PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Ainda o outro lado

"ATENÇÃO! A ATRIBUIÇÃO DO PRÉMIO CAMÕES 2013 AO ESCRITOR MIA COUTO FAZ-ME COMPREENDER MELHOR AS RAZÕES «PESSOAIS E ÍNTIMAS» QUE FIZERAM O NOSSO, GRIOT E AMIGO, LUANDINO VIEIRA A REJEITÁ-LO. COISAS DE DEUS OU DO DIABO?"  - escritor Lopito Feijo, in facebook
“Como é que é possível fazer um contrato com o Estado, eu levo o porco e levo o chouriço, e o Estado ainda me paga?” - Alexandra Simeão, in «Voz da América», 31/05/2013

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Às vezes me convenço de que a preguiça é um direito meu

Se estiver em Luanda, não custa nada dar lá um salto

Na fila querendo atendimento especial sem na verdade pagar por tal serviço...

"Bom dia. Tudo bem? Olha, eu gostaria de falar com o responsável".
"Bom dia. O responsável não está. Pode adiantar o assunto?"
"Olha, eu sou o pai da fulana, figura pública, a cantora. Estás a ver quem é...?"
O funcionário fingindo com ligeira maldade intencional:
"Por acaso não estou a ver bem quem é. Mas é assim, como a fila está a andar bem, daqui a pouco o senhor vai ser atendido".

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Cruzando pontos de vista aos critérios do Prémio Camões... aqui vai o pensamento do crítico literário brasileiro e estudioso da escrita cá de África, Ricardo Riso

"Pois é, pois é... Mia Couto, o escritor de um romance e que conseguiu a proeza de ser o representante único da literatura de seu país, assim como as atenções dos ditos pesquisadores de literaturas africanas de língua portuguesa aqui no Brasil. A redundância de sua obra é gritante, não enxergo todo esse encantamento que suscita. Muito longe da genialidade e da inventividade com a linguagem de Guimarães Rosa; suas brincriações são sofríveis em sua maioria, logo, recorro a Manoel de Barros para certificar-me que o neologismo pode ser criativo. As passagens filosóficas atendem a um leitor médio, pouco acima do apaixonado por Paulo Coelho. Vejo como óbvia a escolha de Mia para este prêmio, é um best-seller, atende ao desejo de Portugal e Brasil por uma África com o toque de exotismo necessário e com pitadas de conflitos contemporâneos para o gosto do leitor branco. Desta feita, o Prêmio Camões não considerou a excelência de uma trajetória literária, caso de outros africanos como José Craveirinha (Moçambique), Pepetela (Angola) e Arménio Vieira (Cabo Verde). Entristece-me nesta história é saber que um prosadores moçambicanos como Ungulani Ba Kha Khosa, Aurélio Manuel Furdela e Lucilio Manjate continuam ignorados. Por uma estranha coincidência, todos negros. Ainda assim, parabenizo os moçambicanos Eduardo Costley-white, Mbate Pedro Amosse Mucavele Eduardo Quive pela evidência e a visibilidade que o Prêmio Camões pode trazer para a Moçambique. Ainda que esses nomes permaneçam encobertos por um resistente véu branco. Aproveito o momento e parabenizo Eduardo White pelo Prêmio Glória de Santanna! Mais que merecido! Aguardemos o Camões para José Eduardo Agualusa".

terça-feira, 28 de maio de 2013

Retomando a entrevista "politicamente incorrecta" do grande João Tala, In «Vida Cultural, Jornal de Angola», 09/10/11

P: "Sendo um dos autores mais premiados no país, a sua obra não deveria ter uma maior divulgação em Angola e no estrangeiro?" 
R: "Para tal, falta a cunha. Dizem que isso se faz com a imprensa e com agregação a grupos privilegiados. São coisas de acontecer".
O poeta e ficcionista João Tala lançou, recentemente, na União dos Escritores Angolanos, o livro de contos “Rosas & Munhungo”. Tala é autor dos livros “A Forma dos Desejos”, poesia, prémio Primeiro Livro da UEA, 1997, “O Gasto da Semente”, poesia, menção honrosa do Prémio Sagrada Esperança do INALD, 2000, “A forma dos Desejos II”, Chá de Caxinde, 2003, “Lugar Assim”, poesia, UEA, 2004, “Os Dias e os Tumultos”, contos, Grande Prémio de Ficção da UEA, 2004, “A Vitória é Uma Ilusão de Filósofos e de Loucos”, Grande Prémio de Poesia da UEA,  2005, “Surreambulando”, contos, UEA, 2007, e “Forno Feminino”, poesia, Kilombelombe, 2009.

Vida Cultural - Cada conto refere-se a uma mulher. São curtas mas grandes estórias de amor. Amores vividos ou sonhados? 

João Tala - As personagens principais dos contos em Rosas & Munhungo  são mulheres distintas que vivem diversas situações, ou são reconhecidas num cenário do pós-guerra imediato. Um traço comum entre essas mulheres é a superação de traumas e outros estados psicológicos daí decorrentes, pelo amor. A característica estilística tem uma grande carga onírica onde o real vivido se revê na composição do sonho.

VC - O título "Rosas & Munhungo" sugere amor e boemia. Quer comentar?  
JT - Rosas, como sendo flores, é simbologia feminina, portanto, associada à mulher. Essas personagens, a maioria delas, adaptaram-se a ambientes que lhes eram hostis, ou então a carência cede-lhes o argumento para “ir à rua”. Daí a expressão kimbundo munhungo que é sinónimo de libertinagem, num sentido mais ousado da boemia.

VC - A proveniência médica do autor está muito presente pelo uso notório de termos do jargão médico. Este uso é propositado ou decorre, digamos, de deformação profissional? 
JT - Deformação profissional e porque a personagem representa gente. A essência da medicina são as pessoas.

