PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Os nossos músicos e o dito por não dito

Estou a ver com alguma surpresa a cantora Vina actuar ao vivo numa sessão gravada do Hora Quente, do canal 2 da TPA. Vina anunciou há uns dez anitos sua retirada dos palcos, mais concretamente na década de 90. Parece que o defeso acabou. Experiência similar se deu com Rei Weba, que voltou a cantar depois de anunciar fim de carreira. Talvez por isso é que muito boa gente está céptica relativamente ao anúncio do fim de carreira do Ku-durista de Bruno-M. 

"Sagrada Infância" é o título do novo CD de Vina, que se afastou dos palcos há dez anos, conforme acaba de dizer, para priorizar os estudos. É também professora de carreira.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Gociante Kapiñala Kamucayila, pai da cidadã Emiliana Citumba Gociante, minha grande mãe

Finalmente acabo de conhecer esta figura, falecida na década de 70, possivelmente antes de eu ter nascido. Avô, muito grato pela mãe que me deste!

Arquivo: O Cão, o Gato e o peixe na grelha (fábula inicialmente publicada no Blogue Angodebates a 26/09/2008)

Pelo menos uma vez na vida, o Cão e o Gato tentaram levar uma vida pacífica. É que não se justificava mais – entendiam ambos – a rivalidade, quanto mais não fosse pelo facto de habitarem debaixo do mesmo tecto:
– Vizinho Cão, consegue dizer-me a razão de sermos inimigos?
– Para ser sincero, mano Gato, eis uma pergunta que nunca ninguém me soube explicar! Então, mas porquê a pergunta?
– Bem, não é nada de especial. Mas…
– Epá! Acho melhor te afastares. Ir na tua conversa não significa que me apanhaste a pata, fica já a saber!!!
– Lá estás tu, ó Cão, com a tua parvoíce! Por acaso te faz mal conversarmos?
– Digamos que não.

E a conversa continuou entre inimigos, que aproveitavam bem a saída da dona de casa para as compras:
– Você já imaginou, ó Cão, como temos tanto em comum?
– Será?
– Claro! Veja só: andamos sobre quatro patas, temos cauda, a mesma ama, somos solteiros. Então?
– Estamos juntos mas não estamos misturados, ó Gato!
– Para quê usar estas palavras que nem são tuas sequer?

Tanta era a lata do Gato, que ao Cão faltavam argumentos para não acreditar no novo projecto de paz no lar. Perante tão boas intenções, também já cansado de andar aos murros com o “baixinho miau”, decidiu aceitar o pacto. Surpresa, porém, ficou a dona de casa ao notar que, ao contrário do habitual, o Cão e o Gato já não disputavam a apresentação das boas vindas. «Esses gajos devem ter muita fome», pensou:
– Mas vocês ouviram óbito ou quê?
 NÃO – responderam os ex-inimigos.
– Mas não vos parece que há paz a mais nesta casa? Então já não brigam? É como então?
– Bem… temos algo a dizer, avançou o Gato.
– Decidimos acabar com a inimizade de longos anos, cuja origem desconhecemos.
– Têm certeza que é mesmo isto o que querem?
– Sim! – asseguraram.

O tempo passava e melhor se entendiam. A ama só olhava admirada o novo fenómeno, bonito de se apreciar por assim dizer. E sempre que ela saísse, um deles ficava de Oficial-dia. Geralmente, o Cão fazia o papel de protector físico, enquanto o gato era electricista. E num belo dia, enquanto a ama aguardava pelo noivo para um almoço romântico, descobriu ela que algo faltava para os temperos. E:
– Meus amigos, tenho de sair.
– Sim, nossa ama!
– Vocês sabem que nesta casa somos pela responsabilidade.
– Sim senhora! – confirmavam.
– Hoje é vez de quem?
– Do Cão, senhora! – disse o Gato.
– Pois! Meu cãozinho, toma conta da casa e ajuda o Gato.
– Sim. A senhora sabe que sempre fui seu amigo e fiel protector físico.

