PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

quinta-feira, 25 de março de 2010

"Os dentes do Soba", conto nº 3 de 7, in "A Última Ouvinte", livro acabadinho de sair

Em Outubro de 1945, um arrolamento extraordinário estava na iminência de ocorrer na Ombala de Tchiaia, capital de cinco aldeolas plantadas no cimo de montanhas vizinhas, que mais se pareciam com dedos de uma mão tentando tocar o céu: Pedreira, Kandongo, Samangula, Kawio e Tchiaia, hoje pertencentes à comuna do Sambo, município da Tchikala Tcholoanga, na província do Huambo.

Ia ao rubro a ansiedade na Ombala, como de costume em véspera de arrolamento. Cada família procurava catanar a idade dos filhos, o que contribuiria na diminuição dos impostos, o mesmo acontecendo com o número de animais domésticos. Menos posses, melhor. O que restava fazer só dependia da visita do Chefe do Concelho, branco português conhecido por observar ao mínimo pormenor até mesmo os pelos de um porco. Andava intrigado o Chefe do Concelho com a notícia do registo de dezassete óbitos em oito meses. E de nada o convenceram as justificações das autoridades, que atribuíam tal azar ao aparecimento do dragão, que fora visto por poucos sobrevoando o caminho do cemitério.

Era fenómeno raríssimo no meio rural, mas havia na aldeia uma mulher (chamada Kutala) em condições de dar conta do recado em matérias de recenseamento. Fora logo cooptada para o posto de secretária-tradutora-dactilógrafa da Ombala. Despachava diretamente o expediente com o Soba.

Nascida doentia, Kutala vivera a sua adolescência sob os cuidados de missionárias, tendo com elas aprendido as práticas de dactilografia, costura, doméstica e o domínio da gramática portuguesa. Mas com o desabrochar dos seios e o surgimento de sonhos eróticos — que ela não sabia se gostava ou se odiava —, Kutala convenceu-se de não ter vocação para madre, optando por abandonar a residência. Não era de ser pretendida por qualquer um, dada a sua capacidade de análise crítica, embora não fosse cheia de «não me toques».
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A Última Ouvinte
Mbocoio, o felizardo marido da Kutala, não gostava nada da ideia de se trabalhar com o Soba — apesar de iletrado, o Soba era muito astuto, carismático e, dir-se-ia até, bonito. Mas foi aconselhado pelos amigos a ver o lado positivo da coisa. Ser marido da mulher mais influente no poder dar-lhe-ia um estatuto visível, uma gratificação até acima do razoável. Lá o homem aceitou, mas não sem antes propor uma das irmãs da esposa para auxiliar na lida doméstica e cuidar do Velho, o bebé do casal, enquanto a mulher fosse trabalhar — Velho era a alcunha do bebé, uma solução arranjada para evitar o desgaste do sagrado nome do avô paterno, que era seu chará.

A verdade é que também não havia muito a fazer para impedir a esposa de desempenhar tão decisivo cargo. A vontade dele não podia estar acima do poder, fosse político, administrativo ou real. Mbocoio era uma pessoa singular na Ombala, não impressionando ninguém com o seu corpo atlético, peito de almofada e altura de mercenário. Era vagaroso a reagir e cauteloso a decidir, se calhar por ser gago.

Ia o emprego no seu primeiro mês. Faltavam dois dias para o pagamento do ordenado, quando a mulher chegou à casa e disse ao marido:
— Ó pai do Velho, tem uma coisa para te falar.
— Sim…?
— O Soba disse para o outro, ainda, deixar de passar a mão na minha cara. É para evitar espinhos, porque o Chefe do Concelho está para vir… e a cara é importante.
— Como assim?
— Bom, ele me falou que, como escriturária-dactilógrafa da regedoria, a minha cara tem que brilhar como bebé. E mão de homem faz borbulhas.
— Tá bem.

