PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 29 de março de 2009

Leitor considera atendimento em Angola "mercenarismo profissionalizado"

Chegou-nos por e-mail o desabafo de um compatriota, que publicamos na íntegra sem lhe alterar uma vírgula sequer. A seu pedido omitimos a identidade. Certa (ou não) ou exagerada (ou não), é a legítima visão dele. Angodebates

O mercenarismo profissionalizado

Hoje em dia quase que as pessoas perderam a noção do que é trabalho. Vão ao local de trabalho sem aquele amor principalmente nas instituições públicas. Dificilmente encontramos funcionários que atendem bem as pessoas, quero com isto dizer que está sempre disposta a ralhar, sem o mínimo de respeito. Se os chefes sabem ou não este é o dilema que vivemos.

· Nas escolas quando remete o requerimento para pedir certificado, dizem logo passa daqui a oito dias; mas na realidade pode levar dois a três meses. Quem não trabalha é o Director ou o funcionário?
· Na identificação tratar bilhete; daqui a três meses mas na realidade pode levar dois a três anos.
· Nos hospitais a pessoa chega no banco de urgência mas a maneira do atendimento deixa a desejar. Porque o paciente fica ali a espera da intervenção dos enfermeiros que as vezes meteram-se em conversas banais.

Na maternidade a parturiente é abandonada na cama porque a(s) parteira(s) foi por a fofoca em dia ou escolher algumas roupas em detrimento da doente que precisa de cuidados. Se calhar algumas só morre por negligência das parteiras, já que ninguém vê o que acontece lá dentro excepto a parturiente e as funcionárias.

Como é que vai ser quando os antigos funcionários mais responsáveis forem a reforma? Haja vocação e não mercenarismo.
· Pessoas há que quando não têm emprego prometem fundos e mundos; depois de conseguir excede o limite de faltas puníveis pela Lei Geral de Trabalho. É com estes funcionários que queremos desenvolver Angola?

O exemplo dos candidatos a bolsa de estudo para o Brasil é uma vergonha. São preguiçosos mas querem ir além por fim setenta destes candidatos apresentaram certificados falsos; onde é que vamos parar, que quadros teremos futuramente? Será que é walende (bebida alcoólica) demais que os jovens ingerem ou os miolos é que não prestam?

Resumindo e concluindo as pessoas querem salário mas sem vontade de trabalhar. Que injustiça!?
Lamentações do citadino, 28-02-09
(foto tirada da net).

sábado, 28 de março de 2009

Humor: Interpretações militares

Era dia do teste político-ideológico, a última etapa para se jurar a bandeira e atribuir patentes a um grupo de recrutas. Era impensável chumbar, mas o que todos almejavam mesmo era dar a resposta mais convincente e, consequentemente, ganhar o título de sargento mais honrado.

- A CINQUENTA METROS DE UM BATALHÃO INIMIGO, O QUE É QUE FARIAS? – perguntava o instrutor.

E a maioria respondia mais ou menos assim:
- Bem, chefe, considerando que as armas, mesmo a farda até, custam muito caro, e uma arma na mão do inimigo significa duas armas contra nós, e também por isso e por aquilo… eu fugiria, perdão, faria um recuo estratégico.

Ia quase no fim a longa fila de mancebos e, volvidas duas horas, ainda estava por surgir a “resposta de honra”. Passaram quase todos, quase disse, até chegar a vez do mancebo tido como o mais burro do pelotão.
- MANCEBO, JORGE!
- PRONTO, ILUSTRE INSTRUTOR!
- A CINQUENTA METROS DE UM BATALHÃO INIMIGO, O QUE É QUE FARIAS?
- OU MATO, OU MORRO, CHEFE!!!

Pronto!, estava encontrada a resposta da honra. Jorge recebeu a patente de oficial mais algumas regalias económicas. Intrigados pelo insólito, alguns colegas foram abordá-lo na caserna à noite:
- Mas tu és burro ou quê, ó Jorge, para dizeres que ou matas ou morres? Dar a vida, quando os outros se enriquecem com a guerra? – reprovou Esmeraldo.
- Ó Esmeraldo, eu queria dizer “OU FUJO PARA O MATO, OU FUJO PARA O MORRO!”. Só que tropa não fala muito. Agora, se vocês entenderam mal, a culpa não é minha. Pensam que sou burro, não??!!

(Adaptação de Gociante Patissa. Foi-lhe contada pelo amigo Higino há coisa de dez anos)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Futebol: Mabi de Almeida apela paciência com a selecção

O seleccionador nacional, Mabi de Almeida, apelou hoje aos adeptos angolanos e não só que tenham paciência com os Palancas Negras para que no futuro possam tirar "frutos" do trabalho que está a ser feito.
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Em declarações à Angop, no final do único treino realizado hoje em Algarve, o treinador reiterou o facto de o grupo estar numa fase de preparação, tendo em vista o Campeonato Africano das Nações (CAN2010), a ser disputado em Angola.
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"Têm de ter compreensão e sensibilidade com a selecção e vamos trabalhar para fazer o melhor possível", salientou.Depois do encontro frente a Cabo Verde, com quem perdeu por 0-1, a selecção nacional efectuou hoje, no campo adjacente ao hotel onde está hospedado, uma sessão de treino ligeira.O grupo foi dividido em dois, com os que jogaram quarta-feira a trabalharem aspectos físicos, ao passo que os restantes realizaram um jogo de aproximadamente uma hora e meia.
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A preparação prossegue na sexta-feira com uma sessão bi-diária. Edson Nobre e Dedé, ambos do Paços Ferreira de Portugal, seguiram hoje para Paços onde vão se juntar ao clube para o jogo da liga Intercalar. Os dois regressam apenas no sábado. Por outro lado, Job, Jamuana, Sérgio, Yamba Asha (Petro de Luanda), Love, Roger (1º de Agosto), Capoco (Recreativo do Libolo) viajaram esta manhã para Luanda.
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Fonte (Angop)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Crónica: Sujeitos a TUDO

Estava deitado, como que a “comemorar” a chegada do serviço (um pouco mais cedo do que o habitual). E para aumentar ainda mais a preguiça, vinha aquela sensação de estar papado, que toma conta da gente depois de uma boa feijoada ao almoço…! Nada me tiraria da cama, e ponto final!