VC - No estrito sentido do texto pressentem-se algumas ressonâncias intertextuais que fazem lembrar o argentino Jorge Luis Borges, o moçambicano Mia Couto, o angolano Boaventura Cardoso e mais remotamente o também angolano Luandino Vieira. Assume essas influências? 
JT - Leio muitos escritores. Mas, no interesse da minha escrita, são os latino-americanos que mais me inspiram. Começou, esse interesse, com a leitura da colecção “Vozes da América Latina” que o nosso INALD dava à estampa nos primórdios de 80 do século passado, principalmente quando li “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo. Seguiram-se depois “O Trovão entre Folhas”, de Roa Bastos, os livros de Gabriel Garcia Marques, entre outros. Do Boaventura Cardoso fascinou-me mais “A Morte do Velho Kipacaça”. Já Luandino Vieira e Mia Couto, salvas as diferenças, parecem enquadrados dentro da mesma dinâmica de reinvenção que a mim fascina, mas não creio que perceba na minha escrita esse modo de conceber o texto. Borges é uma leitura mais recente. 

VC - Desde “A Forma dos Desejos I” a mulher tem um lugar muito especial nas suas obras. É seu propósito constante homenagear a mulher? As mulheres tiveram ou têm um papel determinante na sua vida? 
JT - Esclarecer sobre isto seria mais do domínio da psicanálise, já que é quase uma constante também na minha poesia. Evidentemente, não vou passar o filme da minha infância e flagrar o papel delas no meu “esquecimento”. Fica para depois. 

VC - O contar recorrente de estórias e histórias humanas do tempo da guerra faz parte dos seus livros? Acredita que isso faz falta à reconciliação nacional?
JT - Não o faço pela reconciliação. Faço-o pelo hábito de contar. O militar que conte os cartuchos e o que ainda resta para esmagar. Eu conto os meus mortos, revejo as cicatrizes, teço sonhos, amo e amargo-me. Não fui voluntário quando um dia me cangaram para a tropa onde eu conviviria mais de perto com a guerra. Isso assim, é também matéria para poesia. Escrevo sobre aquilo que vivi e o que me está mais próximo é a guerra. Se analisar bem, saberá que só falta aos políticos reconciliarem-se e deixarem de arrastar os militantes dos partidos nas suas paranóias. De resto, nem a Bíblia reconciliaria. Por exemplo, não acredito que o malanjino não se dê bem com um bieno ou que um bakongo seja inimigo de um umbundu. Só entre militantes de uns e de outros é que se destilam ódios. É maka deles, os políticos. 

VC - Sendo um dos autores mais premiados no país, a sua obra não deveria ter uma maior divulgação em Angola e no estrangeiro?JT - Para tal, falta ao João Tala a cunha. Dizem que isso se faz com a imprensa e com agregação a grupos privilegiados. São coisas de acontecer.

Tautologia à moda do jornalismo desportivo angolano

“Os amantes de futebol no Huambo congratulam-se com a selecção do professor Gustavo Ferrin pelo facto de incluir na convocatória atletas que militam no campeonato nacional e minimizam a ausência de Manucho Gonçalves por razões não esclarecidas”, cito de memória o repórter da rádio cinco no noticiário de hoje às 20h00.

Quer dizer, pergunto eu, alguma vez Angola teve atletas suficientes no estrangeiro para preencherem os lugares nos “Palancas Negras”?

Flagrantes de um marketing violento

Foto de Amos Chitungo

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Rastas protestaram esta manhã no Huambo

Fonte: http://drowski3.blogspot.com
Cerca de duas dezenas de homens e mulheres do movimento Rastafari saíram à rua no centro da cidade do Huambo, capital da província com o mesmo nome, pelo facto de, segundo disseram, lhes estar a ser exigida para obtenção do bilhete de identidade uma declaração do Ministério da Cultura a autorizar as guedelhas, ou dreadlocks. No entender de uma das vozes ouvidas pelo Blogue Droski3, "DEVIAM PEDIR DOCUMENTO DO POSTIÇO E NÃO DO CABELO NATURAL".

Enquanto editor do Blogue Angodebates, também acho que não faz sentido exigir legalização de guedelhas. Adoro meu cabelo despenteado, muito mesmo, e não acredito que os músicos, actores, ou demais figuras públicas que usem o cabelo "rasta", incluindo diplomatas, tenham ido a um qualquer guichet para lhes ser autorizada a aparência.

Não percebo porque os rastas veneram o líder Etíope nem sou adepto de fumar liamba, pelo que confundir aparência com ideologia leva a equívocos. Se o que se quer é legalizar a comunidade rasta enquanto movimento, há que optar por outras vias e não exigir, como se denuncia, documentos por alguém ter os cabelos de maneira natural. Até porque temos grupos étnicos que preservam seus valores e não fazem a mínima questão de adoptar os penteados ocidentais que se nos querem impor como padrão. 

Das autoridades esperamos um bom-senso.

Viva a poesia

Corrida de automóveis nos festejos da cidade de Benguela termina em tragédia. É a segunda vez em três anos

Foto e comentário de L. Fortunato:
"Isto não foi nada bonito para enguela. As pedras por aí também
testemunham a tentativa de linchamento do piloto".
Segundo o que o jornalista Ladislau Fortunato partilhou no seu mural do Facebook no dia do acidente (26 de Maio), aquando do circuito fechado de Benguela de 200 quilómetros em automobilismo, "até aqui, segundo algumas fontes, são contados 2 mortos, 2 pessoas nos cuidados intensivos, 19 feridos. Benguela não merece!". É o saldo que mancha o 396º aniversário da que é considerada cidade mãe das cidades.

É a segunda vez em três anos que os festejos do aniversário da cidade de Benguela terminam em tragédia, tendo como causa despistes e atropelamentos nas provas organizadas pelo clube Tuku-tuku. No ano antepassado, um jovem piloto de motorizada vindo do Huambo perdeu a vida, mais uma pessoa perdeu a vida, enquanto do bairro do Kioxi uma adolescente viu a perna amputada. O que alguns sectores da sociedade não entendem é como o mesmo tipo de prova voltou a ser autorizado.

