PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 28 de abril de 2013

Umbilical pára-quedas

Umbilical pára-quedas

Se voar é de asas abertas
Em replay põem-se a nu as cicatrizes.

Tudo é nada mais senão o vento
que faz assobiar e sublima cantos
tocar o céu pelo penteado da montanha
até ceder à lei de gravidade

Houve sempre uma mão
houve sempre uma mãe.

Gociante Patissa, in «III Antologia de Poetas Lusófonos», 2010. Folheto Edições e Design, Leiria - Portugal

sábado, 27 de abril de 2013

O nobre gesto de António Gonçalves


Eu disse na véspera e durante a campanha eleitoral para os corpos sociais na União Dos Escritores Angolanos que esperava, enquanto membro, que a instituição saísse fortalecida deste saudável exercício democrático. Gostei de ler hoje no Semanário Angolense (SA) que recebi via Salas Neto:

SA – Consta que foi felicitado pelo candidato derrotado da lista B… A ser verdade, como avalia o gesto do seu rival?
Carmo Neto- É o gesto de cortesia, que deve ser valorizado; UM SINAL de aceitação do resultado das eleições que foram realizadas com absoluta transparência e liberdade.

Um grito de socorro que vem de pequenos empresários do sector farmacêutico e Benguela

Chega-me a informação segundo a qual pequenas farmácias de Benguela encaram com perplexidade as exigências da Inspecção de Saúde quanto às dimensões físicas que se pretendem implementar, desde finais do ano passado. Ou seja, o espaço da sala de atendimento, o WC, a arrecadação e o gabinete do gestor do estabelecimento devem obedecer aos novos parâmetros. É na periferia que a medida parece preocupar mais. Se por um lado os empresários respeitam a legitimidade das autoridades sanitárias, questionam por outro lado que tais medidas só agora surjam, quando inicialmente se exigiam condições de higiene e climatização. Será que o princípio da não retroatividade da lei não se aplica neste caso? Não seria de exigir tais parâmetros a quem quiser legalizar farmácia depois da vigência deste novo paradigma? O que é que se entende por pequenos empresários? São questões de quem está incerto e não tem mais fundos para investir no alargamento do estabelecimento.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Leituras de queimar tempo

Gostei de ler "Visões do Além" (narrações e vivências para ler sentado) do jornalista Sebastião Marques, um livro de crónicas com 86 páginas, editado pela Nzila em 2006. Encontrei-o numa livraria na Zona Comercial do Lobito esta tarde e em pouco tempo cheguei à última página. São essencialmente crónicas de viagem, sendo que com algumas foi inevitável a proximidade afectiva, ou não fossem lugares por onde um dia passei, como Nova York, Washington (EUA), Jerusalém e Tel Aviv (Israel).
Não sei ao certo a partir de que momento exacto nasci para a palavra, se no ventre ou fora dele, do mesmo jeito que não sei ser forte ao lidar com a palavra, se carregada de dor. Não sei porque tal momento me engole.
Como em Neto, tu me ensinaste a esperar. E se aprendi a acreditar, mais do que aos deuses, de cá ou do além, é a ti que devo.
"Algumas mães são carinhosas e outras são repreensivas, mas isto é amor do mesmo modo, e a maioria das mães beija e repreende ao mesmo tempo". (Pearl S. Buck)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Mais uma das intermináveis perspectivas

Segundo a página do UNICEF no Facebook, a cada minuto, morre uma criança de malária.

Não está claro na página do UNICEF se a estatística é global ou se refere a Angola. É uma chamada de atenção para cada vez maior sinergia na lutacontra a doença, num quadro triste e preocupante. Por outro lado, olhando para os números, assim como são atirados, parecem algo questionáveis se se referem a Angola. Quer dizer, 60 minutos dá 1.440 mortes por dia, o que multiplicado por 365 é qualquer coisa como 518.400 mortes por ano. Será?

Pepetela e a sua visão quase exagerada pelo positivismo

Compreende-se, talvez seja o centro da cidade a Benguela que descreve. Na verdade, há muito que há mais gente para lá do asfalto. Era bom passar um fim-de-semana pelo menos para lá dos holofotes, no 11 de Novembro, 4 de Fevereiro, 17 de Setembro, Bairro Benfica, Caponte city, Viva a Paz, Nossa Senhora da Graça. O texto do link é legítimo, ainda que longe da realidade. Como sociólogo que é, sugerimos para de vez em quando a observação participante.

Ler crónica aqui

terça-feira, 23 de abril de 2013

Avenida do quase

Há um andrajoso que dorme sempre cedo. Tão pesado lhe é o sono, que me custa chamá-lo de louco. Tem realmente ares disso, mas eu mesmo ando às voltas com o sono, tantas emoções e agendas por gerir. Neste preciso momento canta a poucos metros do carro, nosso quartel general. Passam outros na mesma condição, e até acho que sei porquê. No outro dia, um, aquele sim quase louco, digo quase porque, com inusitado sentido de liberdade, quebra uma qualquer garrafa e com o mesmo automatismo atinge uma testa, a dele próprio, para em jacto de sangue deixar sua marca sobre o passeio de cimento. Não é visto durante horas. Surge depois com penso sobre sutura, pede cinquenta kwanzas para comprar pão, mas logo a seguir chateia-se quando lhe é dado o pão no lugar dos cinquenta kwanzas. Certamente sabe que por este valor comprava mais de um. Passam relativamente muitos, por este passeio. E até faz sentido, é a rua dos bancos, da clínica e dos contentores de lixo. É de loucos a avenida do quase, do sonho por rápidas melhoras, da dor.

