PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 25 de dezembro de 2011

Uma quadra festiva mais segura nas estradas. Obrigado, senhores enfermeiros, agentes de trânsito e todos quantos se vêm forçados a abdicar do convívio familiar em prol do bem-estar colectivo

A Polícia Nacional e o Instituto Nacional de Emergências Médicas de Angola destacaram homens e ambulâncias ao longo das principais rodovias na província de Benguela, aliando a mensagem de prevenção à capacidade de resposta em caso de ocorrência da sinistralidade. O Blogue Angodebates constatou isso mesmo, no passado dia 23/12, na comuna do Culango (onde a estrada nacional nº 100 ganha desvio em forma de V para Luanda e o centro-leste do país). Havia também uma equipa nas imediações do bairro da Santa-Cruz, na fronteira com a Catumbela. Já guiando para o Sul, no dia seguinte, encontramos outro "dispositivo" entre Catengue e a Talama-Njamba, conforme a foto acima ilustra.

As ambulâncias do INEMA, geralmente criticadas por alegado excessivo elitismo, já que se dão mais a ver em eventos oficiais do que no dia-a-dia, terão contribuído certamente para o êxito da operação quando se fizer o balanço. 

Obrigado, senhores enfermeiros, agentes reguladores de trânsito e todos quantos se vêm forçados a abdicar dessa tão especial época do ano em prol do bem-estar colectivo.

Gociante Patissa



sábado, 24 de dezembro de 2011

George Michael- One More Try

Uma vez na vida "queimei" o rádio-cassete do meu pai, um que trouxera da Administração Comunal da Kalahanga, da qual ele era o cabeça. Isso foi em 1991, tinha eu 13 anitos. Tocava esta música quando a energia eléctrica foi, e rapidamente desliguei a ficha para ouvi-la até ao fim a pilhas. Quando a energia voltou, por uma falha de ajuste, o transformador ficou danificado. Blame it on George Michel, ou então, já que é Natal, vamos dar-lhe "Just one ore try".

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Conto: Um natal com a avó, In «A Última Ouvinte», UEA&Gociante Patissa, 2010


Velha-Mbali encontrava-se a repousar no cadeirão da varanda desde a sua chegada. Confundiam-se, no bocejar, os solavancos da viagem e os restos do sono de quem madrugou para apanhar o primeiro autocarro intermunicipal da SGO. As pausas prolongadas e a economia de palavras eram parte da recuperação do efeito dos vómitos. A anciã teve o incómodo já previsível de usar saco plástico para lançar, foram três vezes nesta viagem de setenta quilómetros para ser mais preciso, uma fatalidade que decerto não será digerida nesta encarnação.

Qual sino de boas-vindas, o efeito acústico resultante do atrito entre a loiça e os talheres, enquanto punham a mesa, lisonjeava os ouvidos da hóspede. Chegava também com agrado a fumaça do peixe na grelha, que era a segunda paixão que Velha-Mbali guardava da cidade depois da família.

Velha-Mbali herdou da mãe uma beleza que compensava a estatura baixa do lado paterno. O rosto era a única vitrina para se lhe ver a pele semi-flácida, obra da idade. Usava panos compridos, de arrastar o chão, como manda a tradição. Os cabelos, maioritariamente brancos, salientavam a ligação entre o lenço e o quimone, ambos de tecido azulescuro de pintas brancas. A sorte de nascer imune à cárie era responsável pela capacidade de competir com os netos em matérias de mastigar, fosse o que fosse. Como é claro, empatava também na hora de palitar.

E enquanto a deixavam descansar sob a sombra da trepadeira, aguardava pelo almoço, calada, mas sempre atenta ao mínimo movimento no quintal. Era esta última a característica que os netos maisgostavam nela: ser fértil em análises dramáticas das makas da sua gente.

A fadiga da viagem não duraria muito, cedo seria suplantada pela emoção de rever os netos, agora bem crescidinhos. Bálsamo mais milagroso do que isso seria, aliás, impossível. Sentia-se inclusive rejuvenescida ao ver a neta caçula, sua chará por sinal, com mais de dez anos. E isso era suficiente para se dar conta da longa ausência na vida dos seus entes, pelo menos fisicamente. Mas para além do desconforto com as viagens por estrada, infelizmente a única via, Velha-Mbali considerava improcedente o convite de viver a beira-mar. E exigia que se respeitasse a sua posição, vontade que resultara com os adultos, mas não com os netos, que eternizavam o debate.
— Ó avó — rompeu o silêncio Waldemar, o primogénito —, a avó veio para ficar já, não?
— Não, kanekulu… Avó vem comer só natal!

E a conversa ainda continuou após o almoço. Para convencer Velha-Mbali a optar por uma vida mais relaxada, os netos esgotaram todos os argumentos de vantagem da cidade sobre o campo. Ao fim de várias horas de debate, por sua vez carregado de mimos no colo e paternalismos de vária ordem, sentenciou Velha-Mbali:
— Omwenyo Okulima, olohombo ovyo vilia opapelo.[1]
.
Convencidos de que a sua forma de ver a vida era a mais acertada, os netos matavam-se de rir aos exageros da avó que, por sua vez, também se divertia rindo, com agradável malícia, da ingenuidade deles. Mal cabia na cabeça da anciã que alguém maior de doze anos viva dependente dos pais, quando no campo seria capaz de gerir a sua própria lavrinha. Os netos, ajudados pelos pais, chegaram ainda a sugerir que, como meio-termo, a avó passasse também o reveillon. Mas ela era boa a refilar:
— O quê?! Se dia da família é dois dias após o natal, o ano novo é como?!

