto com responsabilida­de própria e pessoal», sublinhou, antes de questionar: «Porque é que vamos querer branquear o nosso português, se o nosso português tem as nossas características ine­gáveis e impossíveis de negar?». Admite que a tentativa de «bran­quear o Português» é preconceitu­osa. «Só pode ser! Não tem outra explicação!», exclama.

E a exclamação de professor é maior ainda quando imagina que o fenómeno da retirada do «K» pode atingir até o nome da moeda nacio­nal. «Vão querer escrever também com ‘C’? Só espero que isso não aconteça, senão, é melhor usar o es­cudo português da antiga colonia», reclamou.

Fechando o capítulo da discussão sobre o uso do «K», António Fonseca foi veemente na réplica conclusiva: «Nós temos que ter, meus senhores, a ambição de reclamar aquilo que é nosso contributo ao imaginário e ao universo da língua portuguesa. Isso não se faz com essas concessões. Não! Tem que ser com ascensões».

Continuando na defesa da sua visão, o escritor explanou: «A escrita decorre de convenções. E quem faz as convenções são os homens. Se esses sinais não exis­tiam na convenção anterior, que as revejam. Porque temos que incorporá-los e os académicos vão ter, mais tarde ou mais cedo, que aceitar isto. Porque, quando nós não fazemos isso, o sentido das palavras perde-se e a mensagem não passa».

Um outro aspecto da língua focado nessa conversa com o es­critor António Fonseca prende-se com a grafia e pronunciação de nomes em línguas nacionais, pois ouve-se grande parte de muitos desses nomes sendo pronunciados de maneira errada em relação ao entendimento que eles pretendem passar, ou o significado que eles têm.
O professor mencionou como exemplo o nome de um seu colega - Vatomene. «Não é Vatomene. É Vatómene. Quer dizer ‘algo de bom’. Se estamos no contexto da Língua Portuguesa, então vamos pôr um acento no ô de Vatomene, que assim o nome dele vai ser pronunciado correctamente. E a mensagem vai passar».

António Fonseca explica que «às vezes é um acento que resolve o pro­blema para indicar que ali se deve pronunciar com acentuação». E cita outros exemplos dessa espécie.
«Temos o João Lusevikueno. Se se escrever só com um S, como ele tendo valor de Z entre duas vogais, o nome será pronunciado de maneira errada. Para que seja pronunciado de maneira certa deve ser escrito com dois SS – Lussevikueno (podem alegrar-se)».

Esclarecendo mais sobre esse assunto, o escritor disse que «nós temos de encontrar um sistema de grafia que conserve os valores cul­turais intrínsecos ao próprio nome - essa é que é a questão!».

E advertiu que «o fundamentalis­mo dum e doutro lado aqui não re­solve», referindo-se aos conservado­res da Língua Portuguesa e os seus semelhantes das línguas nacionais.

Ao fim de quase uma hora de conversa com o nosso interlocu­tor, depois de uma incursão por vários assuntos ligados a cultura angolana eis que António Fonse­ca, um homem falante com muito pra ensinar, ainda deixa um reca­do: «Porque é certo que estamos na época da globalização e o impor­tante é que nós aspiremos a ter um país moderno e próspero mas na nossa condição de angolanos. E isso é feito na nossa condição cul­tural».

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Diário| Pinturas do Ataíde (5 anos)

"Vais desenhar o quê, Tái?"
"Uma sereia, tio."
"Outra vez sereia?!"
"Sim."
"Tenta desenhar outra coisa, esquece ainda a sereia."
"Mas essa é uma sereia que virou, já saiu da água."
"Você já sabe desenhar bem a sereia. Tenta desenhar outra coisa, um pão, um cão, um carro."
(minutos depois)
"Desenhaste o quê?"
“Um carro com porta-bagagens.”
"E o volante?"
"Está aqui."
"E a cadeira do motorista?"
"Não está, porque o motorista desceu."
"E no porta-bagagens, vamos lá ver o que tem... De novo um tridente, um fantasma e... de novo uma pequena sereia [coisa dos teus bonecos animados]?!
"Mas essa é uma sereia de brinquedo, tio."