Também eu, mano.

"Big boys don't cry/ Big boys don't cry/ And sometimes/ I cry/ I said I cry.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

SOS (um apelo a jornalistas e entidades ligadas à inspecção da Saúde)

Moradores do bairro da Santa Cruz, Lobito, no perímetro entre a casa cantoneira amarela e a rotunda que dá para o Estádio do Buraco, temem consequências negativas à sua saúde, principalmente no que à vertente respiratória diz respeito. Diariamente convivem com um cheiro incómodo que se acredita proveniente de produtos químicos, uma vez estarem instaladas no local três fábricas, sendo uma de fraldas descartáveis, uma de tanques de plástico (vulgo hipopótamos) e outra fábrica de colchões de esponja. As referidas unidades produtivas, que pelo que consta deviam estar instaladas longe de zonas residenciais, são de iniciativa privada e funcionam ali há coisa de 3 anos no âmbito do PDIC (Pólo de Desenvolvimento Industrial da Catumbela), que gere o que sobrou dos talhões da antiga Açucareira 1º de Maio, três fábricas.

PS: Segundo informação mais recente, a FertilAngola tem no mesmo perímetro uma indústria de fertilizantes, que se junta às suspeitas de origem do cheiro incómodo (que se teme tóxico).

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Indigestão identitária

É sempre com alguma vergonha que noto compatriotas nossos julgando-se no direito de impor suas vontades e maus-humores em voz alta, até em questões profissionais que não entendem, já possuídos pela indigestão que a autoridade do sobrenome eventualmente lhes causa. Se algum parente tem notoriedade em algum ramo da política, exército, empresariado, comunicação social, etc., porque não arriscar na condução e desrespeitar as mais elementares regras de convivência social? Algumas famílias tidas como "tradicionais" residentes ou com membros em Benguela deixam muito a desejar! Desculpem-me, estou um pouco enjoado do politicamente correcto!

- O meu pai vendia rosas, por isso me chamo Rosa.
- Minha mãe cuidava de margaridas no jardim da Câmara municipal, veio daí meu nome de Margarida.
- Neste caso - confessa o rapaz -, meu nome seria Marijuana.
(Adaptação de anedota do Jornal de Angola de hoje)

"Aquele que um dia experimentar o cume da montanha, baixando por instantes a guarda dos olhos, não esquece a sensação de voar com os sonhos pelos céus, mau grado, é certo, os pés presos ao solo. De qualquer modo, se as montanhas fossem aves, os ovos seriam de pedra. É a vida". (Pág.32)

Quando nascer, daqui a seis ou mais meses, será esta a cara. Género: prosa de 120 páginas. A trama começa em Luanda, nos primeiros cinco anos de Angola independente, atravessa por algumas províncias, e termina em Luanda em 2002. Espero que gostem.

Como todas a opiniões, essa não deixa de ser discutível

O meu custou muita propina, alguns recursos, bué de leitura e mais de um ano de avanços e recuos com o tutor. Tem por isso um simbolismo que transcende o papel, o da caminhada e aprendizagem num ramo concreto que se soma ao resto ecléctico. De qualquer modo, temos que olhar para lá das aparências, tal como uma cara e falas mansas não podem significar à partida ter razão em caso de briga. Aliás, de diplomas autênticos mas obtidos por vias fraudulentas estamos fartos de ouvir.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Nota solta: Quem dita o que se lê em Angola?


Voltei ao mercado “Kero” do Lobito no dia 16/04/13 para um breve olhar sobre o sector do livro, mais concretamente na componente de escrita criativa. Meu interesse foi olhar para os preços de capa e principalmente saber quais são as principais chancelas editoriais. Recordo que, numa nota recente, referi-me ao preço convidativo em dois livros com edição portuguesa, sendo 390 Kwanzas o de crónica (autor português), e 890 Kwanzas o romance (autor latino-americano), ambos com mais de cem páginas.

A presente indagação foi motivada pelo que ouvi de vários agentes, escritores e editores em Luanda, que lamentavam a resistência da parte de quem gere livrarias e mercados quando o assunto é a consignação de livros editados em Angola. Porque será? Para escritores, como eu, com pouco menos de seis anos de afirmação, trata-se de um fenómeno complexo, e qualquer opinião arrisca-se ao apriorismo. Não podendo, por questões logísticas, visitar as livrarias e mercados na capital, que alegadamente secundarizam o material nacional, continuei a observação na província de Benguela.

A presente reflexão assume que a qualidade gráfica é equiparada, dado o avanço tecnológico de tipografias que operam em Angola, e ainda considerando haver editoras que recorrem ao Brasil e Europa. Então onde está o problema? Preços? Não parece ser de todo isso determinante, já que a moda é entre mil a quatro mil Kwanzas.

No “Kero”, a Nzila é a única chancela nacional, que por sinal não é tão Angolana assim, depois que o sócio local vendeu as acções e o projecto se tornou apêndice do gigante grupo editorial português, Leya. Em uma hora a ler páginas de detalhes, constatei que o monopólio engloba as editoras Caminho, Casa das Letras, Texto Editores, ASA, Caderno e a Don Kixote. Minoria esmagadora recai para Estrela Polar e Porto Editora. No âmbito da Leya encontrei disponível um punhado de autores angolanos: Pepetela, Luandino Vieira, Luis Fernando, José E. Agualusa, e dois nomes que me escapam.