E dizendo isso, o Cão estendia os braços para mostrar sua mascote de ouro e fingia sacudir poeira no seu fato novo, mais novo até que a gravata.
– Não quero encontrar problemas.
– Sim, senhora. Desde que fizemos o pacto com o Cão, reina tranquilidade – dizia o Gato.

Meia hora depois, com fome e gula o Cão dirige-se ao gato:
– Confrade Gato, tira então um naco do peixe na grelha.
– Caro Cão, não diga isso nem mesmo a brincar.
– Gato, então você acha justo aqui suportar o cheiro do grelhado e estar com fome?
– Não! Roubar é feio e crime.

E nesse puxa e não puxa, a boca do Cão fiacva cada vez mais cheia de água até não aguentar mais. Foi então que pegou na mão do gato, levou-a à grelha beliscando assim boa parte do peixe, o qual comeu num piscar de olhos, enquanto o Gato sofria com a dor da mão queimada.


Ao chegar à casa, a ama reparou a desgraça com o peixe na grelha e chamou ambos para uma conversa dura e rija. O Cão limitou-se a fazer gestos de fino, dizendo que, se ao longo dos anos nunca roubou nada, não seria naquele dia que sujaria a sua reputação por um simples peixe. O Gato, que ainda chorava por causa da queimadura na mão provocada pelo falso amigo, não teve tempo para se defender e foi expulso do lar.

Moral da estória: “muitas vezes o mal vem de quem menos se espera, mas geralmente paga o pobre”.

Adaptado por Gociante Patissa, Julho/07 (publicado no Boletim informativo, educativo e Cultural “A Voz do olho”, propriedade da AJS-Associação Juvenil para a Solidariedade, Lobito, Edição de Setembro/2007)

sábado, 26 de maio de 2012

In «LIVRO DOS PROVÉRBIOS, BÍBLIA SAGRADA», capítulo 31

4 Não é dos reis, ó Lemuel, não é dos reis beber vinho, nem dos príncipes desejar bebida forte; 
5 para que não bebam, e se esqueçam da lei, e pervertam o direito de quem anda aflito. 
6 Dai bebida forte ao que está para perecer, e o vinho ao que está em amargura de espírito. 
7 Bebam e se esqueçam da sua pobreza, e da sua miséria não se lembrem mais.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Uma prenda à África, que hoje é dela o dia


Escritor João Maimona: "Há fragilidade de contacto entre os músicos e os poetas"

Encontrámos o poeta João Maimona na sua residência, Luanda.  O homem apresentava um aspecto radiante. A Bienal Internacional de Poesia de Luanda (BIP), de que ele é um dos mentores, já tinha as portas abertas no CEFOJOR. “Estamos a entrar na decadência. Nas décadas de 2030 ou 2040 vai ser difícil isolar ou desanichar valores literários”, avisou. Por outro lado, Maimona queixou-se da falta de contacto entre os músicos e os homens de letras: “os nossos músicos não falam com os poetas”.    
POR: ISAQUIEL CORI, via Blogue "ESTAMOS VIVOS"

Jornal Cultura – Como surgiu a ideia da realização em Luanda de uma bienal internacional de poesia?

João Maimona – Comecei a frequentar a Bienal Internacional de poesia de Liège, na Bélgica, na década de 1990. Depois frequentei as noites poéticas de Struga, na antiga Jugoslávia, e o Festival Internacional de Poesia de Berlim. Nasceu assim a ideia de conceber a Bienal Internacional de Poesia de Luanda. Convidei o Abreu Paxe, o Jomo Fortunato e o Fernando Alvim, juntámos as nossas ideias e os poucos recursos materiais que tínhamos e assim nasceu a BIP.

JC – A BIP nasce num contexto global em que as bienais de poesia tendem a desaparecer. Concorda?

