PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

terça-feira, 28 de abril de 2009

Jornalistas "condenam" inclusão de Pedro N'zagi na categoria de figuras da comunicação social (Hora Quente, uma "marca" controversa)

A maior parte dos profissionais de comunicação social angolana e estudiosos do ramo, consideram uma “aberração” a inclusão do humorista Pedro N´zagi entre as figuras desta área que estão a concorrem para o prémio figuras do ano de 2008, que será realizada 14/05/09, no Cine Tropical.

Os jornalistas e comunicólogos defendem que a direcção das empresas organizadoras, Westside e Semba comunicação (em parceria com a revista Caras), deviam vir a público explicar os critérios que levaram a inclusão do humorista nesta categoria.

Para além de Pedro N´zagi, a categoria de “figura da comunicação social do ano” está a ser disputada pelos jornalistas Mariano Brás (Semanário A Capital), Mara Dalva (Rádio Nacional e Programa Dia-a-Dia da TPA2), Josina de Carvalho (Jornal de Angola) e Mário Vaz (Bom Dia Angola TPA1).

O jornalista e porta-voz da União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC), Felisberto Filipe, defende que por enquanto o Pedro N´zage não deveria fazer parte deste grupo e que esta categoria precisa de ser devidamente definida.

“É necessário não confundir as coisas. Os princípios que regulam os animadores, humoristas, palhaços, ou quer que seja, são totalmente diferentes dos princípios jornalísticos que absorvemos dos livros básicos do IMEL”.

António Miguel (Novo Jornal), foi mais longe ao considerar uma aberração e falta de respeitos aos profissionais de jornalismo alistar o Pedro N´zage nesta classe. “Não sei o que passa na cabeça das pessoas ultimamente, nem sequer sei se é o próprio Pedro N´zage que se auto intitula como jornalista. De qualquer forma os organizadores destas galas ou eventos devem pelo menos saber quem é quem para não se dar prémios de médicos a enfermeiros ou vice-versa”.

Também comunga desta ideia o correspondente da Rádio Ecclésia em Benguela, José Manuel, que considera a nomeação do humorista uma ofensa ao bom senso dos profissionais desta classe.

“Penso que o formato jornalístico "hora Quente" para além de ser uma imitação medíocre ou zero, não deveria ser digno de uma provável pré-candidatura a nada ao menos que esta categoria queira distinguir figuras mais cómicas do ano”.

Dos quatro escribas contactados pela nossa reportagem, o Jornalista Conceição Culeca, do semanário O Independente, foi o único que reagiu positivamente a indicação do humorista para a figura que mais se destacou em 2008, no ramo da comunicação social angolana.

“É graças ao Pedro Nzangi que a TPA2 conseguiu ter grande audiência, visto que a mesma aumenta sempre que o programa vai ao ar. O seu humor conquistou um espaço que a muito se encontrava em declino”, justificou-se.
De acordo com fontes do Tribuna da Kianda, a deputada e empresária, Tchizé dos Santos e o seu irmão “boss da Semba”, José Eduardo dos Santos, estudaram comunicação social nas melhores universidades dos Estados Unidos da América. Pelo que está difícil compreenderem a inclusão do humorista nesta categoria.

Tendo em atenção que os manuais de jornalismo existentes em todo o mundo, definem o jornalista como sendo “aqueles que exercem funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação informativa pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por outra forma de difusão electrónica”.

O comunicólogo Manuel Fernandes (nome fictício), professor da disciplina de Teoria da Comunicação da Universidade Privada de Angola, defende que o ministério da Comunicação Social, o Sindicato dos Jornalistas Angolanos e o Conselho Nacional de Comunicação Social não deviam ficar de braços cruzados admitindo a banalização do jornalismo. “É preciso que os órgãos de tutelas definam quem é quem, e enquanto isso não acontecer vamos continuar a assistir a banalização desta magnifica profissão. Penso que tudo isso depende, por outro lado, da entrada em funcionamento do código deontológico e da nova lei de imprensa”, explicou.

Fonte:Club-k, citando http://www.tribunadakianda.blogspot.com/

sábado, 25 de abril de 2009

Crónica: Ela não tinha o direito de o perdoar

Perdoar? Talvez não, (era o mais fácil de imaginar) depois do que ele fez. De tal modo que, quando passaram por mim, no princípio deste mês, felizes, aos abraços, ela sorrindo de maneira desarmada, não evitei a dúvida sobre até que ponto se pode “arriscar” na lógica da segunda oportunidade.

Para além da maresia do local, o aeroporto é também um bom barómetro para ver que há pessoas/mulheres a quem a lei devia proibir de sair de casa. Assim não nos passaria pela cabeça a tentação de lhes roubar o sorriso, o corpo, a voz (não é justo que pertençam já a alguem!). Era o caso dela!

A rapariga, como que a pressentir que tinha “um fã à primeira vista”, agarrava-se ainda mais ao corpo atlético do "dono", esbanjando brisas de felicidade. Viajavam juntos. Que pecado! Faria mais sentido que fosse outra pessoa no lugar, mas era ele mesmo. Irónico. Bonita, Inteligente, bem apresentada… De que adianta serem belas quando não são nossas?!

O “infeliz”, talvez já acomodado com o que tem, não se envolvia com a mesma electricidade que ela. De vez em quando levava a mão à região dos seios dela – daqueles seios mesmo você procura! Bom, mas sei disfarçar, aliás conheço o meu lugar… Ademais não vale a pena ter cobiça por quem não se conhece nem sequer o nome (fantasia tem limites, ora essa!).

Já atendidos, eles seguem o corredor, sendo apenas alcançados pelo meu olhar de costas. E, segundos antes de desaparecerem, a blusa faz-me um favor: levanta, deixando à mostra não apenas a maravilha da pele da cintura, mas também o bordado do elástico da tanga. Por sorte, o olhar é selectivo e só foca na miúda, o rapaz há muito anda multiplicado por zero. E… fim da cena!