"Tirando a família, só tenho um amigo."

(António Tomás Ana "Etona", artista plástico, em entrevista biográfica ao programa "Caras e Vidas", da Televisão Pública de Angola, 25.09.14)

"Quem faz o jornalismo acontecer são as sociedades."

(Ernesto Bartolomeu, quando questionado sobre a relação entre o jornalismo e a democracia, programa Vivências, da Rádio Mais, 25.09.14)

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Conto| O cavalo que morria devagar (Daniel Teixeira)

Daniel Teixeira
Texto e foto: Raizonline - Havia um cavalo pastando e um velho sentado numa pedra olhando o cavalo. 

Havia também os dois netos do velho e um pequeno prado murado e com muitas pedras soltas musgadas. Parecia um prado tão velho quanto o velho. Ou talvez mais. Eu sempre o conheci assim, aquele prado e aqueles muros meio derrocados.

Poderia ter perguntado ao velho quanto velho era aquele prado e aquela cerca que o cercava quase por completo. Porque havia uma parte do muro que arrendava dois finos troncos cruzados que o velho certamente levantava e baixava para fazer entrar de manhã cedo e fazer sair à tarde, já quase noite, o cavalo. 

Citação

"Não podemos todos ver a vida da mesma forma. Uns priorizam o casamento, e estão certos; outros priorizam outras coisas, e não estão errados."

citação

«Efectivamente, todos os verdadeiros problemas são fundamentais, no sentido de que remetem para contradições fundadas. Sem a existência de contradição não seriam 'problemas'; sem a existência de fundamento, ou base material, para contradição, quer quanto aos seus elementos, quer quanto à estrutura ou totalidade que forma, não seriam 'verdadeiros'.» (José Barata Moura, 1977, pág. 97. In "Estética da Canção Política - alguns problemas". Livros Horizonte. Lisboa, Portugal)

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Utilidade pública

Soube que vão arrancar ainda esta semana as inscrições de candidatura para o emprego na função pública, Sector da Educação, na província de Benguela. Fala-se entre 300 a 800 vagas no professorado. Para quem tiver formação com agregação pedagógica e aptidão (a partir de técnicos médios), ao que se junta o elemento motivação para a referida missão, fica a informação.

Luís Fernando lança TRÊS ANOS DE VIDA e CLANDESTINOS NO PARAÍSO

Foto do Facebook do autor
O escritor angolano Luís Fernando lançou na passada quarta-feira, 23/09, as obras Três Anos de Vida (crónicas) e Clandestinos no Paraíso (romance), sob chancela da Mayamba Editora. A cerimónia terá lugar, em Luanda, no Centro Cultural Português - Instituto Camões (av. de Portugal), pelas 18 horas.

Membro da União dos Escritores Angolanos e jornalista formado em Cuba, Luís Fernando nasceu na localidade de Tomessa, província do Uíge, em 1961. Trabalhou por mais de década e meia na Rádio Nacional de Angola, chegando ao posto de Director de informação. Durante 12 anos foi director geral do jornal de Angola. Está ligado ao semanário O PAÍS desde a sua fundação em 2008. Colaborou ainda em distintos órgãos, no país e no estrangeiro (jornal Desporto militar, revista O GOLO, Agência Angola Press, TPA, O Diário-Portugal − e Deutsche Welle, Alemanha).

Obras publicadas: A saúde do Morto; Antes do Quarto; João Kyomba em Nova Iorque; Clandestinos no Paraíso; A cidade e as Duas Órfãs Malditas e Um ano de Vida, tendo-se estreado em 1999 Noventa Palavras.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Quando o avanço é para trás

para kú-duro (que advém de cu), usamos a letra K

para Kwanza-Sul, bem como para Kwando-Kubango (que provém dos rios Kwanza, Kwandu e Kuvangu) somos obrigados a usar C

NÃO HAVERÁ ALI ALGO A CORRER MAL?

