PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sociedade civil está de luto: morreu Abílio Xavier, um exemplo de batalhador que se destaca pela causa de pessoas com deficiência

Foi com bastante dor que o blog Angodebates tomou conhecimento da morte de Abílio Xavier "pai Abílio", ocorrida na manhã de hoje, 28/06, na república da Namíbia, onde se encontrava há alguns dias em tratamento médico. Estão em curso os procedimentos necessários para que seja enterrado na província de Benguela. Neste momento de consternação, desejamos à sua família, amigos e à sociedade civil a nossa solidariedade. Gociante Patissa
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A rubrica “Nossa Homenagem - um reconhecimento às pessoas pelo seu exemplo de sucesso”, emitida a 17/02/2009, trouxe a história de um batalhador que se destaca pela integração social de pessoas com deficiência. Aos trinta e sete anos, Abílio Xavier, que tem paralisia dos membros inferiores, é chefe de família e representante de Organização Não Governamental.

«Eu nasci bem, adquiri a paralisia por causa da polio[mielite] aos dois anos. E desde que me conheci homem, então já convivi com deficiência», contou.

Mesmo havendo uma escola no seu bairro, Abílio só iniciou os estudos depois de completar dez anos. E explica: «Havia a dificuldade de ter alguém que pudesse apoiar, levar às costas até à escola. Então, aos dez anos, tive a felicidade de ter um triciclo. E com esse triciclo comecei a estudar. Mas infelizmente, depois de concluir essa fase do primário, já com as intenções de continuar o segundo nível, esse triciclo estraga. Foram mais uns dois (ou três) anos que tive de parar de estudar, até que conseguisse um outro».

Abílio não se esquece dos primeiros triciclos. «O primeiro triciclo, conseguimos por intermédio da Igreja Católica. Havia o padre António, e por intermédio dele conseguimos esse triciclo; o segundo, já foi a comprar. Mas, naquela altura, não existiam tantos quanto hoje», recordou.

Feito o ensino médio, Abílio queria frequentar a escola de professores do futuro, quando voltasse das férias. Foi nessa altura que, em Luanda, conheceu a (ONG angolana) Lardef - Liga de Apoio à (Re)Integração dos Deficientes. O regresso acabou por não acontecer. E, passado algum tempo, Abílio conheceu a vizinha, que hoje é sua esposa, e têm duas filhas. «Finais de 99, nos conhecemos porque morávamos na mesma rua. Éramos amigos e, depois, alguma coisa mais foi crescendo além dessa amizade», confessou.

No princípio, familiares da moça manifestaram rejeição, uma vez que o pretendente anda numa cadeira de rodas. E o casal teve que resistir para salvar a relação. «A luta maior existiu da parte dela, porque eram os seus familiares a tentarem romper com aquele relacionamento que nós tínhamos. Mas existiu uma força tenaz da parte dela para tentar contrapor aquela que era a vontade dos familiares em tentar separar aquela relação».

Fruto do seu empenho, Abílio Xavier, que entrou na Lardef como colaborador, fez história. Foi indicado para abrir a representação da província de Benguela. «Desde Fevereiro de 2004 viemos parar em Benguela. Primeiro, com um projecto que denominamos Dignidade. Porque havia a necessidade de expandirmos a Organização e, por meio desse projecto, haveria actividades a serem realizadas em Benguela até que encontrássemos objectivos concretos de se trabalhar cá».

Com isso surgiu um constrangimento. Abílio Xavier, que já andava no segundo ano da Universidade Agostinho Neto, viria interromper os estudos outra vez. «Posto em Benguela, infelizmente, as condições do núcleo de Direito não favorecem. Então, estou parado desde 2004», lamentou.

Palavras, como inserção social, advocacia, deficiência, discriminação, leis, acessibilidade, exclusão, tabu, e convivência, fazem parte do dia-a-dia de quem abraçou a causa. A mudança é um processo longo e complexo, mas Abílio indica já algo a ter em conta.

«O que queríamos agora levantar como positivo é, por exemplo, a questão de algumas pessoas estarem a perceber a necessidade de começar essa relação como relação de indivíduos que não têm diferença nenhuma. Isso é positivo e começa a dar às pessoas uma certa ousadia em querer afirmar-se na sociedade. Depois, há a questão de indivíduos que estão a estudar e defender teses, a mostrar que pessoas com deficiência podem defender teses», realçou.

Será que alguma vez pensou em desistir? «Nunca! Desde cedo, e aqui para tentar agradecer os pais – disse – que tenho, desde cedo, eles cultivaram que o homem tem que ser feito estudando», revelou Abílio Xavier, que hoje mora no bairro do Kioxe, em Benguela.
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Recorde-se que a rubrica “Nossa Homenagem” é oferta do programa de mesa redonda radiofónica, “Viver para Vencer”, uma produção da ONG angolana Associação Juvenil para a Solidariedade (AJS), às terças-feiras, das 17-18h30, através da Rádio Morena Comercial (97.5FM), cobrindo as cidades de Lobito, Benguela e Baia Farta.
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AJS – “A Cidadania é Resultado de um Exercício Permanente de Educação e Comunicação”.

domingo, 27 de junho de 2010

Para debate: "Uma estranha obsessão oficial pelo kuduro" - artigo de opinião do jornalista Ismael Mateus

Ouvindo-se a música de Teta Lando, Elias Dia Kimuezu, Rui Mingas ou de Artur Nunes, para apenas citar estes, abre-se em nós, claramente, o limite, a fronteira entre as músicas chamadas de clássicos e as outras chamadas de descartáveis. Por muito tempo que passe, os clássicos continuam a ser admirados, ouvidos e reouvidos. É arte musical. É uma cultura representa-da e representativa naqueles três a cinco minutos. 

Não encontramos nada disso na música descartável. Aliás, a música descartável é unicamente sinónimo de sucesso e dinheiro. Consome-se enquanto não aparece outra. Entendemos que to-dos tenham o direito a procurar, a querer e a lutar pelo sucesso imediato porque ele é sinónimo de dinheiro e fama.