Flashback: ela e ele encontram-se em casa (ou no carro). Beijos, abraços, o clímax aquece e fazem amor, como sempre fizeram, como é direito dos namorados. Só que, desta vez, ele tem em mãos um telemóvel novo, caro e cheio de funções. E, pondo em prática a máxima de que “amar e ter juízo não é possível”, ele decide filmar o acto sexual. Ela, um tanto perdida no calor do momento, ou se calhar nem por isso, sorri de surpresa, nega um bocado, mas “como ele é o dono”, permite. Depois do acto o casal ri-se do que foi capaz de fazer, quando ambos viajavam de excitação. Ela parte para a casa e “está tudo bem!”. Mas só após o namoro terminar é que percebe quão parva chegou a ser ao deixar-se filmar tal como veio ao mundo e logo na hora de obedecer à libido. Mas já é tarde: a imagem circula na Internet e no telefone de quem quiser. Longe de ficção, uma realidade que se repetia.

Com ela aconteceu o mesmo, por volta de 2007, quando andavam na moda os vídeos caseiros de cenas de sexo, regra geral sem o consentimento da rapariga, ou usados como vingança. A moral social foi imediata a condenar. Os tribunais e a polícia não ficaram fora de campo. «À nossa juventude faltam conhecimentos básicos para se viver em sociedade condignamente e passa necessariamente pela educação», defendia, na altura, o padre e docente universitário, João Cassanji Santos.

Veio a erosão do tempo e tudo “apagou”, um processo acelerado talvez pelo desaparecimento dos tais vídeos. Assim julgava eu, até ver, minutos antes de iniciar essa crónica, uma senhora a visualizar no seu telemóvel cenas do tipo. «É gravação… Aí eu não estava a fazer nada, estava a vestir», esclarecia à amiga, com quem rasgava gargalhadas de cumplicidade.
.
Gociante Patissa, aeroporto da Catumbela, 25 Abril 2009
Foto: algures na Internet (alheia à realidade do texto)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Crónica: O prazo das eleições devia ser mais curto… se calhar

Sempre que viajo para África do Sul é por via da objectiva, ontem foi pelas imagens da TPA (Televisão Pública de Angola) – lindas de se ver, diga-se. As filas mostravam uma África diferente, aparentemente mais preparada para lidar com a diferença. As filas para o voto eram a mais representativa janela do ideal sul-africano, uma nação multirracial.

“Está muito frio!”, sublinhava o jornalista, para a minha dúvida: ora, se está muito frio, como é que ainda aceitaram manter a distância de um braço entre um votante e o outro, quando na banda, que até aquece demais, valorizamos o “calor humano”? Nunca andaram de Hiace, né?! Angolano é mesmo diferente, juro mesmo!

Na vizinha África do Sul, é uma época sagrada – os partidos concorrentes bem o considerariam pelo “privilégio” de se sentirem em grau de igualdade. O final do processo é, no entanto, daqueles “contos” que tanto faz narrar de trás para frente ou vice-versa, tal é a facilidade de o inferir. É ao ANC (Congresso Nacional Africano) que a maioria dos sul-africanos vai depositar as esperanças na resolução dos seus problemas. Para a desilusão do Congresso do Povo, partido formado por dissidentes do ANC (entre eles o último presidente da república, Thabo Mbeki), caberá mesmo ao polémico Jacob Zuma “oferecer” a uma das esposas a “coroa” de primeira dama da república nos próximos quatro anos.

Aliás, o ciclo das eleições é o fenómeno mais “irracional” que a democracia tem. Até um ano antes, o cidadão (acha que) conhece os problemas – o que implica o estabelecimento da relação «efeito-causa». Poucos meses antes de ir às urnas, o cidadão (acha que) tem a certeza do que (não) quer – seja na base do afecto a determinada causa, seja pela garantia de vantagens económicas ou status quo. E na véspera do puro dia, mal se consegue dormir, tal é a ansiedade. Passa o tempo, cai a chuva, batem os ventos… está retirada a ramela dos olhos. Se era o que queríamos, “louvado seja o senhor!”, mas se é caso para arrependimento, paciência, que fazer mais senão esperar pelo próximo pleito eleitoral…!?

Eis uma lufada de ar fresco para o ANC recompor a sua imagem que, indubitavelmente, ficou desgastada, talvez mais do que nunca na sua história. Curiosamente, o conceito de tribunal, que um dia humanizou a afirmação do movimento de luta contra o regime do Apartheid, no contexto de Mandela e outros, passou a representar ponto vulnerável. Não sairia ileso jamais o partido cujo líder anda em processos que se arrastam por mais de quatro anos. Zuma, que se diz defensor irredutível da cultura Zulu, ao ponto de se envolver sexualmente (de forma desprotegida) com uma mulher HIV positiva, habilitava-se a criar uma das mais ridículas cenas da história do seu país. De nada ajudaram os argumentos de que, por uma questão cultural, tem a obrigação de satisfazer sexualmente uma mulher quando esta manifestar excitação, sendo que, para debelar o contágio, teria usado alho após o acto.

Só Deus sabe, como se diz, se a aparição do “Velho” Nelson Mandela na ponta final da campanha foi “apenas” um trunfo político ou mesmo um sinal “do fundo do coração” pelo quanto se revê em Jacob Zuma
já que, à luz da constituição, o presidente da república deve ser eleito indirectamente, ou seja, entre os deputados no parlamento.

Para os irmãos sul-africanos, fica um recado: pode até ser traiçoeira a democracia, mas é, até ao momento, a forma mais sensata de se chegar ao poder. Bom seria, se calhar, que houvesse uma avaliação a meio-prazo para ver se o governo que ganhou tem punho para cumprir as promessas…

São portanto quatro anos de esperança, de monitoria cidadã ao governo enquanto gestor do Estado. E, acima de tudo, queria só pedir um favor, não sei se posso…, mas, é assim: não voltem (nunca mais) a usar a violência – aprendam connosco, pode ser?