A porta já andava fechada para despistar a possibilidade de me darem cabo da tarde de relaxe. Estava em posse de um DVD (pirata, confesso, porque é impossível achar o original) sobre a história de Che Guevara. Com isso, uma ambivalência instalava-se: DVD ou seria melhor ver o jogo amistoso de futebol entre Angola Vs Cabo-Verde?

E antes mesmo que me decidisse pela prioridade, iniciou a vibrar na cama o telemóvel. Número desconhecido. “Caramba!, não o desliguei só porquê?! Agora, atendo ou não? Atendo só já, vamos fazer mais como?!”
- Tá sim, boa tarde.
- Sim, boa tarde. É o Patissa?
- Sim, quem fala?
- Aqui fala o vizinho do anexo do outro lado.

Era a ligação mais distante que podia esperar. Há quinze meses que cada um de nós ocupa um anexo de uma mesma senhoria, sem que tivéssemos tido a mínima oportunidade de conversar. Sei que é um moço magro e alto (não é difícil lembrar-se desse detalhe, que é cópia da minha estatura afinal). Bom, mas como lhe foi possível conhecer o meu nome, se a vizinha acha que me chamo Manuel? Por outra, de onde terá conseguido o meu número? Até agora não sei.

A chamada era para alertar que, na minha ausência, a senhoria costuma abrir a janela do anexo em que moro para mostrar o interior aos eventuais interessados (uma vez que já não renovo o contrato de arrendamento, que termina dentro de três meses).

Num misto de conselho e culpabilização, o “irmão” recomendou-me a trancar (mesmo!) a janela quando for a sair, a não ser que tenha autorizado a espreitarem o meu beco. Infelizmente, a fechadura da janela não está lá muito bem, só encosta “com segurança”, o que facilita tal gesto de "desespero" (é claro que não contei este detalhe).

A sorte é que já encontrei um outro anexo (ligeiramente maior até). Brevemente termina a reabilitação e mal posso esperar pela primeira noite! Melhor era voltar ao Lobito (mais perto de amigos e família), mas com a escola à noite e o trabalho, Benguela é a opção mais certa.

Com os preços do arrendamento a atingirem o cume do absurdo, não ficando para trás os terrenos, está instalada uma ravina na esperança dos jovens. Ou as políticas de habitação económica aumentam em número e em eficiência, ou continuaremos sujeitos a tudo.

Gociante Patissa, 25 Mar. 09

domingo, 22 de março de 2009

SOS Kunene... Benguelenses recolhem donativos para apoiar vítimas das cheias

“SOS Kunene”, assim se chama a campanha de solidariedade para com as vítimas das cheias da província do Kunene. Depois de Lobito, ontem, 21/03, hoje foi a vez de Benguela. Até ao meio dia, altura em que abordamos os pivots da campanha, o jornalista Mário Zeferino e a bancária Paula Ferreira, o inventário era mais ou menos o seguinte:

- 200 sacos de fuba
- 10 toneladas de sal
- 5 toneladas de peixe (seco e fresco)
- Ainda a destacar produtos como óleo vegetal, arroz, sabão, leite, pilhas, roupas diversas, calçado, bacias, fósforos.

A iniciativa é de um grupo de Benguelenses que fizeram parte da antiga direcção da Associação Acácias Rubras, tendo merecido acolhimento da Rádio Morena. Visivelmente satisfeitos pela resposta positiva dos vários extractos sociais, incluindo um cidadão português que, ao que soubemos, pediu anonimato, os organizadores garantiram que a recolha de bens vai continuar.

A questão da transportação está já a ser viabilizada, havendo até ao momento a garantia do patrocínio de um camionista, cujo nome não foi revelado.

Quanto aos que se encontram na diáspora, «eles também podem contribuir. É só uma questão de se organizarem e ajudar, embora ninguém possa prever calamidades», sustentou Paula Ferreira.

sábado, 21 de março de 2009

Lobito-Velho (um dos bairros fundadores da cidade)

Essa é a rua que comanda o comércio de mariscos. Já agora, só entre nós, você sabia que a lagosta e o caranguejo são fervidos com água salgada (do mar)?






sexta-feira, 20 de março de 2009

Crónica: Há dez anos que nos atrevemos a pensar mais que a idade

Seriam de lembrar com nostalgia – se fosse possível lembrar algo que nunca foi esquecido – as palavras de um “kota”, quando iniciávamos, ingénuos mas determinados, a caminhada no sector da sociedade civil. Dizia-nos, então, o companheiro que “os projectos são o sangue da organização”. A pertinente metáfora dos passos, se entendermos que, face aos problemas comunitários, a inteligência e a capacidade de acção das “Organizações” devem ser sistematizadas.