Conto| NÃO É COM AS PERNAS QUE CORREMOS (*)


Numa aldeia muito distante do nosso tempo, no contar do meu avô, havia espaço para tudo, menos para a felicidade de pessoas com deficiência. Acreditava-se que a limitação motora seria praga dos deuses por eventual erro dos ancestrais.

Lumbombo, cujo nome na língua Umbundu quer dizer raiz, na típica essência proverbial dos nomes africanos, era visto como um ser frágil. O próprio nome advinha do facto de nascer doentio, ficando a sua sobrevivência a dever-se a medicações à base de raízes e preces. Em meios rurais, onde são pelo trabalho as pessoas notadas, não era bem o tipo que povoava fantasias. Não se lhe via beleza nem valentia para sustentar uma mulher.

Diz-se que quem nasce com a deficiência tem maior probabilidade de lidar com a baixa auto-estima do que aquele que a adquire depois de ter uma cosmovisão já construída. Na hipótese de ter sido, de facto, assim, Lumbombo não andava por aí a fazer da sua condição uma canção. Para a família, ele nem era assim tão inútil. Passava o dia em casa e cuidava dos animais domésticos, muitas vezes usados como moeda de permuta com produtos da loja do único comerciante, português oriundo do Norte, segundo as más-línguas, sem fundos para a passagem de regresso à Europa.

Romântico inconfesso, Lumbombo não sossegava enquanto não bolasse uma estratégia aparentemente desinteressada de atrair simpatia feminina. Foi então que aprendeu a esculpir pentes de madeira, ciente de ser a vaidade a primeira amiga de uma mulher. Nem foi preciso sequer um ano para o quintal do homem andar apinhado de beldades, perdoem-me aqui algum exagero. Tantas vezes amou, outras foi amado, ainda que às escondidas, dado o preconceito que julgava contagiosa a deficiência. E com as suas poupanças passou o mestre Lumbombo a investir na criação de gado. De frágil a prodigioso, cativava beldades e acumulava bens sem sair do lugar, sem conhecer o caminho da lavra e do rio sequer, já que só se podia mover arrastando-se.

Certo dia, foi um amigo pedir-lhe um boi emprestado para optimizar a sua lavoura. Lumbombo, cordato, conhecido mais pelos seus silêncios do que pelas palavras propriamente ditas, cedeu. Uma semana depois, vinha o recado por terceiras mãos de que o boi havia morrido na lavoura. «Eu, pagar o boi do paralítico? Nunca!», refilava o ajudado. «O que é que pode ele fazer para me agarrar, por acaso vai correr?» A repreensão dos demais aldeãos era automática, tendo em conta que é sobre a honestidade e honradez que se constrói uma nação. Aquele teimava em não ressarcir.

Um ano depois, veio a notícia de grande desalento. Uma lasca de madeira havia adentrado um dos olhos do mestre dos pentes. Ter-se-ia alojado atrás da córnea. Não havendo hospital convencional, cabia aos homens ir soprar-lhe pela boca o olho. Turnos de dois, duas vezes ao dia. E como o trabalho voluntário é, em boa verdade, rotativo e obrigatório, foi o doente consultado se permitia o vigarista soprar-lhe também, ao que anuiu, garantido que nos momentos de doença e morte, a dívida podia esperar.

Chegada a vez, o devedor curvou-se para soprar. E era impecável. Mas quando menos esperava, o doente envolveu-o num grampo de braços pelo pescoço, cortando-lhe assim a respiração, ao ponto soltar gazes. «Daqui só sais com o meu boi de volta!» Os demais ainda tentaram de tudo para arrancar dos braços de Lumbombo o vigarista, não faltando quem derramasse óleo de palma, na vã tentativa de aligeirar a separação. Só horas depois, com a presença do boi, Lumbombo soltou-o. E estava aprendida a lição. Se deve, paga! Não é com as pernas que corremos, é com o pensamento. Como diz o provérbio, «una olevalisa eye onjaki» (aquele que empresta é que é o briguento).

Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da Catumbela, 22 Setembro 2014
(*) Adaptação de um curto conto contado pelo meu avô e xará Manuel Patissa

domingo, 21 de setembro de 2014

"Não digas que o louco sou eu. Se for tanto melhor. Amor sei-te de cor. Sei Por que becos te escondes. Sei ao pormenor"

Paulo Gonzo, in «Sei-te de Cor»

Apontamento

Voltei à comuna da Hanha do Norte, tradicional terra de victórias carnavalescas no contexto histórico do Carnaval da Victória, que se realizava a cada 27 de Março. Mas não é a manifestação cultural como tal que me põe a partilhar; emoção grande mesmo foi experimentar a nova estrada entre a zona do Golfe, no Lobito, e a Hanha. Conduzir, nestes quase de 20 km a nordeste, não podia ser mais confortável! Um abraço, Angola!

sábado, 20 de setembro de 2014

Ministra da Cultura destaca afirmação do português

Texto- Jornal de Angola (20/09): De acordo com Rosa Cruz e Silva, que presidiu a cerimónia de abertura do III Congresso Internacional de Língua Portuguesa, em Luanda, por essa via, os angolanos tornaram a língua portuguesa mais adequada aos contextos culturais do país.

A língua portuguesa em Angola fez uma trajectória de afirmação do património partilhado, na medida em que desde os primórdios, até ao período mais crítico da sua história, os angolanos transformaram-na na principal arma da luta contra o sistema opressor, afirmou quinta-feira, em Luanda, a ministra da Cultura.

“Nessa medida, a língua portuguesa alcançou estatuto, tal como versa a Constituição angolana. Ela vai merecer melhor tratamento dos estudiosos para que o seu ensino se revele cada vez mais apropriado, bem como o seu conhecimento. Esse exercício deverá ser feito em paralelo com as demais línguas nacionais com que convive e que lhe deram a força que adquiriu hoje”, adiantou.

Rosa Cruz e Silva considera imperioso que se conheçam os principais entraves que se assiste em relação a língua portuguesa para que não se comprometam os objectivos preconizados, nomeadamente na transmissão do conhecimento e dos valores civilizacionais da modernidade. Enquanto meio de comunicação para os mais diversos fins, salientou, não se deve pôr em causa a importância da memorização da língua portuguesa, a par das demais línguas nacionais, que por força dessa luta deverá colocar-se ao mesmo nível de importância e utilização de todos os interlocutores do país.

“Sem qualquer mácula, deve permanecer o diálogo, já que a diversidade linguística do país constitui a sua grande riqueza na validade e diversidade cultural”, frisou.

Na sua intervenção, a ministra da Cultura fez um resumo histórico da importância que os soberanos do Reino do Congo e do Ndongo já atribuíam ao conhecimento e domínio da língua portuguesa, com destaque para Nzinga Nkuvu, Nzinga Yemba (dom Afonso I) e Njinga Mbandi. Estes soberanos, recordou, preocuparam-se com a instalação de escolas em que deveriam, os meninos e meninas do Congo, aprender a ler e a escrever o português.

Noutras circunstâncias, enfatizou, solicitaram a vinda de mestres, professores e missionários, que se encarregaram do ensino da língua portuguesa, multiplicando-se as escolas e enviando-se jovens para os conventos em Lisboa, fazendo assim surgir de forma acelerada os mestres, que continuariam a obra pelos séculos seguintes.

Foto da minha objectiva com mérito de capa no Semanário Angolense

Fiz uma foto ao músico Kyaku Kyadaff (esq.) durante o show do Benguela Gentes e Música, organizado pela Rádio Benguela, em que estive em reportagem pelo Jornal Cultura. Como o referido jornal é também distribuído via PDF, a foto passou a circular em cartazes publicitários e comunicação social, tendo merecido destaque de capa no SA. Se as pessoas deviam ser referenciadas pelos seus trabalhos fotográficos? Isso é um longo caminho, já que nem mesmo o próprio Jornal Cultura, que a publicou inédita, cuidou de legendar e atribuir autoria. Já estou habituado (sei que não devia).

