PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Feliz Natal e muito agradecemos a sua visita


Com abundância de luz (ou de sombra) em sua casa (ou longe dela por circunstâncias várias), o Blog Angodebates lhe deseja um bom natal na presença dos que lhe são mais próximos (física ou mentalmente)!

Aproveitamos também para reiterar a nossa satisfação pelas visitas que recebemos, algumas das quais sentimos muita falta - pois permitiram-nos criar uma interacção (amizade, mesmo!) activa, sejam utentes de blogs ou não. Continuaremos a servir, usando o espaço como caderno de exercícios, janela sempre aberta pelo exercício da cidadania, enfim, um canto, do canto, do conto, do sorriso e do reencontro.

Estamos juntos!
Gociante Patissa, bairro da Santa-Cruz, Lobito, 24 Dezembro 2009

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Antes que fosse tarde demais... FAF, Manuel José e Manucho Gonçalves ultrapassam diferendo

A Televisão Pública de Angola (TPA) destacou ontem que o atleta Manucho Gonçalves volta a fazer parte dos Palancas Negras, tendo ficado "esclarecidas as dúvidas" que motivaram o mau estar na relação com o seleccionador nacional, Manuel José. A notícia foi reforçada com entrevista áudio, cedida pela Rádio Nacional, em que o presidente da Federação Angolada de Futebol, Justino Fernandes, confirmava isso mesmo.

O Blog Angodebates coloca assim ponto final à sua advocacia contra a manifesta atitude de arrogância (assumimos o termo no seu sentido literal) do seleccionador nacional, sobre o atleta Manucho Gonçalves (ler artigo de opinião aqui). Manucho teve um comportamento reprovável aquando do estágio em Portugal, uma punição legítima, não fosse o exagero do técnico em querer impor o "formato" do pedido de desculpas, não estando satisfeito mesmo após feito publicamente pela TPA. É conversando (de preferência no momento oportuno) que as pessoas se entendem. 

Festas Felizes aos Palancas Negras e sua equipa ténica, à FAF, aos amantes do Futebol e desporto em geral.

Gociante Patissa, Lobito 23 Dezembro 2009

domingo, 20 de dezembro de 2009

Administração Municipal de Benguela exige venda apenas em locais oficiais / Fiscais acentuam medidas coercivas para desencorajar zungueiros


Meses após a sua inauguração, o número de feirantes no Mercado Municipal é de longe inferior ao de vendedores ambulantes, vulgo zungueiros. Só um estudo explicaria melhor as causas de tal fenómeno e consequente solução, mas quem não quer esperar é a Administração Municipal de Benguela, que já se manifestou indignada. Não ficando por isso, fiscais da Administração têm acentuado a sua actividade coerciva, com as habituais corridas aos vendedores ambulantes, de modo a convencê-los a praticarem a sua actividade unicamente em locais oficiais.

Vende-se tudo na zunga literalmente. Centenas de homens, mulheres e crianças vêm na venda ambulante o ganha-pão. E a “profissão” capta maior empatia social pela imagem de mulheres aos pregões, com bebés ao colo e bacias de legumes e hortaliças à cabeça. Estas mesmas mulheres são acusadas, e com razão, de contribuírem pouco para a higiene da cidade, quer pelo lixo resultante dos seus produtos, quer pelo abandono deliberado frequente de descartáveis com dejectos dos petizes. Outro ângulo da preocupação tem a ver com a legalidade do que se vende, por exemplo discos pirateados, ou dos riscos à saúde pública, como no caso de medicamentos.

Se, por um lado, é legítima a actuação da Administração Municipal de Benguela no sentido de velar pela legalidade e postura, já por outro, não deixam de ser oportunas as seguintes indagações: os zungueiros preferem a rua porque o citadino não vai ao mercado, ou este não vai ao mercado porque o zungueiro já é acessível na rua? Seriam as medidas coercivas uma saída fértil, ou o melhor seria repensar os critérios de legalização da venda ambulante?

Desafios de quem anda na zunga contados por quem os enfrenta

António Pomba é vendedor ambulante há dois anos «para sustentar minimamente as crianças». Diz que o seu rendimento depende dos salários da função pública. Faz o que pode para custear os encargos escolares dos filhos «da primeira até quarta classes», mais adiante é impossível. Questionado se está satisfeito pelo trabalho que faz, Pomba disse: «isso aqui é simplesmente para remediar, porque não há emprego. Este é um trabalho de risco, por exemplo aqui há muita poeira, mas, como não tenho mais outro sítio, estou mesmo a remediar aqui».

