PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sábado, 31 de julho de 2010

Joana Cangombe, uma lobitanga entre muitos angolanos que tiveram de "sacrificar" a pátria pelo sonho da formação no Brasil

Quando o primeiro grupo de angolanos chegou à UFPR (Universidade Federal do Paraná), houve um difícil período de adaptação. Para Joana Maria Cangombe, aluna do quarto ano de Administração, não houve estrutura. Os alunos tiveram um problema com o Itamary e chegaram atrasados para o início do semestre. “Fomos empurrados para a sala de aulas”, diz Loide Chivinda, também aluna de Administração e presidente da União dos Estudantes Angolanos do Paraná. Portanto, não participaram das tradicionais boas vindas aos calouros. “A gente se sentiu meio abandonada, diz. Ela conta, porém, que sua colega que chegou recentemente já obteve uma recepção muito melhor, com mais orientação (…) Outra dificuldade relatada por Joana foi a tecnológica. “Em nosso país, não temos tantos recursos quanto existem aqui, principalmente os tecnológicos”. Foi preciso também adaptar-se às novidades da informática. Aliás, adaptação é a palavra-chave do processo enfrentado por alunos angolanos na UFPR. “Curitiba não é fácil”, afirma Joana. A diferença da personalidade local à animada vida das cidades angolanas é queixa comum entre os alunos. “O pessoal de Angola é geralmente extrovertido, já toma conta da situação”, diz.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Crónica: “E lá conheci a capital” (parte 3 de 3)

Metade de 2009 foi investida em aspectos protocolares. Iria “finalmente” aos Estados Unidos.

Os vistos no passaporte já cantavam, só faltando a entrevista formal com o embaixador, Dan Mozena, no seu gabinete, ao Miramar. Cuidei de me apresentar com meia hora de antecedência. A funcionária de contacto acomodou-me na biblioteca. Com tantos recursos à frente, difícil era decidir se ficava pelos livros ou pela Internet, o que bem enganava o tempo. Mais tarde… Sr. Patissa? Sim. Muito prazer, apresentou-se um quadro sénior, desculpando-se pelo facto de a teleconferência estar a demorar mais do que o previsto, e com ela a disponibilidade do anfitrião.

No seu jeito sem pressa de articular, o embaixador reforçou as desculpas pelo atraso. Confesso que cheguei a recear um adiamento por eventual exaustão do “chefe”, o que não seria inaugural em Angola, embora de mau tom para quem viajou de Benguela, no caso. A presença de dois funcionários já referidos enriqueceu a descontracção do encontro. Podes voltar sem os dedos da mão, tal é o frio do inverno, disse-me a brincar.

A par da relevância da viagem à condição de estudante universitário de Linguística Inglês, ia como líder associativo juvenil num programa de intercâmbio de quase um mês a convite do Departamento de Estado, e o único que no grupo vinha de nação falante de português. A candidatura foi sugestão de Nancy Gottlieb, a empreendedora americana “benguelense”. Fiquei na Pensão Victor’s, por ironia, a da primeira viagem a Luanda. E já me via desorientado antes de partir. Terra alheia é sempre um labirinto. O bom é ter esse antigo milagre, o de sempre surgir uma mulher com a providencial ajuda (elas que não ouçam, ou vai-se o orgulho macho).

Cristina Galhardo, a moça de Sines que eu só conhecia online, predispôs-se a mostrar-me Lisboa, na ligação para/dos EUA. Escuro ainda pela manhã, no iverno de Janeiro de 2010, lá estava no aeroporto, fazendo-me viver aquela “calorosa recepção” que só existe nos relatos partidários da época da clandestinidade. Dela ganhei um par de luvas, senhor embaixador, por isso voltei com os dedos intactos.

Na hora do check-in, um impasse. O pessoal da aviadora jurava não ser possível seguir com o “schedule” do bilhete. O visto expirava no dia 29, um dia antes do fim do programa. Os americanos não te vão deixar entrar, justificava. Solução: antecipar o meu regresso (cinco dias). Já à boca do avião, o segurança manda passar, mas a mesma senhora das datas manda voltar para os devidos apalpões. Ai, Angola também faz parte da lista negra? Refilei. Não é só a Nigéria (de Mutalab)? Isso não tem nada a ver com a lista negra, retorquiu, seca. Provavelmente desconhecia a tolerância de um mês que se tem nos EUA após o fim do visto. Sete horas de voo para chegar a Newark, de ligação para Dulles, que levou outras duas horas e tal.

Depois de me perder umas trezentas vezes na imensidão do aeroporto, finalmente entrei no táxi de um rapaz da Somália. Contou que ganhou Green Card e não pretendia voltar à África. Proseamos sobre vários temas, um dos quais veio a ser recorrente: a discriminação de africanos por afroamericanos, ou sem os eufemismos, é como se o negro daqui fosse inferior ao de lá.

No dia seguinte iniciou o programa de visitas a monumentos, instituições, palestras e afins. E lá conheci Washington, DC, a capital federal dos Estados Unidos da América. Tive a pouca sorte de não me ter cruzado com angolanos, mas em compensação vivi o prazer da solidariedade.