Fundar uma Organização Não Governamental em Angola é fácil, bastando para isso guiar-se pela Lei das Associações 14/92. Agora, manter a tocha do crescimento no contexto de desenvolvimento, aí já a conversa é outra! Não sendo a maior nem a mais antiga das ONG’s, é no entanto justo que na Associação Juvenil para a Solidariedade aumente a alegria por se completar uma década de vida em Dezembro próximo. O que ela, a AJS, não pode é ser culpabilizada pela mania que um dos seus membros tem, a de cronicar.

Éramos jovens, como quaisquer outros, por isso mesmo com o livre arbítrio para nos posicionarmos (ou não) contra os problemas
os nossos e os da nossa sociedade. Talvez fosse utopia demais, naquela altura, para se assumir o inconformismo perante o drama dos “marginalizados”. Corria o ano de 1999 e estavam à vista as crueldades sociais da guerra civil, com muitas famílias angolanas juntando poupanças para a passagem de avião rumo ao estrangeiro. A maioria esmagadora porém estava “condenada” a não sair. Enquanto isso, intrigava-nos qualquer inércia perante velhos abandonados, deslocados, crianças de rua, bem como homens, mulheres e crianças possuídos pelos vícios do álcool e drogas, etc.

Se, por um lado, a lei não permite que menos de sete pessoas criem uma associação, por outro, a própria história encarregou-se de neutralizar várias cooperativas cujos líderes ousaram ofuscar o espírito de grupo, chamando a si todo o protagonismo (como se fossem donos de empresa). Não sendo o nosso caso, modéstia à parte, estou à vontade em enunciar “recortes” da nossa fase embrionária sempre que forem necessários.

A ideia surge durante o habitual balanço que faço da minha vida quando chega a data do aniversário. Estava ameaçado o meu emprego de ajudante de soldador (na prática, era armazenista/tradutor/intérprete do Superintendente de Soldadura) no estaleiro da Sonamet-Lobito. Desobedecera a ordem de impedir que trabalhadores descontentes conversassem à sombra do meu armazém (eu ganhava apenas USD 120 por 10 horas diárias de trabalho, ou seja, o compatriota que cuidava do WC ganhava apenas USD 20 menos). Foi então que brotou a ideia de criar uma Associação, que juntasse voluntários pela causa da solidariedade.

Nos dias que se seguiram, fui ter com o Edmundo, amigo que conheci na Escola do 3º Nível dos Bambús, na Catumbela em 1995. Daí incluímos a Mirita, irmã dele, mais o Simão, um brincalhão por natureza que “aquece” qualquer iniciativa juvenil. O recrutamento cresceu até 15 membros fundadores. Mas para além da nossa sensibilidade, influenciada talvez pelo curso médio de ciências sociais no PUNIV, “nada” mais tínhamos. Faltavam-nos influência, métodos, fundos, conhecimentos – em suma, experiência. O pior é que já havíamos ido “longe demais” para pensar em recuar.

Tal o sentimos, por exemplo, no Cartório Notarial da Comarca do Lobito, onde reprovaram as nossas quatro páginas A4. «Isso aqui não é estatuto, ó jovens!», dizia funcionário. «Quer dizer, vocês se juntam, escrevem qualquer coisa e vêm para legalizar?!», posso me enganar na letra, mas era este o espírito do homem, que não imaginava o esforço em conceber o texto e, mais ainda, que aquelas páginas levaram a mãe do Edmundo a abdicar do almoço para a respectiva “computarização”. Houve ainda a promessa (seis meses à espera) de patrocínio do Director de uma empresa estatal que só chegou para encomendar o primeiro carimbo. «Estamos a fazer tudo para ter a nossa sede», prometíamos para tranquilizar os membros (quase todos mais velhos que nós, os da comissão instaladora), que transpiravam durante as reuniões no recinto da escola Rei Mandume sempre que o Director não quisesse deixar a chave de uma das salas. Quando concluímos o processo de legalização, escasseavam a logística do PAM, ditando o fim de muitas ONG’s.

As parcerias foram a luz guia. Pouco a pouco, as capacitações e intercâmbio foram enriquecendo as nossas capacidades e habilidades e aumentava a visibilidade. “Humildade, Justiça e Solidariedade” era a divisa, e aprendemos que os financiamentos/doações são bons, mas o melhor é não “parar de pensar” quando não existem. Lembro-me das caminhadas da praça da Kalumba até à Restinga (cerca de 7 km), cruzando a salina, para participar das reuniões da Rede Municipal da Criança de Rua do Lobito, com a Okutiuka à cabeça.

Um outro “formador” disse-nos certa vez que as instituições não existiam como tal, mas sim em função das pessoas que as representavam. E, já agora acrescentando, diria que são os representantes que por elas concebem as ideias, sentem a chatice directamente, assim como, merecidamente, sobre eles recaem os elogios por cada iniciativa pertinente ou posição corajosamente bem assumida (no caso, agradável ou não). Mobilizamos comunidades, convencemos doadores, mais jovens se juntam à causa. E mesmo que um dia nos falte tempo para continuar a servir, será com o sentido de ter feito história a nossa “aventura”.

Teria sido diferente a vida de jovens que (um dia) se envolve(ra)m de corpo e alma pela AJS? (A filosofia diz que tudo muda: ou para melhor, ou para pior). Provavelmente teríamos mais fins-de-semana livres, menos oportunidades de formação, menos compromisso com a sociedade. Bom, talvez não tivéssemos nunca de enfrentar olhares (invejosos?) de adultos “estáticos”, pouco acostumados a ombrear com jovens nas mais diversas frentes da cidadania. Ainda há gente que ensina e ao mesmo tempo se irrita se aprendemos.