Ao microfone do repórter Florentino Calei também falou a cidadã que se identificou pelo nome de Caty. Vende fraldas descartáveis há cinco anos. Com o trabalho que faz, disse, «não estou satisfeita porque isso dá muito trabalho, a pessoa sai de manhã [6h30] e volta à tarde [18h30], muito cansada. Nós aqui não temos lugar de vender, quando a pessoa ocupa, vem outra pessoa a dizer que o lugar é dela». Se acompanha os filhos à escola, ela confessa: «não vou a tempo de levar as crianças à escola, só se tiver em casa uma criança já grande para levar as outras». Victorino Chombossi zunga eléctrodos e grampos de metal. É dos que abandonaram o mercado do “Mbangu-mbangu”, no morro do Lobito, em função da pouca clientela, ao contrário de quando o mercado do Chapanguele funcionava ao Bairro Africano. «A distância é muita, porque a pessoas sai da cidade e gasta Kz 200 e ganha preguiça. A pessoa passava um dia sem conseguir vender um Kz 100», justifica. E conta as razões que o levaram ao comércio informal: «Faço este serviço porque pessoalmente fui tropa e, quando vim da tropa, já sabe, emprego não aparece. Porque certas pessoas que cumpriram a tropa não têm formação».

Venda ambulante é prevista por lei, mas feita ilegalmente

Segundo Luciano Anselmo, que representava no programa “Viver para Vencer” a Direcção Provincial do Ministério do Comércio, no passado dia 17/11, a venda ambulante não é necessariamente ilegal em Angola, só que é largamente praticada de forma ilegal. Os cartões de vendedor ambulante podem ser adquiridos através de um processo que inicia nas administrações municipais e se consolida com o pagamento regular de impostos. Perante tal constatação, o programa “Viver para Vencer” procurou saber de Luciano Anselmo se a Direcção do Comércio tem algum plano no sentido de campanhas de mobilização dos cidadãos para a necessidade de legalizar sua actividade na venda ambulante. Mas tudo indica que não.

(actualizado) Gociante Patissa, Benguela 8 Novembro 2009

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Crónica: “O papel do Juiz é condenar…”

Passando pelo Club-K, vi a notícia que dá conta do desemprego de Armando Tchicoca, correspondente da Rádio Ecclesia (da Igreja Católica) na província do Namibe. Não me debruçarei obviamente sobre as causas, para não fazer o papel de juiz. Para quem não o sabe ainda, e como referiu em plena avaliação oral um estudante finalista do Curso de Direito de certa Universidade, “o papel do juiz é condenar!”… Ora, se ele que é finalista de Direito o diz, quem serei eu, que só entendo de jornalismo e de linguistica, para desmentir?!

Se, em 2004, a Rádio Ecclesia abrisse, na província de Benguela, seria assegurada por quatro redactores-repórteres-noticiaristas, o Lázaro, a Úrsula, a Clementina e eu. Foi nesssa altura que conhecemos o nome Armando Tchicoca, a quem tinhamos por correspondente mais produtivo. É que era obra (só dele) conseguir em média três matérias para um noticiário - quem acompanha a dificuldade de jornalistas dos órgãos privados, sabe do que digo.

Fazia parte dos nossos “treinos” acompanhar em directo, às 12h25 o noticiário da Rádio Ecclesia, que nos chegava com um audio impecável acionando uma pista da consola do estúdio. E, naquela fase de expectativa, como que atletas aguardando o arranque do campeonato, era “doce” o noticiário na voz de João Pinto, o das “notícias, uma a uma” (hoje na Televisão estatal), quando chegasse o momento de chamar o “repórter de confiança” a partir das terras da Welwitchia Mirabilis, Armando Tchicoca.

Até seria legítimo intrigar-nos o destaque que o homem merecia, logo ele que não tem a “dicção padrão”, que tanto nos exigiam. Mas Tchicoca tem carisma. Tem também (ou tinha, que nunca mais o ouvi) um condão de investigação, o tal “bicho da polémica”. Atenção, já o disse, não sou juiz… e ainda bem… meu papel não é… condenar.

Quando voltei ao Namibe, em Abril de 2005, integrando a delegação de jovens benguelenses no FestiNamibe, tive o cuidado de conhecer o talentoso Zé Eduardo (hoje na Rádio Mais-Huambo). Já agora, ó Zé, que brincadeira foi aquela, a de me “queimares”, dando-me microfone para improviso de três minutos de rádio em directo num salão??? Tiveste foi muita sorte, porque se meu “sistema nervoso” se activa, amontoava gaffes, e tu ficavas mal.

Nesta mesma ocasião conheci Armando Tchicoca, nas vestes de jornalista da Rádio Namibe (estatal). Recordo que algumas pessoas abandonavam o recinto, quando Tchicoca se aproximasse. Recordo também um momento de brincadeira entre o jornalista e o então Director Provincial dos Desportos, no parque de Campismo, à Maginal, em que a dada altura Tchicoca dizia: “a imprensa tanto te levanta, como te faz cair”. Acho que tal não foi tido como ameaça, ou não se envolveriam ambos em gargalhadas.