O que se passa no “Kero” não difere muito da realidade da maioria dos mercados e grandes livrarias do país. É inevitável estabelecer um paralelo entre os mercados literário e gastronómico, onde é cada vez mais trabalhoso achar a identidade do lugar na criação, numa clara agenda dedicada ao turista. Esse quadro não deixa de ser intrigante para quem ouve frequentes desabafos dos importadores, ora por causa de impostos, ora por causa de eventuais excessos de burocracia nas alfândegas.

Parece que passa a ser secundário, enquanto problema, o incipiente apoio que permitiria a subvenção do livro, já que até os poucos (aqui o pouco é em relação à média de livros por ano que saem em outros países) continuam encaixotados e sem saída. A distribuição é o verdadeiro calcanhar de Aquiles. E não colhe a justificação de que a nossa sociedade pouco lê, já que é à mesma sociedade que os livros importados são vendidos.

Que tal se as editoras angolanas fizessem chegar a cada uma das dezoito províncias pelo menos cinquenta exemplares de cada título? Contas redondas, teríamos nessa ordem de ideias novecentos exemplares a circularem pelo país. Não era altura de os livreiros angolanos reavaliarem o intercâmbio com similares além-fronteiras e aprimorar estratégias de divulgação subsequentes à primeira sessão de lançamento e autógrafos?

Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da Catumbela 17 de Abril de 2013

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Foi o mais lindo de todos os bilhetes que trocamos. Depois do que tinha a dizer, referente ao seu estado de saúde, ou melhor, à sua recuperação a caminho de uma semana acamada, escreveu no cantinho: "Queira desculpar-me por não poder, desta vez, fechar com um verso". Outros tempos, outros formatos de revelar romantismo, digo hoje!

Poupe seu esforço

Crónica: «O que vejo posso transformar em arte, só que não consigo escrever»


Quando me consegui livrar do turno, delegando tarefas ao pessoal à disposição, estava a uma hora da entrevista em directo no programa da Lena Sebastião, Rádio Benguela.

Tinha feito trinta quilómetros ao volante entre uma cidade vizinha e a casa, o mesmo trajecto que uso para relaxar, neste gozo que é conduzir, sozinho, ouvindo o que apetece e no volume que a alma entende. Mas a fórmula estava fora de hipótese nesse exacto dia. Sim, porque, por uma causa bem justificável embora não seja para aqui chamada, eu tinha passado a noite de sexta para sábado no assento do motorista, onde aliás me foi servido o jantar, tão-só na principal avenida do centro do Lobito.

Nesta época do ano, o litoral é quente e húmido, o que em nada alivia o stress; daí depositar esperanças na terapia do chuveiro. Posto em casa, nada de água na torneira, banho frustrado! É que, como raramente a água falha, perdi o hábito de ter reserva. Dei meia-volta em direcção ao Largo de África para tirar a poeira do carro. Apenas um “limpador” se encontrava em serviço, engajado já em outra empreitada. Não era prudente esperar pela nossa vez, dada a natureza gasosa do tempo em rádio.

Música alta vinha do jardim. O dístico falava em feira do livro, quando só se viam uma tenda com livros, uma com produtos de alfaiataria e outra com artesanato. Bem, como não há meio-buraco, uma feira é feira a partir da sua intenção, deduzi. Por puro hábito, fiz algumas fotografias. Saudei duas pessoas conhecidas ali e retirei-me.

Um quarto para 16h00. Caminhava, apressado, para o carro, tão contra que sou relativamente ao atraso de convidados quando faço rádio. Para piorar, um adolescente vinha a correr em minha direcção. Inferi logo que alguém me havia referido a ele. «Desculpa, quanto tempo leva para escrever um livro?», questionou-me, humilde e sonhador, como se eu tivesse autoridade alguma. Numa cuidadosa selecção de palavras, tirei a coisa da esfera da contabilidade para focar na maturidade. O importante é o exercício permanente de ler e escrever, e não já criar a pensar no livro ou no disco.

«Para mim, que tenho dificuldade na escrita, tem que ser disco, não?» Bem, eu sou mais inclinado para o livro do que para o CD de poesia. Mas é assim: a escrita é combinar a criatividade com o domínio da ferramenta de trabalho, a língua. Tens dificuldades de escrita, como? «A trombose que me fez assim - indicava a sequela do seu lado esquerdo - prejudicou o cérebro». Anda na 6ª classe do ensino especial e já reprovou duas vezes. Minhas emoções misturavam-se, tendo em conta a empatia e a crise de tempo.

Mas se não consegues ler nem escrever, como identificas a poesia? «Eu me inspiro em tudo, numa festa, jogo de futebol, num filme; tudo o que vejo posso transformar em arte, só que não consigo escrever. Por isso, penso no disco». Neste caso, a gravação pode ser uma técnica de evitar dispersão, para mais tarde, com ajuda de alguém, cuidar da correcção. Se decidires ficar pelo CD de poesia, tudo bem, desde que seja um trabalho com maturidade. De contrário, o mercado literário pode anular o teu esforço.

Devo-lhe ter confundido ainda mais, mas não sei falar ao contrário do que penso.