Exactamente por ser assim, é dever do Estado, através da entidades que representam a cultura nacional e dos órgãos que a divulgam, separar o trigo do joio e não confundir o bom com o que é amplamente consumido, nem o mau com o que não é comercial. Temos assistido a manifesta-ções particulares de apoio ao ku-duro feitas por figuras do Estado e de grande representação politi-ca nacional. Não há, obviamente, nada contra isso. Cada um gosta e ouve o que quiser.

Temos, porém, já mais reservas quando começamos a ouvir tantas pala-vras oficiais de incentivo a esse género musical. A comissária de Angola na Expo Shangai, Albina Assis, fez um rasgado elogio ao kuduro como música angolana do momento, justificando a opção de o levado àquele palco de amostra da cultura angolana. O adido cultural de Angola no Bra-sil idem aspas ,falando do que realmente mais ‹‹se vende›› de música angolana naquele país. Temos também assistido a uma certa cumplicidade ‹‹oficial›› do ministério da Cultura, de críticos e sobretudo dos canais de televisão do Estado. O ‹‹Sempre a subir››, de Sebem, tem mais espaço no Canal 2 da TPA que qualquer outro programa musi-cal.

De resto, é o único programa com direito a transmissão e re-transmissão na TPA Internacio-nal. O kuduro também já che-gou aos programas de línguas nacionais, que eram redutos da música tradicional e de raiz. Há um ‹‹abre alas nacional e oficial›› ao kuduro que é absolutamente revoltante e bacoco. Começa a ser frustrante e assustadora essa obsessão nacional pelo kuduro. Não há aqui nenhum saudo-ismo nem conservadorismo. Os tempos são novos e a juventude tem grande criatividade. Porém, deveríamos todos ter mais serenidade, mais respeito até por nós mesmos, pela nossa cultura, antes de elevarmos à ‹‹música nacional›› um género absoluta-mente descartável. 


Nada impede que amanhã o kuduro possa vir a ser o género mais representativo da música angolana. Um caminho desse tem de ser feito com tempo, com paciência e, sobretudo, com trabalho, muito trabalho, dos músicos e artistas. O imediatismo do kuduro e toda a sua estrutura, a melodia, o tex-to e as vozes são demasiado pré- fabricados e improvisados para que alguém o eleve já a tão alto estatuto. Na maior parte dos ca-sos, com todo o respeito por pro-fissionais bem localizados, ainda nem sequer é música.

Claro que vimos criticando a imprensa audiovisual pela pro-moção desmedida ao kuduro. Como os próprios kuduristas, as rádios e os canais de televi-são que se renderam ao kuduro buscam apenas o interesse co-mercial imediato, como se fosse uma música do tipo fast food, take away. Não temos dúvidas de que o kuduro é antes de mais um produto da mídia e das casas nocturnas. Talvez seja até mais um produto social do que cultu-ral, o que não impede que o ve-nha a ser. É um modismo. Já foi assim com a chamada kizomba. Afinal não acabou com o semba e, pelo contrário, já está em ex-tinção, tanto no número de auto-res que a cantam como de músi-cas que se fazem.

Como todos os modismos, o kuduro vai passar e dentro de alguns anos já nin-guém se lembrará de alguns dos nomes mais vibrantes de hoje ou então, também pode aconte- cer, se irá transformar em algo sólido, mais trabalhado, mais consistente do ponto de vista artístico. Aqui começa a irresponsabilidade nacional quando entidades oficiais, com responsabilidades culturais no país, se rendem ao kuduro como se ele fosse uma produção artística, o que não é, e, pior, como se ele fosse já um digno representante da nossa cultura, o que também não é. Somos muito mais do que uns gritos ao microfone, uns acordes de sintetizador e uns coros desafinados. Valemos muito mais do que isso e temos mais riqueza cultural do que isso.

Não sejamos ingénuos: quanto mais o público nos candongueiros, nas discotecas e nas festas aceitar que esse tipo de música entre em suas casas, mais jovens vão aparecer todos os dias a fabricar novas ‹‹relíquias››. Talvez seja mais uma questão social de afirmação e de diálogo juvenil com a sociedade do que propriamente um projecto cultural como hoje se pretende fazer crer. Quanto mais jovens aparecerem mais uma determinada mídia divulgará, promoverá esses produtos descartáveis.

Quanto mais tempo se der a essas músicas menos espaço haverá para outros géneros, agora transferidos para a segunda divisão. É um completo absurdo! Alguém tem de ter a lucidez de promover mais o Vozes do Semba ou criar espaços para outros géneros esquecidos do nosso país, antes de nos ‹injectarem essas doses exageradas de kuduro, que, na verdade, só está na crista da onda, não porque é bom, mas porque dá ‹‹Money›› para os bolsos dos ‹‹empresários›› e produtores de CDs caseiros. A verdade é que essa opção pelo kuduro, ao invés de géneros genuinamente representativos e arraigados em nós, empobrece a música angolana.

O Estado, que se deveria bater para promover o kilapanga, o semba, a mbuenzena ou a tchianda, prefere entrar na onda e embarcar no imediatismo do que se vende. O kuduro faz agora parte das comitivas oficiais, o que dá de nós e da nossa música uma visão de absoluta decadência. Trata-se de uma decadência aparente porque ela não é real, mas apenas o que nós mesmos estamos a dar a ver. Quando olhamos para o esforço que muito jovens estão a empreender cantando géneros da cultura angolana, quando ouvimos Os Ndengues do Kota Duro, Os Makambas, Vozes do Nambua, Sassa Tchockues, Duo Canhoto e toda essa riqueza melódica que temos, não podemos senão admitir que essa imagem de decadência que se leva ao mundo com o kuduro não é real. Só deveria engajar quem a promove lá fora. Infelizmente não é assim.