Um amigo, que “morre” de paixão pelo jornalismo desportivo, que integrava a delegação de benguelenses, viria confidenciar-me que Armando Tchicoca também já fora juiz… de futebol. Não sei se também vivia de condenar ou não…

Já a terminar, permitam-me esclarecer o seguinte: Armando Tchicoca não é meu ídolo, aliás, ninguém o é na esfera do jornalismo. Aprendo com um pouco de cada um. Agora, por exemplo, espero aprender com ele como sobreviver quando “o pão cai no gasóleo”.

Gociante Patissa
Benguela, 17 de Dezembro 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Vamos indo, o resto é com eles...

Vamos indo, bem, é verdade. O Blog Angodebates observa com satisfação que o número de leitores passou os 14 mil, desde 26 de Janeiro de 2009. Doença mesmo é a nossa Internet via modem da Unitel, que há umas boas semanas tem conseguido ser ineficaz. Bom, mas ela não é culpada, nós é que somos como aquelas esposas que não se conseguem libertar do "cancerígeno" marido... porque, enfim, sei lá, talvez porque... vamos fazer mais como então?!


Gociante Patissa

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Crónica: Luanda, diversidade radiofónica e as bocas do povo


A sala de desembarque do aeroporto, aos poucos, vai ficando agitada. Lá fora o sol esforça-se a desafiar as nuvens, mas em vão. Quando a noite decide chegar, não há quem a faça voltar atrás.

Um cheiro incómodo impera na sala (como que a peixe semi-estragado no frigorífico), mas pouca diferença faz para os passageiros, aliás, tudo o que se quer é pegar na bagagem e sair... para enfrentar o engarrafamento e a "rabugice" social luandenses.

Enquanto o tapete rolante não traz a bagagem, um ou outro "pax" sai da sala por uns instantes para "beijar" o cigarro, e logo à saída depara-se com os pregões desencontrados dos taxistas (até porque nem todos têm familiares com carro e disponíveis para os virem recolher).

E parecia não ser um dia de sorte para os taxistas, que mostravam já comportamentos algo inconvenientes, impacientados talvez pelo receio de darem com o fracasso… justamente no último voo do dia. É sexta-feira e, convenhamos, faz bem a todo o mundo levantar da cama, na manhã de sábado, com alguns trocos no bolso.

Minha companheira de viagem e eu tivemos a sorte de não despachar bagagem, não dependendo por isso do tapete rolante. Restava-nos aguardar pela boleia dos anfitriões, queimando o tempo com aguçada observação a pequenos eventos à nossa volta (em Luanda tudo é evento, tal é a imprevisibilidade com que os mais bizarros fenómenos ocorrem).

Às tantas, sai pela porta uma moça acompanhada de duas crianças. Primeiro, ela “liga” o seu cigarro e, seguidamente, pega no telemóvel e liga para avisar que já chegou (em Luanda, nunca é demais pressionar sempre). Nervosa, ou se calhar nem por isso, atira a “biata” ao chão, acicatando a reprovação dos taxistas:
– Ó moça, é assim que suja a cidade?! Apanha lá o cigarro, pa!, condenava um.
– Essa bodega eu digo não, essa bodega eu digo não!, dizia outro, com rapidez típica de hip hop.
– Apanha lá isso, pá! Isso no tempo do meu marechal… isso no tempo do meu general..., acrescentava o terceiro em tom de nostalgia pouco natural, deixando inferir que citava alguém.

Que linguagem estariam a usar, seria de ku-duro? Eis que, num breve bate-papo, sou esclarecido de que imitavam um radialista (Jojó) do programa “Ndjando” que passaria “amanhã, 9h30, na Despertar [com ligação à Unita]”. Comovido pela campanha, acordei ávido a escutar (com ouvidos de aprender) o espaço, que “roubou” o nome a uma dança tradicional da etnia Ovimbundu. Contra o que imaginava, não era programa cultural, mas de uma linha com contundente crítica social, segundo o apresentador, apresentado factos do quotidiano com sátira social e humor à mistura. Custou-me definir o género jornalístico, é verdade, de tão “híbrido” que é.

Como estudante de linguística, estimula-me sempre estar em Luanda por causa da multiplicação de fenómenos no linguajar popular. Já no outro dia, ouvi um taxista de Hiace a dizer que “o carro do outro andou a ngongar [de ngongo=sofrer] cinco dias na polícia”, e que certo polícia já lhe “poeirou” duas vezes, pelo que já “num [não] queria confiança”.

E já como radialista autodidacta, digo que, de facto, não há nada melhor que estar em Luanda para sondar a diversidade/discrepância radiofónica angolana, numa cidade com mais de oito estações, sendo pelo menos quatro rádios privadas (Ecclesia, Despertar, LAC, Mais).