No campo da solidariedade realço balconistas do Washington Marriot, duas da Eritreia e uma do Gabão, sendo que esta última estava na iminência de regressar à Terra. Conto o caso na Best Buys de Portland (estado de Oregon), onde adquiri o meu laptop: o motorista, de nacionalidade eritreia, desabafou por mim diante da gerência pelo atraso na programação, o que implicava um acréscimo no taxímetro pela demora. E o pagamento extra ficou por conta da irmandade. Passei por outras cidades, Salt Lake (Utah) e Miami (Florida), observando o melhor e pior de cada.

A profecia do Jorge (da Namíbia) foi cumprida: até agora, conheço quatro países e respectivas capitais: Luanda, Windhoek, Lisboa e Washington, DC. Viajar é elevar-se à altura do tempo.

Gociante Patissa, Benguela 22 Julho 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Crónica: “E lá conheci a capital” (parte 2 de 3)

A par do ingresso na Universidade, ter o passaporte foi outra compensação às desilusões de 2006. Rescindira o vínculo com a Handicap, ao cabo de três meses experimentais. Como segunda pessoa do Projecto de Reabilitação Baseada na Comunidade, o salário não chegava para a renda do anexo mais a comida.

Em Dezembro, estava com uma consultora australiana no aeroporto, quando me deu um estalo de saber se haveria voo para Lubango no dia seguinte. Sim, foi a resposta. Uma breve conversa com a mãe e irmãos chegou para o “até breve”! De mochila nos cornos e máquina fotográfica, paguei um moço, dono de um turismo velhinho que deu grande jeito, pois calhou ser dia de operação stop. Às tantas, outra vez a bordo do mono-motor da SAL, desembarcávamos no Lubango.

Faltavam dois dias para o Natal, e o Namibe era ideal para se estar sem companhia, mas não necessariamente sozinho, com tanto que havia para fotografar. Ainda cheguei a conhecer pinguins num jardim infantil. Voltei ao parque de Campismo, à Marginal,  caminhando na areia em companhia velhas embarcações, humilhadas pelas ondas do mesmo mar que se esqueceu de as levar para junto das sereias. No dia 26, enfiei-me no autocarro da SGO, deixando para trás uma das cinco províncias angolanas que se escrevem com seis letras.

Uma vez reinstalado numa barata pensão no Lubango, a preocupação era reforçar o dinheiro do bolso, aflição que durou até descobrir que o banco sol funcionava temporariamente nas instalações da Jembas. A atendedora, além de linda, estava em boa disposição. Resolvido! Mais volta, menos volta, bilhete de passagem comprado para a manhã seguinte com o destino Kunene.

Minutos antes da hora de partida, apresentei-me. E para meu espanto, os mecânicos substituíam o eixo de trás por um outro também já velhinho. Com quase duas horas de atraso, o autocarro ainda teve o infortúnio de “empurrar” uma viatura ligeira, que fazia ultrapassagem arriscada em cima da curva, não contando com o buraco (esgoto sem a tampa). Mais outra meia-hora até a polícia autorizar a partida, por volta das 11h30. Às 3h00 chegávamos à Santa-Clara. Havia um viajante, agente da polícia, que era um tagarela magistral. Não deixou ninguém dormir, mas o triste não foi isso: é que ele é de Catete, e só piorou os estereótipos.

Presumo que dava nas vistas meu ar de inexperiente. Foi o que achei quando me abordou um jovem que chegara de madruga num Jeep, também da Orcalves, lamentando-se do desconforto combinado do excesso de velocidade e má condição da via. Apresentamo-nos e passei a ter um cicerone. Desinteressado? Era negociante e, se tivesse que levar carimbo por cada passar de fronteira, veria o passaporte esgotado. Explicou às autoridades que eu era seu irmão, a quem foi buscar. Deu certo. Às tantas, ele implicava com meu sotaque inglês “de branco”, receando talvez dar pista a desconfianças. Não me cabia nem apetecia denunciá-lo, até porque como angolanos, falantes de Umbundu e distantes da Terra, éramos mais do que irmãos… entrando na Namíba.

No Oshikango, paramos para matabichar. Vou seguir para Oshakati, dizem que há lá bons preços, sem imposto, contei-lhe. Não chegas a Windhoek? Não, estou um pouco cansado. Quê isso, meu mano?! Então visitas um país sem chegar na capital? Um jornalista? Não diz isso. Deixei-me convencer. No táxi para Ondangua, não gostei do gesto do motorista em parar junto de cada polícia fronteiriça, como que a dizer “estão aqui suspeitos”.

Já quase a chegar, batia uma agradável, mas forte chuva. No total, oito horas numa estrada impecável, a uma velocidade de 160 km/h. O sistema de drenagem engolia as últimas águas, quando entramos na procura de "lar". No primeiro hostel, atendeu-nos um jovem de origem inquestionável, a julgar pelo jeito apaixonado de acompanhar a emissão da Rádio Nacional de Angola. Acabamos por ficar em Katutura, eu na pensão e ele em casa de amigos.