Gociante Patissa, Benguela-19 de Março de 2009 (Coordenar do Programa de Direitos Humanos e responsável pela vertente de comunicação e TIC na AJS).

quinta-feira, 19 de março de 2009

Hospital de Benguela, dicas e fotos (I)

Pediu-me por e-mail o amigo internauta, João Pronome, dicas e fotos do Hospital Central (passará a "Geral") de Benguela. «O certo é que eu sou enfermeiro e toda a informação que se relaciona com esse hospital para mim é gratificante. O Hospital estava localizado junto à praia e tinha como um dos Enfermeiros Supervisores o Enfº Neves e havia uma Madre chamada Irmã Raimundo. Fui colega da Enfermeira Manuela, cujo pai trabalhava na secretaria desse hospital», referiu.

Pois aqui vai: o hospital (está no mesmo sítio) encontra-se em obras há coisa de dois anos, entretanto tudo indica que terminem em breve. Amanhã devo andar por aqueles lados com a minha Canon e brevemente poderei mostrar fotos (do exterior do edifício por fora, claro). Os construtores são chineses. Para além da reabilitação, houve também ampliação. O mais mediático hoje é o centro oftalmológico, tido como o maior/melhor do país, que tem um grosso de médicos cubanos a fazerem operações cirúrgicas "maravilhosas" grátis. Provisoriamente, o hospital central de Benguela funciona defronte as instalações do Instituto Médio de Saúde (na rua da câmara mortuária). Ora bem, não me sendo possível legendar as fotos, solicito vosso sentido de “bófia” para distinguir os edifícios através da aparência. O novo é sempre mais luzente.

Não me crucifiquem pela "negligência" ao rigor jornalístico. Nãao deu.

Abraços!
Gociante Patissa

Fotos hospital Benguela II











segunda-feira, 16 de março de 2009

Pelas estradas do Dombe-Grande num jeep-starlet

Era necessário quebrar a rotina e caía bem, de facto, uma viagem por estrada. Observar as obras na via do Dombe-Grande faria um bom passatempo (Sábado, 14/03). Ora conduzes tu, ora conduzo eu, lá se tornava divertida a viagem, melhor ainda porque o «Starlet bebucho» portou-se como um verdadeiro jeep, galgando os cerca de 94 quilómetros entre Benguela e a comuna do Dombe-Gande. Salomão convidou e não consegui dizer “não”, eram por aí 15 horas.

Sintonizando a Rádio Benguela (92.9 FM), ganhávamos a agradável companhia musical. Qual não foi o meu espanto ao descobrir que há uma nascente na área do Parque de Chimalavera! Ironicamente, a nascente situa-se bem perto da estrada, só continuando desconhecida por falta de interesse dos entendidos quanto à sua divulgação. Já tem uma espécie de cifão, feita à base de pedras e cimento. É lá que o gado vai beber, só não falo de pessoas para não ser redundância. Aos meus 30 anos, finalmente, acabei de testemunhar o “parto” de um rio. Água limpa saindo da montanha, numa zona aparentemente seca (belisquem-me para acordar, acho que estou a sonhar…!).

Saudamos o rio Kupololo, que não parecia muito atento, qual leão adoentado. Menos mal, achamos, conquanto o caudal andasse baixo (pois assim não nos comprometeria o regresso). É bom lembrar que a chuva, que muito adoro, não tem sido generosa nos últimos tempos no Sul de Angola.

E como é impossível visitar o Dombe-Grande sem se encantar com a variedade de frutas, compramos banana, mamão, goiabas e gajajas (feitiço?! Não. Fica para a próxima). 18 horas, marcava o relógio, quando chegamos de volta. O céu andava escuro, cheirando a chuva, entretanto pintado com um grosso arco-íris. Eu, particularmente, sentia-me com aquele doce cansaço (o qual geralmente sente quem andou a fazer amor – não era o caso, claro!)…
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Gociante Patissa

sábado, 14 de março de 2009

Humor: Falando duas línguas

Diz um brasileiro ao receber amigo americano:- Between, between! Drink a chair!!!

(Entre, entre! Toma a cadeira!!! - Isso mesmo custa interpretar????)

"Roubada" do livro de Ignacio Vigil

quinta-feira, 12 de março de 2009

Crónica: “Donos dos Nossos Medos”

Um dia tudo voltará ao normal. Um dia será esquecido o espectro da insegurança. Um dia poderão as pessoas visitar os seus familiares nos bairros do Kioxe e/ou Massangarala, à hora que quiserem após o pôr-do-sol. Mas esse dia está ainda distante.

Em Angola e no mundo multiplicam-se as notícias de noites mal dormidas por causa dos donos dos nossos medos. Eles usam a linguagem da ponta da faca, da garrafa quebrada, do fuzil. São frutos da geração do espectáculo, que têm nessa era da (excessiva) mediatização a fonte de inspiração. Muita fantasia. Ingénuos e letais, umas vezes sob efeito da droga, outras até nem por isso! A isso acresce-se a especulação, que tem o efeito de os tornar ainda mais temíveis. Quem foi a pátria que os pariu? Não sei se a minha, se a tua. Mas a verdade é que a coisa chega a tal ponto, que cada benguelense tem um "bandidinho" na família.

Na segunda quinzena de Fevereiro, dois grupos rivais decidiram ajustar contas em plena cerimónia cristã de enterro de outro jovem escuteiro que faleceu por acidente de viação. O Cemitério Velho da Kamunda foi palco de luta livre, inicialmente, só entre os grupos rivais. Logo a seguir, atingiram qualquer um que se encontrasse no local. Nem mesmo o padre, que celebrava a missa, foi poupado: agrediram-no com a cruz de cimento, arrancada de uma das campas. Valia tudo, até arremessar vasos. Um dos integrantes dos "Notórios" foi esfaqueado mortalmente no local. «Me sinto mesmo normal», foi o que disse o já detido assassino à imprensa, poucos dias depois. «Não estou arrependido», disse.