JM – Esse desaparecimento tem muito a ver com a insuficiência de recursos materiais, que estão cada vez mais difíceis de captar. 

JC – De um modo geral, não terá mesmo decrescido a percepção da importância e do valor da poesia?

JM – Não. A poesia é um organismo funcional, vivo. A poesia não atrai muita gente porque é a arte mais sofisticada. Nem toda a gente consegue decifrar ou interpretar a mensagem poética. A prosa é mais fácil, a poesia é mais fechada. Mas não se pode falar da sua morte. Ela continua viva.

JC – De que modo a poesia está viva na BIP?

JM – A nossa ideia principal é revitalizar a presença da poesia angolana e, acima de tudo, internacionalizá-la de modo permanente e crescente. Pretendemos também revitalizar a presença da poesia angolana na vida cultural de Angola e na vida dos angolanos. Hoje estamos em Luanda, na próxima edição poderemos estar no Lubango, em Cabinda ou no Moxico. Mas também no Rio de Janeiro ou em São Paulo.

JC – Estaremos então diante de uma Bienal Internacional de Poesia de Luanda com regime itinerante?

JM – Apesar da designação Bienal Internacional de Poesia de Luanda, ela poderá deslocar-se a outras localidades. Levando sempre o nome de Luanda, o nome da Nação angolana

JC – Que valor atribui à poesia na formação do homem?

JM – Tem um valor significativo. Muito elevado. A poesia faz parte do segmento pedagógico da formação de cada um de nós, encaminha o homem para a descoberta de outras esferas. Na poesia a pessoa encontra segmentos linguísticos que servem para a sua própria formação. Sem receio de contradição, digo que a poesia é uma arquitectura pedagógica.

JC – Pode dizer-se que a poesia torna-nos mais humanos?

JM – Sim, a poesia humaniza. E eu dou o meu próprio exemplo. Quando entrei em contacto com a poesia, o meu diálogo estabeleceu-se no domínio da francofonia. Fui lendo René Char, Victor Hugo… e mais tarde passei para o horizonte da língua portuguesa. Passei então a ler poetas como Eugénio de Andrade, Carlos Drummond de Andrade e outros. Encontrei nessa poesia segmentos claros de humanização, como por exemplo, a exaltação da alegria. Quando o desassossego se transforma em alegria, estamos diante de algo fundamental. O mesmo acontece com as temáticas das liberdades individuais e da ausência de paz e estabilidade. Angola atravessou um longo período de ausência de paz social, mas conseguimos, com os nossos meios, através do diálogo, instalar o clima de estabilidade. Isto é humanização.

JC - A poesia terá então, também, contribuído para que os angolanos sobrevivessem à guerra e conquistassem a paz?

JM – Há pouca gente que lê poesia, mas a mensagem poética circula muito, a uma velocidade sui generis. Quando o verso sai da boca de um poeta é como se fosse o slogan de um político. A população capta imediatamente a mensagem. No meu livro “Trajectória Obliterada”, Prémio Sagrada Esperança em 1984, há uma estrofe do poema “Ramos de grito”, em que eu digo: “No silêncio distante, ardente silêncio / No íntimo das nuvens, tombam chamas / que agasalham as lágrimas”. Isto é, para o poeta, apesar de distante, o povo há-de chegar ao silêncio, à paz.

JC - A poesia associada à música não conseguiria uma maior difusão? O que falta para que haja uma aliança mais forte entre a música e a poesia, no contexto do país?

JM – É um tema complicado. Ao fazer a sua abordagem podemos ser acusados de elitismo. A verdade é que os nossos músicos não falam com os poetas. Não há contacto ou interacção entre os músicos e os homens de letras.

JC – Está a querer dizer que os músicos não conhecem ou não valorizam o acervo poético nacional?

JM – Há fragilidade de contactos entre os músicos e os poetas.

JC – Está a referir-se ao contacto pessoal ou com a produção poética?