Gociante Patissa, Novembro 2009

Do Morro da Kalumba, Lobito, a boleia para a cidade das Acácias Rubras


Colégio das madres ao lado do Hospital Central de Benguela


domingo, 22 de novembro de 2009

Alguns flashes de amizade na União dos Escritores


(Botelho de Vasconcelos, Gociante Patissa, Lupito Feijó)

(Paula Russa e GP)

(GP, Marta e irmão, Ngonguita)

Crónica: O meu momento na União dos Escritores Angolanos... Com cartão de membro e tudo

Quando em 1996 descobri minhas inclinações para a escrita e a comunicação social, não tendo conquistado simpatias na segunda porque possuía apenas uma camisola, duas calças e sapatos emprestados pelo António, passei a carregar uma certeza: ainda não sou a pessoa que nasci para ser, nem estou no lugar que nasci para estar.

Doze pessoas tomaram posse, ontem (21/11), como novos membros da União dos Escritores Angolanos, eu sou uma dessas pessoas. Não tive tempo ainda de plastificar o cartão de membro, também ainda vibro de satisfação pelo efeito encorajador que representa para mim (não fui credenciado a falar pelos outros) pertencer à nobre colectividade de escritores do país.

«O que para uma pessoa “normal” seria mentira, para um(a) escritor(a) é imaginação», disse certa escritora ocidental à revista “Granta” em resposta à pergunta «de onde vem a imaginação?»

Decidi, tinha eu 17 anos e meses, participar das gravações de programa infantil televisivo na cidade de Benguela, o que me custava três horas em ida e volta de Comboio (Caminhos de Ferro de Benguela), já que morava no bairro da Santa-Cruz, Lobito.

Lá, olhei a plateia, linda, obviamente os mais bonitinhos sentados na fila da frente, e havia figurantes que mais se pareciam comigo. O programa era gravado no recinto do Museu de Arqueologia, à Praia Morena. Uns cantavam, outros dançavam, alguns contavam anedotas, cada caprichando para merecer filmagem. Regressei à casa e escrevei um poema intitulado “O Nosso Comboio”, que teve os elogios dos apresentadores e lançou a “minha marca”. Nunca mais parei.

Tudo o que consegui ser e construir devo a duas instituições: uma, a Associação Juvenil para a Solidariedade (AJS), ONG que fundamos quando frequentávamos ainda o ensino médio de ciências sociais. A AJS é, como nós, uma força pequena com vontade de contribuir para o crescimento da consciência do exercício da cidadania através de exercícios permanentes de educação e comunicação. A outra instituição, que vem antes de tudo, chama-se Emiliana Chitumba Gociante, minha mãe. «Por muito que o galo cante, não pode é esquecer que veio do ovo» (provérbio bakongo).

Benguela passou por um longo período sem publicação de obra de jovem residente, jejum que foi quebrado, em 2008, com o lançamento do meu livro de estreia (poesia) “Consulado do Vazio”. Seguiu-se o livro de Martinho Bangula. E porque merecemos, somos quase sempre “convocados” para assistir a lançamentos. E num desses lançamentos, peguei no livro do confrade, que ardia de emoção pela realização do sonho, e vi que o outro era escritor mais ou menos… escritor, fica já assim… porque escritor é quem tem um livro, não é isso?! O que se passa é que a juventude tem pressa de publicar, e não custa juntar um textos (sem rigor nem observação editorial) e levar à gráfica mais próxima, e pronto!, uma foto do autor na capa…

Mas terei legitimidade para criticar? Em 2003, levei para meu estágio à Rádio Morena Comercial uma rubrica de enigmas, em que os ouvintes podiam telefonar e sugerir o final mais aconselhável. Aí surgiu a ideia (peregrina) de adaptar os enigmas e compor um (suposto) romance com 100 páginas e tal. Submeti logo a uma das maiores editoras privadas de Luanda. Alguns meses depois, ligo e o editor me responde com o devido profissionalismo: «epa!, eu aposto em obras que me garantam retorno, e aquela em princípio não», ao que ingenuamente pergunto: «mas, assim em jeito de conselho, onde é que falhei?» E outra vez profissionalmente, o editor me responde: «eu não sou pago para ensinar a escrever». Mas, então, a juventude vai aprender como, aonde, se não há escolas de capacitação de potenciais escritores?

Eu faço parte da geração de teimosos (autodidactas). Assim é que, cinco anos após fiasco da primeira tentativa de prosa, consegui convencer a mesa de leitura da União dos Escritores Angolanos, e será publicado brevemente um livro de contos meu.