Recorrendo à lei da previsibilidade, podemos já dizer que para o ano mais gente vai morrer ou perder partes do seu corpo, porque a burguesia não está minimamente preocupada em recuperar o autódromo. Desporto motorizado em zonas residenciais é um risco e tanto!  

domingo, 26 de maio de 2013

Crónica: QUANDO JÁ NÃO HÁ TUTANO PARA DANÇAR SOZINHO

Cartoon do jornal A Capital
O atractivo não era grande coisa para cair na noite, como se diz cá na banda, mas a companhia valia mesmo a pena! Aguardava-nos, na Restinga do Lobito, uma noite de música electrónica para comemorar mais um 25 de Maio, Dia do Continente Africano.

Eram quase das duas da manhã quando demos os braços à fita, não sem antes passar por uma outra esplanada à beira-mar com música ao vivo. Como já há muito não ia a uma farra como tal, tomou-me súbito receio ao notar que o porteiro era um jovem com nome de carro, célebre pelas brigas e cadeias. Mais a mais, era afinal para se ir trajado a africano, o que não era bem do jeito que eu estava. As damas que iam connosco, sim, estavam lindas e a preceito. De qualquer modo, havia lá dentro muito mais gente de calções e cuecas jeans do que propriamente em trajo africano.

Compradas as fitas, o porteiro, o tipo que guardava na memória pelo génio briguento, dá-nos as boas vindas. Uf, que alívio! Pelo menos mais de cem pessoas faziam o máximo possível para abanar as nádegas e ziguezaguear ao compasso do Afro-house, pop Afro e algum ku-duro.

Os altifalantes cuspiam incontáveis decibéis a céu aberto, certamente impedindo a vizinhança de dormir. Muito cigarro, bebida alcoólica, mas também muito refrigerante e água mineral em consumo pelos convivas, na sua maioria jovens e adolescentes (um equilíbrio saudável, a meu ver. Não vi, e ainda bem, movimento que denunciasse tráfico ou consumo de droga pesada. Não que me iluda de todo, mas o facto de não se dar a ver ao nível da banalidade já não é um mau sinal).

Ambiente bom, companhia impecável, os ossos é que já não aguentam duas horas ininterruptas pop ou afro. Sou dos tempos em que chegava um momento de uma boa passada, e com isso o conforto (subtil ainda assim, do toque ao corpo) na correspondência da parceira, em cujo ouvido depositávamos uma ou outra prosa. Mas pronto, são os tais equilíbrios de género, do género cada um se completa por si.

Houve um momento em particular que aconselhava a maior distância possível, ao pico da euforia dada a presença do tal “Bebucho que Cuia”, autor do “Aguluwa, mama/ aguluwó” e o seu pujante e recente tema “Hum/ham/tchum/tcham/no cotovelo/no cotovelo!”, entre a coreografia e posições de karaté. Meu receio era não ter dentista na lista de amigos a quem recorrer àquela madrugada em caso de perder dentes num involuntário golpe de dança da pessoa mais próxima. Isso, piorado com o facto de não ter no carro álcool para o que seriam os primeiros socorros.

Até às quatro e meia quando deixamos o local, apenas três músicas “integradoras” tinham tocado, entretanto longe de satisfazer a reminiscência. Era tudo tarrachinha, daquelas sem alma, músicas que devem ter sido elaboradas de camisinha à mão.

Até ao próximo texto, fiquem ao ritmo de “Hum/ham/tchum/tcham/no cotovelo/no cotovelo!”, só não se esqueçam dos cuidados ao dançar… três metros de distância!

Gociante Patissa, Lobito 26 Maio 2013

sábado, 25 de maio de 2013

Crónica: O PAPEL DO MULTICAIXA NA PREVENÇÃO DE CONFLITOS


Benguela cidade anda movimentada, como devia aliás andar, a caminho de quatrocentos anos de existência. 

Janota, conhecido por doutor muito antes até de tirar a licenciatura, procurava preencher o vazio que tem sido a sua cama desde que a esposa viajou para a China. Por muito que gostasse e bebesse de filosofia, estava difícil o jejum (devo usar uma linguagem mais ou menos sóbria, já que tenho sobrinhos menores seguindo-me no facebook). Vai daí Janota dar um salto ali pelas bandas da Se Catedral, onde se diz haver um bordel. Assim como ao lado de cada direito anda o respectivo dever, pureza e fé têm sempre uma tentação à perna.

Em coisa de minutos Janota tinha uma rapariga, expedita vendedora de orgasmos simulados, e um canto para o labor e o sabor, não sem antes ficar claro o preçário. A menina fê-lo chegar à China por alguns instantes. Ora, completada a viagem, surgia um tipo de conversa mais ou menos imprevista para aquele segmento de negócio:

- E agora, como vamos fazer? Posso pagar com cartão? – indagava o saciado enquanto calçava as meias antes de botar a calça.

A rapariga olhou para ele, como quem diz, caramba!, está aqui um espertalhão. Antes mesmo que ela emitisse uma palavra, o cliente continuou justificando-se:

- Sabes como é que é. É fim-de-semana, a função pública pagou. Já circulei pela cidade e cercanias, mas nenhum aparelho tem dinheiro. Mesmo a nível de macroeconomia, honrar com os salários dos professores é um caso sério, já que eles não produzem como tal. É um sector nobre muito importante, mas pobre. Com os militares é a mesma coisa. Não sei como vamos fazer, sabes? Eu gosto de pagar as minhas contas, acontece que não consigo tirar dinheiro do banco, sabes que aquilo enche que nem uma coisa doida.

A rapariga ouvia, franzindo progressivamente a testa. Pensava por dentro: “esse gajo não quer com este monte de palavras que no final fique tudo por um crédito, não?”.

- Dr., pela próxima, quando é assim, avisa antes. Estás a ver se hoje eu não trouxesse o TPA, íamos mesmo se pegar nas camisas. E até não fica bem. Vá, dá lá o cartão multicaixa. Hôko!, assim também querias quê?!