Gociante Patissa, Lobito 15 de Abril de 2013.

domingo, 14 de abril de 2013

Dois livros a preço muito bom

Passei ao meio-dia pelo "Kero" no Lobito e comprei dois livros de autores portugueses. Motivo? Preços encorajadores. Um é de crónicas, custou 390 Kz (quase 4 USD), o outro é romance, ficou por 890kz (9 dólares). A qualidade gráfica dos livros é muito boa, é ainda cedo para me pronunciar do conteúdo. Seria maravilhoso se o sector do livro não levasse uma eternidade para o incremento necessário, e com isso encurtar-se a distância entre os leitores e os livros de autores angolanos. Viva o livro, viva o bom preço!

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Basílio Chindombe vence prémio "Jardim do Livro Infantil"

Texto da Angop – A obra literária “Jimbo”, de Victor Kupessala, pseudónimo literário de  Basílio Chindombe (à esquerda na foto), da província da Huíla, venceu o prémio literário “Jardim do Livro Infantil”, na sua 4ª edição.

De acordo com uma nota de imprensa do Instituto Nacional da Indústria Cultural do Ministério da Cultura chegada hoje, sexta-feira, à Angop, este prémio visa incentivar e promover novos autores e obras infanto-juvenis. 

Sublinhou também que o autor venceu pela sua criatividade, fantasia, movimento, linguagem acessível e pela forma organizativa do texto.

O júri foi constituído por Michel Mutaia Kanianga (presidente), Gilberto Ezequiel (vogal) e Óscar Guimarães (secretário).
O prémio literário Jardim do Livro Infantil é realizado anualmente em homenagem aos percursores da literatura infantil angolana, cuja outorga e o lançamento da obra são feitos no âmbito da realização anual do livro jardim infantil.
“Ficar fechado em casa é morrer. Digo isso à minha mulher desde os primeiros dias do nosso casamento. Digo isso, sobretudo, quando vejo que ela tem umas saídas desajeitadas de ciúmes, com os músculos do rosto ou com palavras mesmo, quando decido sair de casa e dar uma volta (como costumo lhe dizer) para resolver os problemas da vida” (do personagem Nazaré dos Relâmpagos de Abril). Roderick Nehone, in «O Catador de Bufunfa», pág. 51. Mayamba Editora, 2011. Luanda, Angola.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

"O salário é um bem comum do casal, porquanto é fonte de rendimento. Nos casamentos em regime de partilha de bens, o salário do marido deve favorecer a esposa, e vice-versa" (Advogado Carlos Cavukila, in "Lei para Todos", TPA. 11/04/13). Estou já a ver a cara "feia" no lar quando chega

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Não há réplicas de ti

Fossem os humanos obras de arte, via-te nesse rosto que a centímetros passa, e num instante era galgar para o outro lado da mesa do consultório para onde caminhas. Quinze anos, e tu jovial como as folhas do jardim do mercado municipal, onde gastavas o serão. Os músculos envelhecem, como tudo o que é real. E não há réplicas de ti. Sei-o, não és tu essa carne.

(GP, 10/4/13, inspirado na aparência entre uma moça que acabo de ver e alguém que conheci lá para 1998 quando morei na zona comercial).
"Continuo a defender que as nossas dificuldades, as nossas necessidades, as nossas dores, não podem ser suficientemente fortes para empurrar-nos para irracionalidade..." (Salvador Carima, Luanda 10/4/13)

O jornalista e o assessor

“Alguns jornalistas olham enciumados para os antigos colegas, como se estes tivessem traído a classe ao aceitar trabalhar para os antigos “carrascos” em troca de melhores condições sociais e de trabalho. Mas os assessores de imprensa dizem não dormir o sono dos justos: não haja ilusões! A vida de assessor não é calma, pois nem a Baía de Luanda é ali. Jornalista questiona e critica, enquanto o assessor de imprensa aplaude e elogia! Quem está melhor que o outro?…" (Augusto Alfredo, in «Inquietações do Jornalismo», pág. 81. Editorial Nzila, 2006. Luanda, Angola)

terça-feira, 9 de abril de 2013

Novos autores e identidades temáticas

No capítulo do surgimento de jovens com inclinação para a escrita, digna de estudo é a tendência com que firmam a identidade, fenómeno que ocorre um pouco por todo o país. Antes do nome, o título. Assim, do ponto de vista temático, partilho os exemplos do "Poeta Momentâneo" de Luanda, com quem já troquei breves impressões no quintal da Rádio Morena, em Benguela, bem como a mais recente surpresa minha, o "Poeta Lamental", também de Luanda. Enfim...

Numa entrevista de emprego em 2006

"O senhor fala inglês?"
"Não".
"Escreve?"
"Também não".
"Bem, mas aqui, no seu CV, diz que domina fluentemente".
"Sim, era para reforçar o currículo".

(Numa entrevista de emprego em 2006).

Era bem preferível que trabalhassem bem (o cartoon é do Jornal de Angola 9/4/13)

Governador distingue estudante que ocupou segundo lugar do concurso nacional de redacção


Texto: Angop – O governador da Huíla, João Marcelino Tyipinge, procedeu segunda-feira a entrega de prémio ao segundo classificado do concurso nacional de redacção da SADC, Estefane Baku.

No acto que decorreu na escola Nº 98, arredores da cidade do Lubango, o estudante recebeu um computador, certificado e 30 mil kwanzas.

Na cerimónia, o governador provincial da Huíla, João Marcelino Tyipinge, destacou a importância do concurso nacional de redacção, pois o mesmo classifica e faz com que os alunos estudem mais.