Era propositado o trocadilho, pois que lhe custava digerir as ausências dos chefes do lar, que andavam de prevenção, o pai na marinha e a mãe no controlo aéreo da aviação civil, só regressando ao lar no dia 27 de Dezembro. E no dia da partida, houve mais alegria do que tristeza. Com a presença da avó, o natal daquele ano foi diferente.

Todas as vezes que veio à cidade, Velha-Mbali se deparou com deselegantes surpresas, mas a desta vez, batia seguramente todos os recordes. A anciã chegou mesmo a tossir de choque ao cruzar com miúdo de doze anos apenas, não mais do que isso, girando a cidade para cima e para baixo com cuecas e sutiãs de mulher adulta no ombro a gritar: «arreou, arreou no negócio, é a última zunga do ano!!!»

E como a ousadia é a alma do negócio na zunga, o rapaz abordou-a insistentemente, para não dizer chatamente:
— Minha mamoite[2], arreou na tanga; olha “mónica”; táqui surtião… Velha-Mbali ainda tentou fingir indiferença, mas não aguentou.

Arremessou, com toda a violência, o galo de raça contra a cabeça do adolescente:
— Vai faltar respeito na tua mãe, que não te deu educação!!!

O zungueiro, que nunca vira tão intempestiva reação de potencial cliente, logo uma “mamoite”, meteu-se a correr. E no máximo da sua quilometragem!

E devia ter uma cabeça muito rija mesmo, o zungueiro, já que o impacto da pancada fez rebentar a corda que imobilizava as patas do galo. Este, que não imaginava as fêmeas que por ele esperavam para reprodução lá no kimbo, meteu-se em fuga no frenético trânsito urbano em hora de ponta. Era ver o desespero da anciã diante do risco de perder o animal. Isso é que nunca! Eis que arregaçou o espírito, e lá ia atrás do galo, ela que também já não tinha lá muita juventude nas pernas. De repente… — puapualakatá, pumbas! — acabava de ser atropelada por um kupapata, que vinha em sentido contrário.
— Netele, a njali, ndakapele okuteta onimbu[3]
— Amõla wange, watopa muele cokuti vetapalo omo oteta onimbu?![4]
— Vangecele, mamã[5]… — suplicava o kupapata, enquanto se levantava do chão e inventariava os danos.
— Mbi cakulimba okuti olikondakonda opitaela?![6]

O kupapata de imediato ligou para o serviço de bombeiros, que localizou a família e levaram Velha-Mbali ao banco de urgência. Algumas horas mais tarde, estava aplicado o gesso. O kupapata tinha muitos danos, a começar mesmo pela compra de outro galo de raça — regressar de mãos a abanar é que Velha-Mbali não aceitava de modo algum!

Conscientes de que o pior havia passado, os netos partilharam com a avó a alegria de saber que, finalmente, passariam juntos o reveillon. E a velha ainda conseguia fazer troça da própria perna engessada:
— A maka é que na cidade metem perna branca!!!

Gociante Patissa, in «A Última Ouvinte», UEA&Gociante Patissa, 2010
PS: à memória da tia Adelina Mbali Manuel Patissa


[1] Viver é cultivar. Comer papéis — ou seja, dinheiro — é coisa de cabritos
[2] (calão) mãezinha
[3] É desculpar, minha mãe, a intenção era fazer corta-mato...
[4] És tão parvo assim, meu filho, que queres corta-mato na estrada?!
[5] Perdão, mãezinha
[6] Esqueceste que quem contorna também costuma chegar?!

Oratura: Mulheres Vacisanji homenageando galos


A minha mãe partilhou connosco trecho de um cântico que costuma animar senhoras do grupo coral da sua igreja em cerimónias especiais, a exemplo de casamentos. O templo está situado no Morro do Alto-Niva, município da Catumbela. Suas colegas, que não ela, são predominantemente Vacisanji, subgrupo étnico (Ovimbundu) que habita a circunscrição administrativa do município do Bocoio, a 100 quilómetros da cidade de Benguela, capital da província como mesmo nome. A canção, de cuja letra completa a velha não se lembra, agradou-me bastante, não só pela entoação, mas essencialmente pelo seu alcance poético:

“Kulo ka kuli akondombolo / Kucaca ndati?”

Traduzindo:

“Não há cá galos / Como tem amanhecido?”

Faz lembrar o papel universal do galo, o de anunciar o novo dia. Ora, na sua ausência, como saberemos que já amanheceu? Pode-se também interpretá-la no sentido de desmentir a inexistência de galos: se é o galo quem anuncia a madrugada, ora, e as madrugadas continuam a existir, logo, há galos.

Minha mãe, que não sabe dizer que despertador o galo usa para despertar os humanos, tem contudo uma certeza: madrugadas sem galo cantar são sem graça.

Recolhido por Gociante Patissa, bairro da Santa-Cruz, Lobito, 21 de Dezembro de 2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Amanhã mesmo, cedinho, devo repartir as despesas entre mãe e irmãos, e outra parte para mim mesmo. É a mesma correria que a gente critica, cada vez mais material do que cristã, mas que no fundo ajuda a dar sentido à vida. 