Passamos todos por ser do país do kuduro. Os do kuduro. Temos Bonga Kuenda, Yuri da Cunha, Paulo Flores, Dodó Miranda, Wyza ou o grande Gabriel Tchiema, cuja música tem hoje possibilidades reais de internacionalização, e vemos, com tristeza, uma capitulação ao kuduro. Não tarda, para vender e para agradar as autoridades oficiais, esses músicos terão eles próprios também de capitular face ao kuduro, se é que ainda não o estão a fazer. É tudo demasiado louco, num país com tanta riqueza musical. 

Quando nos referimos à falta de representatividade do kuduro queremos significar, específicamente, que ele não serve de elemento constituinte básico para a formação de uma unidade nacional. É uma expressão cultural que não nos oferece uma memória a ser compartilhada nem símbolos capazes de produzir um eficiente nível de coesão social. Temos casos da música mundial em que grande géneros de hoje começaram por ter exactamente os mesmos problemas e a mesma origem marginal que o kuduro e por isso não seria nada de novo se entre nós houvesse uma evoluçao de algo sem memória para um produto que vá ganhando gradualmente um substrato nacional. Nesses casos foi preciso trabalho, tempo, profissionalismo e integra- çao de valores.

O problema é que neste momento, e estamos a falar apenas dos dias de hoje, o kuduro não se consolidou o bastante para ter o estatuto que se lhe quer dar como género musical superior, representativo e que quase homogeneiza a nossa estrutura musical, se é que existe uma única como tal. Mais do que os receios da entronização do semba como símbolo único da música angolana, estamos hoje perante algo maior que é a vulgarização consumista da música angolana. Sentimos nas estações públicas de rádio e de televisão e nos meios de decisao oficial uma tendência para o descompromisso com a cultura angolana, o que nos deixa verdadeiramente preocupados.

Mais valia sermos vistos como o país do semba – o que também é errado – do que como o país do kuduro – o que sendo, é verdade, não dá de nós uma ideia e uma imagen de povo com cultura própria, com expressão musical articulada e coerente. Pelo kuduro passamos apenas a ser um povo de vulgares consumidores de hamburguers musicais. 
In http://semanario-angolense.com/home/semanario_angolense_373.pdf

quarta-feira, 23 de junho de 2010

(Arquivo 2009) Crónicas da nossa Terra: "Uma vida sem vizinhos?"

Quem tem alguma vivência na periferia, juro mesmo!, entenderia as razões do Ferramenta, que decidiu levar uma vida sem vizinhos.

Estão já a ver aqueles que montam uma parada num ponto estratégico do caminho, só para saberem do que se passa na casa dum gajo, né?! Já não falo de quando o vizinho decide o fim-de-semana todo curtir músicas com o volume acima do máximo, como se o barulho do gerador fosse pouco. Bom, se calhar até não têm culpa, quem fabricou o aparelho foi o chinês, e batidas como Kú-duro são insossas quando o volume está “sóbrio”.

Vizinha, como uma que tive, de aconselhar os filhos em tom de comício, faria qualquer um usar protectores auriculares, mas (todos os dias?) seria maçada. Por isso mesmo é que dou razão ao Ferramenta, na ideia de ir viver o mais longe possível, por ora não importa se no final deste relato ele vai ter um problema maior. Aliás, sobre o factor vizinho já se falou muito: ora vizinho é melhor que família, ora só é bom quando não atravessa o muro.

Será que se pode dizer que, no Éden, o Adão e a Eva eram vizinhos? Deixa p’ra lá, até porque é um daqueles temas de debate eterno. Já alimentou romances, canções, produções de TV e, infelizmente, também tribunais, e por aí fora. É regra estarem em causa o conflito, o boato, o corno, etc. «Eu namoro qualquer homem que me pedir, porque não fui chamar ninguém», desafiava uma vizinha aos ataques ciumentos de uma tia minha. Não teríamos mais paz vivendo sem vizinhos? Você já pensou nisso algum dia?

Voltemos, que já é tempo!, ao caso específico do compatriota Ferramenta, que certo dia resolveu realizar um sonho antigo: o de livrar-se dos vizinhos. Mas como? Foi na procura desta resposta que se dedicou a trabalhar duro, como burro mesmo digamos, economizando milagrosamente o pouco que conseguiu ganhar durante mais de quinze anos. Assim, a esposa só tinha que ir ao salão para tratar da beleza – evitando os dedos da vizinha, que ganhava mais um mexerico por cada trança; os filhos tinham computadores, telemóveis, Internet, e todo um aparato possível para fazerem amigos sem precisar do entra e sai da vizinhança; reuniu todo o equipamento de limpeza e higiene possível, deixando para sempre as campanhas de limpeza. Enfim, tudo para se considerar uma ilha que se bastasse a si própria.

Que não seja possível escolher familiares que gostaríamos de ter, isso é algo com que temos de nos conformar. Cada um nasce e assume os restantes graus de parentesco, como o manda a lei da árvore da genealógica… e não há como escapar. Mas nada mais o irritava do que as refeições atrasadas porque a esposa foi bater um papo, ou a “profanação” do lar pelos filhos da casa ao lado.

Uma vez reunidas as condições, foi ao deserto viver numa casa projectada no isolamento, como sempre quis – sem vizinhos! A distância era por aí de quinze quilómetros do seu antigo bairro. Deleitavam-se observando a variedade de bichos. A vida tinha melhorado (e de que maneira!). Afinal, quem é que não gosta de sossego?! Viviam uma paz quase perfeita, – quase perfeita, atenção! – até ocorrer um fenómeno que virou a vida deles ao avesso. Assim do nada, viram o seu lar invadido por antigos vizinhos, numa onda terrível de violência. Nem mesmo os quinze quilómetros de deserto foram suficientes para os amainar.

Tudo, porque uma águia, que sobrevoava o antigo bairro, resolveu roubar um bebé, fino como boneca de natal, que descansava ao pé da árvore. Informados de tão raro fenómeno, os mais robustos moradores da aldeia decidiram seguir a ave, que os benfiquistas por acaso veneram. Um tempo depois, e já cansada, a águia larga a presa. Só que – coisas do destino – o bebé foi pousar (são) exactamente na nova casa do senhor Ferramenta.