Bom, ao menos o final foi feliz para o professor Janota, uma vez que a menina, sendo profissional com visão empreendedora, tinha a sua máquina de pagamento electrónico na mesma bolsa em que guardava os preservativos, pensos e lubrificantes íntimos, não tendo sido necessário, como ela mesma disse, “se pegar nas camisas”. Como diria o ditado, para um esperto, esperto e meio.

Gociante Patissa, Benguela 25 Maio 2013

sexta-feira, 24 de maio de 2013

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Numa entrevista televisiva em directo do Cine Kalunga a propósito do 396º aniversário da cidade de Benguela

Entrevistadora (uma pergunta aproximada a): O que achas da mulher na sociedade actual?
Convidada (aparentemente modelo/manequim): É simpática e acolhedora.
Entrevistadora: Que tens a dizer sobre a mulher de Benguela?
Convidada: A mulher de Benguela é tudo.

O que ganham de verdade os países (e sua história) atribuindo naturalidade / nacionalidade a atletas para reforçarem suas selecções nacionais?

O que ganham de verdade os países (e sua história) atribuindo naturalidade / nacionalidade a atletas para reforçarem suas selecções nacionais? Acabo de ler num jornal deste fim-de-semana que é o que (de novo) se pretende fazer, tendo em conta que boa parte dos melhores atletas do campeonato de basquetebol são estrangeiros. Quanto a mim, essa forma forçada de "vender a pátria" deve ser repensada, já que Angola deve estar acima de qualquer euforia ou ambição de acumular taças sem formar talentos. Estive, estou e estarei sempre contra. Ou se é angolano, ou o somos por conveniência, os tais "angolanos de ocasião" como os chama Ismael Mateus.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

MORREU O SOCIÓLOGO RONALDO FERNANDES

Tomei conhecimento, há pouco tempo através da agenda pública de uma rádio local, da morte do sociólogo Ronaldo Fernandes hoje (22/05), vítima de doença em Luanda, a quem muito recorremos entre 2006-2010 como fonte do saber sempre disponível para análises e aconselhamentos no quadro do programa de mesa-redonda/debate “Viver para Vencer”, enquanto servi como realizador e moderador daquele espaço radiofónico semanal sob iniciativa da ONG angolana AJS-Associação Juvenil para a Solidariedade através da Rádio Morena Comercial.

Contactado ao telefone, um familiar seu revelou-nos estar indefinida por enquanto a data do funeral, não sabendo igualmente se terá lugar em Luanda ou em Benguela.

Natural de Malanje, Ronaldo Fernandes teria vindo residir cedo a Benguela, onde chegou a exercer as funções de Secretário-geral do Governo Provincial de Benguela, tendo sido muito recentemente enquadrado no Pólo de Desenvolvimento Industrial da Catumbela (PDIC).

No capítulo desportivo, esteve engajado à modalidade de Futsal pelo Clube Nacional de Benguela.

Pêsames à família e amigos e colegas. Até sempre

Leituras humanas

Meu pai (que foi também militar, político e dirigente) dizia, na sua condição de patrão em uma parcela agrícola no Dombe-Grande na década de 1990, que, se toda a vez que você visita a lavra, o camponês está sempre (literalmente) a trabalhar, é hora de considerar mandá-lo embora. O trabalhador honesto fica cansado e de vez em quando tem de ser encontrado a descansar; de contrário, mais não faz do que controlar os passos do patrão. Melhor do que o empenho está a honestidade.
Pagar pela garrafinha de água (um copo) 250 kwanzas (2,5 USD) faz-me acreditar que estou de volta a Jerusalem ou Tel Aviv (Israel). O pior é que não saí do lugar.

Inversão da moeda

Literatura angolana nas salas de Coimbra


Texto e foto do Jornal de Angola: A semana da literatura África-Angola começa hoje e termina no sábado, em Coimbra, Portugal, numa iniciativa da União dos Escritores Angolanos (UEA), em cooperação com o Centro de Literatura Portuguesa (CLP/FCT) e a Casa de Angola em Coimbra, em alusão ao 25 de Maio, dia de África.
Com a presença de renomeados escritores e investigadores angolanos, a jornada vai ter início nas Escolas Martim de Freitas e na do 1º Ciclo Nº 10 da Solum, onde vão estar Yola Castro e Luandino Vieira a contar  estórias angolanas às crianças.

Troquei o Alfa pelo TGV, também a beira-mar plantado no Lobito, enquanto aguardava que a estação de serviço cuidasse do banho ao carro. Aqui o susto ao bolso é ainda maior, pelo que a fome sai sempre um pouco mais barata.

Ao menos

terça-feira, 21 de maio de 2013

Fiscalizando os fiscais

Estávamos, o kota Manuel Matias e eu a matabichar, esta manhã na esplanada do Café da Cidade, espaço reservado aos fumadores, quando irrompeu um adolescente a correr bastante aflito. Meteu-se de seguida a atravessar a estrada como se estivesse a ir à loja da Taag, sem ter em conta o movimento automóvel e a iminência de atropelamento. Atrás de si, qual caçador atrás de um coelho, ia um jovem de colete reflector verde. Incapaz de capturar o adolescente, e com ar triunfal de mais uma missão de bens a reter, o homem de colete recolheu a caixa em que o fugitivo expunha as esferográficas (cerca de 50). Depois embarcou na carrinha Land Cruizer caixa aberta em companhia de outros colegas. Ou seja, um é zungueiro, o outro é fiscal da Administração Municipal de Benguela. "Esses não apanham bandidos, apanham quem tenta vender para viver", acusavam as meninas atendedoras, talvez já acostumadas a tais excessos da autoridade. Apoiarei sempre o "esforço" da administração encabeçada pelo jovem promissor (e grande camarada, além de meu professor de telejornalismo no curso promovido pela APHA em 2005) Leopoldo Muhongo, mas continuo a achar que é preciso fiscalizar os excessos dos fiscais. Já me insurgi em tempos a respeito disso. Sim, a venda deve ser feita nos mercados, e o zungueiro que pára em um lugar erra por fomentar mercado ilegal. Mas a acção compulsiva só se justifica se proporcional aos danos, em meu entender. Com tantos estrangeiros ilegais metidos a construir obras (à partida sem tributar para o tesouro nacional), era mesmo prioridade apreender esferográficas? Que mal fazem estas à higiene da cidade?