JM – Eu diria que o músico não quer investigar. O poeta oferece o seu texto, que circula. O músico tem de ir ao encontro do texto, estudá-lo e então levá-lo à música. Isto é o que falta no nosso meio.

JC – A seu ver, a poesia angolana é suficientemente estudada nas escolas?

JM – Eu sou docente e duvido que haja um estudo profundo da nossa poesia nas escolas.

JC – Sendo assim, onde e como serão forjados os novos poetas?

JM – Estamos a entrar na decadência. Nas décadas de 2030 ou 2040 vai ser difícil isolar ou desanichar valores literários. Eu pertenço à geração de 1980 e sou produto do tempo colonial. Não estou aqui a elogiar o tempo colonial, mas a retratar o meu passado. A formação que tive não tem nada a ver com a arquitectura da formação de hoje. Como é que um aluno que não lê algum dia vai produzir uma obra literária? Fala-se mal o português e não há contacto com outras línguas, sejam africanas ou ocidentais. Isso é uma lacuna. Dentro de vinte ou trinta anos vamos ter um quadro literário limitadíssimo. Por exemplo, enquanto escritor, se eu conseguir, no seio da minha família, introduzir os hábitos de leitura, a formação e a educação, pode ser que surja nela um homem ou mulher de letras. E nas outras famílias?

JC – Por tudo o que acaba de dizer, a tendência é que haja igualmente cada vez menos leitores?

JM – O núcleo de leitores vai ficar reduzido. Se formos a uma biblioteca, encontraremos um número limitadíssimo de estudantes a consultar livros, apenas para responder às solicitações dos professores. Aquilo não é pesquisa. Quando vai a uma biblioteca, o estudante deve preocupar-se com as solicitações dos professores mas também fazer pesquisas no sentido de descobrir novos autores e penetrar mais profundamente no texto que encontrou. Há uma limitação enorme, que não podemos admitir.

JC – O que se deve então fazer para que o cenário sombrio não se concretize dentro dos próximos vinte ou trinta anos?

JM – Tudo começa por uma vontade política. As estruturas que definem e consolidam a política devem jogar um papel importante. O aluno é um sujeito que tem meios limitadíssimos, mas se  perceber que o Estado está a criar condições para que haja desenvolvimento, ele avança e corresponde. Enquanto não sentir que há projectos e definições sólidas, o aluno deixa-se estar.

JC - Os grandes poetas, que por si sós já constituem uma instituição, como é o seu caso, não poderiam também fazer a sua parte, de modo a propiciar o surgimento de novos valores literários?

JM – Obrigado no que me diz respeito. Tenho feito algo e o exemplo mais marcante é a iniciativa da Bienal Internacional de Poesia de Luanda. É uma contribuição valiosa para a formação do angolano. A BIP entrou no calendário cultural de Angola, que ganha assim uma nova dimensão.
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João Maimona (Uíge, 1955) é médico veterinário especializado em  Virologia Médica e Epidemiologia Animal. Foi deputado à Assembleia Nacional (1993-2000) pela bancada do MPLA. Publicou os seguintes livros de poesia: “Trajectória Obliterada” (1985) - INALD, “Les roses perdues du Cunene” (1985) – LÉS ÉDITIONS JEAN-        -MARIE BOUCHAIN, “Traço de União”, (1987) – U.E.A., “As abelhas do dia”, (1988) – U.E.A., “Quando se ouvir o sino das sementes” (1993) – U.E.A., “Idade das palavras” (1997) - INALD, “No útero da noite”  (2001) – NZILA, “Festa de Monarquia” (2001) - KILOMBELOMBE, “Lugar e origem da beleza” (2003) - KILOMBELOMBE, “O sentido do regresso e a alma do barco” (2007) - KILOMBELOMBE. Teatro: “Diálogo com a peripécia” (1987) - INALD e “As colheitas do senhor governador” (2010) - KILOMBELOMBE.