Kioxe e/ou Massangarala, bairros vizinhos na margem sul do rio Cavaco, costa da cidade de Benguela, têm duas coisas em comum: (1) foram “fundados” por cabo-verdianos contratados pela açucareira (na era colonial), (2) albergam grupos de jovens delinquentes rivais, ou seja, “Notórios” (no Kioxe) e “Boladona” (na Massangarala). Nenhuma pessoa “normal” aceitaria um passeio com tal rota, a não ser que fosse por força maior
nem mesmo os kupapatas (mototaxistas) aceitam levar para lá passageiros, e olha que esses são os líderes da flexibilidade (no horário e no preçário).
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Eu, que tenho o defeito das precauções, também não iria ao Kioxe, juro mesmo!, se lá não vivesse a minha kota e, por tabela, os meus sobrinhos. Eis que decidi enfrentar a fatalidade. Aliás, já diz a máxima Umbundu «onambi l’onambi ikuete u yalonã», ou seja, cada fatalidade tem a quem afectar.

A ideia original era ir ao Lobito visitar a minha mãe. Mas, como nessa fase a polícia está rigorosa a exigir dos taxistas a famosa licença, a luta é grande para se conseguir um lugar. Pelo que tive de cancelar a viagem, uma vez que me tinha de apresentar ao serviço no dia seguinte. E é aí que as palavras da amiga americana Nancy da Escola de Inglês fazem sentido (life bocomes easier when you have a car). Ora, não podendo ir ao Lobito, que é uma boa forma de escapar do quotidiano levado à desportista sem compromisso, só restava ir à casa da minha kota.

Mas a questão, falando de Kioxe, não é a ida, é o regresso. O cunhado tem uma carrinha, mas detesto ser chato e é sempre bom nessa vida ter um plano B. E o meu plano B foi andar com a pasta de documentos, umas notas de dois mil kwanzas no bolso e pôr o telefone em prontidão para o caso de os donos dos nossos medos o exigirem.

Cerca de vinte minutos a pé, numa caminhada sem problema algum. E a primeira coisa que fiz ao chegar à minha posição foi mandar uma SMS: “Oi, mana, cheguei bem. Feliz noite!”.
Gociante Patissa, Benguela 11/03/09

terça-feira, 10 de março de 2009

TPA exibiu ontem documentário sobre Zungueira (não podia ser mais oportuno)

A Televisão Pública de Angola exibiu ontem, 09/03, um documentário, cuja qualidade técnica caberá aos críticos classificarem. Enquanto isso não surge, o Blog Angodebates rende os parabéns à TPA pela pertinência e, mais do que isso, pelo cruzamento de opiniões.

Zungueira, ocupação “feminizada” cujo conceito remete a uma imagem vívida. O termo é de "fabricação" angolana, vem do kimbundu "kuzunga" (andar depressa), assim rezam os mais consentâneos relatos.

Foi interessante acompanhar entre os enquadramentos os do sociólogo Laurindo Vieira, do historiador Cornélio Calei, bem como do oficial da polícia nacional, Divaldo Martins. Ângulos como questões de sobrevivência, embaraço ao trânsito, concorrência desleal, ocupação praticada por mulheres vindas da periferia, foram os mais visados.

Das Zungueiras falaram algumas, representando províncias como Uige, Huila, Malange e Benguela – não haveria, obviamente, espaço suficiente num programa televisivo para ouvir todas, que são, no final de contas, a mais comum das “paisagens” do país inteiro. Foram ouvidas também outras sensibilidades, podendo-se deste modo ouvir os prós e os contras da actividade.

«Se antes eram apenas um fenómeno das capitais de cidade, hoje tende a espalhar-se. Digo, sem medo, de errar que encontrei zungueiras no Bailundo, por exemplo», assegurou mais ou menos nestes termos o historiador Cornélio Calei.

O fenómeno zungueira é um daqueles temas impossíveis de esgotar com a superficialidade que caracteriza os fóruns da media, pelo que, tal como os intelectuais sugeriram, o Angodebates é também somos pela reflexão social permanente.

Perdoem-nos a insistência, mas julgamos pertinente o poema…

África mãe Zungueira

Esta que se aproxima

carrega uma criança às costas e outra no ventre
uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa
lembrando que é hora de parar e amamentar
e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar
gestora de um ovário condenado a não parar
porque é património social
penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade

Conhece bem demais a cidade

não tanto pelos monumentos
mas pela necessidadeviandante como a borboleta
fez-se fiel e histérica amante
da lei da compra e venda de porta à porta
uma lei entretanto não prevista por lei
“depender só do marido? Nunca”
mulher é aquela que não de deixa
mal acordou a urbe já peleja aliciando clientes
no estômago só o funji do jantar de ontem
sem tempo sequer para escovar os dentes

Lá vai mais uma dobrando a esquina

de pregão firme como a voz do tambor
humilhada aos poucos pelo sol

nos mapas de salitre da poeira que adormeceu no suor

Forte por fora muitas vezes vulnerável no íntimo

veja esta nos olhos encarnados grita despercebida
uma mulher mal amada
nunca descobertarainha de etapas queimadas
ele que devia ser companheiro
é de se esconder no copo
quando os ventos são ásperos
autentico chá em taças de champanhe
não estar disposta para mais um suor sagrado
é para ele frontal apelo à violência
habituada a levar da cara odeia a sinceridade do espelho