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Excerto do conto «Sapalo e a Avenida do Quase»

«— Tá ver bem, chefe? — Sapalo assegurava o contacto visual, de sorriso a destacar a brancura dos dentes. A testa tinha a cor da barba, tal era a graxa. — Acho que preciso de uma consulta, um dia. — já éramos dois a achar que sim, mas calei ao que seria o motivo, aguardando que completasse a ideia. — Oiço muito a chuva.

"Muito" queria dizer demasiado. Dava que pensar. A estiagem deixara de ser notícia, esgotadas as esperanças de honrar o crédito de campanha. Pássaros e roedores tinham-se ocupado do milho da primeira sementeira, pelo sol esterilizada. A outra metade, oh impotência, mal dava para cobrir as mesas de funji até à estação de chuvas seguinte, no curto defeso entre Maio e Setembro. Entretanto, Sapalo, só mesmo ele, segredava-me que ouvia o som da chuva, bastando-lhe fechar os olhos.

No compasso de espera do Sapalo, que fumava o seu cigarro, debatia minhas noções, sentado, em silêncio, no carro. No outro dia, um, aquele sim quase louco — digo quase porque, com inusitado sentido de liberdade —, quebrou uma qualquer garrafa e com o mesmo automatismo atingiu uma testa, a dele próprio, para em jacto de sangue deixar sua marca sobre o passeio de cimento. Não foi visto durante horas. Surgiu depois com penso sobre a sutura, pediu cinquenta kwanzas para comprar pão, mas logo a seguir chateou-se quando lhe foi dado o pão no lugar dos cinquenta kwanzas. Certamente sabia que por aquele valor compraria mais de um. Passam relativamente muitos por este passeio. E até faz sentido, é a rua dos bancos, da clínica e dos contentores de lixo. É de loucos a avenida do quase, do sonho por rápidas melhoras, da dor.»

In «Fátussengóla, O Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas» (pág. 83), meu livro de contos com previsão de lançamento em Novembro. Falta pouco.

Diário| Aprender associando

"Hoje aprendeste o quê?"
"Tio?"
"Estudaram o quê na escola?"
"La, le, li, lo, lu."
"Ah, é? Escreve ainda lá."
"Meu lápis está desafiado. Está aqui o que a professora escreveu no meu caderno."
"Gosto mais de quando és tu quem escreve... Ok, mas então diz só: como é que se escreve lá?"
"Primeiro você desenha um pau, tio, depois uma bola e põe bico. É um pau com a."

terça-feira, 16 de setembro de 2014

"OHOMBO YACITA UTEKE, OCIVALO TUTALA LOMENLE" - (adágio Umbundu)

"OHOMBO YACITA UTEKE, OCIVALO TUTALA LOMENLE" - (adágio Umbundu) - pariu a cabra de noite, é pela manhã que descortinamos a aparência do filhote).

Enquadramento: geralmente, é um apelo à paciência em caso de dúvida, no sentido de que a verdade vai, mais tarde ou mais cedo, emergir.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Ao desafio proposto por uma pessoa amiga, alisto 10 obras entre as que me marcaram. São aquelas que me ocorreram, não representando qualquer ordem de importância, pelo que espero não estar a lesar ninguém cuja obra não conste

1. NDA NDAKAILE EKIMBA (versão Umbundu de Quem Me Dera Ser Onda, do angolano Manuel Rui Monteiro, tradução de Jaka Jamba)
2.
MANY YESES, ONE NO (do britânico Paul Kingsnorth)
3. THE DOOMSDAY CONSPIRACY (do Americano Sidney Sheldon)
4.
LONG WAY TO FREEDOM (do sul-africano Nelson Mandela)
5. GIRABOLA NA SELVA (do angolano José Samwila Kakweji,)
6. ROSAS E MUNHUNGO (do angolano João Tala)
7. KANATA (do angolano Fulas)
8. EMOÇÕES (do angolano Adriano Botelho de Vasconcelos)
9. LINGUÍSTICA GERAL (do fracês André Martinet)
10. MANUAL APRESSADO PARA RADIALISTAS APAIXONADOS (do cubano José Ignácio López Vigil)
Vou transgredir um pouco a lógica do jogo: não cito ninguém, quem quiser pode, no seu mural, continuar a jogada, alistando os livros que tenha lido e gostado.
Abraço