Nota do Blog Estamos Vivos: Esta entrevista foi originariamente publicada na edição número 3 do Jornal Cultura, do grupo Edições Novembro

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Não somos só Ku-duro, já existíamos como povo antes dele (e claro, do RAP)

Presumo ser cartoon do Jornal A Capital
Nota: Não podendo fazer o mesmo com intervenções de outras pessoas, que basicamente retratavam o Ku-duro quase como se fosse um consensual campo de virtudes, enquanto subsídio à construção social da nossa angolanidade, transporto do Facebook para cá minha posição, que se segue:

O debate está interessante e com considerável elevação verbal. Parece-me, entretanto, olhando só para o postivismo filosófico reinante nos que me antecedem, que deixamos de parte o outro lado do KD, o do desvio das normas sociais básicas. Não seria relevante ver tb a coisa pelo lado do excessivo narcisismo e recorrências, quer temática quer rítmica, "que estamos com elas"? Penso que o KD teve figuras que o enobreceram, leitura que vai além do simples gostarmos deste ou daquele. Dog Murras, o próprio Sebem (bem no princípio), o Tony Amado, e já mais para cá o Bruno M, DJ Sotão, a Fofa.Ndó e um pouco tb a Noite e dia, pra não me alongar. Talvez me encaixe nos "conservadores ou pseudo-conservadores", mas enquanto o KD (e a sua dúbia patrocinadora chamada imprensa) seguir promovendo a mediocridade, o exibicionismo, a banalização do ser social e o conflito gratuito (só porque o polémico vende), obrigado, mas não. Não terão os artistas, como os jornalistas, alguma rsponsabilidade pedagógica no discurso e actuação?
Patissa

terça-feira, 22 de maio de 2012

"Preferimos comer capim a aceitar a conduta homossexual" - Um finca-pé que vem do presidente da Gâmbia

Christine Dhanagom, do Blog http://juliosevero.blogspot.com/2012/05/presidente-da-gambia-preferimos-comer.html
BANJUL, Gâmbia, 27 de abril de 2012 (LifeSiteNews.com) — Em face de ameaças dos EUA de cortar assistência externa, o presidente Yahya Jammeh defendeu as leis da Gâmbia que proíbem a conduta homossexual em comentários feitos na Assembleia Nacional do país na última sexta-feira.
“Se quiserem que sejamos ímpios a fim de que vocês nos deem sua assistência, então podem levar embora sua assistência. Nós sobreviveremos”, disse Jammeh, em comentários que foram noticiados no jornal Daily Observer. “Comeremos capim, em vez de aceitar essa atitude ímpia e maligna que é contra Deus, contra os seres humanos e contra a criação”.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Passei o sábado a fotografar e fazer vídeo amador sobre Benguela para um amigo natural e que partiu daqui em 1975. No domingo fui ao Lobito ver família e a restinga. Um fim-de-semana diferente.

sábado, 19 de maio de 2012

Quando o professor, escritor e historiador, Armindo Jaime Gomes "ArJaGo", contestou há uns oito anos no âmbito de uma matéria elogiosa do investigador auto-didacta, Joaquim Grilo, (a) a razão de se festejar o 17 de Maio como aniversário da cidade de Benguela, porquanto essa data marca a invasão colonial e a matança que disso se pode imaginar, bem como (b) a veneração oficial que ainda se faz à figura de Cerveira Pereira (uma "escória" da sociedade portuguesa, há quem o diga, não tendo sido uma entidade de bem para Benguela), ArJaGo acabou literalmente arrasado, destratado e humilhado, passe a redundância, por Ramiro Aleixo (director do  já falido Jornal Kesongo) e outras vozes aqui e acolá. Agora que Pepetela lançou o seu romance "A Sul. O Sombreiro", em cuja primeira linha se lê que "Cerveira Pereira foi um filho de puta" (sic), a reacção geral de alguns "donos de Benguela" foi de sorrisos e acenos a concordar. É como, então?...
Uma visita ao pátio do Museu de Arquelogia, na
cidade de Benguela, onde em 1996 descobri as
inclinações para a literatura e comunicação social. Patissa
“Não sendo abutre nem sugador, Jornalista sério respeita a missão” - Noa Wete, In «Jornal ANGOLENSE», Luanda 18 de Maio de 2012