Gociante Patissa, Benguela, 23 de Abril de 2009

Blog Angodebates contemplado com "Prêmio Dardos"

Pela segunda vez, depois de o ter ganho do Hukakile, o Blog Angodebates é indicado para Prêmio Dardos. Deu-se no dia 21/03/2009 o reconhecimento pelo nosso empenho, manifestado pelo Blog GeoPolitica.
.
Eis que transcrevemos o espírito que vem norteando a menção: "Atribuo a este blog o prêmio Dardos em reconhecimento pelo empenho em transmitir valores culturais, éticos, literários e pessoais".
.
Como os outros já o fizeram, o Angodebates agradece a todos os leitores, bem como ao elenco diritivo do Diadema de Angola, responsável pela distribuiçao do PREMIO.«Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada blogger, emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os bloggers, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web. Este prémio obedece a algumas regras:1) Exibir a imagem do selo;2) Linkar o blog pelo qual se recebeu a indicação;3) Escolher outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos.»
.
Assim sendo, retribuo o prémio a quem me honrou com ele e indico ainda os seguintes blogs:
1) www.mesumajikuka.blogspot.com
2) www.cangue.blogspot.com
3) www.romadevidro.blogspot.com
Mil e um abraços
Gociante Patissa

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Estão-nos mentindo sobre os piratas[traduzido] (*)

Johann Hari: The Independent, UK
Quem imaginaria que em 2009, os governos do mundo declarariam uma nova Guerra aos Piratas? No instante em que você lê esse artigo, a Marinha Real Inglesa – e navios de mais 12 nações, dos EUA à China – navega rumo aos mares da Somália, para capturar homens que ainda vemos como vilãos de pantomima, com papagaio no ombro. Mais algumas horas e estarão bombardeando navios e, em seguida, perseguirão os piratas em terra, na terra de um dos países mais miseráveis do planeta. Por trás dessa estranha história de fantasia, há um escândalo muito real e jamais contado. Os miseráveis que os governos 'ocidentais' estão rotulando como "uma das maiores ameaças de nosso tempo" têm uma história extraordinária a contar – e, se não têm toda a razão, têm pelo menos muita razão.

Os piratas jamais foram exatamente o que pensamos que fossem. Na "era de ouro dos piratas" – de 1650 a 1730 – o governo britânico criou, como recurso de propaganda, a imagem do pirata selvagem, sem propósito, o Barba Azul que ainda sobrevive. Muita gente sempre soube disso e muitos sempre suspeitaram da farsa: afinal, os piratas foram muitas vezes salvos das galés, nos braços de multidões que os defendiam e apoiavam. Por quê? O que os pobres sabiam, que nunca soubemos? O que viam, que nós não vemos? Em seu livro Villains Of All Nations, o historiador Marcus Rediker começa a revelar segredos muito interessantes.

Se você fosse mercador ou marinheiro empregado nos navios mercantes naqueles dias – se vivesse nas docas do East End de Londres, se fosse jovem e vivesse faminto –, você fatalmente acabaria embarcado num inferno flutuante, de grandes velas. Teria de trabalhar sem descanso, sempre faminto e sem dormir. E, se se rebelasse, lá estavam o todo-poderoso comandante e seu chicote [ing. the Cat O' Nine Tails, lit. "o Gato de nove rabos"]. Se você insistisse, era a prancha e os tubarões. E ao final de meses ou anos dessa vida, seu salário quase sempre lhe era roubado.

Os piratas foram os primeiros que se rebelaram contra esse mundo. Amotinavam-se nos navios e acabaram por criar um modo diferente de trabalhar nos mares do mundo. Com os motins, conseguiam apropriar-se dos navios; depois, os piratas elegiam seus capitães e comandantes, e todas as decisões eram tomadas coletivamente; e aboliram a tortura. Os butins eram partilhados entre todos, solução que, nas palavras de Rediker, foi "um dos planos mais igualitários para distribuição de recursos que havia em todo o mundo, no século 18 ".

Acolhiam a bordo, como iguais, muitos escravos africanos foragidos. Os piratas mostraram "muito claramente – e muito subversivamente – que os navios não precisavam ser comandados com opressão e brutalidade, como fazia a Marinha Real Inglesa." Por isso eram vistos como heróis românticos, embora sempre fossem ladrões improdutivos.

As palavras de um pirata cuja voz perde-se no tempo, um jovem inglês chamado William Scott, volta a ecoar hoje, nessa pirataria new age que está em todas as televisões e jornais do planeta. Pouco antes de ser enforcado em Charleston, Carolina do Sul, Scott disse: "O que fiz, fiz para não morrer. Não encontrei outra saída, além da pirataria, para sobreviver".

O governo da Somália entrou em colapso em 1991. Nove milhões de somalianos passam fome desde então. E todos e tudo o que há de pior no mundo ocidental rapidamente viu, nessa desgraça, a oportunidade para assaltar o país e roubar de lá o que houvesse. Ao mesmo tempo, viram nos mares da Somália o local ideal onde jogar todo o lixo nuclear do planeta.

Exatamente isso: lixo atômico. Nem bem o governo desfez-se (e os ricos partiram), começaram a aparecer misteriosos navios europeus no litoral da Somália, que jogavam ao mar contêineres e barris enormes. A população litorânea começou a adoecer. No começo, erupções de pele, náuseas e bebês malformados. Então, com o tsunami de 2005, centenas de barris enferrujados e com vazamentos apareceram em diferentes pontos do litoral. Muita gente apresentou sintomas de contaminação por radiação e houve 300 mortes.

Quem conta é Ahmedou Ould-Abdallah, enviado da ONU à Somália: "Alguém está jogando lixo atômica no litoral da Somália. E chumbo e metais pesados, cádmio, mercúrio, encontram-se praticamente todos." Parte do que se pode rastrear leva diretamente a hospitais e indústrias européias que, ao que tudo indica, entrega os resíduos tóxicos à Máfia, que se encarrega de "descarregá-los" e cobra barato. Quando perguntei a Ould-Abdallah o que os governos europeus estariam fazendo para combater esse 'negócio', ele suspirou: "Nada. Não há nem descontaminação, nem compensação, nem prevenção."

Ao mesmo tempo, outros navios europeus vivem de pilhar os mares da Somália, atacando uma de suas principais riquezas: pescado. A Europa já destruiu seus estoques naturais de pescado pela superexploração – e, agora, está superexplorando os mares da Somália. A cada ano, saem de lá mais de 300 milhões de atum, camarão e lagosta; são roubados anualmente, por pesqueiros ilegais. Os pescadores locais tradicionais passam fome.

Mohammed Hussein, pescador que vive em Marka, cidade a 100 quilômetros ao sul de Mogadishu, declarou à Agência Reuters: "Se nada for feito, acabarão com todo o pescado de todo o litoral da Somália."
Esse é o contexto do qual nasceram os "piratas" somalianos. São pescadores somalianos, que capturam barcos, como tentativa de assustar e dissuadir os grandes pesqueiros; ou, pelo menos, como meio de extrair deles alguma espécie de compensação.