Diário| Um mestrado fugidio

Gorada a esperança do arranque da pós-graduação com acesso ao mestrado em Ciências da Comunicação na CESPU, instituição que organiza em regime semi-presencial com universidades portuguesas, optei pela Gestão Estratégica de Recursos Humanos. Mas consta que a maka da fraca procura ameaça o arranque deste curso também. O ideal era mesmo a primeira opção, que valoraria o conhecimento e alguma prática de pelo menos uma década em letras e comunicabilidade, recaindo o interesse para a especialização em Comunicação Institucional. Whatever, acho que ainda vou a tempo de me alistar numa dessas igrejas milagreiras. Assim sendo, exijo aos anjos uma bolsa na Inglaterra, o que presume já não perder o meu empregozito hahahahaha

domingo, 14 de setembro de 2014

ALUPOLO (minha adivinha)

O serão é o momento cultural mais formal entre os ovimbundu. É praticamente um dogma, só de noite é permitido contar estórias e adivinhas. Diz-se mesmo que quem o fizer durante a luz do dia corre o risco de lhe nascerem chifres (nada relacionado com o sentido de traição). Cá por mim, julgo que será uma estratégia de o entretenimento não prejudicar o horário do labor. Alguém então propõe, por exemplo:

"Alupolo!" (minha adivinha!)
"Wiye!" (Venha!)
"Nditãi kesinya, ndinyanyomõlã alensu." (Encontro-me na outra margem a abanar lenços.)
"Ina yukwene, nda enda epenle, ku koyole." (Se a mãe de outrem está em carência de vestuário, não te rias dela)

E a roda do diálogo gira com tudo o que de metafísico se reveste, vista a tendência de serem os mesmos contos e fábulas cantados, adágios e adivinhas, mas que, entretanto, não perdem o poder de suscitar o mesmo respeito, medo, fantasia e vontade de voltar a ouvir.

Bom domingo a todos, que o meu começou já com a panela de arroz doce queimada ao lume, enquanto escrevia esse bocado aqui.

Ovilamo! (cumprimentos)
Gociante Patissa, Benguela 14.09.2014

sábado, 13 de setembro de 2014

COMO SE "QUEM DE DIREITO" SE IMPORTASSE MINIMAMENTE... Quinto encontro de Línguas Nacionais recomenda a escrita de topónimos de origem africana conforme a regra da grafia Bantu

De acordo com a Angop (11 Setembro), Os 170 delegados ao V encontro de Línguas Nacionais (LN), decorrido em Menongue, no Kwandu Kuvangu, recomendaram quarta-feira a necessidade dos topónimos de origem africana serem escritos de acordo com a grafia bantu estabelecida pelo A.F.I. (Alfabeto Fonético Internacional).

Defendem em comunicado final que as direcções provinciais da Cultura devem aprofundar os estudos investigativos sobre o mapeamento linguístico das suas províncias, com a supervisão do Instituto de Línguas Nacionais, bem como estabelecer uma parceria técnico-científico com instituições nacionais e estrangeiras afins. Do Instituto de Línguas Nacionais espera-se o incremento da cooperação com os utilizadores das línguas nacionais e apelam ao bom senso das instituições superioras, no sentido de inserirem nos seus currículos mais línguas nacionais.

Incrementar e apoiar as publicações em línguas nacionais, criar prémios em línguas nacionais, bem como a necessidade das demais línguas nacionais serem estudadas com a máxima urgência, mereceu igualmente recomendação. Os representantes das 18 províncias do país recomendaram igualmente a recolha da tradição oral a fim de se produzirem textos didácticos.

Pela harmonização, recomendam que as igrejas e as entidades privadas sigam as regras da grafia Bantu, trabalhando em conjunto com o Instituto de Línguas Nacionais para o efeito e solicitem aos governos provinciais para colocarem placas de identificação das localidades, instituições, ruas e outros serviços em línguas locais.