Não gostou nada do recado, mas suportou. Por mais que lhe custasse travar a mão toda a vez que ela teimasse em fazer um carinho involuntário à esposa, sujeitou-se durante semanas. Era coisa passageira, acreditava. Mas a visita nunca mais acontecia e, para a sua surpresa, surgia a mulher com mais um recado do Soba:
— O Soba me falou, fala no pai do Velho ainda para deixar de me dormir em cima. — respirou fundo para buscar a coragem de dizer o resto. — Falou a parte de sentar está a ficar rasa e as mamas estão a ficar grande.
— Então, daqui p’ra frente é só de lado? É isso?
— Acho que sim…

Contrariado, Mbocoio concordou. Como se não bastasse a proibição de tocar o rosto da mulher, vinha agora mais essa de fazer amor só de lado. Sujeitou-se, todavia, outra vez. Mais um sacrifício pela subida da mulher no trabalho. Seria passageiro porque, pelo tempo, a visita estaria perto de acontecer, acreditava o homem. Volvidos três penosos meses, era ainda incerta a chegada do Chefe do Concelho. Tudo indicava que ficaria para o ano seguinte. Mbocoio começava a acreditar que as limitações do quarto acabariam brevemente.

Ansioso. Nutrido pela enorme esperança. Mas a esperança é, às vezes, a mais cruel das ilusões. Desiludido, Mbocoio veio perder a cabeça perante mais um impasse:
— Ó pai do Velho — disse outra vez a mulher —, o Soba me apanhou a sonegar e me falou que isso tudo é cansaço de fazer as coisas de lado. Falou então para o pai do Velho pensar bem, ficar ainda uns dias sem fazer nada…
— Mas é para chegar aonde com essa merda de recados? — interrompeu, colérico, Mbocoio. — Porra! Até aonde vai o poder desta merda do Soba?

Muito gostaria a mulher que o marido falasse mais baixo, ela que já não se sentia à vontade em abordar coisas do quarto por causa da sua formação religiosa. Temia que os berros acordassem a vizinhança, que era basicamente composta por familiares do marido, o que seria um escândalo.
— Vamos falar no pescoço. — rogou, impotente. — A essa hora, a aldeia está a dormir.
— Mas, para dormir com a minha mulher, ele é que tem que autorizar? Merda, pá!
— Você vai chamar de merda a autoridade?
— Merda mesmo. É isso! Merda, merda d’homem! Ele pensa que é patrão até aonde?
— Mas ele não é só meu patrão. É também regedor da Ombala.
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A Última Ouvinte
— Safótalá, que eu mando lixar! Estou na minha casa!
— Mas ele também já viu muita coisa nesta vida. É mais velho, é a experiência dele.
— Ele mazé te quere…
— CHEGA! Olha que o nervo só te leva, não te traz!
— Chega nada! Aqui na minha casa, autoridade sou eu!
Pensou a mulher que, pelo desabafo do outro, o problema estivesse resolvido. Errado. Mbocoio saiu disparado, fora de hora, sujeito a todos os perigos, uma vez que a aldeia costumava ser invadida por onças e hienas que caçavam cabritos e porcos vadios. Podia também ser atacado por jibóias, isso, sem esquecer que naquele ano fora visto um dragão. Tudo isso punha a pobre esposa angustiada, ela que mal podia imaginar o que faria um gago impulsivo.

Feito bicho, Mbocoio trespassou o palácio do Soba, que enganava a insónia consultando os antepassados. Este pôs-se em pé em jeito de respeito, como aliás fazia sempre que recebesse visitas, por muito estranha que julgasse uma invasão do seu território quando a noite dava lugar à madrugada. Mas foi tudo tão rápido, que não teve tempo para saudar o visitante. Mbocoio fitou os olhos do Soba com toda a raiva que lhe subira à cabeça. E acertou o suposto rival com dois violentos socos da cara, até vê-lo cair para o chão como saco de múcua, embora calado como uma ovelha, já que homem grande não chora. Possuído pelo impulso, Mbocoio espancou o Soba, como se de pessoa qualquer se tratasse, mas rapidamente caiu em si. Não evitou a comiseração ao ver a mais alta autoridade da aldeia levantar-se do chão, sacudindo da calça a sujidade, com os lábios a verterem sangue.
— Ndifila nye?1

Mbocoio ficou estático, articulações bloqueadas pelo susto. Cometera o mais grave erro da história do seu povo. Era o primeiro a agredir um Soba, e o que era pior, ao ponto de partir metade do dente incisivo esquerdo. O Soba convocou os mais próximos conselheiros para uma reunião de emergência. A assembleia visava evitar que o Soba, figura que só
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participa dos contenciosos como juiz, aparecesse como vítima, o que fragilizaria a sua soberania. Decisão: guardar o segredo bem fechado, dando a Mbocoio o castigo de ser o tocador de sino da Ombala por tempo indeterminado, sendo inclusive subordinado da esposa.