Boa quadra festiva a todos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Segundo a investigadora italiana Jessica Falcone, «O estudo das literaturas africanas sofre ainda de muitos preconceitos»


Professora e investigadora em literaturas africanas, Jéssica Falconi é italiana de nacionalidade. Em conversa com o Semanário Angolense, esta estudiosa aborda questões relativas às literaturas africanas, a crítica literária em Angola e o papel que devem desempenhar as Universidade para o fomento da qualidade literária em Angola.

Extracto da entrevista conduzida por Cláudio Fortuna:

Semanário Aangolense- Quais são os escritores angolanos com projeção internacional e por quê?

Jéssica Falconi - Isto da projeção internacional é um pouco complicado. Há muitos factores que incidem neste fenómeno, para além do talento do escritor. As estratégias de marketing das editoras, as políticas de tradução e, não raras vezes, as relações pessoais...

Enquanto não concluo a transcrição do texto, a matéria está disponível na página 40 do http://semanario-angolense.com/home/semanario_angolense_446.pdf

domingo, 18 de dezembro de 2011

Yuri da Cunha sublinha importância das línguas nacionais



Angop
Músico Yuri da Cunha (à direit.) realça importância das línguas nacionais
Músico Yuri da Cunha (à direit.) realça importância das línguas nacionais

Luanda - O músico angolano Yuri da Cunha realçou  hoje (domingo ), em Luanda, a importância da aprendizagem das línguas nacionais,  por parte da nova geração de músicos, visando a preservação e desenvolvimento da cultura nacional.


Em declarações hoje à Angop, à margem do espectáculo denominado “Boda Anos 70, 80, 90” de Paulo Flores, que teve lugar no Estádio dos Coqueiros, no qual foi convidado, disse ser importante para nova geração a aprendizagem das línguas nativas, com finalidade de proteger  e desenvolver a  música e, consequentemente, internacionalizar a mesma.

Na mesma perspectiva, Yuri da Cunha solicitou às instituições de direito para criarem projectos que visam o incentivo quer a nível escolar, quer no seio familiar, da utilização  das línguas nacionais , como veículo de transmissão de mensagens.

“A nova geração de músicos, principalmente, deve preocupar-se em usar as nossas línguas nacionais, para que as músicas dos artistas que marcaram no passado seja uma referência para as futuras gerações”, comentou.

Durante a sua actuação Yuri da Cunha dividiu o palco com Paulo Flores, cantando músicas nacionais que marcaram a praça angolana.

O trajecto musical de Yuri da Cunha iniciou-se na sua infância, assistindo aos ensaios do conjunto "Os Kwanzas", onde o seu pai, Henrique da Cunha "Riquito", era um exímio guitarrista.

Mais tarde em Luanda, no bairro Rocha Pinto, em companhia dos seus primos e irmãos (actualmente ligados à música) foi aperfeiçoando técnicas de voz e interpretação com o professor Manuel Costa "Makanha".

Em 1994, inscreve-se nos concursos de música infantil da Rádio Nacional de Angola (RNA) e destacou-se com a canção o "Amigo", da autoria do professor "Makanha", tendo vencido o prémio de melhor canção infantil.

Em1996 seguiu para Lisboa (Portugal), onde gravou o seu primeiro trabalho discográfico intitulado "É tudo Amor".


O lançamento do seu segundo disco intitulado "Eu", em Janeiro de 2005, permitiu-lhe confirmar o sucesso de temas que o colocaram
na ribalta do music hall angolano.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

‎"(...) e que nos contos e nas canções/ganha a cultura/ e a vida continua/ continua menos a tua/ queria ser cantor/para meu pranto na trova disfarçar/queria ser actor/para fingir que é arcaico amar" 


(trecho do poema Consulado do Vazio, livro Consulado do Vazio, Gociante Patissa e KAT Editora, Benguela 2008).

Exposição 'Retorno Pictórico' patente em Benguela

Fonte da foto:
http://doismaisdoisigualacinco.blogspot.com/2006/10/j-delgas.html

Benguela – A exposição do artista plástico angolano Jó Delgas, do Núcleo de Jovens Pintores de Benguela, está patente na galeria Benamor desde o fim-de-semana.

Intitulada “Retorno Pictórico”, a amostra, com encerramento previsto para 23 deste mês, conta com 15 obras, entre as quais “Foqueiras a Beira-rio”,”Fidelidade Homocanina”, “Acasalamento”, “O Cântico da Peixeira”, “Mãe Natureza II”, “O Ardina”, “Ensaios p’ra Dança” e Quotidiano no Quimbo”.

Falando à Angop, Jó Delgas deu a conhecer que da exposição fazem ainda parte os quadros “Cópula a Beira-mar Prefácio”, “Cozinha Tradicional”, “Litoral de Benguela”, “O Quimbo da Lay”, “O Pescador da Caota”, “Geração Tetrafásica – Conflitos”, “ A Arte de Trançar”, “O Banho de Cascata” e o “O Caçador e a Presa”.

Natural de Luanda, Jó Delgas, nome artístico de José Delgado Gomes, começou a carreira nas artes plásticas em 1986 na província de Benguela, sendo também um artista de banda desenhada.