João Marcelino Tyipinge disse que a província da Huíla tem por excelência bons estudantes, uma vez ser uma área fortemente académica com clima propício para se estudar.

Por sua vez, o director provincial da Educação, Américo Chicoti, afirmou que a província da Huíla tem correspondido às expectativas, pois nas edições passadas conseguiu conquistar o primeiro lugar.

Estefane Baku, de  16 anos de idade, é estudante da 12ª classe do Instituto Médio de Economia do Lubango e frequenta o curso de Gestão e Contabilidade na mesma instituição.

Tipologias

“Há dois tipos de jornalistas: os que gostam de dinheiro e os que gostam de informação. Nunca se deve dar dinheiro aos que gostam de informação, nem informação aos que querem dinheiro”. (citação atribuída ao Senador brasileiro Antônio Carlos Magalhães, do governo de Fernando Collor de Melo, no livro “As armadilhas do Poder – Bastidores da Imprensa”, da autoria do jornalista Gilberto Dimenstein (1990).

segunda-feira, 8 de abril de 2013

"Vimo lyukwene ku tandavala" (adágio Umbundu)

"Vimo lyukwene ku tandavala" (adágio Umbundu) - quem está no útero não pode esticar as pernas. Quem depende do outro tem de ter noção dos limites.

domingo, 7 de abril de 2013

"Quando os presos falam ou vêem esses dos direitos humanos, ficam cheios de mania, não colaboram. Eu não gosto esses dos direitos humanos, complicam nosso trabalho" (de um jovem guarda prisional).
Fiquei a pensar na ironia do latex. Quem lida com balões em festa de crianças acaba voltando para a casa com a mão cheirando a camisinha. Quer dizer, elas, as camisinhas, que em nada contribuem para que existam crianças, têm presença privilegiada, ainda por cima, na celebração do que tanto têm impedido. Latex, latex!

Crónica: Só me resta desconfiar da intenção das frutas


Foi de uma nutricionista que ouvi há alguns anos que “mais importante do que os ingredientes são os nutrientes”. Encantou-me o que a rima encerra, passando desde então a fazer pequenos exercícios mentais à hora de comer ou beber, tendo em conta o teor do açúcar, gordura e afins.

Acontece entretanto que, desse exercício, costumam resultar trapalhadas comprometedoras. Hoje por exemplo, numa festa pelo baptizado da filha de uma pessoa amiga, foi com agrado que me deparei com uma jarra de vidro cheia de limonada. Para não restarem dúvidas, estavam presentes porções de limão. Qual cão de Pavlov, minhas glândulas não cabiam em si. Ora, conhecendo as vantagens daquele citrino para a saúde, cuidei de encher um copo, bem cheio mesmo! 

“Essa limonada tem um paladar esquisito. Parece limonadas de Israel, que se dizem naturais quando são de fábrica”, recorri ao companheiro ainda a meio do primeiro gole.

“Ó sócio, cuidado, isso não tem álcool?”, advertiu. 

“Será? Deixa dar mais um gole”. 

E nesse instante percebo que de facto era um líquido da cor da limonada, recheado de limão, mas alcoólico. 

“Isso é caipirinha, é bebida de meninas na discoteca, ou daqueles que começam agora a beber”, esclarecia ele.

Estava eu ali à vista de tantos convivas, de copo cheio, sem saber como me livrar dele. Lá tive de sair e entornar atrás da árvore do pátio, que me perdoe a natureza se o capim morrer. 

Constrangimento similar experimentei há coisa de cinco anos no óbito de um companheiro quando eu andava no sector das ONG. Passavam do meio-dia e estava ainda por sair o almoço. Entre as bebidas, uma embalagem cativou-me pela variedade colorida de frutas tropicais. E na mania de misturar sabores, minhas glândulas perspectivaram um agradável sumo. Foi só encher um copo para sentir o sabor a álcool. Era sangria. E fácil não foi achar o meio de entornar o conteúdo para o outro lado do muro. 

Definitivamente, só me resta desconfiar da intenção das frutas em eventos públicos. 

Gociante Patissa, Bocoio 06/04/13

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Recordando hebraico

Estou a ver um filme no canal TVC2 (e não sou nada apegado a filmes) intitulado "A Viagem do Director". É basicamente sobre a morte em Jerusalém de uma funcionária de padaria que tem nacionalidade romena. Uma parte ocorre na capital de Israel, outra na Romenia. Está a servir para actualizar meu muito largo dicionário mental. Já ouvi "shalom" (paz, olá), "Todá" (obrigado). Ainda não ouvi "yimina" (à direita) nem "pita", este último significando pão, meu o alimento "étnico" preferido quando por lá passei no âmbito da 26ª edição da feira do livro. Conhecer cinco palavras de uma língua antiga como o hebraico deveria à partida equivaler a um mestrado na universidade hebraica, já agora, acho.