Mbocoio, que temia castigo pior dos deuses pela agressão ao soberano, aceitou sem resistência. Quando a força toda que resta no ser humano só chega para chorar e implorar pela vida, todas as valentias e preconceitos reduzem-se à cinza. Mbocoio era incapaz até de se lembrar do próprio nome.

Mas como o Soba não podia surpreender a aldeia com um dente meio partido, foi feita uma operação de estética chamada omeyeko, aplicando um «chanfro em V» aos dois dentes incisivos como símbolo de nobreza.

Agora, com o doce sabor da reviravolta, o Soba até parecia ter ganho na altura. Abandonou a sala de reuniões e, sem ir muito além da porta, olhou à sua volta, sardónico. Mandou para o ar o fumo do seu malcheiroso cachimbo, como que em gesto de charme, e voltou a entrar, deixando nas mãos dos conselheiros a preocupação de propagar o fenómeno.

Contou-se que tudo acontecera durante um sonho, decifrado como recado dos antepassados: já não bastava a circuncisão para a honra masculina. E como o que vem do Soba é exemplo, surgiu uma nova profissão: a de limador de dentes. Foi então que se juntou omeyeko ao ritual da circuncisão, de tal modo que, entre a vaidade e a tradição, sorrir cerrando os dentes passou a ser documento em Tchiaia.

São os segredos e os sacrifícios que fazem o poder, portanto este não seria o primeiro nem o último pela revitalização da mística da aldeia. Mbocoio continuou pouco valorizado no seu posto de tocador de sino.

1 Que mal fiz para me matares?

In "A Última Ouvinte", copyright 2009, Gociante Patissa, União dos Escritores Angolanos, 1ª Edição, Luanda , 2010 (versão com base no novo acordo ortográfico)

Primeiro contacto com o exemplar de amostra, GP e escritora Paula Russa na Sede da UEA

Dedicatória ao amigo Jesse Lufendo

sábado, 20 de março de 2010

Fumo sem fogo?... "Benguela: Ano lectivo paralisado se Reitor não se demitir"

Escaldaram-se os ânimos na única universidade pública da província de Benguela, menos de 24 horas após o término da visita de trabalho de 48 horas do secretário de Estado para o Ensino Superior, Adão do Nascimento.

Para os docentes e não docentes, a visita não acrescentou qualquer dado a tudo que já era sabido no capítulo das divergências, mas “serviu para provar as íntimas relações de amizade e familiaridade entre o secretário de Estado e o reitor”.

Musculadamente presentes em frente à reitoria da Universidade Katyavala Bwila, os descontentes aproveitaram a abertura do ano académico na faculdade de direito para, de forma ordeira, desdobrar-se em entrevistas a explicar as razões pelas quais se recusam a continuar a trabalhar com o sociólogo Paulo de Carvalho (na foto).

O docente José Januário assevera que o problema está no carácter do reitor. Segundo ele, podem ser usados discursos bonitos, mas a realidade está contra o projecto traçado pelo governo central para o ensino superior público no país se não forem acauteladas soluções imediatas. Nos próximos dias, refere, pode haver novas formas de luta que poderão passar pela paralisação das aulas se nada acontecer.

Na mesma linha de pensamento está o também professor universitário Avelino Henriques que não esconde alguma admiração pelo trabalho que o sociólogo tem realizado em prol das causas sociais do país. Igualmente aponta como problema, o carácter da pessoa e acredita que a instabilidade será ultrapassada com a remodelação urgente da liderança do corpo reitoral.

Para o mestre, há contradições nas declarações do sociólogo difíceis de entender. Questiona a propalada intenção em abrir o ensino superior público aos mais desfavorecidos, quando na realidade decide pelo aumento do preço dos emolumentos. “Só para citar, a inscrição para os trabalhos de fim de curso era dois mil kwanzas e subiu para quatro mil e as propinas do curso nocturno estavam em 10.800 e passou para 12 mil kwanzas.