E lá conheci a capital. Com Jorge, não há canto de Windhoek que fique por visitar. E na hora de voltar, no último dia do ano, trazia com agrado um letreiro que vimos numa loja: “we welcome your returned goods” (aceitamos de bom gosto o produto que você devolver) – dissonância brutal com o que vemos cá. Boa nota também para o projecto de habitação para pessoas de baixa renda, que é contra a tendência angolana de crescimento de armazéns na cidade, e garagens virando vivendas…

Gociante Patissa, Lobito, 20 Julho 2010

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Crónica: “E lá conheci a capital” (parte 1 de 3)

O embarque estava marcado para as 7h00 da manhã no voo mono-motor da SAL (Sociedade de Aviação Ligeira). Já não recordo se o trio partira do Lobito em “caravana”, ou se o combino foi apenas encontrar-se no aeroporto 17 de Setembro, Benguela. O mês era Junho, 2001. Cambele, Bráulio e eu estávamos como tal devidamente agasalhados.

Neste relato, Cambele, ironicamente o kambuta do grupo, vem em primeiro lugar, não obstante o B, de Bráulio, vir antes na ordem alfabética. Ansiedade, entusiasmo e doses de traquinice recheavam a nossa bagagem. Aguardavam-nos 15 dias em Luanda para o workshop sobre Coligação e Advocacia em Direitos Humanos, dirigido por expert americano, pela World Learning. Cambele ia pelo Projecto (hoje Associação) Omunga, apêndice da Okutiuka. Bráulio era da ADAMA (Defensores e Amigos do Ambiente), e eu da AJS, ainda em embrião.

Cambele ficou líder do grupo e deu conta do recado! (Diz-se que os kambutas têm que passar em frente e falar alto, ou ficam esquecidos, né?!) Bráulio, amante de motorizadas e atleta de patinagem com experiência e cicatrizes mil, esse sim, conhecia, tem até familiares na ilha. Eu conhecia a capital, como a maioria de vocês, pelos livros e TV.

Com o avião já na placa, veio a notícia de não embarcarmos por causa da situação militar. Mas como assim, ó Cambele?! Vocês são de 78 e não têm adiamentos. Sim, mas a culpa não é nossa, é o Ministério da Defesa que não nos quer renovar os talões de recenseamento! Yá, o pessoal da DEFA não carimbou os vossos bilhetes. Mas a viagem é interna!!! Então só tu podes ir? Em princípio sim, disse, constrangido. O chefe do grupo era apenas mais-velho de um ano. As horas começavam a acelerar o passo. O desespero ruía-nos o peito. O workshop iniciaria no dia seguinte, portanto qualquer substituição já vinha tarde. O único consolo era o sorriso de empatia do pessoal da Escala. Lá foi outra vez o Cambele abordar os conterras da DEFA, afiando os termos de aprendiz de activismo cívico e ex-seminarista, e resultou. Ai, que susto!

Num momento fecham a porta, ainda na província, e quando a abrem já é capital, nós no Bona. Dupla inauguração: é que, também, só conhecia o interior do avião pelos filmes. Mas não era tudo. Fomos acomodados, qual gente que presta, numa pensão, ao Mártires de Kifangondo. Até então, só doente dormia em outra cama, no caso, na sala do anexo de minha mãe. Tudo isso era pouco. Não é que arranjaram eclipse solar e tudo para as nossas boas-vindas...?!
Quinzena memorável, pelo aprendizado e pela interacção, às vezes importunada pela traquinice da idade que trazíamos na bagagem. Ainda bem que foi oportuno o devido puxão de orelhas. E de vez em quando, para a minha alegria revejo alguns colegas de lá, que nos invadem as telas, pelo poder, Direitos Humanos, pela arte, ou pela oposição: Otília Noloty (administradora municipal da Chibia, na Huila), Helda (candidata à liderança do braço juvenil da Unita), Nany Pereira (Elinga Teatro), Fridolim Kamolakamwe (poeta-declamador), W. Pinto Leite (Bloco Democrático, ex-FPD), Abelardo (série Papá Ngulu), Lúcia (AJPD), etc.

Os churrascos da Fanta bem que deram jeito a poupar o kumbú dos per diem, que não sobreviveria à frequência integral a restaurantes de luxo. Não deixou de ser curioso o vibrar de viaturas na escuridão da noite na ilha, mas não vou ser eu a dizer-vos o que casais faziam xinguilados lá dentro em horário da camisinha. Bom, e lá conheci a capital. Luanda, digo após idas e vindas, é melhor a olho nu. No papel ou TV é linda, bronzeada, acolhedora, musa, mas lhe falta cheiro, o cheiro da razão ou da vergonha.

Gociante Patissa, Lobito, 19 Julho 2010

sexta-feira, 16 de julho de 2010

À guisa de ensaio: "Por que não aprender com a dívida"? (Actualizado)

Retomo a questão: por que não aprendemos com a dívida?