Voltando à emoção da tomada de posse como novo membro da União dos escritores angolanos, devo dizer que mudou-se algo no meu eu profundo: finalmente, já sou quem nasci para ser, falta é estar no lugar que nasci para estar.

(…)
Aquela luz
para lá do mar
útero da mesma aragem
que outras velas vai apagar
ainda há-de ser minha
antes que caia do céu a manhã e o fim do cenário
ou façam-me tudo então
menos perdoar

Gociante Patissa
Luanda, 22 de Novembro 2009
(Foto 1-recebendo o cartão de membro das mãos do secretário-geral, Adriano Botelho; 2-mandando umas bocas; 3-Frederico Ningi e eu)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Citação

"Costumo ser sincero. Se isso tiver que custar alguma coisa um dia, então estou disposto a pagar esse preço". (Jornalista Jaime Azulay, hoje 17 Nov 2009, em entrevista à rádio Benguela, onde se mostrou agastado pelo atraso na inauguração da ponte no município do Cubal).

sábado, 14 de novembro de 2009

Opinião: Seleccionador nacional perde tempo com mesquinhez. Manuel José é líder arrogante, profissional complexado, ou é impressão nossa?


(Foto: extraída algures na Internet) Nada aparentava mais esta inoportuna polémica envolvendo Manuel José (MJ), enquanto treinador dos Palancas Negras - nome oficial da Selecção Angolana de Futebol - por duas questões ba stante óbvias.

A primeira, e deve estar acima de qualquer feitio ou palmarés, é a iminente entrega dos novos estádios construídos pelo Governo para o CAN e consequente marketing já que a competição mudou tardiamente de nome (Taça Africana das Nações, Angola, Orange 2010). A segunda questão prende-se com gestão da auto-imagem. Ora, ninguém em sã consciência ousaria condenar MJ por ter afastado dois atletas por estes não terem tido um comportamento digno durante os treinos/estágio. E pouco muda que os atletas em causa sejam os avançados Flávio Amado e Manucho Gonçalves (MG).

O que porém MJ não pode impor é que vejamos como doces as deselegâncias com que  faz juízo de valores a outrem, como se de repente se anulasse tudo de construtivo que A ou B tenha feito. Tal é dizer que MJ não é o único falante de língua portuguesa com o direito de se sentir lesado e defender-se via imprensa de eventuais beliscos à sua imagem. E não serve de imunidade dizer que “eu não sou politicamente correcto”, pois a posição que ocupa eleva o peso das consequências do que diz. Certo analista desportivo luso criticou recentemente MJ por ter usado termos menos educados no Jornal dos Desportos contra o seu colega do Recreativo do Libolo, por este não ter cedido atletas à selecção nacional para um amistoso.

“Ao dizer que quem conta um conto aumenta sempre um ponto, Manucho chamou-me de mentiroso e eu não admito isso. A única verdade é a minha”, disse MJ, que confirmou estar ultrapassada a situação de Flávio por este já se ter retratado. Não estaremos de modo algum a influenciar o técnico por uma convocatória de Manucho, mas seria de bom-tom analisar o que se passou com o enfoque para o verdadeiro problema. E numa colectividade, os problemas são vistos na perspectiva de solução, dentro dos mecanismos disciplinares. É mesquinhez, sim, submeter o formato do pedido de desculpas à subjectividade do gosto do treinador.

E com todo o respeito que o MJ merece, pela idade, que quase sempre referencia, e pelo palmarés, a questão é já da alçada da FAF (Federação Angolana de Futebol). Em minha opinião, era mais do que tempo de a FAF  chamar o jogador, para o puxão de orelha que se justificar, de modo a que a sua convocatória dependa apenas da boa condição atlética e não de um pedido de desculpas com laivos de humilhação imposto por um complexado chefe. E mais, ao contrário do que MJ propala, a responsabilidade pelos desaires/êxitos não é exclusiva do técnico, mas também da estrutura organizativa nacional (FAF). Não estará o MJ a pecar por vaidade, que tanto critica dos atletas? Não é já altura da coenrência e de fazer com que o brilho colectivo suplante o brilho individual?

Devo confessar que me alegro com os progressos que os Palancas Negras vêm demonstrando com MJ no comando. E embora eu não tenha grandes expectativas quanto aos resultados no CAN, acho que só ganhamos colocando de parte conflitos geracionais.

Para terminar, gostaria de referir que Manucho pode não ter acertado pela forma ambígua como apresentou as suas desculpas públicas através da TPA ao telefone, mas errou mais ainda o seleccionador nacional, MJ, ao reagir de forma ainda muito mais incendiária. Pelo que sugiro uma fórmula milenar, aquela lembrada num dos discursos do presidente José E. dos Santos: “mais acções, poucas palavras”.