Texto da Angop

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Entre hoje e amanhã, bem no último minuto da virada, vou tomar um trago, bem amargo, embora saiba à partida que nunca chegará a ser mais amargo do que a impotência e o cansaço que me envolvem. Esse preto está cansado desse pega, que no fundo nada pega! E como profissional de prostituição, quando amanhecer, será mais um dia, com a diferença apenas de ser um pouco mais chato do que os demais nesse 2011.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Em nome dele



Ganhei do amigo Carlos Pacatolo o mais recente romance de Pepetela, depois de ter ganho no princípio deste ano ou fim do passado um livro (poesia/prosa) de Nuno Júdice, das mãos da amiga Cristina Amado. Na verdade, Foi nesse mesmo período que ganhei Sabor de Maboque, de Dulce Braga. Bom, não vale esquecer Sonância, do amigo Martinho Bangula nem tampouco Gravidez de um por do Sol, do amigo Lara. Houve um ano que ganhei via correios dois livros de Lili Laranjo, um dos quais com poemas de Natal. Em resumo, tenho sido um gajo de sorte rsrsrsrs, e olha que não inclui aqui os digitais.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Crónica: Outro domingo que ofereci aos sobrinhos


Regressado por volta das 14h00 do Lobito, onde investi a manhã com o rotineiro passeio até à ponta da Restinga, seguido de uma paragem em casa da mamã, tirei a tarde para cumprir a segunda parte da promessa de passear com sobrinhos. Muito gelado e espreitadela à praia (sem mergulhar, ainda).

Pelo Caminho da Baía Azul constatamos com agrado as obras de ampliação da rodovia, que vai do cine Kalunga à vila da Baía Farta. A turística Baía Azul recebeu-nos, alegre, com diversidade de visitantes, enfim, tudo para termos um dia diferente. Fomos até ao topo norte, de onde se aprecia a imensidão do oceano e, ao longo do arco, a ligação com a piscatória Baia Farta. Infelizmente, fomos forçados a dar meia-volta, porque ali mesmo, sítio tão de todos, às 16h00, havia um Jeep com casal a ter relações sexuais.

Entusiasmadas as sobrinhas pelo colorido de um lodge ao longo do troço, não tive outra alternativa senão desviar até este. Portão aberto, ninguém para dar satisfação, crianças brincando, alegres, no fundo do quintal. Conclusão: podia-se lá ter e apreciar os animais da selva e as belas plantas. Errado. Uma matilha surgiu do meio do nada para desencorajar os curiosos, que ficaram a salvo graças à atenção dos guardas. Acabou tudo em sorrisos.

De volta, pelas imediações do antigo posto de controlo, no desvio que se tornou obrigatório para o acesso à Baia Farta enquanto durarem as obras da via, estava montado o cenário de fatal acidente. Estatelado no asfalto, o cadáver aguardava-se pela polícia de trânsito. Sem camisa, provavelmente pelo ambiente de praia, o finando vinha ao volante de uma motorizada Delop, que embateu forte e feio contra um turismo.

Foi um dia memorável. Espero, na minha qualidade de tio que passa mais tempo na conversa com computadores e turbinas de avião, voltar a proporcionar um passeio melhor, ou no mínimo igual a este, no ano que vem. É uma pena que me tenha esquecido de levar a máquina fotográfica.

Gociante Patissa, Benguela, 4 de Dezembro de 2011

sábado, 3 de dezembro de 2011

Rádio Diocesana de Benguela celebra primeiro aniversário de emissão à distância


A equipa juntou-se este sábado (03/12) nas suas instalações, ao lado do Bispado, para comemorar o primeiro aniversário do “Magazine da Rádio Diocesana de Benguela”. Trata-se de um espaço de informação generalista sobre Benguela, produzido nesta província do litoral centro do país e enquadrado na programação da Rádio Ecclesia de Luanda, que o emite às manhãs de segunda-feira para aquela cidade na frequência de 97.5 FM.

O “Magazine Diocesano” é o mais visível sinal de aspiração da extensão do sinal da Emissora Católica para todo o território angolano, um projecto que se acreditava arrancaria em 2004, altura em que se intensificou a instalação de estúdios e repetidoras em mais de seis províncias. Entretanto, a primeira fase viria a revelar-se um erro de concepção, já que visava restituir a cobertura nacional do sinal da Ecclesia em FM e onda curta, que se quebrou com o fim da era colonial. A lei em vigor reserva tal privilégio à estatal Rádio Nacional de Angola. O clero viu-se forçado a redesenhar o projecto para rádios de âmbito provincial, estando desde o ano passado à espera da luz verde do Ministério da Comunicação Social para o arranque.

Na cidade de Benguela, enquanto a permissão não surge, o estúdio do projecto, que tem à cabeça o Pe. Kakepa Graciano, retomou o processo de selecção de novos talentos através da formação-acção. São na sua maioria jovens que tomam contacto pela primeira vez com o mundo da rádio. O veterano José Manuel Alberto, que traz a experiência das rádios Benguela e Morena, considera haver condições técnicas e humanas suficientes para o arranque da Diocesana, e com isso reforçar a pluralidade.