“Dívida”, enquanto termo isolado de qualquer contexto, é aparentemente ambíguo, definido pelo Dicionário Universal (Texto Editores, 2006) como “aquilo que se deve; obrigação”.

Para a habitual reflexão digestiva pós-jantar, interessa abordar o “fenómeno dívida” no campo das relações sociais numa perspectiva de angolano do grupo étnico Ovimbundu, também de origem Bantu. Em Umbundu, o termo é "ofuka", que implica específicamente dívida material (em bens ou dinheiro, passe a redundância), sendo que pagamento é "ofeto".

É consabido que cada língua veicula uma cultura, o que entre outras formas é visível nas parábolas, máximas e provérbios. Nesta ordem de ideias, diríamos que, entre os Ovimbundu, a dívida tem conotação negativa, seja entre indivíduos ou entre colectividades. Ou digamos, a advertência proverbial contra a dívida é mais sonante do que o seu enaltecimento, senão vejamos os seguintes provérbios:

- “Pesinsa panyale ongolo, pukamba panyale ofuka” (o joelho dá cabo da esteira, a dívida dá cabo da amizade); e ainda

- “Olevalisa eye onjaki” (aquele que empresta é brigão).

Ciente embora do inevitável subjectivismo, socorro-me da observação e background para ressaltar que, via de regra, somente no momento da devolução é que se ouve a máxima favorável à dívida, como forma de retribuir o agradecimento de quem foi favorecido:

- "Ovê, tuapandula calwa okacina kana"! (Queria dizer muito obrigado por aquela coisa!)

- “Acimwe ko! Walevalisa, wasolekisa” (De nada! Quem empresta, reserva).

Sendo também verdade que do imposto e da dívida o homem, enquanto ser social, não se livra, importa levantar algumas questões para continuar a reflexão (e por que não o debate?): que mito explica tal associação directa de dívida a problemas entre os Ovimbundu? Será algum sintoma de pouco sentido moral dado à palavra no acto do acordo de cavalheiros, já que os contratos escritos surgiram mais tarde? Será uma forma de atenuar o impacto da decepção, uma forma de “guerra avisada não mata”? Trata-se de um exercício de carácter especulativo que não pretende outra coisa senão contribuir para a reflexão, ressalte-se.

Seja qual for a resposta para as perguntas supra levantadas, não se pode negar que a dívida tem um grande potencial no desgaste das relações sociais e interpessoais, sobretudo quando o devedor não dá sinais de preocupação. Nestes casos, ou partimos para a pressão activa, ou nos resta esperar que o devedor se lembre da existência da moral e ouça a sua consciência, o que, em último caso, é que diferencia os homens de javalis, macacos e a restante variedade de animais irracionais.

Gociante Patissa, Benguela 16 Julho 2010
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KImdaMagna said... [comentário deixado no Blog http://www.ombembwa.blogspot.com/]

Interessante o seu exercício e realmente quando analisamos as palavras no seu sentido etimológico, aproxima nos do conhecimento. Creio que não é só um caso de semântica, mais da subjectividade dos nossos "Eus". Nas variadas línguas que conheço este problema apresenta se sempre assim.Por outro lado a Língua é sempre viva e vai enredando-se nas nuances das idiossincrasias.

A palavra dívida provém do verbo dividir ( latim dividĕre). Fazendo o percurso etimológico aparecem várias definições e o curioso é que podemos ver um comum sentido ( o negativo)mas também já um determinismo nas próprias palavras da definição´: desunir;separar;discórdia; desinteligência
di.vi.dir
1.partir ou separar em diversas partes
2.desunir; apartar
3.fazer a operação matemática de divisão
4.estabelecer a discórdia
5.estabelecer a desinteligência
6.repartir algo entre diversas pessoas, dando uma porção a cada uma.


Fico curioso em saber o que apareceria por detrás da análise etimológica de "ofuka".
Mas para além da questão académica, deixe me felicitar o seu refinado e inteligente humor transmitido no seu texto. Não posso me desligar do contexto da dívida Angolana a Portugal nem do Aníbal nem do José.
Xaxuaxo KImdaMagna

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Crónica: Ministério “da educação” ou “do ensino”?

Parafraseando o nosso astro da música infantil, Pedrito do Bié, eu nasci no mato, depois vim viver na cidade. Então, tenho a educação do mato e tenho a da cidade. Mas, agora assim, o ensino fica como?

No “linguajar da vulgo”, como diria um velho companheiro, “educação” refere-se à transmissão de valores no lar, ao passo que chamamos “ensino” à instrução recebida no ambiente escolar. Os académicos, às vezes pedantemente, gostam de impor que num e noutro caso se trata de “educação”, ou seja, a “formal” e a “não formal”. Eu, que já não gosto de falar com sebentas à boca, fico mesmo pelo “linguajar da vulgo”.