Gociante Patissa, Benguela 21 Maio 2013

O doutor fulano

“O doutor fulano gosta muito. A pessoa ainda não acabou de explicar o que sente, ele já acabou de assinar a receita. Haka!”

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Amor e labor

“Eu já disse à moça do meu anexo para se valorizar. Arranja um homem; ser amante de homem casado, ainda por cima de taxista, é tortura. O gajo deixa os passageiros no Hiace, finge que vai beber num instante água, e faz tudo a correr. Quer dizer, a gaja nem sabe o que é fazer amor, é esperar já pronta, senão não dá tempo, o cobrador começa logo a buzinar.”

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Numa empresa em que trabalhei, quem se queixasse primeiro ficava com a razão (aos olhos do patrão). O facebook plagia por vezes tal fórmula.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Crónica: CAFÉ DE SUOR E MORTE (fragmentos)


Naquele ano os cafezais do norte tinham florido fora do comum. Os fazendeiros esfregavam as mãos de contentes, antevendo colheita abundante, com terreiros cheios de café cereja a secar, para meter a descasque. 
(…)
 Às sete horas da manhã de certo dia apareceu no terreiro de determinada roça uma mulherzinha com o filho às costas e levava na mão uma cabacinha de quissangua [refresco feito de fuba]. Dirigiu-se ao capataz do grupo das mulheres para lhe pedir dispensa do serviço nesse dia por ter o filhinho doente há mais de dois dias. O capataz negou-lhe a dispensa e marcou-lhe a tarefa habitual, de enchimento de uns tantos cestos de café cereja. A dureza com que a ordem foi dada não permitiu recusa da mulher habituada como outras a ver como eram tratadas em caso de desobediência. Com o filho a escaldar em febre, manteve-o nas costas e foi colhendo bagos com maior ligeireza, na tentativa de abreviar o tempo da empreitada. As horas correram. De vez em quando desapertava o pano de pintado para verificar o estado da criança que amolentada, respirava custosamente pela boca. Retomou a tarefa. Seriam cerca de treze horas quando, de novo, desamarrou o pano. Puxou o pequerrucho para o peito. Tinha os bracinhos descaídos, os olhinhos semicerrados, a boca entreaberta, o corpo inerte e frio. Tinha sido levado pela morte. E aquela mãe ao descobrir que fora despojada do ente querido das suas entranhas, entrou em pranto próprio da mulher africana que, quando dorida, não tem as pragmáticas dos chamados civilizados como se para enfrentar a dor humana seja preciso estudar pelos códigos da etiqueta e civilidade. Aquela mãe estrebuchou pelo chão e as companheiras de trabalho, ao ouvi-la chorar, correram em seu socorro. E o pranto contagiante estendeu-se a todas aquelas mulheres, mães também, servindo à força naquelas plantações de café de suor, dor e morte.


Só o capataz preto, industriado para sacrificar seus irmãos de cor em benefício do capitalista, se manteve insensível à desgraça em que tinha quota parte. Boçal com alma de escravo, não passava de pau-mandado naquela triste época em que os paus-mandados tanto podiam ser pretos analfabetos como brancos componentes da rede administrativa a impor trabalho sem horário com salário de fome

Raul David, 1989, pág. 55. In «Crónicas de Ontem – para ouvir e contar». União dos Escritores Angolanos. Luanda, Angola.

um adjectivo sem alma

Sei que os escritores sofrem de narcisismo genético, que pode descambar por vezes a uma auto-noção de Messias. Portanto, o elogio e referências positivas funcionam como massagem aos ouvidos. No meu caso porém, ser apresentado como "um escritor talentoso" por alguém que não lê/acompanha o que venho escrevendo (nem nos livros, nem no mundo digital), é um adjectivo sem alma, e como tal escusado.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Toda a doação merece ser enaltecida pela óptica de solidariedade, mesmo quando as almas solidárias incluem antena parabólica no pacote da doação. É que, como não só do pão vive o homem, sempre se pode alimentar o espírito com novelas até o prazo do cartão acabar. Daí talvez merecerem destaque no Telejornal.

"Tem havido um excessivo abuso da liberdade de imprensa" (Amílcar Xavier, in Telejornal da TPA, 15.05.13)

Quer dizer, se não fosse excessivo, bem que o abuso seria pouco.
"Não acredito! Vocês foram no mesmo avião com a equipa de arbitragem, e perdemos por um a zero? Não era coisa de resolver já na viagem?" (de dirigente de um clube de futebol... já lá vai quase uma década).

E ainda há entre nós os que só aprovam o que vier da sua escola

terça-feira, 14 de maio de 2013

Sobre a origem do nome da cidade de Benguela


A propósito dos 396 anos que a cidade de Benguela completa no próximo dia 17 de Maio, o Jornal Cultura de 13 a 26 de Maio de 2013 traz um interessante ensaio do historiador, escritor e editor Armindo Jaime Gomes (ArJaGo), do qual partilho o trecho que tem que ver com a origem do nome:

“Do étimo mbenga, Benguela é corruptela do verbo “okuvenga” da língua umbundu; okuvengela (sujar) / okumbengela ovava (sujar-me a água), relativamente às águas estagnadas e em língua portuguesa é entendido como turvar, turvar-se, perturbar, alterar, transtornar, escurecer, embaciar, nublar, enuvear (Pe. Alves, A., 1951). Evoluído de “mbengela”, a toponímia passou asignificar perda de transparência, de limpidez, de clareza, perturbação, fazer perder a razão, cobrir o céu de nuvens, situação confusa, indefinição (op. cit.). Apesar de fazer parte da onomástica planáltica, a exemplo de Katombela, Mbaka, Kakonda, Civangulula, etc., a versão popular admite que o topónimo tenha resultado da distorção linguística nos primeiros contactos entre os portugueses e ambwi. Em vez do nome da região que se pretendia saber, os intrusos receberam a justificação da turvês das águas lacustres e fluviais.”