Gociante Patissa, Benguela 14 Novembro 2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Letreiro


Crónica da hora da borla: “O governante e o empresário” (aconteceu)


Não é para já dos temas que me excitem o gosto. O governante e o empresário? Não é mesmo! É ténue a linha que divide os conceitos (se é que existe) no hodierno mwangolê. Um significa outro, e outro significa um. Até nem está previsto no básico princípio de tratar os assuntos iniciando pela definição dos factores … como diferenciar sinónimos?!

Permitam-me, ainda assim, isolar minhas preferências para partilhar convosco um insólito relato que nos foi contado por um colega de escola, ontem, enquanto decorria a borla.

É desculpar só mais uma (indispensável) divagação. Governar a província de Benguela é um desafio espinhoso, ou não se tratasse da “segunda capital” de facto do país. E houve nomes e mandatos que só de lembrar fazem mal à saúde mental. No entanto, pelo palácio da praia morena passaram alguns de quem as pessoas não se esquecem, uns pelo humanismo, outros pela brutalidade, havendo também quem tenha sabido combinar ambos num só consulado.

Continuando. Há algumas décadas já, certo governante recebeu em audiência um empresário. Presume-se que a audiência tenha decorrido efusivamente, numa feliz dosagem entre o feitio rústico do poderoso (um) e a energia atlética do poderoso (outro). – Desculpa, deu para destrinçar quem é governante, quem é o empresário?! Eu avisei…– Terão abordado tudo o que podia (ou talvez não), acabando por acertar uma data para visita às instalações fabris do empresário, a convite deste. “Teremos muito gosto em recebê-lo, camarada excelência”.

E… chegou o dia da visita, o camarada excelência lá todo ele aparentemente a entender o funcionamento das máquinas, num relato recheado com toda a deferência feita pelo próprio empresário. E o governante só a observar, de vez em quando depositando um elogio ao empreendedorismo do conterrâneo (o que, sendo ou não sincero, não é pecado, digamos).

No final da jornada, sua excelência o governante é surpreendido com (permitam-me especular) a mais cara mobília na montra. “É uma oferta nossa, camarada excelência, pelo seu esforço”. E o governante, sabe-se lá porquê, agradeceu a oferta com uma cara… só assim. E lá o empresário a se perguntar silenciosamente o que se passava na cabeça do governante que não mandava já chamar um camião para transportar.

Eis que, surpreendentemente, o governante mandou chamar o trabalhador mais antigo daquela fábrica e lhe ofereceu a mobília mais cara da montra, ironicamente oferta do patrão. “Em meu nome, leva esta mobília. É sua, por todo o suor que tem dedicado ao crescimento desta unidade de produção. Tu mereces”, teria dito mais ou menos nestas breves palavras.

Como disse, se vos conto isso, a culpa é dos colegas que decidiram ocupar a borla contando histórias e estórias insólitas sobre os bastidores da província de Benguela. Abraços!


Gociante Patissa, Benguela 11 Nov. 2009

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Aforismos e anúncios chamativos

"Se bebes para esquecer, paga antes de beber" (Bar, Benguela)

Não corra/não mate/não morra (via entre Benguela e Huila)

"O fiado é como a barba, se não cortas, cresce" (Lanchonete na Caponte, Lobito)

"Meta isso na cabeça de uma vez por todas" (referência ao condom)

Qual deles lhe parece ter mais graça?
Abraços do vosso Gociante Patissa

terça-feira, 3 de novembro de 2009

De volta à casota...


É sempre uma emoção agradável girar a chave e empurrar a porta de casa, depois de alguns dias fora. É como se a morada renascesse. Vamos lá ver o que Benguela nos reserva...
Abraços aos amigos, meus e do Blog. E por falar nisso, há dias que noto ausência da república do Kenya entre os visitantes... quê isso? É por algo de errado que eu tenha feito???
Gociante Patissa

domingo, 1 de novembro de 2009

Um país acolhedor, de facto


Uma homenagem aos ardinas


O fim-de-semana é para eles e respectivos clientes o ponto mais alto da procura, que é quando vêm à rua  os jornais privados, de longe mais solicitados que o Jornal de Angola (oficial e único diário do país). E lá vai o ardina, levando muitas vezes jornais cujo conteúdo não teve tempo de ver, isso, se é que o entenderia.
Gociante Patissa

sábado, 31 de outubro de 2009

Sugestão de Leitura: "Quem me dera ser onda" (versão bilingue, Português/Umbundu)


Depois de muito procurar pelo célebre "Quem me dera ser onda", da autoria de Manuel Rui Monteiro, eis que descobrimos uma livraria na cidade de Luanda. Trata-se da Livraria Lello. É uma versão bilingue Português/Umbundu, de 147 páginas, com tradução do filósofo (e não historiador segundo correcção recebida de um dos nossos leitores) Jaka Jamba, com a chancela da Editorial Nzila, Setembro de 2000.