Horácio dos Reis integra os 16 funcionários que dão vida à Diocesana. É o chefe de redacção e mentor da emissão online, através do site www.radiodiocesanadebenguela.net. Na visão do seu criador, o site permite medir progressivamente o retorno da sociedade. “As pessoas continuam a pedir mais. Antes era maioritariamente gente na diáspora, mas agora, até mesmo os cidadãos residentes”, realça.

No ar há sete meses, o site teve, ainda segundo Reis, três momentos altos de transmissão em directo: a cobertura do “Quintas de Debate”, sob promoção da ONG Omunga (transmitido para Luanda em conexão com a Rádio Despertar); a cobertura da missa do corpo presente do Pe. Celestino Kamuko (transmitido para Luanda com a Rádio Ecclesia); e uma emissão a partir do Lobito, que dista 30 quilómetros do estúdio.

Gociante Patissa, Benguela, 03/12/11

Rádio Diocesana de Benguela tem talentos prontos para o mercado

Lídia da Silva
Lídia da Silva e três outras raparigas, uma das quais sonoplasta, destacaram-se entre as duas centenas de jovens que vão surgindo para o teste. “Quando ouvi que deram continuidade ao projecto anterior, há um ano, vim para cá”, conta. O Blog Angodebates quis saber como se sentia com a não abertura de facto, já que a maioria dos angolanos não está familiarizada com a Internet, onde ouviria a emissão online. “Dizer que me sinto bem, se calhar, estaria a mentir, uma vez que o nosso trabalho só é ouvido em Luanda, e quando vamos entrevistar, o público tem expectativa de acompanhar os seus pronunciamentos”, confessou.

Hipólito Pinto

Da mesma tristeza alinha Hipólito Pinto, 27 anos, que se juntou à equipa há um ano, atrás de um sonho. Hoje é repórter, locutor e entende de sonorização. “Me deixa muito triste. Se pudéssemos fazer qualquer coisa para abrir essa rádio, faríamos. Mas estamos também expectantes. À medida que caminhamos, acreditamos que o dia da abertura está quase”, disse.


António Mateus
António Mateus, 22 anos, é outro polivalente. “É um sonho que sempre tive, ser profissional da comunicação social, não digo apenas em rádio, mas agora vejo que a rádio é uma paixão, é aqui que estou a dar os primeiros passos”, revelou, para logo falar do impasse da abertura: “É uma pena. Conheço bem o país, como ele está a andar. E sabemos que as causas da não abertura da rádio, se a gente comenta, cria uma certa polémica”, referiu.


Samuel Quijingo
Samuel Quijingo, 31 anos, desdobra-se entre a informação e o entretenimento, sendo o animador do programa vespertino “geração fantástica”, emitido em directo via Internet. Encara a realização profissional como uma soma de pequenos passos, pelo que, para quem veio de uma empresa privada de comercialização de perecíveis, está realizado. “Porque me sinto que comecei, estou seguro na classe jornalística”, sentenciou. “Como tenho familiares e amigos em Luanda, sinto que o trabalho é bem recebido pela sociedade”, confessa.


Luciano Cambimbi
Luciano Cambimbi, 29 anos, é da leva que em 2004 acabou vendo o sonho desmoronar. Teria razões para se sentir frustrado, mas, antes, voltou a embarcar nova fase do projecto. “As condições parecem mais sérias do que no projecto anterior, não digo que antes não fossem. Mas é que agora, até, já conseguimos enviar matérias para Luanda, temos um espaço concreto na grelha da Rádio Ecclesia”, assegura. “Há vontade de aprender e aprender mais, para não termos contratempos quando isso abrir”, acrescenta o também editor religioso.

Gociante Patissa, Benguela, 03/12/11

Peito materno (algures entre os municípios de Caimbambo e Cubal, Benguela)

Segundo Figueiredo Casimiro Casimiro, via facebook, "Esta cerra chama-se VITORIA. Localiza-se no Kalenguele. Gostei dá acesso a minha terra CUBAL".

Eu vejo sempre um peito materno cada vez que olho nela. Nossa Angola tem dessas paisagens que fazem bem à vista de quem "rasga" o país por terra. bom fim de semana, amigo

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Utilidade pública (conforme e-mail recebido): Isabel Lhano, pintora e professora, apresenta a exposição “AQUI”. Vai ser no Centro de Memória de Vila do Conde, Portugal, sábado, 26/11

Isabel Lhano, pintora e professora, apresenta a exposição “AQUI” onde assina 30 anos de carreira. No próximo Sábado, pelas 22 horas, inaugura no Centro de Memória de Vila do Conde.


São 30 anos de arte e de trabalho, sentidos, vividos e transportados para a tela, que encontram no Centro da Memória o local certo para serem expostos: um espaço de memória, uma arqueologia de sentimentos. de destacar a festa que decorre no momento da inauguração, onde serão apresentados projectos inéditos nas áreas da poesia, dança e música, organizada com os amigos que acompanham a Isabel Lhano ao longo dos anos.
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sábado, 26.11.2011 , 22 horas, Centro de Memória de Vila do Conde


programa inauguração
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Centro de Memória de Vila do Conde


22H00 inauguração da exposição
22h30 poesia SILÊNCIO DA GAVETA + ISAQUE FERREIRA
23H00 música KANUKANAKINA/MIGUEL PIPA + ANA DEUS
23H30 dança COMPANHIA AO VENTO + música LUÍS COSTA
24H00 concerto PAPERCUTZ
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DJ sets [*local a designar]
valter hugo mãe, Esgar Acelerado, Urbanoid

Nesse dia a lua... sei lá o que queria. é como se a cortássemos com faca, pela água. A boca. Ah!