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Um pouco de sociologia com adolescentes lavadores de carro


Enunciado (o mais fiel possível conforme observado):
“Já sabes? A minha vizinha virou maluca”.
“Ouvi que tem mais uma de Benguela”.
“Isso até ‘tá a dar medo”.
 “Conheço uma miúda, não é bonita nem nada, tem um [Hyundai] i10. É samba”.
“Estão a pisar grandes máquinas”.
“Tipo nada, os kotas estão a largar”.

Enquadramento:
A ideia principal resume-se aqui: “Conheço uma miúda, não é bonita nem nada, tem um i10. É samba”. Há uma crença entre os Ovimbundu na existência de força sobrenatural para atrair homens, num estilo de vida intensamente promíscua com fins materialistas. Esse poder chama-se “samba”.

Sendo a existência do feitiço indiscutível, vale acrescentar que a sua essência é o status: acumular bens, chegar ao poder, manter-se no trono, proteger-se. Em algumas comunidades, a tendência é masculinizar o feitiço (“umbanda”), sendo “oganga” o homem (que pode chegar a matar, por status ou por inveja) e “ocilyangu” a mulher (que supostamente anda fora de hora a dançar nua à porta de quem quer na desgraça). Quem recebe "samba" recebe “umbanda”, embora seja uma categoria mais leve.

Voltando ao diálogo, na percepção de beleza enquanto moeda, só as mulheres que completam os estereótipos (a tal beleza aparente) merecem ostentar bens, já que, “tipo nada, os kotas estão a largar”. Logo, para uma miúda que “não é bonita nem nada” ter um carro, só pode ser porque recorreu ao feitiço para iludir clientes com um charme que não possui. E, algo cíclico, começam a espalhar-se informações sobre raparigas que alegadamente enlouqueceram porque o feitiço expirou, ou porque não teriam cumprido os preceitos do kimbanda.

Impressão final:
Ao mesmo tempo que me revi parcialmente no diálogo, por este representar repúdio à ascendente degeneração das relações humanas, onde adultos endinheirados corrompem raparigas com idade para suas filhas (ou mesmo netas), não deixei de sentir uma ponta de tristeza; aqueles lavadores de carros demonstraram estagnação quanto à visão de mobilidade social. Em nenhum momento se referiram a alguém (“feia” ou “bonita”) que tenha carro porque conseguiu formar-se, arranjou emprego e pediu crédito.

Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da Catumbela 13 Maio 2013 

Pensamentos

"A injustiça fere demasiado o povo simples que vê na rectidão dos actos a sua única defesa e protecção". - Raul David, pág. 49, in «Crónicas de Ontem – para ouvir e contar».1989. União dos Escritores Angolanos. Luanda, Angola.
Passei pelo Isced (Universidade Katyavala Bwila) para levantar a declaração da licenciatura. Com o papel em mãos, cruzei no recinto com o professor José Sasoma, numa agradável "ulonga" (saudação ao pormenor) com a profundidade que o Umbundu permite. O passo a seguir era vir ao Alfa, beber alguma coisa em companhia do "canudo", ou não fosse por esses bancos e sombra a beira-mar que gastei dias e pestanas elaborando a tese de licenciatura, o que viria resultar em 15 valores!

domingo, 12 de maio de 2013

Maritalmente

No primeiro dia de aulas com o novo professor...
Ele: Nome? 
Ela: Fulana de tal...
Ele: Estado civil, solteira, casada?
Ela: Vivo maritalmente.
Ele: Ora bem. Vives maritalmente com quem?
Ela: sozinha, professor, vivo maritalmente sozinha!
"O amor é a convivência; o amor é até a briga" (de uma cidadã angolana khoisan separada cedo da sua família e, como ela diz, em fase de reconstrução afectiva).

sábado, 11 de maio de 2013

Notas soltas: AS CONTRADIÇÕES DE DEUS OU OS PONTOS CEGOS DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ


Em matérias de vídeo segurança, ponto cego é o local ou ângulo que não pode ser alcançado pela lente da câmara, representando como tal vulnerabilidade por estar fora do controlo. É neste sentido que o conceito é para cá trazido.

Ouvi em tempos um artista angolano euro-descendente dizer em entrevista, a partir de Portugal, que o africano era o povo mais generoso e tolerante do mundo. Entende que ao fim de vários séculos de exploração, humilhação e outras atrocidades da escravatura e da colonização, o africano guarda como seus a língua e o Deus do opressor.

Estatísticas dispersas estimam que 80% da população angolana é cristã, maioritariamente católica. Ou seja, passamos a conhecer o mundo sob a educação cristã, conflituando às vezes com aspectos mais sagrados da nossa matriz identitária.

Quando alguém, enlutado, diz que Deus é contraditório por permitir a morte – quantas vezes prematura e sofrida – de quem mais não fez em vida senão o louvar, a reacção imediata dos cristãos à volta é tendencialmente sair em defesa de Deus. No fim do longo palavreado, acabamos por dar em algo de meramente opinativo. Quer dizer, não podemos criticar Deus porque a pessoa ao lado acha que não podemos.

Quer dizer, os cristãos rezam pela vida de alguém, acreditando na generosidade e no poder de milagre de Deus. Depois, se este Deus não leva em consideração as súplicas, os mesmos cristãos estão a louvar a vontade de Deus, argumentando que a alma foi descansar no paraíso. Ora, se assim é, porque razão andaram a pedir a cura do irmão?