Então é assim: moro já num anexo arrendado no quintal de uma família que partilha o muro com uma escola, né?, acho que vai da primária até 9ª Classe. Se fosse fontenário, teríamos água em fartura. É escusado dizer que, se fosse gerador eléctrico, era direito fazermos puxada (ou gato se preferir). Mas, essa vizinhança com a escola só nos traz prejuízos…! Ainda se for fim-de-semana é normal, mas de segunda à sexta?! Te pago se consegues sair da cama acima das sete da manhã. Épah, é que aqueles miúdos são cá de um barulho nos corredores da escola!!!

Eles "barulham” de tudo um pouco. Umas vezes cantam, outras dançam, isso, quando não batem palmas, que estalam como se viessem de tacos de madeira. E para completar a fotografia, vão umas estridentes gargalhadas. Uma “mbwanjaria” que… só vista! Mas então, não há medidas disciplinares?

Ainda há pouco, quando acabava de estacionar o carrito no parque, ouvi do outro lado da rua um “FILHO DA PUTA, Ó TREZEGUÉ!!!”. Era uma mocinha, a poucos passos da sala, querendo atingir um seu colega. O que se seguiu foram risadas de gente à volta, e pronto. Estamos aonde, afinal? Claro está que é uma amostra apenas de milhares de outras escolas por essa Angola.

Posso ser tão ingénuo, quanto a minha idade permite. Mas, enfim, não dá para esquecer a figura do Director Pedagógico (e dos próprios directores de turma) nas escolas por onde passei. Já não falo do Director, “autoridade” que só por “milagre” interagia com os estudantes amigavelmente.

Aos que virem nestas linhas apenas “conflito de gerações” deixo à vontade. Como, aliás, realçou um jornalista de Benguela, não entramos nessa coisa da escrita à espera de unanimidades. O facto é que, hoje, o comportamento de jovens e adolescentes na escola, generalizando, é bastante preocupante.

O Ministério da Educação tenciona inserir no currículo escolar a disciplina de Direitos Humanos. No entender de um velho colega nestas lides de sociedade civil, “é muito má ideia”. Receia que se venha a banalizar a abordagem, tal como aconteceu com a Educação Moral e Cívica. É de facto grande fiasco a EMC render-se à lei da “gasosa”, em que o aluno suborna para ter boa nota. Alternativa seria, defendeu o colega, criar e capacitar associações de estudantes para o exercício da cidadania activa, e não ficar pelos apontamentos.

Um professor de filosofia, quando andávamos no Puniv em 1996, dizia que a escola era do “Ministério do Ensino”, da educação é que não! Inferíamos da sua indignação a corrosão de valores, da qual a escola é simultaneamente a vítima e a promotora. E a tendência é piorar. Haverá como inverter isso?

Gociante Patissa, Benguela 15 Julho 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Crónica: "O Dombe-Grande, a vitória da Espanha e o mundial na África do Sul"

«Então, amiga. Até que ponto te "afecta" a euforia do Mundial de futebol? (…) Bom, não sou muito de intensa paixão pelo desporto como tal, pior ainda nestas coisas de futebol que sei que Angola não é lá grande coisa -  prefiro o basket... a tal “dificuldade”, talvez, de lidar com derrota (…) mas não sei se é por não ter vivido a euforia do CAN - estive fora o mês todo - tenho alguma dificuldade em sentir neste mundial a festa popular que foi das edições anteriores… não se sente nas ruas (…) Esperemos que o futebol faça festa nessa África do Sul de acentuado espectro da violência e criminalidade (…) a ver vamos!»

Domingo de ócio, nada melhor do que sair por aí, fechar as portas à cidade. E aos olhos viciados de recorrência urbana, o contacto com o meio rural é sempre um novo prazer, na verdade, não importa quantas vezes tenhamos antes visitado os lugares em causa…

Com um asfalto de se lhe derramar os elogios imagináveis de um patriota, a via do Dombe-Grande é realmente um bálsamo. E falo com conhecimento de causa. Afinal fomos ao volante do rabo-de-pato branco 58ª mão da Europa, travestido de conforto de Jeep top de gama.

Goiabas, hortaliças, muita cana (já não de açúcar, já que a açucareira foi à falência) para as devidas trincas, melosas dentadas à sombra de uma árvore que a natureza esqueceu a milímetros da “pista”, como diriam os brasileiros. Nem fome nem sede, nada!

Cai a tarde, de volta à cidade, kupapatas, zungueiros, polícias, hiaces, pim, pim, pim… Sofá, bom peixe grelhado, olhinhos na TV, novelas e vuvuzelas, promessas de vitória de parte a parte, mundial pouco antes de cair o pano. Coração cai pela Espanha, com a irracionalidade que lhe é regra. Noventa já lá vão, golo mesmo, nada! Chave na ignição, até amanhã Salomão, take away, olhos na TV, dedos no PC, gripe e digestão se confundindo.

Fim do jogo, golo a solo, comentários favoráveis à organização. Minha consciência e eu damos o braço a torcer pelo pessimismo inicial, expresso no primeiro parágrafo deste texto, um copiar/colar de ideias debitadas no MSN com a amiga AC, no dia 11-06-2010. Parabéns Espanha, África do Sul, o mundo todo e ao desporto por esse lado de factor de aproximação entre os povos.