Os somalianos chamam-se "Guarda Costeira Voluntária da Somália". A maioria dos somalianos os conhecem sob essa designação. [Matéria importante sobre isso, em
http://wardheernews .com/Articles_ 09/April/ 13_armada_not_solution_ muuse.html : "The Armada is not a solution".] Pesquisa divulgada pelo site somaliano independente WardheerNews informa que 70% dos somalianos "aprovam firmemente a pirataria como forma de defesa nacional".

Claro que nada justifica a prática de fazer reféns. Claro, também, que há gângsteres misturados nessa luta – por exemplo, os que assaltaram os carregamentos de comida do World Food Programme. Mas em entrevista por telefone, um dos líderes dos piratas, Sugule Ali disse: "Não somos bandidos do mar. Bandidos do mar são os pesqueiros clandestinos que saqueiam nosso peixe." William Scott entenderia perfeitamente.



Por que os europeus supõem que os somalianos deveriam deixar-se matar de fome passivamente pelas praias, afogados no lixo tóxico europeu, e assistir passivamente os pesqueiros europeus (dentre outros) que pescam o peixe que, depois, os europeus comem elegantemente nos restaurantes de Londres, Paris ou Roma? A Europa nada fez, por muito tempo. Mas quando alguns pescadores reagiram e intrometeram- se no caminho pelo qual passa 20% do petróleo do mundo... imediatamente a Europa despachou para lá os seus navios de guerra.

A história da guerra contra a pirataria em 2009 está muito mais claramente narrada por outro pirata, que viveu e morreu no século 4º AC. Foi preso e levado à presença de Alexandre, o Grande, que lhe perguntou "o que pretendia, fazendo-se de senhor dos mares." O pirata riu e respondeu: "O mesmo que você, fazendo-se de senhor das terras; mas, porque meu navio é pequeno, sou chamado de ladrão; e você, que comanda uma grande frota, é chamado de imperador." Hoje, outra vez, a grande frota europeia lança-se ao mar, rumo à Somália – mas... quem é o ladrão?




Recebido por e-mail de http://vidaemsociedade.ning.com/

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Crónica: Esses locutores, a gente só não lhes disparata já porque…


Deu-me cá uma vontade de lançar um daqueles disparates ao Salú Gonlçalves, que vou te contar…! – bom, só que, no momento, me lembrei de dois travões: o primeiro é que ele não me ouviria mesmo, e, o segundo, já alguém disse que os disparates sujavam quem os proferia.

Continuando, não é que, no programa dele romântico de domingo, entendeu que tinha de interromper uma música, daquelas que a pessoa acha que foram feitas mesmo para ela… Uma keta de mais velho, cantada em Umbundu, a duas vozes. A primeira, bem me pareceu ser de Bela Chicola, enquanto a segunda, macacos me mordam se me enganaria!, era a do kota Waldemar Bastos. E é justamente na hora em que Waldemar entrava, que Salú entendeu fazer o corte… para anunciar o fecho do programa. Acabaste de falar, manda já o operador continuar, não… meteram Gabreil Tchiema, que também muito adoro, mas isso não justifica…

Salú, eu até respeito o beef que mandaste “sou kambuta, mas permaneço na moda”, mas, veja bem. Ouvir Rádio Luanda, em Benguela, já é um “sacrifício”. Então, é assim que nos agradeces por acompanharmos o kiandandu?! Ara sissas, pá!

Vou já apanhar-te no próximo domingo, quero ver se vais me ver a sintonizar mais o kiandando ou kia lumingo, sei lá, … Mesmo que a rádio Lobito resolva retransmitir através da frequência 104.9. Não esquece o que os mais-velhos sempre disseram… esperto só almoça, não janta…

PS: Quantas vezes, sem querer, uma descoordenação entre o operador e o locutor não acaba por lesar o ouvinte! Um abraço a todos os fazedores de rádio!

Gociante Patissa, Benguela, 20 de Abril 2009

sábado, 18 de abril de 2009

Faróis “longos”, um extra perigoso – será que o novo código de estrada se lembrou de os proibir?

O novo código de estrada tem suscitado – isto é, das poucas vezes que acontece – discussões por causa do realce que dá ao capítulo das multas. Excessivo para alguns, bem-vindo para outros, o que é indiscutível é a sua finalidade: reduzir a sinistralidade rodoviária.

Porém não nos lembramos de ter ouvido falar
e talvez se tenham esquecido também os fazedores do código de estrada – é dos faróis de longo alcance. Como qualquer objecto de moda, é difícil distinguir quando é que são originais ou aplicados na oficina mais perto de casa. São um luxo bastante perigoso para as estradas do nosso país, geralmente sem iluminação, já que os faróis emitem uma luz azul bastante “arrogante”. Ademais, não raras vezes ouvimos relatos policiais a atribuírem ao encandeamento boa fatia de culpas nos acidentes nocturnos.

A vigorar há pouco menos de dois meses, o novo código de estrada é “responsável” pelo aumento da noção da importância do uso do cinto de segurança, bem como por se evitar o uso de telemóvel (sem auscultadores) quando se estiver a conduzir.

Vale recordar que
164 acidentes de viação foram registados só na província de Benguela em Janeiro de 2009, de que resultaram 33 mortos, numa cifra de um por dia, segundo revelou recentemente o 1º Superintendente Conceição Gomes, Director Provincial de Viação e Trânsito. Na primeira semana de Fevereiro ocorreram 28 acidentes, dos quais três mortos e 36 feridos. Entre as principais causas, o oficial apontou o excesso de álcool, bem como a imprudência nas manobras e na velocidade.

Gociante Patissa

sexta-feira, 17 de abril de 2009

(Há quem diga que demorou, mas...) Mabi de Almeida (já) foi afastado do comando técnico da selecção angolana de futebol

Depois de muitos “solavancos”, eis que, por fim, a Federação Angolana de Futebol (FAF) aplicou mesmo o pontapé de saída. Mabi de Almeida já não é seleccionador nacional de futebol, os Palancas Negras ficam temporariamente em mãos de Zeca Amaral.

Reconhecido pela sua competência enquanto preparador físico, Mabi de Almeida viria “pecar apenas” por dar azo à ambição de assumir o comando técnico da selecção de todos nós – não se sabe se por dinheiro (muito, para variar) ou por patriotismo mesmo -, mas é quase consenso que deveria ter saído quando se deu a rescisão do contrato com Oliveira Gonçalves, de quem Mabi era adjunto.