Divagações enquanto decorre a campanha na UEA


Decorre entre o primeiro dia a 18 de Abril a campanha eleitoral para os órgãos sociais que dirigirão a União Dos Escritores Angolanos no período 2013-2016. A votação é já no dia 20. Pela lista A concorre à sua recondução o secretário-geral cessante, escritor Carmo Neto, e na mesma condição o presidente da mesa da Assembleia Geral, o escritor Adriano Botelho de Vasconcelos. A lista B é encabeçada pelo escritor António Gonçalves para o posto de secretário-geral, com o escritor João Maimona concorrendo para presidente da mesa da Assembleia Geral. À semelhança de Carmo Neto, António Gonçalves também já foi secretário-geral da UEA. Outra coincidência entre as listas concorrentes reside no facto de Adriano Botelho de Vasconcelos e João Maimona terem também passagem pelo órgão directivo da instituição. Disse em ocasião anterior esperar, como membro, que a instituição saia mais fortalecida deste exercício democrático. Todavia, enquanto cidadão atento e com alguma experiência em gestão de projectos sociais e mesmo de cooperativas no movimento associativo (ONG), desenvolvi certa aversão a campanhas. E já em posse dos manifestos de intenções quer de uma, quer de outra lista, dá a impressão que ficou por dizer algo. Como, que via, que método, que mecanismo, que táctica, que estratégia, serão usados para que as intenções evoluam para resultados?

"Never like before/ we have to dream more/ now without war" (GP, na comunicação para audiência na Universidade de Salt Lake, Utah, EUA, Janeiro 2010)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

“Há uma corrente mercantilista que está a levar músicos angolanos para fora do pensamento lógico” (Don Caetano, Rádio Nacional de Angola, 04/04/13).

capa da Antologia traduzida em espanhol de contos angolanos, organizada por António Quino, programa da União dos Escritores Angolanos em divulgar a literatura angolana

Em Portugal, o "ministro equivalente" largou o governo. Foi-lhe dada a equivalência da demissão. Grande Miguel, o das Relvas.

Em plena avaliação oral numa aula do Curso de Direito de certa Universidade cá de Benguela:

Professor: Qual é o papel de um juiz?
Estudante: Condenar, professor!

No balcão do catalogador de uma clínica no Lobito


“Quem está a seguir, a senhora à [esquerda], ou a senhora [à direita]?
“Sou eu, mas se achar que deve atender ela primeiro, também pode”.
“Então eu perguntei, e você diz que se achar que deve atender a outra…?”
“O senhor não tem feito outra coisa desde a primeira vez que cheguei senão atender os que chegaram depois de mim”.
“A senhora só pode estar de brincadeira comigo”…
“Brincadeira?! Olha, eu não quero discutir, faça só o seu trabalho, que estou preocupada com a doente que trago”.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

"O reflexo da falsidade do mundo, você vê no Facebook. Parece que as pessoas ficaram mais cegas".

De autor desconhecido

"Alguns professores estão a pedir 20, 25 a 50 dólares. O prof. de EP só pede 10. Deve ser porque é presbítero na igreja dele".

Entender o kuduro (fragmentos)

"Porém, para alguns de nós, na diáspora angolana, o kuduro é um estilo de música que nos inquieta – para uns até dá vergonha. Sentimos uma certa aversão pela agressividade das suas líricas sexuais; pelo seu materialismo ostensivo; pela sua celebração de um certo hedonismo ou, ainda, pela sua inutilidade. Ficamos sem saber, o que leva tanta gente cá no Ocidente a gostar tanto do kuduro e de certos artistas (que nunca iríamos convidar para um almoço) mas que chegam a encher os salões". - Sousa Jamba, 2013, no artigo "Entender o kuduro"

terça-feira, 2 de abril de 2013

Respeita a muleta

Li nos jornais que a banda Afra Sound Stars se encontra em Luanda, onde já deu o brilho de sua graça com show à sua dimensão. Gosto de suas músicas, mas marcou-me mesmo um tema deles que tem um solo impecável. Da letra, lembro-me do trecho "Ó Mariana, respeita a muleta, respeita a cicatriz", trilha sonora, aliás, de uma telestória da TPA que se chamou "Yana, uma mulher só". Se ao menos os caminhos de Benguela se abrissem para eles...

Leituras e vagares

Depois de desistir um bom número de vezes, acabei lendo até ao fim "A Metamorfose" de Franz Kafka. Não sendo crítico literário, geralmente leio na base do gosto, da atracção inicial pelo que me chega, ou seja, guio-me pela sensibilidade. E a metamorfose não preenchia nenhum desses vazios. De tal sorte que não marquei sequer a data da compra no livro, naquele tradicional traço de tinta à mão dizendo "propriedade de..., Benguela aos..." Mas como não se chega a escritor sem ler os clássicos (risos), acabei resistindo à minha própria resistência de leitor. Uma coisa é certa, o narrador é forte no que ao rítmo diz respeito, o que facilita sobremaneira o leitor. Julgo não ser muito difícil pegar uma versão PDF por esta vasta Internet. Partilho uma resenha que achei neste Blogue http://gsobota.blogspot.com/2009/05/cultural-metamorfose-franz-kafka.html

Dúvida existencial?

“Na actividade do Dia da Mulher Angolana, levei cinquenta e cinco senhoras no autocarro; nenhuma só disse que o lar ia bem, que estava feliz. Será que nós, maridos angolanos, somos assim tão malandros?”

Oratura: DIALECTOS, VARIAÇÕES REGIONAIS E ALGUMAS BARREIRAS ENTRE OS OVIMBUNDU (ensaio de Gociante Patissa, Jornal Cultura 1-14 Abril 2013)

DIALECTOS, VARIAÇÕES REGIONAIS E ALGUMAS BARREIRAS ENTRE OS OVIMBUNDU (Gociante Patissa, Jornal Cultura 1-14 Abril 2013)

Em Angola, é comum o uso do termo dialecto para designar as línguas nacionais de origem africana, sejam elas de matriz Bantu ou pré-Bantu, remetendo-as implicitamente ao papel de subalternas da língua portuguesa. Por desconhecimento ou por preconceitos, é ponto assente que tal fenómeno é, mais do que problema linguístico, uma questão social e de políticas de Estado.