Dombe-Grande, Benguela, Gociante Patissa, 11 Julho 2010

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Parábola: “A lição do jardineiro” (*)

Querendo brindar os habitantes com um monumento que representasse em simultâneo a alegria, o trabalho, a esperança, enfim a vida, certo governante passou dias e noites a matutar. “Que tal uma estátua dourada, e da mais vistosa altivez”? Mas chegou a reconhecer que uma estátua não era a mais feliz representação do seu povo, de quem se queria tributar a virtude de trabalhador e inspirador.

Estabelecendo paralelismo com o sorriso de uma criança, inspirador e que precisa de cuidados, veio a solução: decretou a construção de um jardim, com a maior variedade possível de plantas. E vindo do coração tal oferta, melhor lugar para a sua implementação só podia ser no coração da cidade.

Não havendo nada mais feio do que manchar as flores com desvios e má orçamentação da obra, o governante cuidou de identificar o empreiteiro com a maior reputação na sua região. E porque cumprir os prazos não é de todo um milagre (como se nos quer impingir nessa nossa Angola), lá o empreiteiro fez a entrega da obra, um mês antes do prazo acordado. Mas a euforia do governante murchou, no momento da inauguração, perante uma constatação:

“Desculpa, caro empreiteiro, mas há aqui um erro, e que erro!…”
“Como assim, nobre dirigente?”
“Como vai construir um jardim com tamanha beleza, sem no entanto pensar na passadeira? É preciso abrir caminho para o povo”.
“Pensamos na passadeira, sim, desde o início. E é aí que está a questão. Deixa que o povo comece a usar o jardim. Lá onde eles forem passando, surgirá o caminho. Só então colocaremos passadeira. É o que recomenda o nosso jardineiro”.


Moral: “O mais importante é resolver os problemas do povo” [com o próprio povo, acresceu alguém].


(*) Adaptação da parábola contada por Mário Guerra, tido como o decano da classe jornalística em Benguela, por volta de 2003, durante uma palestra promovida pela Coligação "Ensino Gratuito, Já!".


Gociante Patissa, Benguela 08/07/10

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Desacrónica(*): Omissão Culpável nos Correios


Há daqueles cheiros, cores, músicas, imagens e lugares com a força de nos remeterem a felizes memórias de infância, adolescência ou princípio de juventude. Com as devidas desculpas aos homens que se assumem “não sentimentais” – eu o sou, confesso, e de vez em quando surgem sem avisar nutritivas viagens ao passado.  Há já uns anos, em serviço no gabinete de uma profissional… fiquei apanhado pelo activo aroma dos cabelos, trazendo à memória o contexto sensual com que uma certa pessoa me embriagava os sentidos.

Depois da queda pelo Inglês, a correspondência (ou descoberta de um novo mundo?) via CTT (Correio, Cartógrafo e Telefone) foi outra fertilidade da adolescência. 1994, um ano depois de obter o primeiro emprego, o de aprendiz de fotógrafo. Enorme satisfação receber respostas no apartado da igreja da minha mãe (Caixa Postal ou P.O. Box 208). E como nem sempre havia dinheiro para os selos, usava da criatividade e escrevia com a mão esquerda cartas (supostamente) do amigo Antunes (as minhas redigia com a direita). Ganhámos inesperadas prendas, desde livros, autocolantes e posters. Da Santa-Cruz, Lobito, à escola dos Bambus, Catumbela, são por aí 10km a pé, “odisseia” somente minimizada pela esperança de ver se caiu uma no apartado. Em 2000, repetiu-se a prática da correspondência, desta feita para divulgar a nossa AJS, acabadinha de fundar… e da Câmara Municipal de Lisboa, para só ressaltar essa, recebemos por aí 20 T-shirts sobre preservação ambiental.

Feita a contextualização, entremos para o drama do desabafo. Talvez seja culpa da Dulce Braga, autora do livro auto-biográfico “Sabor de Maboque”, radicada no Brasil. Essa Dulce, como se já não bastasse me estragar com mimos, ao ponto de dedicar a página 3 pela minha descodificação de frases em Umbundu, quis dar-me um exemplar. Mas como, se a DHL não cobra pouco? Havia que “alugar” um apartado, não mais na Catumbela, mas sim na cidade que me acolheu em 2007. Pouco depois, através da amiga Amélia Costa, conheci a professora e escritora Lili Laranjo, de quem ganhei dois livros de poesia. Visto deste ângulo, o aluguer do apartado 1041 era triunfo.

Seis meses volvidos desde que me tornei titular de um apartado, fui consultar o balcão para saber da minha conta. E lá o funcionário me informa que tenho uma dívida de seis meses. Como assim? É que o pagamento não transita, o valor de Kz 2.700,00 pago para seis meses no dia 22 de Dezembro ficou congelado no dia 31, matematicamente em nove dias. Indignado, esclareço que não fui informado de tal condição, ao que o funcionário acrescenta: “Por isso é que, quando o ano já está no fim, é melhor esperar o outro iniciar. Nada pode ser feito”. Era o que me faltava! Como dizia o outro, “uma lei injusta não é lei de todo”.