Com Mabi no comando, a selecção angolana de futebol viria ser a mais “generosa”, só perdeu, perdeu e perdeu, fazendo baixar a sua reputação no ranking mundial, enquanto as outras faziam o oposto. As reacções não podiam ser as menos "fervecentes", ou não estivesse Angola em preparação para o campeonato africano das nações (CAN), que (por acaso até) vai albergar em 2010. A sátira desportiva dava Mabi como o técnico melhor projectado em termos de lobby, já que contava com assessoria de dois deputados à Assembleia Nacional, no caso Fabrício Alcibíades Maieco “Akwá” e a vedeta Joaquim Diniz “Brinca na Areia”.

Há também observadores que sustentam que Mabi é apenas a ponta visível da imensa fragilidade que assola a nossa estrutura desportiva. Diz-se mesmo que não temos jogadores de relevo, isso, sem esquecer falhas de carácter organizativo do órgão reitor da modalidade.

Em apenas seis meses, Mabi de Almeida teve um consulado polémico qb, lembrando o desaire de Manuel “Necas” – de quem os angolanos viriam saber que em Portugal não terá passado de guarda-roupas do Benfica, por intermédio do correspondente Óscar Coelho a partir da cidade invicta do Porto.
leia a seguir notícia da Angop sobre o assunto:
…………………
Futebol: FAF rescinde com Mabi de Almeida
17-04-2009 12:56

A Federação Angolana de Futebol (FAF) rescindiu contrato com o seleccionador Mabi de Almeida, que desde Outubro último se encontrava no comando da selecção nacional, por maus resultados.

O adjunto Zeca Amaral vai se encarregar do comando técnico dos Palancas Negras, de acordo com o presidente da FAF, Justino Fernandes, que deu a conhecer o facto hoje à imprensa, em Luanda.

Quanto à contratação de outro técnico, o dirigente prometeu pronunciar-se nos próximos tempos, sendo que estão em curso contactos neste sentido.
Justino Fernandes não adiantou nomes, mas fala-se nalguns círculos desportivos nacionais e não só na possibilidade de contratação de técnicos como o brasileiro Luiz Felipe Scolari, o português Manuel José (do Al Ahly do Egipto), Marinho Peres (ASA) e Bernardino Pedroto, do Petro de Luanda.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Nossa homenagem a João Micelo, um exemplo de força de vontade

Manda o espírito de equipa que o brilho colectivo deve estar acima do brilho individual. Nisto estamos de acordo. A outra verdade, porém, é que determinadas pessoas têm um empenho digno de homenagem no crescimento das suas instituições.

A OHI (Organização Humanitária Internacional) atravessa um bom momento da sua história. Tem em execução seis projectos de desenvolvimento comunitário nas vertentes de cidadania, prevenção de acidentes com minas e saúde pública. E é da OHI que trazemos o perfil de João Micelo da Silva, 31 anos, que é visivelmente o responsável pelo lobby e angariação de fundos e parcerias.

«Fui colhendo várias experiências, quer na vida, quer em outras situações. E no meu dia-a-dia, tenho estado com outras pessoas a partilhar experiências do ponto de vista da formação, quer profissional, quer académica».

Fundada em 2001, a OHI é uma Organização da sociedade civil angolana, com sede na província de Benguela. Micelo lembra como se concebeu o sonho.

«Queríamos contribuir com acções, mais concretamente no processo de educação cívica. Era no sentido de trabalhar na consciencialização do cidadão no sentido de ter uma atitude e comportamento eficientes perante aquele contexto em que nos encontrávamos. Felizmente isso foi possível, foi uma relação muito eficiente com as instituições do governo, e permitiu a realização dos nossos sonhos. Mas em função da dinâmica da mudança, do contexto de emergência para o desenvolvimento, novas luzes foram surgindo no sentido de reestruturarmos as nossas acções para um desenvolvimento sustentável na comunidade».

A dedicação a tempo integral na Organização reduz consideravelmente o tempo de Micelo para outras tarefas sociais. Tanto assim que se viu forçado a recorrer à formação à distância. Já no segundo ano no curso de gestão administrativa, Micelo aponta vantagens do método.

«No meu caso concreto, que tenho muitas tarefas a fazer em termos de acções viradas ao desenvolvimento comunitário, tenho muito pouco tempo de estar no sistema mais directo. E a vantagem é que facilita a pessoa ter mais um auto-didactismo e perceber melhor quais são as circunstâncias».

Para terminar, pedimos a João Micelo da Silva, na sua qualidade de activista, para “confessar” se temia mais o risco de acidentes com minas ou a infecção pelo VIH (SIDA).

«Em minha opinião, quer uma, como a outra, são questões que devem ser trabalhadas», sustentou, para adiante acrescentar que «a questão primordial baseia-se no comportamento e nas atitudes, em como é que a sociedade deve dar a sua contribuição em relação a estas problemáticas».
..........................................
(*) Rubrica “Nossa Homenagem-um reconhecimento às pessoas pelo seu exemplo de sucesso” emitida na edição nº 11, de 14/04, do programa de mesa redonda radiofónica, “Viver para Vencer”, que teve como tema "a juventude e o acesso ao primeiro emprego". Viver para Vencer é uma produção da ONG angolana Associação Juvenil para a Solidariedade (AJS), às terças-feiras, das 17-18h30, através da Rádio Morena Comercial (97.5FM), cobrindo as cidades de Lobito, Benguela e Baia Farta.....AJS – “A cidadania é resultado de um exercício permanente de Educação e Comunicação”.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Crónica: Vamos brincar de guerra?

A guerra tinha o hábito de entrar muito cedo na vida de alguns angolanos. Na minha também.

Há já dois anos que, ao contrário de muitos, o meu dia preferido no serviço é a segunda-feira, quando cada colega chega e conta como foi o fim-de-semana… atenua a chatice de desempenhar uma função sem prazer nenhum, entretanto impotente para desempregar-se, qual prostituta apenas atrás do pagamento.

Esta semana, por exemplo, um dos colegas queixava-se do cansaço físico. E eu, todo ouvidos, fui agarrado de surpresa ao saber que era devido à “kitota” (guerrilha). E enquanto o meu lado tendencioso especulava qualquer coisa como “andar na rosca”, lá vinha o desenvolvimento da notícia. “Uma kitota mesmo a sério… com balas de tinta”. Puxei os lábios para trás, como que a sorrir, enquanto procurava entender o sentimento que me “possuía”. O colega e amigos tinham-se divertido à brava, no Vale do Cavaco, brincando de guerra.