Recomendaram também a criação de condições para a colocação das novas tecnologias de comunicação e informação ao serviço dos estudos sobre as línguas nacionais, assim como solicitam à Televisão Pública de Angola (TPA) o aumento de mais línguas nacionais na sua grelha de programação e mais tempo de emissão.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

(do arquivo) Crónica| Elevadores Americanos, Um Monumento Ao Desconhecido

Janeiro de 2010. A chegada a Washington DC começou com pequenos percalços no aeroporto de Dulles. Na verdade, os percalços tinham começado bem antes, no voo de ligação em Newark, onde o pessoal de segurança se alarmou pelo tamanho da pasta de dentes que trazia de Lisboa estar acima do permitido, em bagagem de mão. A presença do protocolo do Departamento de Estado (um senhor simpático de casaco azul) ajudou a desdramatizar a coisa, pois um mês antes tinha sido abortada uma tentativa bombista de Mutallab, um jovem nigeriano, de pele escura e desacompanhado, como eu.
Tive a oportunidade (como poucos a quem calha anualmente) de ser indicado pela embaixada dos EUA a representar Angola no programa de Líderes Juvenis Visitantes Internacionais, durante 28 dias. Para além da troca de experiências com várias organizações, houve visitas a uma série de monumentos e sítios, em quatro estados: Washington DC, Portland-Oregon, Salt Lake-Utah e Miami-Florida.
Em Washignton DC, ressalta-se o arquipélago de melancolias que são os memoriais dos soldados mortos nas guerras. Vindos de todos os cantos e rectas do mundo, América é uma placa giratória de turistas, que não resistem, quando lá chegam, à maresia do lugar. O nosso grupo era formado por vinte elementos, de países diferentes. A visita é guiada por jovens voluntários, que emprestam a sua emoção às narrações. Certo dia, após visita ao museu da aviação, um vietnamita desabafou: «Os americanos lamentam e choram a morte de seus soldados, mas lá onde foram, que não é seu território, mataram muito mais do que o dobro do que se queixam». Tocou-me, confesso, embora seja uma verdade à vista.
Voltando a Dulles, é um enorme aeroporto com dois pisos para saída, um reservado a viaturas particulares e outro para serviços de táxi. Fui logo sair trocando as opções. Perguntando a esse e àquele, lá consegui enfiar-me num Cab, como são designados os táxis personalizados de cor amarelada. Era africano o motorista, somali de vinte e cinco anos, que dizia estar nos EUA pela via do sorteio Green Card, já lá iam dois anos. Pensava buscar a família, à medida que se estabilizasse. Trinta dólares foi a tarifa, mas acabei dando cinquenta, ficando os vinte adicionais a dever-se à satisfação pela africanidade com que me abordou, durante meia hora de estrada.
Na recepção, aguardava por mim um envelope com o mapa da cidade (como se o meu sentido de orientação fosse lá grande coisa) e a chave da porta em forma de cartão multi-caixa, o famoso formato Smart Card. Estavam também os três tradutores (mais guias do que tradutores a bem dizer, uma vez que dominar a língua inglesa é outro pressuposto básico de elegibilidade no Programa de Visitantes Internacionais, iniciativa diplomática que, desde o ano de 1940, dá a conhecer os EUA abrindo portas a visitantes de vários países do mundo, cobrindo as despesas com alojamento e passagens. O meu grupo era de líderes de organizações ligadas à promoção da cidadania e direitos humanos).
Fiquei triste, por ter calhado com o quarto oitocentos. Não tenho a mínima atracção por elevadores, ao mesmo tempo que caminhar oito andares vezes sem conta, ao dia, é uma maçada sem precedentes. A minha decisão de aguentar tais «peregrinações» teve de ser abortada. Era casmurrice humanamente insustentável. E foi, pois, nos elevadores que observei a multiplicidade de choques culturais e laboratórios sociológicos.
Ia saudando em cada entrada para o elevador, como faria aqui, mas à medida que fossem entrando outras almas, notei que não esboçavam o mínimo gesto de saudação (justiça seja feita a raras excepções para legitimar a regra). Acomodavam-se e olhavam para o lado. Estranho, pensei. O que vem a seguir? Essa gente faz monumento ao desconhecido? Como posso encontrar alguém num lugar tão restrito, como um elevador, e simplesmente fingir que não estou ali? Sim, porque saúdo para dizer que existo, como pessoa, como ser social. O outro lado faz o mesmo, e celebramos o milagre da vida, por muito breve que seja um sorriso, um aceno, ou um simples olá.
«I don't think I should say hello to the people that I don't know» (não acho que seja obrigação saudar pessoas que não conheço), disse certa vez, no contexto angolano, alguém de nacionalidade (e cultura) americana. Não lhe prestei grande atenção cá, como é óbvio. Agora que estava lá, as mesmas palavras tinham sentido bem diferente.
Mas depois repreendi-me a mim mesmo, por essa análise tácita, em função da construção social, do meu sistema de valores, sobre a leitura de uma realidade geográfica e culturalmente distante. O que será que representa para a sociedade americana «o desconhecido»? Um ser inerte, uma fonte de medo, uma indiferença em movimento?
Benguela, 24 Novembro 2012