É assim que quer defender os pobres?” Avelino Henriques diz não entender como é possível que cinco meses após ter chegado a Benguela, o reitor insiste em dizer que ainda não começou a trabalhar, se garantiu ter trazido na bagagem muito trabalho. Discorda do reitor quando este afirma ter encontrado em Benguela muitos fofoqueiros e garantir disponibilidade para combatê-los, quando alguns dos documentos que exara são com base no “ouvi dizer”, “chegou ao meu conhecimento”.

Avelino Henriques termina dizendo que isso “também é fofoca”. Na condição de licenciado, Inácio Marcelino, membro da equipa de investigação científica, explica que o clima interno tem sabor a limão.

Sobre a visita de Adão de Almeida é peremptório em afirmar que resultou num fiasco, quando era aguardado com alguma expectativa. “Se quiserem sustento o que digo, basta olharem para os cinco pontos que trazia de Luanda, como forma de amenizar o diferendo” e que resultam num proteccionismo sem precedentes ao actual reitor.

“Somos oriundos da Universidade Agostinho Neto, então porquê a revanche?, questiona. Inácio Marcelino pergunta como é possível que estando ainda numa fase em que Paulo de Carvalho dizia estar em diagnóstico, não terminado, já dizia haver baixa qualidade de ensino e que Benguela era terra das facilidades.

“Meus senhores, isso é um descrédito total ao trabalho feito ao longo dos anos e a todos nós formados nesta província”. Helena Damião, funcionária não docente, explica que desde a sua chegada a Benguela em Outubro, Paulo de Carvalho não tem consentido descanso a ninguém.

Argumenta que o seu consulado está a ser marcado pela falta de diálogo, não se coibindo de recorrer a faltas de respeito para impor os seus pontos de vista. Para ela, é importante que o secretário de estado que constatou in loco o real quadro, não minimize o que viu e ouviu.

19 Mar 2010 Fonte:Novo Jornal/Angonoticias

sexta-feira, 19 de março de 2010

Está para breve o lançamento... livro de contos inéditos


Apresentação

«Depois de se dar a conhecer por via de crónicas publicadas via Internet (diversos Blogs) e boletins informativos, o autor assume, assim, o desafio de exercitar a prosa no campo da ficção. Traz o presente manuscrito sete contos inéditos iniciados de forma geral em 2001, que vão desde a era colonial até ao fim do conflito armado. São estórias, ressalte-se, nas quais o leitor há-de notar uma constante “interferência” de terminologias e linguajar em Umbundu, predominante na região centro e sul de Angola, na medida em que boa parte da criação foi, literalmente, um exercício de invenção-tradução. Umas vezes porque é língua de berço do autor, outras porque se impunha ilustrar com originalidade o contexto [rural] e as personagens em causa. Excetuando referências muito irrelevantes, nenhum acontecimento narrado é real, sendo eventuais coincidências na relação entre o abordado e o nome das personagens meramente frutos da imaginação». (Pág. 13)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ainda sobre o acordo ortográfico... "Angola já não é nossa!"

Angola já não é nossa!

por VASCO GRAÇA MOURA (In Diário de Notícia)
http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1520703&seccao=Vasco%20Graa%20Moura&tag=Opinio%20-%20Em%20Foco  
É de há poucos dias a notícia de que Angola solicitou "um espaço de três anos para aderir ao Acordo Ortográfico da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, dada a necessidade da inclusão do seu vocabulário nacional no da comunidade", isto é, no vocabulário da língua que todos falamos. Sem contar a população do Brasil, somos mais de 50 milhões de seres humanos nas áreas mais afectadas por uma eventual aplicação do acordo…

Segundo um dos membros da delegação angolana à conferência da CPLP, o deputado Luís Reis Cuanga, Angola que, tal como Moçambique, ainda não ratificou o acordo, solicitou três anos "para que se possa implementar na totalidade este instrumento", pois entende "que deve haver reciprocidade na sua aplicação, defendendo que haja integração do vocabulário angolano no comum".