Desde cedo que herdamos dos pais e da comunidade o “culto de personalidade” ao ser abstracto, Deus. Pelo que corre bem, Ele é grande; se a coisa corre mal, o homem é pecador, eis o culpado! Entretanto, o omnipresente e omnisciente, levando a coisa ao pé da letra, permite que a sua criatura, o ser humano, destrua. Será para engrossar o tamanho da sua ira e o tão falado juízo final? Diz-se que se, cansado de destruir, esse homem se arrepender, passa-se uma tábua rasa sobre o pranto a outrem.

Há um hino que sempre me intrigou durante os anos que andei no grupo coral da igreja evangélica da maioria da minha família. Nunca ficou claro se era para ser uma interrogação, ou uma afirmação, dada a subjectividade interpretativa de textos cantados. Dizia assim: “Eu sei que Deus é imensamente bom/ Deus é a fonte de amor/ Deus é a fonte da misericórdia/ Porque aceita que os seus fiéis tenham aflição/ e calamidade/ oh meu irmão/o pecado nasceu a morte/ a traição/entre o homem e seu irmão”. Era mesmo para dizer que Deus é bom por aceitar que fiéis tenham aflição?

Não tenho experiência de outras culturas para estabelecer um paralelo quanto à forma de culto a outros Deuses, provavelmente não cristãos, monoteístas ou não. Sei que com os muçulmanos ocorre algo similar. Quer dizer, é passar a vida inteira a adular um ser, e imediatamente adoptar um discurso paternalista quando algo escapa à compreensão.

Gociante Patissa, aeroporto 17 de Setembro, Benguela 11 Maio 2013

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Felizes os que souberam
conservar as suas tradições
deixadas pelos ancestrais.
Felizes os que se não iludiram
com o pregão insidioso
dos que se diziam portadores
da mais humana civilização.
A realidade provou-nos dolorosamente
os propósitos de quem africanamente
hospedamos em casa.

Raul David, pág. 11. In «Crónicas de Ontem – para ouvir e contar».1989. União dos Escritores Angolanos. Luanda, Angola.
"A verdade contada na sua nudez só não interessa aos suspeitos". Raul David, in «Crónicas de Ontem – para ouvir e contar».1989. União dos Escritores Angolanos. Luanda, Angola.

Outras leituras


Esta característica – se assim lhe podemos chamar – de andar e ver para relatar depois, antiga como os velhos impérios do Continente, atravessa o texto numa oratória diagonal determinada pelo vulto da aculturação, em que se confrontam e experimentam impulsos de vária ordem num retrato sem retoque, de nitidez irregular à vista desarmada, que instala o autor – sem que talvez tenha sido essa a sua intenção inicial – como pioneiro de um género que, sendo de grande relevo hoje em dia, não encontrou ainda, entre nós, estatura própria: o testemunho.

David Mestre (excerto do prefácio), in «Crónicas de Ontem – para ouvir e contar», Raul David, 1989. União dos Escritores Angolanos. Luanda, Angola.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

"Optei pelo disco e não pelo livro porque eu sou um exímio declamador. Me considero mais declamador do que escritor... mas o livro está em carteira" (Marcos Inglês, há pouco, no programa "Hora Quente"-TPA2, divulgando o lançamento do seu CD (e-book) para o dia 11 de Maio em Luanda)

Outra forma de dizer a lição que a humanidade desaprende um pouco a cada dia

montagem de autor desconhecido

Excesso de simplismo

 As bananas que dão este sumocaem de laranjeiras. Foto: José Patrocínio

Presunção da inocência

O oficial da polícia nacional que fazia balanço da operação denominada "viúva negra" na província do Kwanza Norte, através do programa "Bom Dia Angola" da TPA na manhã de hoje (09/05) disse: "na operação, interceptamos uma viatura que transportava um saco com 50 quilos de suposta liamba". Quer dizer, até transitar em julgado, liamba pode mudar de natureza.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Crónica: POSSO OU NÃO ESCREVER SOBRE O AMOR?


Já em posse do bruto que daria corpo ao meu livro de estreia, o editor deu-me a ler algumas obras literárias, gramáticas e antologias para captar conceitos, forma e espírito da poesia. Intrigou-me um conselho que desaconselhava principiantes a escreverem sobre o amor, de tão explorado que o tema vem sendo por grandes escritores.

Sobre o amor já vivi, também eu, tudo o que me poderia surpreender. Já enganei, já fui enganado. Já conquistei, já fui venerado. Já enchi litro de lágrimas, não duvido que tenha causado o mesmo a alguém. Já levei corrida (a que mais marcou foi a da cunhada de uma miúda de Benguela que conheci quando aos 16 anos eu trabalhava como fotógrafo numa barraca da praça da Catumbela; era bonita, voz grossa, e trocamos alguma carícia periférica, até o dia em que me meti no autocarro para ir ter com ela no bairro Alda Lara. Foi correr de verdade e nunca mais olhar atrás, o nome dela é tudo quanto restou. Cheguei a desejar morte à minha algoz – sei que não devia, embora não ignore que amor e morte, efectuada ou prometida, não andam muito distantes). Como é claro, também já fui herói, e é nessa última condição que me atenho hoje.

Certo dia, de bucho devidamente satisfeito, meu amigo e eu cuidamos de esfregar as mãos com petróleo (querosene?) para abafar a inconveniência do perfume da lombula (ou lambuda, para aqui aportuguesar a boa sardinha) grelhada, difícil que estava naquela noite achar o pedaço de sabão mais próximo. Cumprindo a rotina, fizemo-nos à parada, ao longo da estrada Kalumba-Catumbela, caprichando no vocabulário para cair na graça de novas raparigas na sanzala ou, no mínimo, consolidar namoricos.

Caminhávamos aleatoriamente pela noite escura, que se fazia mais escura pela ausência, não já da energia eléctrica, mas sobretudo de meninas que deviam ter muito trabalho doméstico a seguir ao jantar. Não seria a primeira noite de desencontros, estávamos cientes, bons dias viriam, ou não tivesse a semana sete dias e noites.