Sem estragar o entusiasmo do outro – legítimo aliás para quem andou envolvido num passatempo radical –, quando dei por mim, já a mente vagueava nas memórias de infância.

A nossa vida na comuna do Monte-Belo, antes mesmo de completarmos cinco anos, resumia-se em duas palavras: uma era brincar e a outra guerra. Atenção, nunca combinadas! Incluíamos no pólo do brincar coisas como ir à escola, apanhar gafanhotos, correr atrás da jante ou arco qualquer que aparecesse, fazer amizade com soldados (sobretudo os cubanos, que passavam de quando em vez em colunas para o Huambo). Já no pólo da guerra incluíamos o cuidado a ter com a manta (o frio era impiedoso no mato, e a noite durante um ataque parecia nunca mais acabar!), bem como o respeito pela mãe (em cujas costas nos agarrávamos na hora de fugir).

Foi assim até 1985, quando, por fim, os meus pais se convenceram de que restava vir ao Lobito, onde era (um pouquinho mais) possível viver. E lembro-me bem da viagem, de como a minha mãe chegou, de certo modo, a ser obrigada a se esconder no frigorífico (desligado, claro, ou eu choraria até estragar o plano); tudo, porque as forças tinham de impedir que a força camponesa se evadisse para a cidade.

Voltando à conversa com o colega, as marcas do impacto das balas na pele enrubescida não deixavam dúvida, ou seja, doía um pouco mas era a brincar. Não era nada de verdade, como o é a cicatriz na bochecha da minha mãe, “tatuagem” do estilo de cauda de lagartixa, desenhada por uma bala “perdida” a meio da noite, quando ela me trazia às costas… (não fosse a “péssima” pontaria do atirador, ter-se-ia alojado na minha cabeça o chumbo, e você ficaria livre da maçada de ler esta crónica.)

Li algures que só se é criança uma vez, sendo os anos mais maravilhosos da nossa vida. O que o livro não dizia era se havia borracha para fazer “delete” de certas lembranças. Se hoje, por exemplo, me disserem, “shii, cala-te, você fala muito!”, algo que acho que não gosto muito de ouvir, automaticamente me lembro da primeira vez que mo disseram: foi na mata (porque quem se esconde deve estar calado).

Por que não brincar de guerra hoje, eu também? Mas será que cheguei algum dia a desarmar o conceito de guerra? Lembro-me de ter ganho, já no início da década de noventa, uma metralhadora de brinquedo, preta, coronhada móvel, bonita mesmo diga-se, de balas plásticas vermelhas. Mas não cheguei a usá-la porque fazia parte daqueles brinquedos que, sendo nossos de nome, eram para enfeitar, por isso, bem penduradinhos longe do alcance das crianças (anos depois, quando me foi entregue, já o mecanismo do gatilho havia ressequido). A euforia de inaugurar uma arma, como aquela, talvez ajudasse a me “familiarizar” com a guerra
bom, agora quem vai saber?!

De qualquer modo, agradeço aos militares e aos políticos! É que, como dizia o outro, “ninguém, excepto os vermes do cemitério, ganhou com a guerra”. Viva a PAZ, viva Angola!
……………..
Gociante Patissa, aeroporto da Catumbela, 12 de Abril de 2009

Finalmente já em fase de arrumar a nova morada


Oi, se não pensasse na gratidão que devo aos que acompanharam o meu drama de jovem inquilino de uma mulher sem escrúpulos, juro que não teria a tranquilidade que tive na primeira noite na nova morada. Só espero que tenha mais sorte desta vez, acho até que vou mesmo ter, já que passados cinco dias ainda não me chamaram de "Manuel".
Abraços! Gociante Patissa

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Conheça o angolano que frequenta duas universidades em simultâneo (*)

As pessoas que não se deixam derrotar pelas agruras da vida, merecem a nossa homenagem. Hoje é a vez de um jovem que frequenta duas universidades, uma no Lobito e outra em Benguela. Trata-se do irmão Dickyamini Bocolo, de 33 anos de idade, Secretário do Conselho-Fiscal do Círculo Rasta Fari de Benguela.

«Eu estou no Direito [Universidade Católica] e estou no Isced. Foi sempre meu sonho, pretendo ser no futuro um jurista, quiçá constitucionalista. Mas como também estou ligado à área das ciências de educação, então, não posso abandonar a educação; quem sabe, um dia possa vir a ter essa chance de ser professor na faculdade de Direito! E essa parte da educação, como é uma vocação, e o Direito, um desejo, e até porque são dois cursos que se complementam, então sigo História e Direito», justifica.

Agora no 2º Ano, ele conta apenas com sua motorizada para galgar diariamente os 70 Km que correspondem à ida e volta entre Lobito e Benguela. É caso para dizer que Dickyamini Bocolo é “sinónimo” de vencer desafios. O seu dia-a-dia é exemplo disso mesmo.

«Lecciono de manhã [no bairro do Alto-Chimbuila, na zona alta do Lobito], de tarde estou no Isced [Universidade pública, cidade de Benguela], e de noite estou na Universidade Católica [bairro da Caponte, Lobito]. Então, o que me dificulta mesmo conciliar é a parte de professor com as duas faculdades. Mas digo que a vida não é fácil, os sacrifícios muitas das vezes são importantes. Há pessoas que podem estar a dizer que “esse gajo vai frustrar-se, é um maluco”. Mas enquanto tivermos fósforo e capacidade intelectual, então, vamos continuar neste desafio».

De seu completo Dickyamini Sebastião Bocolo Rodrigues é natural da Ingombota, Luanda, residindo em Benguela há 13 anos. Por cá constituiu família, sendo pai de três filhos. Foi também em Benguela que Dickyamini aderiu ao Círculo Rastafari de Benguela.

«Assim que cheguei, aderi logo ao movimento rasta-fari, que era já um sonho fazer parte desta família revolucionária, uma família de jovens que decidiu apoiar o progresso social. Desde aí, fui ascendendo a determinados cargos. Comecei como secretário para actividades do Círculo Rastafari de Benguela, depois fui para secretário para relações públicas. Em 2000 fui eleito como secretário executivo. De 2001 a 2002, tivemos uma outra eleição, onde fui reeleito, pelo trabalho que fui prestando ao CRB».