Para o referido parlamentar, deve haver uniformização na escrita, como ele teve ensejo de exemplificar, com a palavra "kwanza". A questão das flutuações da grafia de "kwanza" (que o dicionário da Texto Editora, pretensamente conforme ao Acordo Ortográfico, regista com nada menos de três formas, três!!!) já tinha sido um dos exemplos apresentados pelo Movimento contra o Acordo Ortográfico para pôr em evidência não apenas uma deficiência chocante, mas ainda que os negociadores do dito - e, depois deles, os responsáveis políticos portugueses e brasileiros que o assinaram com alvoroço indecoroso - se estiveram solenemente nas tintas para os países africanos de língua portuguesa.

Os negociadores universitários e políticos apenas tinham esperado que os representantes dos PALOP se prestassem a assinar de cruz. Para eles, as características do português falado nesses países não eram atendíveis. E era tal a pressa que não lhes proporcionaram a dignidade de uma possível contribuição material para a formulação de regras cientificamente aceitáveis, nem sequer a possibilidade de reivindicarem a existência de vocabulário dos seus países incorporado na língua comum que impusesse a necessidade de adopção dessas regras.

Foi uma escandalosa política da meia bola e força, tanto no plano científico, como no plano da tratação internacional. E agora o resultado está à vista: passaram 20 anos e nem Angola ratificou o acordo, nem considera que o tempo da sua aplicação tenha chegado, nem aceita que ela se possa fazer sem reciprocidade, e ainda menos aceita que não haja integração do vocabulário angolano no comum!

Para vergonha dos intervenientes oficiais portugueses e brasileiros, Angola veio afinal significar que não embarca em leviandades e que o Acordo Ortográfico precisa de ser revisto e renegociado antes de ser ratificado e de entrar em vigor.

Efectivamente, não pode agora ser determinada a maneira de grafar "kwanza" (ou muitas outras palavras) sem o correspondente consenso dos países subscritores quanto à regra a aplicar, o que envolve a necessidade de uma revisão e alteração do Acordo e se aplica mutatis mutandis às palavras oriundas de Moçambique, da Guiné-Bissau, de Cabo Verde, de S. Tomé e Príncipe e de Timor que tenham sido ou venham a ser incorporadas na língua portuguesa…

Com o Movimento contra o Acordo Ortográfico e as bases do respectivo manifesto, a sociedade civil portuguesa revelou-se muito mais lúcida do que as luminárias de uma geoestratégia que, em matéria de língua, propende manifestamente para a obscenidade balofa.

O Acordo Ortográfico não tem ponta por onde se lhe pegue. Não presta. Deveria ter ido já para o caixote do lixo das baboseiras desprezíveis e dos abastardamentos da língua.

Quem manda em Angola são os angolanos. É outra aberração neo-colonialista pretender-se que bastaria o segundo protocolo modificativo ser assinado por três países da CPLP para se tornar obrigatório para os restantes.

Os responsáveis angolanos têm por certo a consciência das implicações catastróficas que a todos os níveis decorreriam para a língua portuguesa de uma aplicação insensata do Acordo Ortográfico no seu país.

E vieram cá dizer com toda a clareza que Angola é deles! Já não é nossa e nunca foi nem é do Brasil, por muito que isso pese à meia dúzia de pataratas trôpegos que não tem mais nada que fazer e se arrasta há anos a palrar para impor o Acordo na CPLP!

"Parlamento sueco dá exemplo de transparência"

terça-feira, 16 de março de 2010

(Só agora) Católicos desistem da utópica expansão nacional da Rádio Ecclesia. "CEAST aposta na abertura de rádios diocesanas"

«Dom José Manuel Imbamba disse que a aposta da CEAST neste momento é a abertura de rádios diocesanas, devido aos constrangimentos da extensão do sinal da Ecclésia ao interior. Numa entrevista concedida á Rádio Vaticano e Rádio Renascença, o bispo do Dundo, fundamentou esta posição como a medida mais justificável»

Comentário daqui: Como já referi em posts anteriores, eu integrei a turma de quatro repórteres-redactores-noticiaristas, seleccionados entre centenas de jovens à procura de oportunidade de bumbarem numa rádio, isso em 2004, ano em que se intensificava a preparação da abertura da Rádio Ecclesia em Benguela.