Continuação de bom fim-de-semana!
Gociante Patissa

Na força do verbo, plantado o legado


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Jovem escritor estreia-se com "Matrimónio Venerado"


“Matrimónio Venerado” é título de obra literária, cujo lançamento ocorreu na quinta-feira (29/10) em Luanda. Da autoria de Isaac Pacheco “Macumbumdu da Graça” (à direita na foto), que se estreia embora esclareça não se tratar do primeiro manuscrito da sua lavra, o livro tem seis capítulos e 30 páginas, com edição independente.

Curioso, o Blog Angodebates perguntou se o autor já passou pelo matrimónio. «Não passei. Mas como objecto de ficção podemos ter uma ideia do que é matrimónio», referiu Isaac Pacheco, para a seguir acrescentar, «o romance retrata a vida conjugal, parte de alguns princípios: o namoro, o noivado, até ao matrimónio. Exactamente queremos apresentar frutos daqueles matrimónios que já existem».


A apresentação do livro esteve a cargo do escritor Carlos Pedro (CP), que é Coordenador de actividades da Brigada Jovem de Literatura.

de uma forma recreada, reflexiva, como manda a regra da literatura, a regra implícita. O autor faz uma incursão daquilo que é o matrimónio cristão e não cristão. Na sua visão, [o primeiro] é ideal se quisermos ter uma família mais saudável, com harmonia.  É uma obra importante porque é um género que poucos jovens têm estado a cultivar, comparativamente com a poesia», considerou CP.
«É uma obra actual, retrata um tema muito apelativo


CP revelou que pelo menos dez jovens escritores estrearam-se este ano, safra superior a do ano anterior, o que vê com um misto de agrado e preocupação.


«Apela-se aqui aos críticos para poderem fazer um estudo de uma nova geração que já surgiu. Portanto, seleccionar os livros, fazerem uma abordagem, para vermos então como vai o estado da literatura angolana com o surgimento destes novos».


Gociante Patissa, Luanda, 29 de Outubro de 2009

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Crónica: "(...) haverá geração melhor?"


Era para ser inesquecível, e o foi (apesar de tudo). O reencontro é, ou seja costuma ser, mesmo nas mais adversas circunstâncias, uma emoção positiva.

D. Makiadi Maria atravessava a fronteira na companhia da família, uma filha e duas netas, cujo pai, que era suposto ser genro, nunca chegou a conhecer. Mas para quê falar dele agora, se só é homem quem está presente?! Viúva de marido e de genro fugidio.

Ao partir para a sua segunda pátria, plantara a semente da esperança. Por isso, adorava a vida no estrangeiro. Não porque se sentisse realizada, mas simplesmente porque sonhava voltar à terra, quando despertasse no coração dos homens o lado mãe.

Quem é camponês onde nasce, o é em qualquer parte… se não de corpo, pelo menos de alma, sendo que, no entender da experiente D. Maria, lavrar a terra é das mais limpas profissões, as que não atraem políticos. Aliás, ela sempre teve mau pressentimento em relação aos políticos, e estava certa… se calhar.


No fundo, o que incomoda as pessoas não é tanto dos actos animais, mas a sua própria impotência perante estes. De tal forma que, aconteça o que acontecer, a imagem daquilo que nos é sublime permanece sempre viva no tesouro da memória.

D. Makiadi Maria, por exemplo, guardava na memória uma imagem adolescente do Uíge, quer enquanto cidade, quer enquanto berço da sua gente, suas raízes. Muito café, muito algodão, muita educação à sombra da mulembeira.

Essa imagem, obviamente, remetia-a aos tempos de mocidade. De repente, ela deixa de sentir a dor dos pés inchados pela caminhada, pois o subconsciente percorria, despreocupado e veloz, as artérias da cidade… correr, com a sensação de voar!


– QUEM TEM CRIANÇAS, VAI À DIREITA! – ordenava o técnico do Ministério da Reinserção Social – ESTÁS A OUVIR, Ó MAIS-VELHA?


Nesse instante, D. Makiadi acorda do sonho em que andava embalada em pé e reencarna a condição de angolana expulsa da Republica Democrática do Congo após 40 anos. A roupa que cada membro da família trazia no corpo era tudo o que aconseguiram salvar.


Várias famílias partilham o mesmo drama, o de não saberem o que fazer no dia seguinte. Enquanto isso, os políticos apertam os braços… de desculpas e entendimento diplomático. O que vem a seguir para os da base da pirâmide, D. Maria ainda não sabe, e talvez não seja a única.

"Pobres políticos… haverá geração melhor?”, indaga-se a velha no silêncio.