terça-feira, 15 de maio de 2012

Ao passarmos pelo ponto de controlo do refeitório, hoje em Luanda, diz-nos, hospitaleiro, o funcionário: "Podem entrar, meus conterras". Aproveitando o momento de sorisso de gratidão e ligeira cumplicidade, um colega meu diz ao atendendor: "É esse o Patissa", deduzi logo que tiveram breve conversa ontem, a qual eu desconhecida. Ele aperta-me a mão, entre satisfação e deferência. "Você foi o meu comissário", disse, algo nostálgico. Era como se, olhando para mim, lhe viesse a memória de Víctor Manuel Patissa (falecido por doença há 11 anos). Esteve com ele na comuna da Chila (Bocoio) e Equimina (Baia Farta), província de Benguela. É bom sentir que alguém guarda carinho pelo nosso pai, que, honestamente falando, foi de um carisma notável enquanto serviu esse país, ao seu nível, como comissário/administrador comunal. Uma boa semana a todos

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Vir a Luanda a trabalho é insonso. Saudar a cidade escudado no vidro fumado do miniautocarro, todavia, é injusto. O voo pode ter descolagem e poiso macios, mas não faz do solavanco menor aos olhos que topam com nódoa quente de sangue no branco lençol, em quarto de hospedaria prestes a ocupar. Ah! Deve haver outras formas de dizer "por aqui passou felicidade".

sábado, 12 de maio de 2012

«Se p’ra nós angolanos, a influência psicológica de «lusofonia» relega à ideia de subordinação, para os portugueses o significado do vocábulo pressupõe um universo onde eles são o centro.

E é por isso que se tem a impressão de que a importância da lusofonia, para eles, é maior do que o projecto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).   Por isso, a «deslusofonização» é um processo, antes de mais, de busca do direito equitativo, da defesa do direito do outro de ser independente. É justamente o caminho para o estabelecimento de uma fraternidade, ou irmandade, de facto. Essa mesma irmandade advogada pela «lusofonia» que, entretanto, não vinga por afigurar-se «lusocêntrica». 


Excerto do artigo de opinião “Angola não é um país lusófono (2)”, da autoria de N. Talapaxi S., In «Semanário Angolense», Luanda, 12 de Maio de 2012
"Nunca como atualmente foram tão evidentes a transformação da atividade literária com arte em mercadoria e a sujeição das estratégias, construções estéticas em estratégias comerciais, de que a valorização do secundário e a subvalorização do importante, o sensacionalismo, a superficialidade, o oportunismo, a desonestidade e os outros excessos até de aproveitamentos políticos, constituem em planos diversos, expressões concretas. Isto vende uma imagem que se traduz na ideia de uma rendição ao possível por parte dos artistas (escritores), especialmente dos poetas e das instituições afins a eles. Todos fazem o que é possível fazer, todos falam o que é permitido falar. Existem claro, as raras excepções, as quais, de tão raras, quase não se deixam ver. Esta situação mais do que um fator, gera uma dificuldade na hora de qualquer escolha."

Abreu Paxe, In «Suplemento Mutamba, Novo Jornal», Luanda 11/05/2012.
A.Paxe (Esq.), Maria Celestina Fernandes (centro)
e José Luis Mendonça, durante lançamento
do romance "Axiluanda" na Universidade
Katyavala Bwila, Benguela, 2010
 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Da nossa "crônica" confusão na estrada.