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Opinião: Ecos e defeitos na conversa sobre “A proposta de lei sobre o estatuto das línguas nacionais”


Vai subindo de tom a conversa sobre “A proposta de lei sobre o estatuto das línguas nacionais”, apresentada pelo Ministério da cultura e que alguns deputados e estudiosos acham que deve mudar a designação para "línguas de origem africana". Como é de esperar num país com tão fresco "complexo de assimilado", não faltam fazedores de opinião que rotulam de preconceituoso quem apoia a tentativa de maior protecção e divulgação das línguas nacionais (as indígenas de outrora). Desenterrou-se como “arma de arremesso” o facto histórico de os khoisan serem os mais antigos no território que hoje é Angola. Está-se mesmo perto de dizer que o Kimbundu, o Cokwe, o Kwanyama, o Ngangela, o Umbundu, entre outras de origem Bantu, bem como a dos khoisan, chegaram para cá à mesma época que o capitão Paulo Dias de Novais ou o descobridor Diogo Cão.

Sou de opinião que, conquistada a independência, se negligenciou um bocado a gestão das políticas culturais na vertente das línguas nacionais (entenda-se promoção de estudos sobre aspectos de identidade etnolinguistica e tudo a isso inerente). A prioridade recaiu para a busca da estabilidade nacional e formação de quadros.

É certo que a vontade e a visão do detentor do poder acabam prevalecendo sempre, quando se fala de políticas públicas. Ainda assim, porque posso também falar, digo que não me parece justo, no mínimo, tentar agora equiparar a língua portuguesa, que, tendo em conta o seu avanço estrutural e científico, significaria claramente sobrevalorizá-la relativamente às já citadas. A nossa língua de união e oficial vai bem. E ainda bem. Mas deixemos que o Ministério da Cultura avance. A questão é, diz-se, que a Constituição não se refere a elas como línguas nacionais, mas como línguas nacionais de origem africanas. A pergunta de retórica é se terão sido consultados os nossos antropólogos na feitura da constituição. Enfim...

Os defensores da "secundarização da noção de pertença" apresentam os seus argumentos de razão legítimos e devidamente fundamentados, embora me pareça, de certo modo, um reeditar da "atitude" de "línguas indígenas". Dizem por exemplo que as línguas mais faladas em Angola são o Umbundu e o português, que não representam mais de 30% da população. Mas, só mesmo por curiosidade, por acaso dominam eles alguma dessas "línguas de origem africana", ou é o tecnicismo puro a se confundir com exotismo? Como diria M. Rodrigues Lapa, “os puristas têm a ruim tendência para considerarem uma só forma correcta” (Gramática do Português Actual, 2009. Pág. 4).

O semba e o ku-duro, muito apoiados institucionalmente, já agora bem podiam ser considerados "apenas" estilos musicais de origem africana, tal como diríamos do kwanza (apenas símbolo monetário de origem africana). Que tal?

Gociante Patissa, Benguela, 24 Novembro 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Línguas de origem africana - I

A questão linguística no país voltou à baila desde, visivelmente, o passado dia 26 de Outubro, quando a Assembleia Nacional a agendou na sessão em curso. A ministra da Cultura introduzira-a no documento intitulado “Proposta de Lei do Estatuto das línguas nacionais de origem africana”. Após a primeira peneira nas comissões de especialidade do parlamento, o enunciado ficou “Proposta de Lei que Aprova o Estatuto das Línguas de Origem Africana”. O formato passou então na generalidade, estando agora o conjunto do texto a ser esmiuçado com vista a aprovação definitiva numa segunda plenária.

A peneira preliminar argumentou contra a expressão “Línguas Nacionais”, sublinhando que a mesma perdera a nomenclatura constitucional. O parecer recordou taxativamente, citamos: 
«A designação de ‘Línguas Nacionais’ constante da Proposta de Lei fere os princípios constantes do artigo 19º e alínea n) do artigo 21º da Constituição, cujo teor em nenhum momento faz referência a ‘Línguas Nacionais». Razão, pela qual o mesmo parecer avançou a alteração para a “Proposta de Lei que Aprova o Estatuto das Línguas de Origem Africana”.


De acordo com peritos ouvidos por nós, ambas as formulações prolongam o mesmo vício lógico e literário, que importa superar. Ambas acusam uma tautologia, linguisticamente desaconselhável na perspectiva até pedagógica da lei fundamental. A bronca é a expressão ‘origem africana’. ‘Línguas angolanas’ e ‘línguas nacionais’ são sinónimos em termos de designação da genuína pertença. E uma língua angolana ou nacional é naturalmente africana.


 Ora, aqueles enunciados, em pingue-pongue entre os eleitos, dão a entender um tratamento exótico de uma língua africana qualquer a partir da Europa. Uma Europa que estaria a dar-lhe um asilo no seu berço. Não faria sentido nenhum em Portugal, por exemplo, o português ser chamado “língua nacional de origem europeia”.