«Pois então!… (indignaram-se os antigos vizinhos ao chegarem) mudaste de bairro, mais é, para roubares os bebés dos outros, usando águias? Seu feiticeiro do raio!»

Pouco tempo teve para se defender, ele que já não podia contar com a ajuda de vizinhos, obviamente porque não os tinha. Já foi dito que a comitiva de perseguição à águia era constituída pelos mais robustos homens da aldeia, que distava quinze quilómetros. Logo, gritar por socorro era em vão. Uma surra de quebrar ossos. Sobre ele pesava – e ao que parece para sempre pesará – a acusação, melhor dizer condenação, de o isolamento ser só um jeito de roubar recém-nascidos. O grande desafio é convencer a sociedade do contrário, já que… quem é que em sã consciência acredita numa vida sem vizinhos?

Voltando à vida real: há que restaurar os padrões básicos de convivência para evitarmos medidas extremas nos relacionamentos. É que, nesta ou noutra encarnação, seremos sempre vizinhos de alguém.

Adaptação da parábola contada por um pregador adventista, por Gociante Patissa

terça-feira, 22 de junho de 2010

Intenção de Conto: “Outra Vez o Sol” (*)


Ao terceiro soar do sino, os habitantes todos da Casa de Passagem dos Assuntos Sociais foram ter ao pátio. Logo formaram duas filas em arco para ouvir o que o líder tinha a anunciar.
— Família! Com a permissão da enfermeira, incumbe-me anunciar a chegada de um conterra, que precisará da nossa camaradagem na recuperação.
Nesse instante, Veremos descia do tractor dos Assuntos Sociais, titubeando no manejo das muletas. A recuperação era surpreendente e visivelmente enchia de orgulho o corpo médico. Todavia, costumam ser dois os principais choques de um recém-amputado de membros inferiores: um, a dor de não ter feito diferente no momento que antecedeu o acidente e, outro, depender das muletas. Os demais observavam-no com empatia, cada qual revivendo o que custou a primeira vez em que voltou a estar de pé. Sentiam a dor dele, mas era contra os princípios ajudá-lo a se erguer. Não fazer pelo outro o que ele pode sozinho cura a dependência. Inesperadamente, a enfermeira aproximou-se para ajudar, carregando a trouxa de Veremos. E o Chefe da Casa prosseguiu:
— Chama-se António Veremos. Foi vitimado por uma mina. Só conta connosco nesta vida. Cada um aqui sabe como custa viver outra vez. Enquanto espera pelo cartão de dotação alimentar, entrará na nossa panela. Tenho dito e vos aguardo na familiarização com o conterra, após o jantar! 
— Assim seja! — responderam em coro e voltaram aos seus afazeres.

Veremos deu uma volta à casa e desenrascou uma canção:

Ainda ontem
inalei madrugada
já hoje
ar condicionado somente
Oh, que puta sobrevivência!

nota fúnebre:
Estou de volta
se a vida ainda me quiser

Ainda no primeiro dia, Veremos absorveu o espírito solidário da Casa do Deficiente, como era comummente chamada. Pessoas de várias origens, idades e histórias de vida, mas com algo em comum: a deficiência, marcas da guerra. Todos eram automaticamente uma só família. Bom, isso era uma coisa (pondo de parte os eufemismos), bem diferente de suportar tanta gente num armazém sem paredes. O fim da tarde era o mais infernal, com tantos gritos de gente possuída pelo álcool. Só de homens, contavam-se vinte, metade destes com mulheres e três filhos em média. Lamento de mutilado depaupera quando é repetitivo, pior ainda para um recém-chegado.
Apesar do nome, a casa não era forçosamente de passagem. O Chefe, por exemplo, a quem cabia acomodar os novatos, residia ali havia mais de dez anos e não tinha pretensões de sair. Os Assuntos Sociais davam dotação alimentar mensal, que por sua vez acabava antes do dia 30.
Na segunda semana, o Chefe da Casa chamou António Veremos para a segunda etapa da recepção. Esclareceu que a dotação era insuficiente. Cada cabeça recebia cinco quilos de fuba, um de sal, dois de açúcar, três de feijão, um litro de óleo, dez tábuas de peixe seco e uma barra de sabão. Por isso, era indispensável ir à rua pedir esmola.
— Aqui, família, somos caçadores de caridade. — disse-lhe o Chefe da Casa. — Como os calos das muletas já saíram, vais começar comigo.
— Ok, conterra. — concordou Veremos, tomado subitamente pela memória dos tempos de próspero empresário da FBI. Certa vez, e já na defensiva ante o jogral de mendigos à porta da pastelaria, só depois de dizer «não tenho nada!», notou que ainda nada lhe haviam pedido. — Então, mas os que têm ofício já tentaram procurar emprego?
— Ó família, a bicha do emprego é longa, quase não anda, e o mutilado se cansa de tanto tempo de pé numa só perna.
— Por isso, parente, a qualquer gajo que me pedisse opinião, sei bem o que diria. E é há muito que o sei: um “NÃO!”, que a guerra é a maior porcaria.

António Veremos revelava-se desajeitado com a caça de esmola. Dir-se-ia que era muito distraído, levando, por consequência, o dobro do tempo habitual para aprender a bumbar sem supervisão. Uma vez superada esta etapa, surgia outra tensão entre o aprendiz e o instrutor. Veremos abandonava frequentemente a labuta antes do pôr-do-sol, que era a fértil hora dos funcionários voltarem do serviço. O Chefe acreditava que a crise seria passageira, mas estava enganado.
— Ó família, o quê que se passa contigo afinal?
— Fiquei cansado, essa merda de muletas dão cabo dum gajo…
— Desculpa, mas isso é mentira! Tu achas que não sou mutilado, também não passei pelo que estás a passar?! Tu não és criança, o trabalho dignifica o homem, pá!