A caminho de quatro décadas de independência, urge esbater tal herança pejorativa da colonização portuguesa, de si célebre pelo investimento na fragilização da identidade cultural dos indígenas de então. Como defende MCCLEARY, Leland (2007: 11), “a sociolinguística não usa a palavra dialecto nesse sentido pejorativo. Para a sociolinguística, dialecto quer dizer, simplesmente, uma variação regional”.

Ainda quanto aos conceitos, o site http://conceito.de/dialecto diz que dialecto é “todo o sistema linguístico que deriva de outro mas que não apresenta uma diferenciação suficiente relativamente a outros de origem comum (…) Dialectos são, na realidade, formas particulares de falar ou de escrever uma determinada língua”.

Quanto à demografia, segundo Fernandes & Ntondo (2002), citados em KAVAYA, Martinho (2002: 54), formam o grupo Ovimbundu, os va Viye, Mbalundu, Sele, Sumbi, Mbwei, Vacisanji, Lumbu, Vandombe, Vahanya, Vanganda, Vatchiyaka, Wambu, Sambu, Kakonda, Tchicuma, e este grupo corresponde ao maior etnolinguístico angolano (acima de 4.500.000 pessoas) e comunica-se na língua Umbundu.

Tirando proveito do meio familiar como laboratório sociolinguístico, permita-me, caro leitor, recorrer a algumas ilustrações na primeira pessoa, à guisa de estudo de caso.

Pirão com conduto

No contexto de poligamia, partilhamos várias vezes o mesmo tecto com outras mulheres de meu pai. Culturalmente, as “sepakãi” (rivais) são vistas como “irmãs mais-novas” de nossa mãe, a primeira esposa (sendo isso mais determinante do que a idade cronológica para o estatuto de“Ukãi watete” ou “ndona yukulu”, a principal do patriarca).

Se no princípio tratávamos por “tias” as outras esposas, uma posterior reprimenda do pai viria a fazer-nos mudar. (Não existindo designação correspondente a meio-irmão, as crianças de outros lares seriam nossas primas?) Passamos a trata-las por “mãmã”, diferente de “mãi”, que se reserva à progenitora. Na verdade, não se tratou de invenção nossa, pois é “mãmã” qualquer prima ou irmã da nossa verdadeira mãe, como seria “papai” o nosso, ao passo que usamos papa [pa:pa] para nos referirmos aos seus primos e irmãos. Curioso é que mesmo que sejam do primeiro grau, irmã ou prima do nosso pai é “tia”, bastando apenas que não sejam do mesmo género.

Em 1992, a passar uma temporada na comuna do Monte-Belo, que dista cerca de cem quilómetros a leste do Lobito, senti-me intrigado por uma resposta, quando pretendia saber a ementa do jantar, mais concretamente o que seria acompanhante para o pirão de milho, que é invariavelmente a base das principais refeições no meio rural. “A mãmã, tulya la nye?” (Com que vamos comer?) A resposta foi: “Tulya mwenle lombelela” (literalmente, vamos comer mesmo pirão com conduto).

Ainda adolescente e com poucas noções de variações regionais, levei a resposta a mal, vendo nela um corte rude, que em Umbundu dizemos “oku tesula”. Foi nessa ocasião que passei a saber que a “tia”, oriunda da Chila, comunidade fronteiriça entre VaCisanji (Bocoio, província de Benguela) e VaSele (província do Kwanza-Sul), tinha percepção diferente, como adiante explica SAYANGO, Avelino:

‘Nas áreas do Huambo, Bié e Kaluquembe, o termo “ombelela é usado para designar qualquer tipo de conduto que acompanha o pirão. Assim tanto serve para designar carne de vaca ou de porco, de ave, como feijão, ervilha, ovos preparados de várias maneiras, folhas de mandioqueira, de abóbora, cogumelos, etc. Nas mesmas áreas, o número oito diz-se “ecelãlã” e o número nove “ecea”. Pelo contrário, nas áreas Hanya, Cisanji e Cilenge, o termo “ombelela” tem um sentido restrito. Designa a carne servida com pirão. Não se estende aos legumes ou verduras. Carne que se não come, não se designa por “ombelela”. Assim pode-se imaginar a decepção dum Cisanji, em casa de bieno, a quem se anunciou um almoço suculento de “ombelela” ao encontrar na mesa um prato de pirão com simples folhas de mandioca!’ (Sayango, Avelino, 1997: 8)

Por outro lado, em Benguela, "sekulu yange" significa meu marido (como tal estritamente feminino), ao passo que no Huambo é normal um menino dizer "sekulu yange", pois estará simplesmente a referir-se ao seu avô. Na senda das diferenças, acrescentemos outra que tem a ver com tabus. O município do Bocoio, dos Va Cisanji, situa-se no centro, tendo a oeste o Lobito, 70 quilómetros, e a leste o Balombo, também à mesma distância. Se para os VaMbalombo, a expressão “oku tutumunlã ketako” significa sacudir a poeira da região das nádegas, já para os VaCisanji tal seria um profundo disparate, porque interpretariam como sendo sacudir os órgãos genitais.