Numa altura em que o correio convencional tende a cair em desuso, tal regra é, no espírito e na letra, péssimo contributo para angariar clientes. E seja qual for a intenção ou inocência da senhora que me abriu a conta, tratou-se, sim, de omissão culpável dos Correios de Benguela.

Gociante Patissa, Benguela, 5 Julho 2010
(*) Desabafo+crónica

Parábola: O Sábio e a Borboleta


Havia um pai que morava com suas duas jovens filhas, meninas muito curiosas e inteligentes.
Suas filhas sempre lhe faziam muitas perguntas.
Algumas, ele sabia responder, outras, não fazia a mínima idéia da resposta.
Como pretendia oferecer a melhor educação para suas filhas, as enviou para passar as férias com um velho sábio que morava no alto
de uma colina.
Este, por sua vez, respondia todas as perguntas sem hesitar.
Já muito impacientes com essa situação, pois constataram que o tal velho era realmente sábio, resolveram inventar uma pergunta que o sábio não saberia responder.
Passaram-se alguns dias e uma das meninas apareceu com uma linda borboleta azul e exclamou para a sua irmã:
“Desta vez, o sábio não vai saber a resposta!”
“O que você vai fazer?” Perguntou a outra menina.
“Tenho uma borboleta azul em minhas mãos. Vou perguntar para o sábio se a borboleta está viva ou morta. Se ele disser que ela está morta, vou abrir minhas mãos e deixá-la voar para o céu. Se ele disser que ela está viva, vou apertá-la rapidamente, esmagá-la e, assim, matá-la. Como conseqüência, qualquer resposta que o velho nos der vai estar errada.”
As duas meninas foram, então, ao encontro do sábio, que estava meditando sob um eucalipto na montanha.
A menina aproximou-se e perguntou se a borboleta em sua mão estava viva ou morta.
Calmamente o sábio sorriu e respondeu:
“Depende de você. Ela está em suas mãos.”
Assim é a nossa vida, o nosso presente e o nosso futuro.
Não devemos culpar ninguém porque algo deu errado.
O insucesso é apenas uma oportunidade de começar novamente com mais inteligência.
Somos nós os responsáveis por aquilo que conquistamos ou não.
Nossa vida está em nossas mãos, como uma borboleta azul.
Cabe a nós escolher o que fazer com ela, só a nós. Não deixe ninguém interferir nisso. Nunca!

Recebido por email de Camilo Júnior

sábado, 3 de julho de 2010

(Arquivo 2009)Humor: Interpretações militares

Era dia do teste político-ideológico, a última etapa para se jurar a bandeira e atribuir patentes a um grupo de recrutas. Era impensável chumbar, mas o que todos almejavam mesmo era dar a resposta mais convincente e, consequentemente, ganhar o título de sargento mais honrado.

– A CINQUENTA METROS DE UM BATALHÃO INIMIGO, O QUE É QUE FARIAS? – perguntava o instrutor.

E a maioria respondia mais ou menos assim:
– Bem, chefe, considerando que as armas, mesmo a farda até, custam muito caro, e uma arma na mão do inimigo significa duas armas contra nós, e também por isso e por aquilo… eu fugiria, perdão, faria um recuo estratégico.

Ia quase no fim a longa fila de mancebos e, volvidas duas horas, ainda estava por surgir a “resposta de honra”. Passaram quase todos, quase disse, até chegar a vez do mancebo tido como o mais burro do pelotão.
– MANCEBO, JORGE!
– PRONTO, ILUSTRE INSTRUTOR!

– A CINQUENTA METROS DE UM BATALHÃO INIMIGO, O QUE FARIAS?
– OU MATO, OU MORRO, CHEFE!!!

Pronto!, estava encontrada a resposta da honra. Jorge recebeu a patente de oficial mais algumas regalias económicas. Intrigados pelo insólito, alguns colegas foram abordá-lo na caserna à noite:
– Mas tu és burro ou quê, ó Jorge, para dizeres que ou matas ou morres? Dar a vida, quando os outros se enriquecem com a guerra? – reprovou Esmeraldo.
– Ó Esmeraldo, eu queria dizer “OU FUJO PARA O MATO, OU FUJO PARA O MORRO!”. Só que tropa não fala muito. Agora, se vocês entenderam mal, a culpa não é minha. Pensam que sou burro, não??!!

(Adaptação por Gociante Patissa, da versão contada pelo amigo Higino há 12 doze anos)

citação...

"Sometimes I wanna give up / I wanna give in / I wanna quit the fight/ and then..."

quinta-feira, 1 de julho de 2010

(Arquivo 2007) Crónica: "A Catumbela já não corresponde"




Gosto particularmente de escrever-te, porque sinto que me remetes sempre aos nossos tempos de adultos forçados pela conjuntura, anos em que a luta para ser alguém na vida (trabalhando ou esforçando-nos para tirar notas altas na escola) nos retirava o direito de sermos adolescentes “normais”, como qualquer outro da nossa idade.