Em 2008, um oficial da Polícia de Viação e Trânsito disse
durante um debate por mim moderado que "quatro em cada
10 acidentes envolvem um kupapata (taxi motorizada)
Ia eu com o carro no eixo da via, na rua de Angola, cidade de Benguela, ali pelos Bombeiros, com a devida sinalização luminosa (pisca), quando um soldado das Forças Armadas (cabo de patente), ao volante de uma motorizada Delop, entendeu ultrapassar dois carros de uma vez. 

De tão estreita a estrada, não lhe permitiu notar a minha posição. Por acaso o vi pelo retrovisor, mas travar no meio da estrada me colocaria à disposição de ser arrastado pelo camião que vinha da Rotunda do Kalunga. Fiz o desvio planeado e o motoqueiro embateu contra o meu velhito rabo de pato, tendo quebrado o farol. Vi o filme, que não se recomenda a menores de 18 anos logo pela pela manhã. 

O condutor da carrinha que vinha atrás de nós parou e me deu uma ordem clara: "meu irmão, você vai, esses homens andam à toa. Você piscou". Fiz uma rápida inspecção e vi que nada de grave havia acontecido. Meti a primeira e segui para o serviço, o tipo me segue, obrigando assumir as despesas do farol. Mais palavras, menos palavras, lembrei-me da cor da minha farda, muito parecida à da polícia. Foi então que (de cara trancada, tipo autoridade, né? heheh), desci do carro (ligeiramente riscado, quando nem fez um mês que chegou da repintura) e lhe disse: "nesse caso, vamos chamar a polícia". O tipo, que vinha sem capacete, e provavelmente sem os documentos "em dia", deu meia volta e foi. Uff!! Que chato. 

terça-feira, 8 de maio de 2012

"Angola não é um país lusófono (1)", artigo de opinião de N. Talapaxi S., in «Semanário Angolense» EDIÇÃO 464, Luanda, 05/05/12


O conceito de lusofonia sempre foi colonialista. O prefixo «luso» era representativo da presença dominadora portuguesa nos territórios colonizados. O «novo conceito» é um projecto saudosista, principalmente de Portugal.

Há muito que vivo a matutar sobre «lusofonia». Na verdade desde que descobri que penso. E nessas «matutadas» adentrei o campo da  psicolinguística e a conclusão é só uma: Angola não é um país lusófono. Nem os outros países de língua portuguesa deveriam aceitar ser chamados de «lusófonos», fora da conotação de simples figura de estilo. A «excepção» fica mesmo só por conta - exclusiva e naturalmente - de Portugal: o único país realmente lusófono.

Afinal, derivada do latim, «lusofonia» é a composição de «luso» (referente a Portugal; o mesmo que lusitano, lusíada; portanto, o mesmo que português) e de «fonia» (voz ou, neste caso, língua). Isso quer dizer que «lusofonia», no sentido lato, quer dizer língua de Portugal. Língua de Portugal pra mim é a língua portuguesa falada em Portugal.

No tempo do colono fazia sentido considerar «língua de Portugal» aquela  que era falada nos territórios subjudados, mesmo com todos os sotaques que adquirisse, já que essa língua era uma imposição do dominador. Era imperativo usá-la de acordo com as regras do imperador.Tanto era assim que o português que naquele tempo se desviava da normativa estabelecida por Portugal, era chamado, em Angola, de «pretuguês».

Pode até deduzir-se que o «pretuguês» tanto poderia ser o falar dos nativos que não se assimilava ao jeito português de falar- quer dizer que não «afinavam» na maneira de falar - quanto o uso das corruptelas pelos próprios portugueses. Então, o «pretuguês» era o universo onde se cruzavam a língua do colonizador e as línguas dos colonizados – as nossas línguas nacionais, as línguas angolanas.

Numa ilação, talvez mais pretensiosa do que preponderante,  posso afirmar que aquele «pretuguês» foi o precursor do actual «muangolês» - a língua portuguesa popular dos angolanos com todas as suas variedades regionais, seja o sotaque do sulano como o arrastado do nortense. Uma forma que encontra maior liberdade de ser – e de ser linguisticamente valorizado e absorvido – com o advento da nossa independência.