As barreiras que ora abordamos são de natureza semântica, susceptíveis que são de criar constrangimentos entre falantes do Umbundu. E como bem sustentam Cyranka & Pinto (2010: 502), “a sociolinguística ensina-nos que, onde há variação linguística, sempre há avaliação social”.

Obras Citadas:

 KAVAYA, Martinho. (2002). Educação, Cultura e Cultura do ‘Amém’: Diálogos do Ondjango com Freire em Ganda / Benguela / ANGOLA. Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal de Pelotas, como requisito parcial à obtenção. Rio Sul, Brasil: Pelotas.
CYRANKA, Lucia; PINTO, Consuelo. (2010). Aportes Sociolinguísticos à Prática do Professor – Implicações na Sala de Aula (Vol. XIV). UFJF. Brasil.
MCCLEARY, Leland. (2007). Curso de Licenciatura em Letras-Libras. São Paulo, Brasil: USP.
SAYANGO, Avelino. (1997). O Meu Pai (Vol. 1). Luanda, Angola: Barquinho – Livraria Evangélica.

Cartoon Jornal de Angola 2 de Abril, 2013

segunda-feira, 1 de abril de 2013

"Os escritores devem ser quem mais enriquece o seu lado filosófico e até mesmo de inquietação, esse é o ADN dos criadores." Adriano Botelho de Vasconcelos, Jornal Cultura | 1 a 14 de Abril de 2013

O expoente máximo da cultura angolana segundo o próprio. Um vídeo esclarecedor

Lavram-se os campos como as ideias

"Nosso chefe é mesmo assim. Te disparata, te fala que assim mesmo já passou. Te disparata mais, e te fala mais que assim mesmo passou. Às vezes te disparata tua mãe, e te fala que assim mesmo já passou" (moral da história: o lesado é que tem culpas por não relevar as desculpas que não ouviu).

Sim, como diria a teoria sociológica, "o monstro é sempre o outro"

(Crónica do arquivo): O Zé do 28, o inglês e eu no Porto

Aleija-me profundamente a mentira: a das mulheres, a dos mestres, a dos mecânicos, a dos políticos, a das crianças. Nunca fui, todavia, o primeiro a atirar pedras.

À chegada do interior, tive a felicidade de morar no morro da Quileva. Tem-se vista avantajada do coração da cidade. Cintura verde, a sul, as salinas, no centro, e o mar, a norte. Se desci o morro, foi somente atrás da máquina burocrática para questões escolares. Para lá dos jardins, uma vez na baixa, a cidade sumia, daí o desejo de logo regressar à prateleira. Por exemplo, disputávamos a titularidade de carros que víamos circularem no limite da linha do horizonte.

Em cidades singulares, as portas todas costumam dar em uma só com alma, o porto. Às marés ou aos caudais, faz-se entrada e saída, ao mesmo tempo, o cais. E é este desfile aparentemente desconexo dos navios que adensa na história do meu Lobito o fio.

Com a greve dos professores, foram três meses de tédio, agora no bairro da Santa-Cruz, zona com vista limitada, sem o televisor em casa, que por sua vez somava meses no conserto. Tudo levava a crer que o eletrotécnico não despacharia o trabalho sem a paga, posição quanto a nós injusta, porquanto o dinheiro que lhe faltava a ele faltava-nos a nós também. Estamos em 1995, e a presença, às centenas, de capacetes azuis da ONU e demais agências humanitárias ilustrava bem o quadro de penúria que o país vivia.

Não me ocorrendo a posição do pai, decidimos entre irmãos tirar proveito da ONU. Coube-me a missão de juntar a coragem ao meu arrojado inglês e comercializar, do tipo zunga, as estátuas de madeira lá de casa. Arrecadaríamos 55 USD, o equivalente a dois salários de professor. Em vão. O televisor já tinha sido extraviado.

O contacto com os capacetes azuis era fruto proibido em certos quarteis. Recordo-me de quando o Eliseu viu seu negócio retido no Hotel Términus. Mais conversa, menos conversa, prometeu-se subornar o guarda angolano, penhorando o Bilhete de Identidade. Parvo do guarda, já que ficava sempre mais fácil tratar outra via do documento.

Lá conheci o Zé, mais novo e mais alto do que eu. Até em sua casa, no 28 (Zona Comercial), cheguei a beber água. Impressionava ver-me falar “fluentemente” com os estrangeiros, ganhando uma vez ou outra desde livros, cassetes, a produtos de higiene. Foi o Zé quem decidiu levar-me ao Porto do Lobito, onde esteve naquele dia navio britânico da ONU. Atleta de basquetebol na escola da Casa do Pessoal, o Zé passava pelo portão sete como água pela garganta. Como entraria eu?

O Zé instruiu-me a dizer ao polícia que iria ter com o guindasteiro Frederico Carlos, meu pai. O polícia fitou-me, e autorizou. Ainda melhor, disse para voltar a ter com ele, caso alguém me molestasse. Tinha resultado! Antes de degustarmos as iguarias do navio, observei ao longe o guindasteiro. De facto, tínhamos algumas semelhanças, no tom de pele ligeiramente clara e no semblante aparentemente “mentalista”, enfim.

Hoje, o Zé é um homem feito, fazendo carreira como professor de educação física em colégios. Um dia desses lhe lembro daquela emocionante aventura, todavia reprovável.

Gociante Patissa, Benguela 11 Dezembro 2012