Justamente quando até os indicativos e os jingles de emissão estavam montados, soubemos da iminente impossiblidade de irmos ao aor naquele ano, o que não só veio acontecer, como se estendeu até hoje. Durante semanas, fez parte da nossa rotina uma espécie de ponto de situação, com explicações e leituras do dossiê jurídico por um padre do quadro directivo. De resto, uma longa história que tem a ver com o encerramento compulsivo da emissora católica e consequente apropriação do equipamento pela Rádio Nacional de Angola (RNA) , isso, na época do fim do colonialismo português.

A lei não permitia (permitirá algum dia?) a cobertura nacional para rádios privadas, monopólio da RNA. Nada mais legítimo como argumento para um governo que, pelo que a própria igreja católica dizia, via-se incomodado face à "aguçada" crítica social na linha editorial da 97.5 FM em Luanda. Mas lá insistia o "poder" católico na ideia de uniformizar a emissão com estúdios montados nas províncias do Cunene, Benguela, Huambo, Huila, e Kwanza-Sul. Ilusão somente, o resto foi ver o jardim transformar-se em capim, algumas janelas com vidros quebrados, enfim, com a evidente degradação do equipamento. Seguiram-se momentos críticos envolvendo o então ministro da Comunicação Social, Hendrik Vaal Neto, que chegou a classificar de "terrorismo de antena" o trabalho da Ecclesia, na altura com proeminentes vozes, tais como Mário Vaz, Benedito Joaquim, João Pinto, para só citar estes.

O que não entendíamos, nós jovens motivados a práticar as habilidades desenvolvidas nas sessões de capacitação off the record, era o seguinte: não seria mais inteligente da parte da igreja aceitar a abertura de rádios diocesanas (provinciais/locais), que era o que a lei permitia, para, muito mais tarde se possível, retomar o assunto da uniformização? É que, perante as acusações que a própria igreja fazia de falta de vontade política da parte de quem de direito, não se podia ignorar a máxima "as grandes vitórias sociais são um somatório de pequenas conquistas" em busca de uma meta distante. Embora entendível a subjacente vantagem de emissão nacional, no sentido de evitar muitos gastos com recursos humanos, era no entanto muito pouco provável que se conseguisse tal alteração na lei. Não sabemos o que achavam os doadores do projecto (falava-se em Trocaire), mas lá veio o tempo dar razão aos que pensavam como nós, "os leigos"...
 
Portanto, não foi surpresa nenhuma a notícia. Seis anos depois, a igreja entendeu esclarecer o óbvio. Não ignorando a possibilidade de haver outras nuances e confidências de parte a parte neste processo, vale contudo realçar que, no que à negociação diz respeito, ser flexível em certas circunstâncias é válida estratégia..
 
Aberto a pedradas...
Gociante Patissa, Benguela 17/03/2010 

segunda-feira, 15 de março de 2010

Crónica: "Caloiros Universitários e o Salto Gigantesco Nacional"

São muitos, às centenas, e a sombra nem sempre acolhe todos. Outros tantos, eufóricos, continuam a chegar. Os organizadores, “veteranos”, aprimoram os últimos detalhes para receber os “quase” estudantes da Universidade Jean Piaget. O arsenal está preparado: baldes de água, farinha, enfim, à propositada sujeira, não há carecas ou penteados que se livrem.

No momento em que arranca a cerimónia oficial, continua o sol, com os dentes de fora, no entanto contornável, bastando franzir a testa. Justificava-se pelo momento. Confesso, não me revejo na “kunga”, mas estava ali, como fotógrafo do amigo Martinho Bangula, a captar o valor emotivo que aquela tarde representava para os que, finalmente, transpuseram a tão difícil barreira do acesso ao ensino universitário.

Qual arquipélago de salas de aulas, o recinto tem no centro um canteiro quadrado (de vegetação preguiçosa). Em cada canto, uma fila prostra-se diante do subgrupo de veteranos que “tratam” da cabeça do caloiro. A maioria é jovem, com todas as previsíveis vaidades, mas, num gesto desarmado, se sujeitam, um a um. Há também adultos, para lá de 45 anos. Alguns não podiam esperar mais pelo momento (curso) ideal, urge retomar os estudos, sacar o canudo… ou ficam ultrapassados pelas circunstâncias e pela concorrência.