Chamou a nossa atenção algo a que chamaríamos de discussão, se passasse de monólogo. “Vou-te sepultar… na sepultura”, retinia um tipo que mal conhecíamos. Aproximámo-nos. A diferença de idade entre nós e o trio em certa medida equivalia a uma geração. “Eu vou-te sepultar… na sepultura. Eu sou baiano. Eu sou muito baiano”, dizia. Será que os baianos (naturais da Baía Farta) sepultavam fora de sepulturas? Bom, teria de consultar livros de arqueologia e antropologia mais tarde, que urgia mesmo era salvar o mano que conhecíamos. Este, na típica ambivalência, tentava uma “recaída” com a ex-namorada, não que ela não fosse cúmplice, só que, para seu azar, o rival se antecipara na recolha de informações relevantes sobre si (nome e fenótipo).

A rapariga, impotente, tentava acalmar o namorado, que seguia ameaçando, suas mãos ora no bolso, ora na cintura, dando a entender que trazia armamento sob o casaco. Já o nosso amigo era o medo em pessoa. Sua motorizada andava confiscada pelo agressor. Mas por muito agressivo que o baiano quisesse ser, ele era estranho no bairro, ao qual estava ligado apenas pela namorada. A nossa presença jogava contra si. Foi então que libertou a motorizada. E lá o nosso conhecido saiu connosco da zona de conflito.

Por essa e por outras, posso ou não escrever sobre o amor?

Gociante Patissa, bairro da Santa-Cruz, Lobito, 8 Maio 2013

Duas a três pessoas são detidas em Luanda

Duas a três pessoas são detidas em Luanda sempre que o avião da Taag chega do Brasil. São as chamadas mulas, pessoas que fazem correio da droga. O programa "Bom Dia Angola" da TPA exibiu hoje (08/05) uma peça, com a apresentação pela polícia nacional de um cidadão nigeriano que trazia 70 cápsulas de cocaína na barriga em direcção à república de São Tomé.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Obrigado pelo gesto, é um pouco desses pequenos gestos de honestidade que esperamos ver multiplicados!!!

"Na minha casa há um mocho como esse. As minhas crianças pensaram que fosse nosso, então levaram. Mas agora, ao contar, vi que tem um a mais. Vim devolver". Palavras de uma vizinha (pela casa da minha mãe) há instantes. Obrigado pelo gesto, é um pouco desses pequenos gestos de honestidade que esperamos ver multiplicados!!!

Para debate, se der:

Q1-Que te passaria pela cabeça se visses um estrangeiro com o mapa de Angola tatuado no braço? Q2-Haverá uma ligação entre isto e gostar-se (no sentido de respeitar) de quem nasceu dentro do mapa em causa, tem raízes, valores e tradições? Q3-O que representa o passaporte angolano obtido de forma fraudulenta?

Quotes

"Eu, como estrangeiro, nunca esperei encontrar o Brasil das novelas. Ao contrario! A última coisa que nao queria encontrar era o Brasil das novelas! Qual o motivo? Pela a exclusao de rostos Afrobrasileiros..." Totti Satchingongue

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Que expectativas se podem alimentar com a vinda de Isaac Maria dos Anjos à província de Benguela na qualidade de governador em substituição de Armando da Cruz Neto?

No meu caso, no que à melhoria da qualidade de vida diz respeito, já sei que não é para breve que o meu subúrbio vai ter energia eléctrica. Vamo-nos contentar com água na torneira e... doses elevadas de poeira. O palácio da Praia Morena fica sempre loooonge...

Convite: ERRATA FULCRAL: 18:15 17 maio sexta: Apresentação da série DiVersos - Poesia e Tradução


Com a presença de três dos poetas incluídos (José Manuel Teixeira da  Silva, Luciano Moreira e Teresa Ferro), naturais do  Porto ou fixados  na região, e dois dos tradutores (José Carlos Marques e Teresa  Ferro), também aqui fixados, será apresentada a série DiVersos -  Poesia e Tradução, a propósito da publicação do seu n.º 18. Na sexta-feira, 17 de maio, às 18:15, no Porto, no Palacete Viscondes de  Balsemão, à praça Carlos Alberto n.º 71.

Fundada em 1996 por quatro poetas e/ou tradutores naturais do Porto  ou ao Porto ligados, a DiVersos é já hoje em Portugal uma das  publicações de poesia mais longevas.

A sua ligação ao Porto em nada impede que seja também decididamente  universal, tendo até hoje traduzido mais de 130 poetas de 16 línguas  diferentes e inserido poemas em língua portuguesa de mais de 130  autores, incluindo numerosos poetas do Brasil, e alguns de outros  países de língua oficial portuguesa ou a eles ligados (Angola, São  Tomé, Moçambique).

A DiVersos / Edições Sempre-em-Pé (contacto@sempreempe.pt) agradece a  colaboração da Porto Cultura e da Câmara Municipal do Porto

Pensamentos a reter


“Não está a cultura no saber as coisas, mas numa certa maneira de saber as coisas; numa certa maneira de as apreciar e de as ver. Há quem saiba muito e não seja culto; há quem saiba pouco e que o seja muito. Reside a cultura essencialmente na forma, e não na quantidade do conhecer; tão-pouco na variedade do conhecer; tão-pouco na novidade do conhecer. A cultura é algo essencialmente activo: é uma ginástica e afinação do espírito; é um trabalho deste sobre si próprio; é um esforço de elucidação e de compreensão perfeita, de harmonia mental, de exacto aprofundamento das nossas próprias ideias, de coordenação e coerência das concepções." - António Sérgio, Ensaios sobre Educação, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2008, pp.296-297

Deu para rir

Autor desconhecido

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Como em António Cardoso (1959), sei que «Se choramos aceitamos. É preciso não aceitar.» Só não prometo, para não mentir.