Entretanto, António Veremos não mudava. Já não era apenas a questão de abandonar cedo o posto de esmola, passou mesmo a não pôr lá os pés. Tornou-se algo misterioso. Saía de manhã e regressava à noitinha.
Cansado dos raspanetes do Chefe da Casa, Veremos contou-lhe a história de Rita, sua fulminante paixão, que deixou de ver na viagem do acidente em que ele perdera a perna. Estaria morta? Teria recebido alta e regressado a Luanda? Era a procurá-la que passava o dia espreitando em salas hospitalares e postos médicos. O relato veio a terminar num ambiente gélido face à reacção do companheiro:
— Porra, pá! Deixas de bumbar para ir atrás duma puta, que não se importou contigo?! Se é sexo, há mulher na casa, mas com kumbú na mão.
— Epa!, calma ali! Primeiro, puta é a tua avó! Segundo, você não sabe se ela está morta ou não! Quem és tu, ó cara do caralho?!
— Eu te recebi pensando que és homem! Não posso é sustentar um preguiçoso, que se comporta como adolescente e não produz…
— Chefe, vais p’ra’puta que te pariu! Eu também já fui alguém, ouviste?! Nem tu nem ninguém decide, se procuro a minha mulher ou não!

O Chefe da Casa ainda foi a tempo de dizer que «o passado só valeu a pena se não nos impede de continuar a viver». Mas será que foi ouvido? Veremos recolheu os haveres e instalou-se nos escombros do Mercado. Solitário, mas independente, como gostava, como sempre viveu. Continuou procurando pela mulher, mas esbarrava sempre na mesma pergunta: «Rita de quê?». E, infelizmente, ele desconhecia o sobrenome.
Passou a esconder-se no copo, bebendo muito, e quase sempre, comendo pouco, e de vez em quando. E não demorou muito para ser acometido por uma tuberculose. Achando terreno fértil no sistema imunológico de Veremos, a doença deixou-o assustadoramente escanzelado. A dada altura, ele cheirava a morte. E convenceu-se de ter somente uma saída para continuar a viver. Então, regressou à Casa de Passagem, por menos que gostasse da ideia de ser rejeitado pela ex-família.
Ao vê-lo chegar, o Chefe abandonou o que fazia e estendeu o abraço:
— Meu, camarada! Quê que está a te matar?
— Parente, desculpa, errei…!
— Oh, família, eu também agi mal… Somos conterras, fodidos pela mesma guerra. Tu és aleijado, sobrevivente como eu, custe o que custar!

Abraçaram-se militarmente e chamaram o tractor, que os levou à consulta no dispensário dos padres. No mesmo dia, Veremos iniciou o tratamento. Estava garantido o princípio da cura. Brilhava outra vez o sol.

Gociante Patissa, Lobito, 31 de Dezembro de 2009

(*) Capítulo nº 6, do projecto de romance (?) “António Veremos, O Veterano” (na forja). Quatro capítulos (cada com título próprio e apresentado como conto) do tal projecto fazem parte de uma antologia em fase avançada, cujos detalhes editoriais revelarei a seu tempo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Disse a minha mão

Disse a minha mão que escrevêssemos
porque escrevendo
ou falaríamos como ricos
ou ouviríamos como pobres
ou vice-versa

Disse a minha mão que escrevêssemos
porque escrevendo
ou abrimos o poço no deserto
ou o nosso tutano partilhamos

Disse a minha mão que escrevêssemos
porque escrevendo advogamos
seremos o bálsamo
para milhares de vozes
de almas e gestações farejando pingos de luzes

Gociante Patissa

In, Consulado do Vazio (KAT-Consultoria e empreendimentos,Benguela, Maio 2008), pag 24

sexta-feira, 18 de junho de 2010

«E se a morte deixasse de matar?», ó José Saramago

O maior, o mais internacional, o mais militante, o mais polémico dos escritores portugueses - qualificativos não faltarão aos "media" para noticiar a morte de José Saramago, hoje, aos 87 anos. Concorde-se ou não com eles, já em vida foram estes os "títulos" mais correntemente utilizados em referência ao escritor desde que se tornou conhecido na praça literária - o que aconteceu tarde, como a simples consulta da sua biografia permitirá concluir.
(Raúl Malaquias Marques, Fonte: Lusa+Club-k http://club-k-angola.com/index.php/component/content/article/30-destaques/5386-morreu-saramago)

O Blog Angodebates toma a liberdade de partilhar com os seus leitores e amigos uma entrevista de Saramago, publicada recentemente no site da União dos Escritores Angolanos (http://www.ueangola.com/index.php/entrevistas/item/713-josé-saramago-até-agora-nunca-escrevi-nenhum-livro-mau.html)

José Saramago - "Até agora nunca escrevi nenhum livro mau..."

E se a morte deixasse de matar? Este o ponto de partida do último romance do Nobel português. Chama-se 'As Intermitências da Morte' e já é um 'best-seller'

Começando pela ideia, que é por onde tudo começa nos seus livros...

Sim, como a história que se conta do Newton, quando lhe caiu uma maçã na cabeça nasceu a Lei da Gravitação Universal. De cada vez que acabo um livro fico simplesmente esperando que aconteça outra ideia… Podem passar-se semanas, mas também meses. Tenho tido sorte. As ideias têm aparecido quando são necessárias. Acabo um livro e não tenho qualquer ideia para outro. Espero-a.

Essa espera angustia-o?

Não. Claro que a preocupação está cá, mas não a alimento. Talvez porque me tenha habituado a que, mais tarde ou mais cedo, chegue uma nova ideia. Um dia destes tenho uma desilusão tremenda.

E qual é a história da ideia que está na origem do livro suspender a morte?

Eu estava a ler um livro de Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Lauridis Brigge, e há um momento em que ele fala da morte de uma pessoa. São páginas extraordinárias! Foi então que me ocorreu a tal ideia. Mas não foi "E se a morte deixasse de matar?" A ideia inicial era outra: "E se a morte não conseguisse matar uma certa pessoa?" Essa acabou por ser deslocada para o final. O embrião é, afinal, o fim.

Nesta história, encetou um discurso irónico, que em si é novo.