O regime colonial não levava em consideração a influência das línguas nativas no léxico da língua portuguesa falada pelos povos locais. Quando raras vezes isso acontecia os termos mais usados eram justamente aqueles que desconsideravam a pessoa e reforçavam o cariz pejorativo e descriminatório dos colonos em relação aos nativos, como a «catinga».

A lusofonia hoje

O actual conceito diz que lusofonia é o conjunto dos países de língua portuguesa. E não se esquece de incluir até os ex-territórios de colônia lusitana, localizados na Índia (Goa) e na China (Macao), onde o português  está confinado à uma pequena população, maioritariamente composta por mais velhos e por homens de negócios.

Entende-se que a lusofonia, antes de mais nada, relega-nos ao lusismo ou lusitanismo, à língua de Camões – a fala portuguesa própria de Portugal – contribindo, para a sua definição, os sotaques, a morfologia, a ortografia e os demais aspectos concernentes a linguística.

Então, falar oficialmente o português, não se configura como condição imperativa na denominação de lusofonia sem que as nuances linguísticas culturais, e mais propriamente as regras acadêmicas de fala e de escrita, se insiram oficialmente no contexto lusitano.

As peculiaridades da língua portuguesa falada na banda - a semelhança do que acontece no Brasil (onde já é uma realidade legitimada) e segue o mesmo sentido, em Cabo verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste - longe do padrão europeu, constituiram «outra língua portuguesa», numa vertente angolana. Então a malta não tem quase nada a ver com Camões. Não é por que falo português que a minha língua é de Camões! O meu potuguês é de Nzinga Mbandi, Mandume, Ekuikui...

Se nós não tomarmos consciência disso ninguém tomará por nós; vamos continuar a mentir a nós mesmo que somos independentes e soberanos, quando para escrevermos a língua que falamos teremos de esperar que as regras venham de Portugal. E continuaremos dando vida a essa tal lusofonia em detrimento de qualquer que seja a «bantofonia» que resida na nossa lingua portuguesa e que, por isso mesmo, faz dela NOSSA LÍNGUA PORTUGUESA.

Nós temos o dever moral, cívico e patriótico de reconhecer isso. O reconhecimento da existência dessa vertente, dessa língua portuguesa angolana, o reconhecimento do seu dinamismo e da sua abrangência, e o reconhecimento da independência do seu desenvolvimento, é o princípio da revogação do conceito corrente de lusofonia. É a «deslusofonização» – um processo que a oralidade, como o ponto evidente  de qualquer língua, já se encarrega de executar naturalmente, tanto aqui na banda, como em outros quadrantes falantes do português.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Devo sair para pegar o" rabo de pato" à estação de serviço do meu "amigo" chinês que ñ sabe uma única palavra em português. Receio não saber como me dizer que cheguei tarde. É que a hora me foi dada por ele com o indicador direito do homem marcando números na mão esquerda.

sábado, 5 de maio de 2012

Ao passar por uma livraria ontem, no Lobito, tive a sorte de achar, para repor no meu acervo, "Quem me dera ser onda" - infelizmente, não a versão bilíngue, Português-Umbundu, que acabou destruída num empréstimo - de Manuel Rui Monteiro, também editado pela Nzila em 2007, entre os que escolhi o mais caro (1500 kz). Outra boa surpresa da mesma editora são: "O Noctívago e outras estórias de um Benguelense" (770kz), de Luís Kandjimbo; "O regresso da lavra do Maiombola" (870Kz), de Lopes Faria. "Biografia de um desmobilizado e outros contos", de Manuel Ribeiro, editado pela casa das ideias, chamou a minha atenção pelo baixo preço (530Kz). Vai ser meu primeiro contacto com Kandjimbo enquanto ficcionista, e estou espectante. 

Bom-fim-de semana.
Patissa

Arquivo: espaço literatura, na rádio Benguela, 9 de Abril 2012