Amigo da música, do teatro e da literatura, Dickyamini é também professor do ensino primário há cinco anos. No entanto, reconhece que nem sempre um rasta é bem encarado pela sociedade.

«Ao longo da minha trajectória como activista, tive algumas dificuldades com a minha inserção social por ser membro de uma comunidade que ainda, em alguns círculos sociais, é discriminada, a comunidade rastafari. Mas soube sempre mostrar às pessoas que a revolução não se faz com os fracos. E até hoje, àquelas pessoas que fazem de mim um “monstro”, tenho também feito o possível esforço de transmitir que a vida não é fácil».

Só nos resta reforçar os votos de êxitos ao batalhador, esperando muito sinceramente que a defesa de tese não seja agendada para o mesmo dia, já que a lei da física não permite estar em dois lugares no mesmo instante. Até lá, irmão Dickyamini, força!
.....................
.....................
(*) Matéria emitida na edição nº 10, de 07/04. “Nossa Homenagem” é oferta do programa de mesa redonda radiofónica, “Viver para Vencer”, uma produção da ONG angolana Associação Juvenil para a Solidariedade (AJS), às terças-feiras, das 17-18h30, através da Rádio Morena Comercial (97.5FM), cobrindo as cidades de Lobito, Benguela e Baia Farta.....AJS – “A cidadania é resultado de um exercício permanente de Educação e Comunicação”.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Nossa homenagem à Maria Pacatolo, uma jovem mãe, estudante, trabalhadora

«Chamo-me Maria Pacatolo, tenho 29 anos de idade, sou chefe do gabinete do Coordenador da Comissão de Gestão da Empresa de Águas e Saneamento do Lobito».

Actualmente, Maria Pacatolo mora no bairro da Bela-Vista, Lobito. Mas foi no São-João onde ingressou no escutismo a jovem Bela Saudades, como também é conhecida.
«Comecei também no escutismo em 1995. Em 2002 fiz a formação de dirigente, trabalhei com os Caminheiros e com os Juniores. E, desde que me casei, não participo activamente».

O escutismo ajudou a entrada ao movimento de ONG’s. «Ajudou, ajudou o trabalho na APDC, principalmente com as crianças, porque o escutismo tem brincadeira e animação».

Há quatro anos funcionária da Empresa de Águas, Maria Pacatolo está satisfeita. «Sim, eu acho que é o sonho de qualquer pessoa entrar na função pública. E também os colegas ajudam, tenho um chefe bom».

Será que ainda se lembra da Coligação “Ensino Gratuito, Já!”, da qual foi secretária? «Eu trabalhei quatro anos na Coligação, com o Omunga, APDC, e aprendi muito com o Edmundo, Patissa, Patrocínio, [que] a me ensinaram a fazer cartas”. Gostei!», revelou.

Com um ensino médio do PUNIV, terminado há mais de cinco anos, Maria Pacatolo voltou a estudar este ano. «Eu quis sempre entrar na faculdade. Consegui este ano, estou a fazer o primeiro ano de gestão de recursos humanos».

Nem sempre é fácil dar resposta a “tantos” compromissos sociais. Mas, para isso, Maria Pacatolo tem o braço do marido para se apoiar. «Como mãe, tenho tido pouco tempo de estar com a minha filha. Eu saio às 8h e volto às 22h por causa da escola. Com estudante, o ano começou há bem pouco tempo, ainda não encontrei dificuldades».
.....................
(*) “Nossa Homenagem” é oferta do programa de mesa redonda radiofónica, “Viver para Vencer”, uma produção da ONG angolana Associação Juvenil para a Solidariedade (AJS), às terças-feiras, das 17-18h30, através da Rádio Morena Comercial (97.5FM), cobrindo as cidades de Lobito, Benguela e Baia Farta.....AJS – “A cidadania é resultado de um exercício permanente de Educação e Comunicação”.

domingo, 5 de abril de 2009

Crónica: Nós e a coabitação

Sempre que chega o sábado, tenho a obrigação de ir ao trabalho às 5H30. E é com o sentimento de estar a ser sub-aproveitado (na busca do poder de compra) que dou de caras com a rua. Quase que dá para ouvir a vizinhança e gente normal a ressonarem. Mas, quando passo pelo Café perto de casa, vejo gente a trabalhar e me dou conta do quanto a minha cruz não é seguramente a mais pesada. Eis um convite para desfazer o meu semblante de mártir.

Sem tirar a mente do relógio, ocupo uma mesa, abro um livro ou rabisco um papel qualquer, enquanto espero que as meninas me venham atender. Um quarto d’hora é o máximo dos máximos que me resta gastar ali, pelo que seria desperdício passá-los na sala climatizada, quando se tem uma esplanada e uma rua meio acordada para apreciar.

Como sempre, algo perturba-me. Com todo o respeito que tenho pelas pessoas que fumam, há que aceitar que o fumo do cigarro cheira mal, um contraste até ao gesto elegante com que se fuma. Mas enquanto o meu lado intolerante se lembra das teorias de “como fumam os que não fumam?”, revoltando-me em silêncio contra o papel de fumador passivo, cala-me um detalhe: a esplanada é lugar para fumadores, portanto quem se sente mal acomoda-se na sala climatizada. Aliás, está de parabéns a gerência por facilitar tal coabitação.

Gosto desta palavra, “coabitação”, que é sinónima de precaução. E procuro sempre não incomodar os outros nos espaços públicos, à luz da idosa máxima
“não faça aos outros o que não gostares que te façam”. Lembro-me de uma pessoa chegada, que preferia faltar às aulas a ter que suportar as guedelhas do professor, um intelectual rastafariano. Para dizer que as pessoas, às vezes, incomodam-se pelos mais inesperados motivos. Mas o que me surpreendeu (mesmo!) foi a cena de anteontem no “Quintal da Tia Xica”, um sítio para comer e beber na cidade de Benguela.

Sob minha influência, decidimos (éramos cinco colegas) preterir a feijoada da “Mangueirinha”, optando pelo funji com carne grelhada e lombi. Mas como o tempo é dinheiro, vi-me forçado a aproveitar a demora da chegada do almoço para atender a incumbência urgente de converter em PDF um relatório e proposta de projecto da AJS. Não seria a primeira vez que trabalharia por cima do joelho num restaurante – por acaso até seria a terceira na “Tia Xica”.