Sim. Quando se fala de um livro sobre a morte, parte-se da ideia de que vai ser um livro sério. Era uma opção, escrever um livro tenebroso. A outra é dizer não vale a pena dramatizar o que já de si é dramático, então vamos imaginar uma situação em que, falando-se da morte, no fundo do que se tratará é da vida. A morte não existe fora de nós.

Rainer Maria Rilke forneceu-lhe a ideia e Proust deu-lhe o título?

Habituei-me a escrever já com um título e chamei-lhe O Sorriso da Morte, apesar de não gostar, consciente de que se tratava de algo provisório e também pela ironia que sabia que iria usar. E, porque o que a morte me diz é intermitente, mais tarde recordei que Proust, em La Recherche..., fala das intermitências do amor. Que o amor seja intermitente parece que é uma experiência de todos nós. Agora que a morte o seja... Porque gastamos tanto tempo a perguntar o que há além da vida? Se nos interrogássemos sobre o que realmente se está a passar aqui na vida, no tempo que nos calhou.

É a grande questão?

Sim. É disso que se fala. No livro, o primeiro-ministro põe essa questão se isto continua assim como é que vamos pagar as pensões.

Essa é apenas uma das muitas questões concretas que se colocam quando a morte deixa de matar. Nesse exercício, quase ensaístico, fala dos "pantanosos terrenos da realpolitik".

A expressão é aplicada no sentido do pragmatismo absoluto, excluindo questões de princípios e atendendo apenas ao que convém a cada momento. Portanto, subindo e descendo, oscilando, segundo a maré. Mas pode ser entendido de maneira extrema, como é o caso. Para cumprir determinado fim, o Estado não hesita em fazer um acordo com a "máphia" com ph, mas não deixa de ser máfia por isso.

É a morte a jogar o seu jogo, o que por sua vez justifica um jogo de palavras?

É. Escrever "máphia" com ph deu--me um certo gozo. É um anacronismo. Não sei como é que as traduções vão resolver a questão. Provavelmente não podem. Por exemplo, em alemão os substantivos escrevem-se com letras maiúsculas. Eu andei a pôr os nomes das pessoas com minúsculas, tudo minúsculo. Para manterem essa lógica, teriam de transgredir as suas próprias regras. Não creio que o tradutor esteja disposto a isso porque não seria compreendido, mesmo que explicasse que seguia o original. Nem sei se a questão de traduzir o título para alemão já está resolvida.

Então?

Eles usam a expressão "luz intermitente", mas não têm uma forma para dizer As Intermitências da Morte. Pelos vistos o português é muito mais rico em cambiantes e nuances. A nossa língua tem uma plasticidade que algumas vezes falta a outras e que permite jogos…

Os tais jogos que lhe deram prazer jogar neste livro?

Deram. Foi um livro escrito com alegria. Falar da morte e dizer que o fiz com alegria… É uma alegria que vem não só pelo tom irónico, sarcástico às vezes, divertido, mas também porque é como se me sentisse superior à morte dizendo-lhe "Estou a brincar contigo."

A ironia com que trata a morte é a mesma que usa para retratar a velhice, mas aí há mais de amargura. A velhice inquieta-o?

Bom, eu sou um velho. Mesmo com a esperança de vida de cem anos, e estamos muito longe disso, eu sou um velho.

Acha que o olham como um velho?

Não só as pessoas não me olham como um velho como eu não me sinto velho. Mas tenho a lucidez suficiente para ver que, com 83 anos, sou realmente um velho. Um velho que se mantém bem e que trabalha. Isso dá-me a impressão falsa de que nada do que escrevi sobre a velhice tem que ver comigo.

É distância da velhice do outro tal como a morte é a morte do outro...

Sim, a morte do outro é lógica e natural e necessária. A nossa própria morte é uma injustiça tremenda, uma partida que nos pregam. É como se eu, por não me sentir velho, não o fosse e pensar que nada do que vem de negativo com a velhice me pudesse tocar. É uma estupidez minha, porque chegará o momento em que tudo isso me tocará. Às vezes solto uma frase um pouco pretensiosa. Quando me perguntam como me sinto, digo "Quanto mais velho mais livre e quanto mais livre mais radical." Aplicado ao meu caso isto é certo, mas dizer quanto mais velho mais livre é absurdo, porque a velhice diminui, retira, anula e, com tudo isto, tira liberdade. A não ser que tomemos aqui a velhice, como se costuma dizer, como um sinal de sabedoria. Aí, é como se eu me fosse tornando mais sábio e consequentemente mais livre devido a essa sabedoria, e não pela velhice. E quanto mais livre mais radical. Isso sim, gosto de ser.

Na que se pode considerar a segunda parte do livro, a morte passa a avisar quando vem, escrevendo uma carta.

É uma partida diabólica. Mas a morte fez isso com boa intenção. Ela achou que era uma brutalidade fazer com que as pessoas morressem quando estavam com saúde e felizes e que o melhor seria avisar. Acaba por reconhecer que se equivocou uma vez mais. Primeiro, quando renunciou a matar. Depois, quando pretendeu remendar a situação e dizer "Vou regressar, e para que não me acusem de abusadora passarei a avisar." É pior a emenda, porque essas pessoas passam a estar no corredor da morte.

Faz, depois, um exercício onde tenta esgotar as várias possibilidades de reagir ao comunicado mortal.

Sim. Tudo pode acontecer reconciliar-se com o irmão com quem cortou relações, fazer testamentos, pagar impostos em dívida, ou dedicar os últimos dias a uma orgia de álcool e sexo.

Como acha que reagiria ao ser o destinatário de uma tal missiva?