Por aqui passou mais uma profissional da zunga

protagonista anónima com mil mestrados da vida
contudo não contada na segurança social
para o turista uma espécie de paisagem
rosto de uma noite que lançou a mulher
às avenidas dialécticas dos centros urbanos
no seu dever de sustentar a sociedade
a mesma que a condenará antes de amanhecer
por não participar da vida política
ou por não saber ler
nem escrever

In consulado do Vazio (Gociante Patissa-KAT consultoria e empreendimentos, Julho 2008)

Nino Vieira, conflitos em África, morte de inocentes na Ásia, corrupção em todo mundo, tudo uma estupidez

A quem quer que me pedisse opinião
eu sei o que diria - um "NÃO!"
e é há muito que o sei
que a guerra é a maior porcaria

Gociante Patissa, 2008

sábado, 7 de março de 2009

Heróis anónimos. Um marceneiro, professor e pai... «Tem havido entendimento na família», diz Júlio André

Descobrimos no bairro do Setenta, em Benguela, um homem de 41 anos, cuja história de vida merece homenagem. Chama-se Júlio André. Quanto à profissão, isto, depende do local em que se encontrar. Se em Benguela é marceneiro, no Bocoio é professor.

Muito jovem ainda, Júlio teve de abandonar os estudos.
«Eu estive a fazer a sexta classe em 1996 mas, para fazer os exames, fui obrigado a trazer o recenseamento militar. Isso impediu-me, porque não tive recenseamento, não tive adiamento. Então, depois de parar de estudar, já que não fui admitido a fazer as provas, isto obrigou-me a procurar um mano que fazia o trabalho de malas e estofava também cadeirões», contou.

As malas artesanais, vulgo "de chapa", eram a única fonte de sobrevivência. «As malas, que fazíamos, levávamos ao [armazém] “Fonseca & Irmão”. Fazíamos o câmbio com fuba [farinha de milho] e vendíamos a fuba. Por cada mala, nós recebíamos dois sacos [100 kg]».

E chegou o tempo em que as malas já não tinham saída. Mais uma crise a vencer. «Quase em 1991, paramos. Então, o dono da carpintaria tinha um camião. Metemo-nos na via, fazíamos viagens, Benguela-Sumbe, Benguela-Huambo, Benguela-Lubango. Depois disso, quando consegui a minha esposa, a responsabilidade tornou-se maior. Logo, começamos a pesquisar outros meios. E vimos que havia a necessidade de fazermos esse trabalho de marcenaria», revelou.

E como se dá o salto de marceneiro para professor? «Graças a alguns amigos ­
disse – que me incentivaram bastante [para] que pudesse continuar os meus estudos. Porque eu parei em 1986. Em 1992, depois da pequena paz, eu fiz ainda algum esforço, me matriculei. Mas, em 1993, depois dos confrontos, todos os documentos na escola foram roubados, e logo, perdi vontade de estudar. Até que um amigo apareceu tantas vezes aqui em minha casa para que eu continuasse a estudar», Júlio recorda, transparecendo gratidão no semblante.
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Júlio dá aulas na localidade de Ngóa, comuna do Passe, no município do Bocoio. Tem a oitava classe feita e tem recebido superação pedagógica. Mas carrega ainda uma dor, a de não estudar. «A essa altura, a minha preocupação número um é encontrar alguém, que me ajude a sair na área em que estou a trabalhar, para que eu venha numa área onde pelo menos haja ensino médio – sustentou o compatriota – para ver se consigo concluir o ensino médio e, quem sabe, futuramente, para ver se conseguimos ir mais longe».

Ele tem quase pronta a sua própria casa de construção definitiva. Mas, confessa, é difícil trabalhar a centenas de quilómetros longe da família. Ou não ficassem aproximadamente 200 Km entre a cidade de Benguela e a povoação de Ngóa. «Tem havido entendimento na família. Porque às vezes eu passo o fim-de-semana lá, quando não tiver passagem de regresso, mas, quando tiver, vou na segunda-feira e na sexta sou obrigado a vir para me avistar um bocadinho com a família», esclareceu.

Quem cresceu sem os pais, sabe o que transmitir aos filhos. É o caso do marceneiro e professor, Júlio André. «Tenho estado a transmitir o espírito de que eles deviam estudar para terem uma formação, de maneira que amanhã, ainda que o pai ou a mãe não estiverem presentes, eles podiam conseguir se virar», sustentou.
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Refira-se que a rubrica “Nossa Homenagem” é oferta do programa de mesa redonda radiofónica, “Viver para Vencer”, uma produção da ONG angolana Associação Juvenil para a Solidariedade (AJS), às terças-feiras, das 17-18h30, através da Rádio Morena Comercial (97.5FM), cobrindo as cidades de Lobito, Benguela e Baia Farta.

..... AJS – “A cidadania é resultado de um exercício permanente de Educação e Comunicação”.

Crónica: O contrato de arrendamento

“O Manuel hoje vai à escola?”, questionou-me a proprietária do anexo em que vivo.

“Não, não vou à escola…”, respondi-lhe, curto e desconfiado.

“Então não vai sair…?”, insistiu com aquele sorriso mecânico, próprio de quem sabe o que quer apesar de tantas voltas.

“Não, não vou sair”, garanti, mas logo vi que eram apenas 18 horas, e emendei: “Não agora”.