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Diário| VINTE MENOS UM

Já há muito andava tomada a decisão: passar pela livraria e, discretamente, comprar todos os exemplares em stock, colocando assim um ponto final ao depósito por consignação. Uma viagem na livraria acaba sempre em mergulho no infinito, pelo que acabei comprando pelo menos cinco títulos, entre ensaios literários de Kandjimbo e outros na vertente criativa. Quando me pronuncio ao que vinha, diz-me a atendedora que já só restava um dos vinte. Quer dizer, ficava sem efeito o plano de recolher os exemplares do «Consulado do Vazio», capa de Délio Batista, o livro de poesia com que me estreei em Maio de 2008, à venda nestes seis anos ao preço de quinhentos kwanzas na livraria SUCAM, Benguela.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Censura em miniatura

"Ó tio, no hospital matam?"
"Acho que não, o trabalho do hospital não é matar, é tratar o doente. Porquê?"
"Se matam..."
"Vamos falar de outra coisa, ya? Me pergunta se o funji alimenta. É claro que alimenta."
Ele e os irmãos meteram-se a rir. Quer dizer, o censor passa sempre por ridículo, não é? hahaha

terça-feira, 2 de setembro de 2014

SOCORRO! Há uns espertalhões do bairro Golfe, em Luanda, que fazem uso indevido para fins comerciais da foto que regista a outorga da minha licenciatura

O cartaz chegou-me agora há pouco por um amigo que acidentalmente o viu afixado. Julgo que os infelizes furtaram a foto ao meu facebook e/ou blog angodebates. Peço por isso entre os meus amigos e conhecidos na capital para a aplicação do devido correctivo, o qual desde já agradeço. Os contactos são evidentes na publicidade. Pobre ironia a minha, desta vez vítima de um anúncio surreal.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Com quantas caras imaginamos

Ó tio, assim uma coisa que passou ontem, a gente imagina com as nossas duas caras?"
"Mas então, temos quantas caras?"
"Duas!..."
"Ah, é? Quais são?"
"Essa e essa!"
"Isso que mostras não são caras, são os olhos. A cara é a parte de frente da cabeça, é onde estão os olhos, a boca, nariz..."
"Ah..."
"Mas também não é com a cara que imaginamos, é com o cérebro, que está dentro da cabeça."
E ele pegou no comando do descodificador da Tv e ligou o canal de bonecos. Devia fazer mais sentido.

Pode?

"Ó tio, assim se uma pessoa a namorada dele gosta uma equipa que sai fumo branco e ele gosta uma equipa que sai fumo escuro, dá?"

triagem

"O senhor tem feito febres?"
"Bem, em princípio, não."
E a enfermeira regista 36°C... talvez para poupar o termómetro.