Não sei. Álcool não, porque nunca fui dado a isso e não veria aí satisfação. No sexo sim, enquanto me fosse possível. Acho que o sexo é a única coisa verdadeiramente possível, ou melhor, é a única coisa que verdadeiramente não é impossível. Uma relação sexual pode existir em qualquer momento ou em qualquer idade, nem que não se concretize pela penetração física de um corpo no outro. O sexo não se limita a isso. Iria tentar viver esses dias em paz, procurar aquilo a que chamamos paz interior, que não seria nunca resignação. Seria a aceitação do facto. E tendo por companhia a minha mulher. Oito dias para se despedir são oito vezes em que o Sol nasce e em que o Sol se põe, oito dias para viver com as pessoas, olhar as árvores, respirar o ar. É uma eternidade, um tempo acrescentado à vida.

Um pouco como acontece com o violoncelista?

Sim, que já devia estar morto e não sabia. Estava vivo num tempo que, em princípio, não lhe pertencia. Mas quando a morte diz "Você morre daqui a oito dias, no fundo já o está a matar nesse momento." Aí, é o princípio da morte.

Acha que o fim da morte é o fim da ideia de Deus?

Creio que sim. Seria horrível se fôssemos imortais nesta vida. O tempo não pára e estaríamos condenados a uma velhice eterna que é a pior coisa que poderia suceder. Com a morte, prometem-nos a vida eterna numa outra vida e a Igreja, nesse caso, diz-nos que ficaremos a contemplar a face do Senhor. Parece-me que ficar a contemplar a face do Senhor para toda a eternidade é um bocado forte.

Até porque não acredita no Senhor...

No Senhor, como Deus, realmente não acredito. Em mim, tudo rejeita sequer a possibilidade dialéctica ou retórica da existência de um Deus porque eu não saberia onde colocá-lo. Há uma pergunta que parece que não é costume fazer-se mas que deve ser feita e para que é que Deus haveria de querer criar um universo? Qual era o objectivo de Deus criando o universo tal como ele é? É uma questão inicial.

No livro, porque escolheu a Suite n.º 6 de Bach para despedida?

Porque gosto e porque são suites para violoncelo solo. Quando era muito mais novo, comecei a estudar música na Academia dos Amadores de Música com a ideia de vir a tocar violoncelo. Nunca lhe pus as mãos em cima, mas sempre me ficou essa vontade por se tratar de um instrumento cujo som mais se aproxima da voz humana. (Pausa). No princípio do último andamento da Nona Sinfonia, de Beethoven, há um momento com os violoncelos e com os contrabaixos... (trauteia) É lindo! Isto é falar. Aqueles instrumentos falam. Suponho que foi a primeira vez na história da música que um instrumento falou. Como se fosse uma voz humana a articular as palavras do Schiller.

Em Julho de 1997 escrevia num dos Cadernos de Lanzarote "Zeferino Coelho [editor] gostou de Todos os Nomes. Ainda não foi desta vez que o editor torceu o nariz... Mas não tenho ilusões, o dia chegará. Chega sempre." Já chegou? Essa possibilidade angustia-o?"

Sou muito consciente de que até agora não escrevi nenhum livro de que se possa dizer é mau. Mas isso pode suceder um dia e, o pior de tudo, sem que eu tenha a consciência de ter escrito um livro mau. Seria o pior que me podia suceder. Como tenho uma leitora em casa, que também é minha tradutora e, além disso, é minha mulher, espero que, se tal acontecer, ela me diga: "Este não é para publicar." Se ela ceder, por amor, espero que seja o editor a dizer não.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

(Arquivo 2008) Fábulas da nossa Terra: "Há muito jacaré por aí"

Quis o destino que a família Macaco habitasse numa árvore na margem do rio Catumbela, onde seria fácil cuidar da higiene e a comida abundava.

Estava o Macaco a fazer a barba, numa bela manhã, quando recebeu uma visita muito animada:
– Bom dia, caro Macaco! – saudou, eufórico, o Jacaré – Concluí que temos de ser amigos.
– Estás maluco ou quê? – retorquiu o Macaco – Somos vizinhos e isso BASTA!
– Está aí um ponto que tenho de discordar contigo, Sr. Macaco…
– Mas discordar como, ó Jacaré? – interrompeu – Se tu és incapaz de trepar a mais baixa das árvores, que amigo hei-de ser para ti, eu que mal sei nadar? – refilou o Macaco.

A troca de argumentos continuou. E como era já meio-dia, o Macaco chegou até a pensar que tudo não passava de truques do Jacaré só para «patar» o almoço da família do outro.
– Não vale a pena! Não é possível juntar o que a natureza quer separado – disse o anfitrião.
– Não concordo, Macaco! Não é justo culpares a natureza, quando o que falta é vontade. Ao menos tenta! Eu fico na água, tu na árvore, e construímos uma amizade forte como a vida – propôs o Jacaré.

Nasceu ali mesmo o pacto da amizade. Passavam-se os dias e fortalecia-se a relação. E num desses dias, surgiu o Jacaré com o mesmo entusiasmo e uma proposta na manga:
– Amigo Macaco, é já tempo de conheceres a nossa residência.
– Não sei se é boa a ideia, amigo Jacaré. Para mim estava melhor assim: tu lá e nós cá.
– Macaco, Macaco, não é possível negar-nos esse privilégio. Ao menos tenta! A minha casa fica lá naquela pedra, ao meio do rio, e levo-te às costas. Como vês, é de fácil acesso.
– E o Macaco aceita, pesava-lhe a consciência desagradar um fiel amigo.

Chegados ao meio do rio, vem a surpresa:
– Bem, Macaco, sempre achei que entre amigos não deve haver segredos… A verdade é que a minha mãe está gravemente doente e o único remédio que a pode salvar é coração de Macaco. Foi por isso que te trouxe cá… E sinto-me, como bom amigo, na obrigação de contar-te.
– Ai ééééé!? – exclamou o Macaco numa pausa de meio minuto – Só isso? Que falasses mais cedo! É que agora estou sem coração por uma questão de boas maneiras. Porque nós, macacos, quando levamos o coração brincamos muito mal em casa alheia; pulamos p’ra cá e p’ra lá… e mesmo você e a ilustre família não iriam gostar. Agora mesmo, temos de voltar à árvore para buscar o coração. RÁPIDO!
– Juras, Macaco?
– Ainda duvidas? Juro por mim e pela vida da “nossa mãe”, que pode morrer se nos atrasarmos.