Toda língua faz parte da idiossincrasia de um povo. O português faz parte da idiossincrasia lusa. As africanas, dos respectivos povos, para além da abertura mostrada em relação aquelas que acostaram nas suas terras. Nacional, etimologicamente, implica a naturalidade, o natural, o indissoluvelmente associado ao chão de um território, enfim, ao autóctone. Em África, o francês, o espanhol, o inglês, o português ou o russo, são línguas de origem europeia, para lá dos sentimentalismos de toda a estirpe.



Como, afinal, os nossos eleitos vão debelar tão óbvio belisco entre um princípio constitucional e a correcção gramatical? A ver, vamos. 


Voltaremos proximamente ao tema, nesta África, ora expectante em receber e ouvir amanhã a Exortação Apostólica do Papa Bento XVI. Um documento que será publicado no Benin, selando as 57 propostas da II Assembleia Sinodal para a África. A Assembleia decorreu no final de 2009, sob o profético lema: «A Igreja em África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz. “Vós sois o sal da terra… vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13.14)».

(Uma co-produção de Siona Casimiro e P. Maurício Camuto. Apresentação de Mário Santos)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Crónica: Há lugares virgens, tão virgens que a lei não os conhece


Acordei tarde no domingo, digo tarde porque me teria de apresentar no serviço às 7h30 da manhã. Na aviação, no que à empresa em que trabalho diz respeito, há somente dois feriados por ano: o Natal e o Ano Novo. Os demais são conforme a escala de serviço. No domingo não me apeteceu trabalhar, uma indisposição que não entendia, em princípio, bem porquê. Faltou-me ânimo, que muito precisa quem anda no atendimento público. Por isso mesmo, decidi faltar. Isso poderá melindrar quem anda no desemprego, mas não tenho razões para fingir.

Há somente dois lugares onde me sinto completo, em casa da minha mãe e em estúdio de rádio. Ora, não estando no radialismo activo, não restavam dúvidas sobre o que fazer. Peguei no volante, em direcção ao Lobito, para a casa da minha mãe.

Lá posto, os semblantes eram de desolação. Tinha chegado notícia do assassinato da tia Verónica Chilombo, esposa do tio Abílio Gociante, irmão mais velho de minha mãe. Faleceu na remota povoação de Ekovongo, na sequência do espancamento ocorrido dois dias antes na vila da Ganda, aproximadamente 200km da cidade de Benguela. As primeiras informações diziam que a tia se teria envolvido em briga de noras rivais, esposas do primo Lucas, professor e pedreiro. Uma pedrada na cabeça terá aberto o caminho para cinco pontos de sutura.

Como de costume, uma recolha de dinheiro foi accionada, para custear alguns víveres e as passagens de minha mãe e irmão mais velho, a quem recai a responsabilidade de representar a família, desde que partiu o pai, em Julho de 2001. Por volta das 16h00 de domingo, partiram as delegações familiares de Benguela e Lobito num veículo familiar. Só hoje se deu o regresso à base, com uma narração ainda mais tenebrosa das circunstâncias da morte da tia Verónica.

Num belo dia, primo Lucas entende visitar a casa de sua amante, convidando um amigo. Até aqui, nada fora do normal. Há, entretanto, um detalhe que muda tudo: os filhos da senhora não aceitam por nada deste mundo a relação do meu primo com a mãe deles. Ao encontrarem um homem no pátio da sua residência, procuraram saber ao que vinha. Ter-se dito amigo do Lucas foi suficiente para merecer espancamento. E não bateram pouco!

Tia Verónica, que se encontrava na Ganda a passar uns dias, socorreu-se do direito costumeiro que a idade lhe conferia e foi para lá manifestar-se indignada pela agressão dos rapazes ao amigo do potencial padrasto. A iniciativa foi vista como outro insulto pelos rapazes, que retribuíram com sova, ao ponto de a pobre anciã perder o controlo: mijou-se e defecou ali mesmo. No dia seguinte, terão surgido os mesmos agressores, desta vez apedrejando a mais-velha. Feitos os primeiros socorros, a tia entendeu recolher-se, caminhando para a remota povoação de Ekovongo, onde viria a falecer.

Pouco ou nada se diz dos agressores. Fugiram! É bem provável que se fique por isso mesmo, já que, para a minha revolta, as delegações se limitaram a evitar a surra que outros familiares sugeriam para o primo Lucas, visto como a porta de entrada da desgraça. Para agravar as coisas, Ekovongo é um lugar tão virgem, tão virgem, que a lei do Direito por lá não passou. Enquanto isso, a lei costumeira, até onde sei, preocupa-se apenas em prevenir a vingança. Não me parece haver mecanismo para a responsabilização, a não ser lá onde se pratique o “dente por dente, olho por olho”.

A última vez que estive com a tia Verónica foi no ano passado. Guardo dela aquele “espanto” que manifestava, por eu já “ser homem!”, como se na cabeça dela vivesse eternamente criança!

Gociante Patissa, Benguela, 8 de Novembro 2011

domingo, 6 de novembro de 2011

(Um exemplo de luta contra exclusão baseada na cor da pele) - Africana acusa restaurante de Ghana de racismo

Elizabeth Okoro diz que não houve
 engano nem erro de interpretação (Foto: BBC)
Fonte: BBC Brazil, 2 de Novembro, 2011 (Brasília)

Uma campanha realizada por uma africana no site de relacionamentos Facebook, relatando um suposto episódio de racismo em um restaurante, gerou comoção em Gana.