“A tia queria falar com o Manuel…”, insiste ela como sempre, tratando-me por Manuel, como se não tivéssemos assinando um contrato de arrendamento (onde obviamente se pode ler o meu verdadeiro nome) antes de embolsar os meus lindos Dólares.

“Por mim, podíamos falar agora, se lhe dá jeito.”, saí com essa, usando a técnica “ocidental” de dizer à pessoa justamente o que quer ouvir.

Lá puxou duas cadeiras da sala dela, que fica a um passo da minha janela, ou seja, no quintal que partilhamos. Sentados frente-a-frente, tomou a iniciativa: “Bom, Manuel, eu já queria conversar contigo ontem, só que não deu tempo”, justifica ela.

Coloco-me, então, a fazer escuta activa. Sigo, paciente, o relato, inferindo que iríamos desembocar (apenas) na relação de vizinhos. Mas a kota surpreende: “É para falar do nosso contrato”.

Esforcei-me o máximo para disfarçar o que me passava pela cabeça. É que, curiosamente, a nossa relação perdeu o sentido afectivo (como é cultural de nós africanos, que temos um parentesco por afinidade muito amplo) por causa do desrespeito ao contrato. Tanto recalcamento, que do “bom dia”, “boa tarde”, não passamos. De um lado, o inquilino, cansado de esperar que a senhoria concluísse obras como se comprometeu, já lá vão 15 dos 18 meses; Do outro lado, a senhoria, vizinha por sinal, levando a vida na defensiva (“tipo nada”).

Bom, voltando ao ponto, diz-me a mais velha que o contrato termina dentro de três meses, e com isso, exerce a obrigação de sondar a intenção inquilino. Entretanto, curioso é o facto de se lembrar tão atempadamente desta cláusula quando, e o que seria mais fácil, desconhece o nome do cliente.
“Costumo ser sincero”, iniciei, “estou à procura de um espaço maior, mas está difícil…”

“Ahã!, para casar já, né?”, interrompeu-me, muito inconveniente para o meu gosto.

“… Não é por aí!”, repudiei como quem diz espaço maior é para casar, Caramba?! “É por causa dos meus papéis, já quase não há espaço na mesa. Se não aparecer até lá, penso estender o nosso contrato só para seis meses. Já não aguento um ano e meio”, abri o jogo.

“É isso mesmo! Também penso fazer contrato diferente, de seis-seis meses. Por isso, e como tenho uma conta com um mestre da obra naqueles lados do “Kamatondo”, então queria ver se adiantavas já seis meses, filho. Também já falei com o outro do anexo ao lado”.

Mais palavras, menos palavras, eu disse à senhoria que não tinha fundos para o adiantamento de seis meses, o que só conseguiria, provavelmente, no fim de Maio. Foi no fundo um truque, na esperança de que até lá consiga, de facto, um espaço maior para arrendar.

“Então, Manuel, já não vai dar para continuar, mas pode ficar à vontade nestes três meses que faltam. Só não queria surpreender”, sentenciou, como boa cumpridora de contratos que (não) é.

quinta-feira, 5 de março de 2009

quarta-feira, 4 de março de 2009

segunda-feira, 2 de março de 2009

Crónica: O QUE UM SONHO TEM DE VERDADE

No momento em que inicio estas linhas, às escondidas porque o horário pertence ao patrão, estou ainda sob efeito do sonho, ou «choque» para ser mais preciso.

Levantei-me, assustado, a meio da noite. Um pesadelo? Ainda não sei se o era, sei é que andava confuso demais no momento em que me sacudi dele. Você talvez fosse direito à geleira, que até fica a metro e meio da cama, afastando “os maus espíritos” com um copo de água gelada. Porém não tenho hábitos de consumir após a hora de dormir. Nem tempo restava para me decidir se voltaria para a cama ou se passaria o resto da noite acordado. «Duas e quarenta de uma promissora quinta-feira», dizia-me, indiferente, o relógio. Tudo a dormir lá fora, incluindo os guardas (que bem o sei), excepto um ou outro carro vadio.

Era bom que os sonhos reflectissem apenas o espírito do dia, não? Assim, do tipo, para um dia de emoções agradáveis, sonhos maravilhosos. Que tal? Acende a indagação, movida pelo rápido recurso à memória do dia. Ou seja, o filme da viagem ao Caimbambo, recheada pela descoberta de suas picadas e paisagens, que têm um lençol vegetal de inevitável êxtase nesta época chuvosa. Mas nem isso sequer conseguiu suplantar o «estado de choque» que me havia entranhado.

Ora pois, voltando à indagação de há pouco, não seria mais justo que os dias bons trouxessem apenas sonhos equivalentes? Mas, vendo o outro lado da moeda nessa lógica, conseguiríamos sobreviver aos sonhos daqueles dias que desejaríamos que simplesmente não existissem no nosso calendário?

O tempo passava, com lentidão irritante. No quarto, apenas eu e a solidão. Logo percebo, dando-me por vencido, que a crítica ao critério dos sonhos era projecto furado.

No cenário criado pelo meu «injusto» sonho, eu acabava de ouvir que era seropositivo, que tinha o famoso VIH, vírus da SIDA. Logo eu, que há cerca de nove anos abracei a causa da prevenção, participando inclusive na concepção/gestão de diversos projectos comunitários de cidadania e saúde preventiva!… Justamente eu, que me “esqueci” do que é sexo sem camisinha, ao ponto de certo dia me chamarem de “espécie rara em vias de extinção”?! Seropositivo, eu? Não! Eu, dono de duas máquinas (para barba e cabelo) de uso exclusivo, que nunca apanhei transfusão de sangue, enquanto que soro só apanhei uma vez?