O Jacaré dá meia volta e regressa em alta velocidade. Mal chegam, o Macaco pula e grita:
– Já viste um animal sem coração? MATUMBO! Eu é que bruxei a tua mãe, p’ra me matares?

O Jacaré perdia um amigo e a mãe no mesmo dia. O Sr. Macaco salvou-se graças à inteligência na hora do perigo. Por isso, em Umbundu, macaco chama-se “Sima”. “Sima wasima olondunge vio’yovola” [o macaco pensou, o juízo o salvou].

Moral da estória: “sê prudente. Nunca se sabe, afinal, o que se esconde no peito de quem te abraça”.

Adaptado naquela altura para o programa “Aiué Sábado” da Rádio Morena, por Gociante Patissa (ideia original de autor desconhecido)

terça-feira, 8 de junho de 2010

Com os olhos na meta de educação para todos... Comissões de pais e encarregados de educação reforçam capacidades


Duas conferências municipais sobre o papel das comissões de pais e encarregados de educação tiveram lugar em Maio nos municípios do Balombo e Caimbambo. Participaram cerca de 100 pessoas entre os quais directores escolares, professores e encarregados, bem como representantes da Direcção Provincial da Educação e respectivas Administrações Municipais. Foi uma iniciativa do projecto “Escolas Amigas da Criança,” co-implementado com a ADRA, parceria do Ministério da Educação, monitoria e apoio metodológico da ONG Ibis, financiado pelo UNICEF.

Universalmente, vários contributos académicos têm convergido quanto à inserção da escola na dinâmica da comunidade, quer como agente promotor, quer enquanto bem comum que precisa da participação de todas as forças vivas na sua gestão efectiva. Tal abordagem torna premente a necessidade de potenciar as comissões de pais e encarregados de educação (CPEE), que pela sua natureza são o ponto de partida das crianças e, simultaneamente, o beneficiário último da formação. Estaremos a falar, numa leitura mais cidadã, de democratização da gestão escolar.

Em Angola, é desafio ingente falar do papel das CPEE, sobretudo no meio rural, onde as condições são em geral precárias. Não poucas vezes, a realidade prática colide com o que a Lei de Bases do Sistema da Educação prevê, quanto à gratuitidade e qualidade do ensino. Como consequência, reduz-se o papel da CPEE à angariação de fundos para o funcionamento da escola. Várias, aliás, são erguidas com os adobes fabricados por pais, até mesmo portas e janelas por eles adquiridas. Daí, então, a questão: «será este o papel de uma CPEE?» Estas perguntas, às vezes de difícil resposta, têm suscitado reflexões sobre o papel das CPEE, com vista à dotá-las de conhecimentos  sobre a sua actuação conforme leis e regulamentos vigentes, ao mesmo tempo não ignorando as alternativas gizadas pelos gestores escolares.

«Quando chegamos, a maioria das escolas tinha CPEE funcional, mas desconhecedora dos procedimentos adequados. Caminhamos com elas nesse reforço de conhecimentos e métodos de intervenção, nalguns casos ajudando a preparação do processo de eleição e renovação de mandatos», disse António Salomão, que pela AJS coordena o projecto.

 Eis o conteúdo do ponto de situação da CPEE da localidade de Mahumbulo, interior do município de Caimbambo (original em Umbundu).

«Temos tido encontros com o conjunto de encarregados da comunidade, aqueles que têm filhos na escola. Explicamos que devem acompanhar a criança à escola e cuidar da higiene. Também temos contactado os professores para saber deles se os alunos não faltam. E se notarmos que a criança é faltosa, então vamos ter com a família. Outra coisa, tal como fazem as outras, a nossa CPEE também identifica as necessidades da escola, se há infiltração de água, etc. Nesse caso, convocamos um encontro de pais e damos jeito nas chapas. Às vezes falamos da forma como as crianças se vestem, se respeitam os adultos ou não. Temos planos de construir um jango, que servirá de cozinha para as papas das crianças. Uma parte dos troncos já está preparada. Temos igualmente planos de construir as residências para os professores, a comunidade vai confeccionar adobes, 20 por cada pai, e levar a cabo contribuição em dinheiro para compra de chapas».



Boletim "A Voz do Olho", Abril-Maio 2010, Veículo informativo, educativo e cultural da ONG AJS-Associação Juvenil para a Solidariedade, Lobito, Benguela, Angola.

«Comissões de Pais não são gestoras», diz quadro do Ministério da Educação


«As CPEE, para além de velarem pelas condições infra-estruturais e materiais das escolas, devem preocupar-se sobretudo na questão da relação «pais-professores», e vice-versa. A sua acção deve estar voltada na mobilização dos pais para um acompanhamento que permita que os filhos atinjam uma educação de qualidade. As nossas preocupações, e eu ouvi várias intervenções, não se deve cingir só àquilo que são as condições da escola, se tem chapas ou não. Devemos cingir-nos também ao nosso filho. Qual é o seu comportamento na escola? Quais são os níveis de aprendizagem que o nosso filho tem na escola? Que métodos o professor utiliza, como é que ele ensina? Esta deve ser a questão fundamental. E é isto que nos vai trazer à questão fundamental do projecto, que é a qualidade de ensino. Por outro lado, importa dizer que as comissões de pais e encarregados de educação não são gestoras da escola, que as coisas fiquem bem claras. Temos directores, temos comissões de pais. Estas últimas apenas colaboram na gestão das escolas. Então, devem ser os próprios directores a gerir as escolas, a identificar o que é prioritário em termos de problemas da escola. Também não é bom que todos os anos alguém de fora é que tem que nos dizer que aqui falta isso ou aquilo», disse no Balombo o quadro da Direcção Provincial da Educação, Januário Albino (na foto).

Boletim "A Voz do Olho", Abril-Maio 2010, Veículo informativo, educativo e cultural da ONG AJS-Associação Juvenil para a Solidariedade, Lobito, Benguela, Angola.