Elizabeth Okoro, 26 anos, se disse chocada por ouvir do gerente do restaurante de frutos do mar The Atlantic Lobsters and Dolphins, na capital de Gana, Acra, que o local era "apenas para brancos".

"Meu amigo espanhol começou a preencher o cadastro de clientes e, naquele momento, eu disse: 'Com licença, eu também gostaria de entrar para este clube', e ele respondeu: 'Não, desculpe, é só para brancos'", disse Okoro à BBC.

"Eu não estou parafraseando, eu não interpretei mal, não foi um erro de tradução... foi uma declaração precisa", disse ela.

'Piada'

Restaurante acabou fechado pelas autoridades
de turismo de Gana (Foto: BBC)
O gerente do restaurante, o italiano Marco Ranaldi, não nega ter feito a afirmação, mas alega que tudo não passou de uma brincadeira.

"Quando eu estava dando o cartão de sócio para o espanhol, a senhora perguntou, 'Por que você não me dá um?' e eu fiz uma piada estúpida. Ela me respondeu dizendo algo como: 'Ah, mas se você fizer isso, amanhã eu volto com a polícia', e riu", disse ele.

"Eu achei que estávamos brincando. Quer dizer, eu fiz uma piada boba, mas achei que ela tinha levado como piada."

A polícia está investigando o incidente. Após uma visita do vice-ministro de Turismo de Gana, James Agyenim Boateng, as autoridades acabaram fechando o restaurante por ele não ter as licenças necessárias.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Crónica: Divagações da hora doze

Julgo ter-me já referido, nestas reflexões bloguistas, sobre como é sempre relativa essa coisa da relevância dos assuntos. As linhas de hoje não fogem muito disso. É como não almoçar em casa, que pode ser inócuo para a grande maioria, excepto para uns poucos sujeitos irremediavelmente a comerem fora de casa, por causa do serviço.

Um ano depois de conseguir o emprego de aprendiz de fotógrafo, num estabelecimento precário do bairro Santa-Cruz, no Lobito, fui transferido para a dependência do mercado informal da Catumbela. Nessa altura, entendia já de foco, revelação e impressão. E mais, era impecável no ardil de “flashiar” (na falta de material, fotografávamos de máquina vazia, cabendo ao flash completar a impressão de normalidade. No mínimo 24 horas depois, com semblante incólume, mostrávamos ao cliente qualquer rolo escuro. O resto era já previsível: queimou, há que repetir).

Uma simples barraca – barrotes, esteiras de palha, lona e panos – chamada Foto Boa Imagem. O nome foi sugestão minha. Os encravamentos da máquina fotográfica eram por mim remediados, agachado como muçulmano em hora de meditação, bastando a secretária inundar-me com todos os panos e lonas dali, numa improvisada câmara escura. Estamos em 1994, eu ia a caminho do 16º aniversário. Frequentava a 7ª classe. O entusiasmo foi curto, pois não mais almoçaria em casa. Comíamos o arroz de feijão e peixe frito, em barracas vizinhas. Na verdade, continuo almoçando fora, às vezes mais por puro hábito do que por impossibilidade.

Entre 2000 e 2007, por exemplo, durante a consolidação de uma ONG angolana por nós trazida à luz, podia bem disciplinar o horário do almoço. Eram, afinal, só 15 minutos a pé entre o escritório e a casa, mas acabávamos por consumir ração fria. Cenário diferente fora no emprego anterior, na Sonamet, que fica no centro da cidade. Em 2006 ainda, durante os três meses enquanto segunda pessoa do projecto RBC (Reabilitação Baseada na Comunidade) da Handicap International, na cidade de Benguela, tentava “patar” o almoço em casa da kota, mas lá estava aquela “resistência”. No actual emprego, a caminho de cinco anos, não é diferente. Enfim, parece irreversível… o “mal” está em ser solteiro, provavelmente.

Rendido à tal fatalidade nesses 18 anos de caçador de ganha-pão, transformo em oportunidade cada lugar público de refeições; sempre se pode aprender mais sobre gastronomia, interagir mais com colegas ou mesmo enriquecer o repertório de boatos. Soma-se a isso um aguçado sentido de observação. Por falar em observação, tenho a impressão que conheci ontem um muito exigente cliente de lanchonete, talvez o maior que há entre lobitangas.

Estava pronto o almoço, no beco ao lado da Taag, zona comercial do Lobito, lugar concorrido, que combina bem a simplicidade com o preçário. Não é nem a melhor nem a pior cozinha. Lá o tipo entra e pede kalulú. Uma vez servido, implica: não se pode misturar peixe seco com fresco! A servidora engole, perplexa, em seco. E prossegue, em tom que seria professoral, se não soasse rabugento: diz lá à cozinha, pá! Vocês não sabem, mas as coisas não são assim. Ou peixe seco, ou fresco! A rapariga tenta em tom baixo condescender, mas o cliente tem outro protesto: o quiabo não pode ser servido inteiro, isso não é ético, paTem que ser cortejado!

Não sendo para aqui chamado o que consegui saber sobre a vida e “obra” daquele compatriota, deixei o local com uma certeza: sempre se pode aprender como cozinhar mal à hora do almoço.

Gociante Patissa, Aeroporto da Catumbela, 4 Novembro 2011