Nisto, explodiu de nervos Mr. Pirle, um homem do futebol interbairros
no entanto um ilustre desconhecido para mim até aquele dia que tomava as suas cervejas. “AQUI É LUGAR PARA COMER, NÃO É PARA LIGAR ESTAS COISAS DE INTERNET!”, condenou. Não entendendo até que ponto um computador ligado daria cabo do sabor da cerveja, tratei de tranquilizá-lo: “não é nada de pornografia, ya!?”. O homem irritou-se ainda mais com o “ya!”, arranhando o limite da estupidez. “O senhor não me conhece, nem sabe o que estou a fazer…”, contra-ataquei, em vão. Finalmente entra em campo o garçon em serviço, que vem ter comigo e manda desligar o computador. Foi então que abandonamos o local, deixando o outro “em paz”, em direcção à “Mangueirinha” atrás da feijoada. Mas não sem antes oferecer um livro (da minha autoria), que foi imediatamente jogado ao chão.

Sinceramente, é cada vez mais imprevisível o grau de intolerância do ser humano. Será que teremos de arranjar, nos restaurantes, um espaço também para “confinar” os utentes de computador?

Gociante Patissa, 05 de Abril de 2009

sábado, 4 de abril de 2009

poemas do meu dorso: "Entre muitos"

A voar
a voar
na vertical
mas sempre a voar
e quando o vento e o ruído te fizerem tombar
tenta a pé caminhar
ou rouba asas aos honestos que (ainda) restaram.

********************
Gociante Patissa
Benguela, 04 de Abril de 2009

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Quem serão os três felizardos? (Governo de Benguela promete financiar obras literárias)

O governo da província de Benguela comprometeu-se a apoiar a publicação de pelo menos três obras literárias de autores locais, ainda este ano. A garantia foi feita pelo porta-voz do "palácio da praia-morena", Alexandre Lucas Tchilumbo, que é também Director Provincial da Comunicação Social.

Tchilumbo, que fez questão de enfatizar que se tratava de uma decisão do governador, general Armando da Cruz Neto, discursava durante a cerimónia de lançamento do livro de contos, "O guardador de memórias", da escritora angolana Isabel Ferreira, na noite de sexta-feira, 03/04.

Sem falar dos critérios de selecção nem da entidade que se encarregará do processo, o representante do governo instou apenas os criadores a aprimorarem as suas obras.
Gociante Patissa

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Lázaro Dalas é bom exemplo de jovem batalhador (*)

Fomos descobrir mais uma história de vida que merece homenagem. A conversa é com Lázaro Bernardo Dalas, ou Mr Dalas, um jovem que se tornou professor aos 17 anos de idade.

«Realmente! Eu até entrava na turma e os alunos, se calhar, pensavam que eu fosse também colega deles. Mas aquela ética profissional realmente distinguia entre alunos e professor», contou.

Natural do Huambo,
Lázaro Dalas veio a Benguela quando criança ainda. Pelo sonho de concluir o ensino superior, Dalas fez um sacrifício. Perdeu o emprego numa companhia do ramo dos petróleos.

«Eu tive mesmo que decidir, entre deixar os nossos dólares e optar mesmo pela formação. Porque previa que a formação futuramente poderia ser um apoio para mim. Então, é uma decisão que todos os amigos lamentaram, algumas famílias deram-me muito apoio em que pudesse mesmo esquecer e seguir a formação», sustentou.

Mais do que licenciatura, a força da paixão pela língua Inglesa.
«Eu estou a fazer linguística Inglês, vou terminar este ano, e acredito que no próximo ano estarei a trabalhar na minha defesa de tese».

No Lobito, Mr Dalas teve uma experiência como mobilizador social voluntário. «Eu fui convidado, fiz parte desta associação durante seis meses. E fez-se um estatuto e, os meus amigos viram que eu era uma pessoa com certas habilidades, fui eleito vice-presidente [APDC -Associação de Promoção do Desenvolvimento Comunitário]. Desenvolvemos muitas acções, como por exemplo, apoio a crianças desfavorecidas».

Houve uma altura na vida em que, tal como muitos outros adolescentes oriundos de famílias de baixa renda, Dalas viajou para Luanda a fim de fazer pequenos negócios. Talvez conhecedora das potencialidades do rapaz, uma parente sua opôs-se à ideia de ver Dalas no papel de zungueiro. Pelo contrário, pagou um curso de informática. Seis meses depois, Dalas regressava ao Lobito.
Daí que nos vimos tentados a perguntar: quais foram os momentos mais difíceis?

«Por exemplo ter deixado um emprego, naquela altura a ganhar mais de 800 Dólares, e decidir estudar. Tu ficas apenas com um emprego limitado de 240 Dólares. Uma das outras situações marcantes, realmente, foi a perda de uma pessoa que para mim foi uma grande escola, mãe, irmã. Mas, pronto, isto é a dinâmica da vida e estamos realmente consciencializados».

Dalas conta também momentos de alegria. «
Bem, foi ter visto o meu [entre os candidatos admitidos] no ISCED [Instituto Superior de Ciências da Educação]», disse para a seguir acrescentar que «uma outra coisa, são mesmo os desafios a que todo o jovem está sujeito. Os meus empregos, tirando a função pública, foram sempre de luta porque, não tendo ninguém para puxar-te, a tendência é sempre batalhar».

Quanto ao perigo do VIH e SIDA, Lázaro Dalas considera positiva a preocupação da sociedade em sensibilizar jovens e não só. E diz mais: «Eu acho que já é altura de mudarmos as nossas consciências e assumirmos mesmo este tipo de doença».
.....................
(*) Matéria publicada na passada terça-feira, 31/03, no programa de mesa redonda radiofónica "Viver para Vencer", que teve como o tema "O papel do pai no acompanhamento de jovens e adolescentes".
Refira-se que a rubrica “Nossa Homenagem” é oferta do programa de mesa redonda radiofónica, “Viver para Vencer”, uma produção da ONG angolana Associação Juvenil para a Solidariedade
(AJS), às terças-feiras, das 17-18h30, através da Rádio Morena Comercial (97.5FM), cobrindo as cidades de Lobito, Benguela e Baia Farta.....
AJS – “A cidadania é resultado de um exercício permanente de Educação e Comunicação”.