Já liberto da “anestesia”, dou conta do quanto determinados sonhos têm o inconveniente efeito de “teste surpresa”, sem dar tempo às vezes para elaborar uma saída, com base na retórica ou na lei do plano B. «Olha, você tem o vírus da SIDA!». Estaria eu preparado para ouvir tal notícia?

Sempre pensei que sim. Os anos de activismo na luta contra Infecções de Transmissão Sexual dão-me o direito de pensar que tenho um background consistente. Se nunca me abalei quando alguém revelasse a condição de pessoa vivendo com o VIH, só podia ser devido à transposição da barreira da estigmatização e preconceito. Na minha condição de jornalista (24 horas por dia), acompanho o que os outros (rádio, jornal, TV) fazem – com a devida empatia perante o drama de pessoas geralmente rejeitadas no seu meio. Não sendo os meus próximos imunes, há bem poucos anos perdi uma prima, que faleceu em consequência da SIDA. Será que ter sensibilidade perante um problema habilita o indivíduo a vivê-lo?

Ou será que me identifico mais com o slogan “Viver com o vírus da SIDA é possível, mas sem ele é melhor”? No momento, já em nenhuma certeza mais me arrisco encostar. De repente, vejo as minhas convicções, preconceitos, optimismos e receios, apoiados em cima de um tapete escorregadio. Alguém estaria preparado para ouvir a notícia de que somos seropositivos?

Usando da honestidade, de si muito ligada à minha personalidade, assumo que não estou (afinal) preparado para ouvir que sou HIV positivo. Trouxe-ma o sonho esta verdade. Entretanto, penso que não é este o ponto. A questão é: o que fazer perante tal fraqueza? A resposta que me ocorre não é nova: há que levar a vida de modo a afastar, o mais longe possível, os riscos de contrair a infecção. O uso racional da sexualidade faz a diferença.

Gociante Patissa, aeroporto da Catumbela, 28/02/09

domingo, 1 de março de 2009

Crónica: Esse rapaz vai longe... Apoiem, senhores com sensibilidade para a arte, essa promessa da guitarra e voz

Nessa vida temos o prazer de cruzar com aquelas pessoas em cujo talento nos "apaixonamos" à primeira vista. E a intuição não falha: tal como Matias Damásio e vários outros batalhadores, ainda havemos de nos orgulhar de Wladmiro Gonga também, um artista de mão cheia.
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Sem desprimor para qualquer estilo musical, quem ouve o "miúdo Ngonga" tocar tem a forte percepção de estar a saborear uma fatia musical com todos os molhos. Não só a dedilhar, mas também a vocar. (Esse "miúdo" quer fazer tudo sozinho ou quê?)
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Deu-se a conhecer em Benguela como integrante do staff do "poeta do século", o declamador Fridolim Kamolakamwe. Cantando temas da sua lavra e interpretando clássicos angolanos e não só, bem ao estilo de cantor de bar, o guitarrista foi o suporte do espectáculo de poesia e trova do Cine Monumental, organizado pelo jornalista Gilceu de Almeida com Adérito Chiuca. Perguntem às senhoras que apaludiram q.b. entre o romance e o drama cantados numa voz só dele.
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Gonga, que muitas velas ainda tem a apagar até atingir os 30 anos de idade, para além de estudar exaustivamente a guitarra, na base do autodidactismo, conta com bases do Instituto Médio de Música. Diz ter intercâmbio com músicos brasileiros e italianos, para só citar alguns, recorrendo, quando não pode ser de forma presencial, à via Internet. . Ele sabe que vai longe, tanto quanto sabe que terá que levantar por cada golpe que levar na consolidação do nome. Aliás, e o que é mais doloroso, esses golpes às vezes atendem pelo nome de falta de carácter de gente que inevitavelmente cruzará o seu caminho.
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Mas como dizia o outro, não importa quão longa seja a noite, pois a manhã acabará sempre por chegar.

Agluém viu a Joana Cangombe por esse mundo fora?

Gostaria de ter notícias da Joana Cangombe, a jovem radialista (desportiva) do Lobito que há cerca de três anos, mais ou menos, deixou sua cidade para prosseguir os estudos no Brasil.
Então é assim?!, não se lembra dos amigos nem nada... Isso se faz?????!!
Sucessos, "doutora"!
Gociante Patissa

Início da radiodifusão em Angola. A data ainda é polémica, mas urge a reflexão e intercâmbio entre gerações

28 de Fevereiro de 1928 ou 1933?
Ficou uma vez mais visto que o dia de início é assumidamente o apontado na linha anterior, não sendo este entretanto o mesmo caso do ano.
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Cabral Sande, que falava ao telefone ao programa "Pista Livre", da jornalista da Rádio Nacional de Angola, Lena Sebastião, deu um contributo à história da rádio na provincia de Benguela (que é útero da história do país inteiro).
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Uma das questões apontadas, referindo-se à diferença, se o jornalismo das gerações anteriores era melhor ou não que o actual, aquela vedeta do radialismo angolano asseverou que «actualmente faz-se mais rádio, porque o jornalismo não existe!».
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A ênfase da sua "desilusão" recaiu ao facto de, hoje, as rádios não investirem na interação com o ouvinte, do ponto de vista da participação ao telefone, parecendo que a responsabilidade pela participação é deste quando devia ser da rádio. «Eu, por exemplo, se te pedir para tocar música da Míriam Makeba, você é capaz de ir no computador e tocar. Mas o estúdio não tem saldo no telefone, que é para ligar para o ouvinte», sustentou.