Angola não dá muitas oportunidades mas costuma ser chata em exigir diploma à mão. O país por que choramos de agradáveis emoções e vitórias colectivas, volta e meia enfia-se em fato-macaco paradigmático importado da cor da ingratidão… No ensino médio por exemplo, é “crime” ser maior de 15 anos e querer estudar. Esse país não tem o direito de excluir quem, aos olhos míopes do contexto de desenvolvimento, queimou etapas… como se as condições lá sempre estivessem. Vomela wukuene kusikila mo ovilua (Umbundu = não se pode assobiar em boca alheia).

Cada ano é novo começo, uma corrida difícil que costuma deixar “atletas” pelo caminho. Como num matrimónio, nem sempre sobrevive a euforia inicial. A própria propina mensal (USD 250) costuma pesar no bolso de muitos conterrâneos. O transporte é outro handicap.

Quando em 2007 me fartei de estudar Linguística Inglês no ISCED (2º ano), optei pelo curso de Sociologia na UniPiaget, com a mesma euforia dos caloiros deste ano, ou um pouco mais até. Amo a sociologia, a seguir à comunicação social (que por estas paragens não há). Mas, sair do Lobito às seis da manhã, passar o dia a bumbar (Benguela), e pendurar-me na paragem à espera de boleia até quase meia-noite, acabou por ser uma rotina desconfortável. Certa noite, já todo o mundo tinha ido embora, só havia um colega e eu na paragem, ainda por cima de mochilas (era noite sem luar, numa altura em que estava em voga a delinquência juvenil)… a boleia que conseguimos foi uma camioneta que transportava caixas de tomate e cebola para Luanda, cujo motorista parecia estar embriagado, tal era a perigosa condução! A tudo isso, somava-se o risco de não concluirmos o curso dentro dos cinco anos curriculares, pois que os regulamentos (na altura) não previam repetição de provas (quando um trabalhador-estudante arrisca-se sempre a perder provas). Tive de voltar ao ISCED e continuar… um ano perdido, uma lição aprendida.

Apesar de eu ser mau exemplo, no contexto da UniPiaget, reconheço,  desejo as maiores venturas aos estudantes e colectivos de trabalhadores! Viva Angola!

Gociante Patissa, 16 Março 2010

sábado, 13 de março de 2010

Convocatória para Membros da UEA


 Convocam-se os Senhores Escritores da UEA, Instituição de utilidade pública, para a Assembleia Geral Ordinária a realizar na sua sede, no dia 24 de Março de 2010, quarta- feira, pelas 18 horas e trinta minutos, com a seguinte ordem de Trabalhos: 
A) Deliberar sobre o Relatório e Contas de 2009 e apreciação do Quadro Demons- trativo dos ‹‹R&Cs›› de 2007 e 2008, consolidado. 
B) Proceder à apreciação das ‹‹Estratégias Institucionais›› para o Triénio de 2010/2013 e respectivas Moções. 
C) Homologação da data de realização do Pleito eleitoral que elegerá os membros dos órgãos sociais para o triénio 2010 a 2013, acto que deve ocorrer 15 dias depois da presente Assembleia-geral. 
D) Diversos Só poderão assistir e tomar parte na Assembleia Geral os Escritores que tenham as cotas em dia e deverão fazê-lo cinco dias antes da respectiva reunião. 
Os elementos e informações preparatórias da Assembleia Geral serão postos à dispo- sição dos Senhores Escritores, na sede da Instituição, durante os quinze dias anteriores à data desta Assembleia Geral Anual. 

Luanda, 8 de Março de 2010 O Presidente da Mesa da Assembleia Geral em Exercício 
Roderick Nehone (fonte: Semanário Angolense)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Cyndi Lauper "True Colors"

Recado a preto e branco

Um exemplo de profissional que se diverte trabalhando

Há muito que o Blog Angodebates cogitava essa homenagem àquele que é, talvez, o operador de câmara mais bem humorado que existe em Benguela. Chama-se Cardoso Muhongo, quadro da Televisão Pública de Angola e também finalista do Curso de Geografia no Instituto Superior de Ciências da Educação. O homem ajoelha, corre, sua o necessário, pena é que, em trabalho de equipa, os pivots sejam mais conhecidos do que os que ficam no backstage.

Força aí, compatriota e que tenhas muitos êxitos na vida!
Gociante Patissa, Praia Morena em Benguela, 12 Março 2009