Perguntas sobre muita coisa cá da banda, mas é sempre difícil apresentar um retracto de uma localidade em que se reside há tantos anos e com a qual temos uma espécie de amor eterno. Primo, azar teu de não poderes ainda regressar!

Angola não tem outra escolha senão gerir o processo de paz que se acentuou com o calar das armas, numa altura em que se mobilizam sinergias para a reconstrução nacional, desde o discurso até ao alicerce. E por falar em alicerce, tu não vais acreditar. Não é que agora a pessoa dorme e, ao acordar, o terreno que era de todos no Bairro já pertence a um desses empresários “do tempo de paz”!? A moda é placas e estacas: isto pertence ao prato, aquilo pertence ao garfo, futuras instalações do abacate… enfim, uma salada russa! E lá vão, de chineses à mão, erguendo paredes que traziam na consciência, às vezes asfixiando a dignidade humana e valores antropológicos.

Você nunca foi de fraca memória, primo, por isso ponho a mão no fogo em como não se esqueceu do nosso “Kacipaio”, aquela casa cantoneira amarela entre Lobito e Catumbela, a dos guardas Kamigui e Nguendo, do velho Napokwenhe, da cana cascada. Não é que certo bem-intencionado, concluiu que a reconstrução nacional consistia em aplicar um belo alicerce no caminho que saía do Vikundo…! É impressionante, primo, mas vinte anos depois de passares por um caminho deixado inclusive pelo colono e pela falida Açucareira 1º de Maio, com estacas e arame farpado alguém atira p’ro esgoto o passado do nosso místico Kambanjo e de sua gente, que via no acesso à linha 11 um recurso para emergências, para já não falar de funerais.

Mas vou te falar, primo. Mando esta carta escrita em papel, porque essas coisas que me obrigas a usar para substituir uma missiva regular retiram uma certa magia. É como digo, não é mesma coisa…! Hás-de concordar comigo que nada substitui a ansiedade que aumentava quanto mais perto a pessoa chegasse dos CTT, a fim de ver se caiu algum correio na caixa postal. Lembro-me de como recebíamos com emoção cartas de vários pontos do mundo, celebrando cada resposta, fosse ela de instituições ou de pessoas singulares, as quais considerávamos automaticamente nossas amigas. Prazer igual não nos dará jamais a sua amante Internet.

E não era só isso. Quando você me falou de táxis que levam porta à porta ali na sua Europa, lembrei-me que aqui também já temos serviços do género – é claro, sem gravata nem ar condicionado. Mas táxis mesmo, meu caro primo, com forte componente envolvente contam-se aos dedos e já não se fazem como antigamente.
 
Lembro-me bem da tua cara de adolescente emocionado cada vez que apanhássemos os nossos Kalumba-Catumbela, viaturas que marcaram a história socio-económica da província de Benguela. Estás a ver as Peugeot’s do Passos, do Chiquinho da barba branca na via da Baia Farta? E as Bedford’s então de João Vazio, do Liambandino (Diamantino), do velho Mussungo, Sr. Vieira do Bairro da Luz, velho Chico Queima-Vela (que buscava frutas em Muhaningo no Dombe-Grande), e o Pangulula com a sua Chevrolet “verde sem cor”.

Pode dizer que a idade avançada dos veículos terá contribuído para vários acidentes, mas não nega que acidentam também carros que nem chegam a tirar a rodagem ou pagar o crédito. Crescemos, sim, nos candongueiros que travavam com água de sabão, e não me venhas com essa dos airbags, que te vou lembrar do Sambapito, a Bedford verde cabina avançada sem pára-brisas, cuja buzina era um apito germânico que o motorista trazia à boca o dia todo. Veículos que, não fosse a distracção dos investigadores, mereciam entrar para o Guiness, o livro dos records.

Já agora, deixa dizer que dentro de uma hora estarei a lamber selos nos Correios para colá-los no envelope, milímetros acima do teu endereço. E não precisarei do serviço expresso nem registado, porque a rapidez de que te gabas nos teus e-mails e chats, também acompanha os serviços de correio postal. Dentro de uma semana receberás a carta, de punho próprio, no teu apartado.

A “tua” Internet e o avanço das tecnologias de informação e comunicação, chegados ao alcance de uma sociedade consumista e escrava da moda, vão “destruindo” práticas como a correspondência que, para além da utilidade objectiva de promover a comunicação, também permitia o aperfeiçoamento da arte de redigir uma carta e da caligrafia. Com tristeza, ao passar pelos correios da Catumbela, do Velho Tchimuco (já falecido), o cenário é de muitas caixas postais encerradas. A Catumbela, primo, hoje já não corresponde...!
Gociante Patissa (Outubro/2007, In Boletim "A Voz do Olho", projecto informativo, educativo e cultural da AJS-Associação juvenil para a Solidariedade, ONG, no Lobito)