Gociante Patissa, Luanda 27 de Outubro de 2009
PS: Adaptação do texto/exercício com vírgulas improvisado na prova de Português na Universidade-ISCED

Engarrafamento luandense, há quem o considere problema de saúde pública



25 Outubro 2009

Recados de uma chuva


Luanda, 25 Outubro 2009

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

sábado, 24 de outubro de 2009

Humor: As rimas do Joãozinho (*)

Numa aula de língua portuguesa, a professora desafia a turma:
- Então, meninos, quero que inventem um verso com rima.
Passados alguns minutos, lá surgia o rápido Joãozinho com uma:

“O Cangurú
leva flores no cú”

- Ah, Joãozinho, esse verso não fica bem, arranja outro.
“O Cangurú
leva flores na bochecha…”

- Ah, menino, mas assim não tem rima…
- Calma, professora, que ainda não acabei. Então é assim:

“O Cangurú
leva flores na bochecha…”
só não as leva no cú
porque a professora não deixa”

(*) piada recebida do amigo Martinho Bangula, que a foi desenterrar sei lá aonde.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Conto em construção: "Um turista, uma cidade, uma lua que anda"



Depois de muito, mas muito tempo com os olhos parcialmente vendados por uma lei da força chamada colonização, os habitantes de certa localidade viriam agitar as águas. Entre outras coisas, que só os olhos libertos podem alcançar, notaram que havia algo mais belo que espreitar o sol às escondidas, era ver a lua, a elegância de uma lua que anda. E baptizaram a sua cidade de Luanda.

Os que odeiam Luanda como cidade são muitos, e estão certos. As pessoas que a amam não são poucas, e estão igualmente certas. Aqueles a quem Luanda não aquece nem arrefece são vários e têm razão. É que Luanda é um acabado exemplo de contraste, assim entende Man’Toy, um cidadão nosso que se vê obrigado a viver uns dias longe do sul. Enquanto reflecte, vê passar um Jeep X-5 atrás de um Starlet Bebucho, sendo evidente no rosto de cada condutor elevada auto-estima.

Era domingo. Man’Toy desembarcava do autocarro à noitinha, e nada indicava que o frenesim no parque fosse terminar, como seria normal após a hora do jantar. De facto, Luanda não dorme.


A cidade é vasta e com muitas ruas parecidas, o que a torna difícil de dominar. Man’Toy porém conhece um segredo, que não se estuda nem se encontra em folhetos turísticos. Conhecer Luanda passa por dominar as rotas dos táxis (candongueiros). O compatriota enfia-se no candongueiro certo e hospeda-se numa Pensão, ao bairro do Mártires de Kifangondo. O local já teve preço bem mais acessível, mas não resistiu à moda da especulação. Mas que remédio…  


Meia-noite no relógio e Man’Toy não conseguia pregar o olho, tal era o som ensurdecedor da casa ao lado! Alta farra para comemorar aniversário de bebé. Aliás, já foi dito, Luanda não dorme, pena é que nem sempre o motivo seja trabalho. Há quem leve a vida apenas a cantar, a dançar, e beber… Óbitos e aniversários não faltam, aliás, enquanto o fim-de-semana não chega para se “cair na noite”, de si já quase uma “religião”. Do outro lado da rua, guardas fazendo finca-pé ao sono, porque há quem também não dorme, na ânsia de uma oportunidade para roubar. Man’Toy sai para ver a beleza da lua que anda. Na portaria, depara-se com quatro mulheres de maquilhagem exagerada. E o guarda dissipa as dúvidas: “Chefe, vai uma fruta?” Para as prostitutas, era uma noite normal de serviço, já para Man’Toy um choque. “Fruta, não”, disse, e voltou ao quarto. 

Que fazia então Man’Toy em Luanda? Ele considera-se um conservador moderado. Vive argumentado que conservador moderado é aquele que, não concordando com certas mudanças, usa o poder da máquina fotográfica para guardar memórias. Umas vezes fotografa por prazer, mas geralmente é por protesto. Assim é que tomou a iniciativa de ir aos Estados Unidos para fotografar Barack Obama na Casa Branca, antes que uma mudança repentina altere a ordem das coisas. Dois anos de salário acumulado cobrem a passagem. A questão era apenas a obtenção do visto.

Lá chega à Embaixada 20 minutos antes das 8h. Alguns segundos são suficientes para apreciar a baía a partir do Miramar, a baixa, o Porto e o edifício do Banco Nacional. E apresenta-se para os respectivos procedimentos de segurança, radiografia e quê e tal… Dirige-se a outra sala, onde os guardas verificam a papelada e colam a foto 5x5cm no sítio próprio. O passo a seguir é num guichet, onde se podia ler "na falta de algum dado, não recebemos”, ou qualquer coisa assim.

E são tantas as perguntas no formulário (umas quase idiotas), que sempre fica algo por responder. A senhora que ia em frente, por exemplo, que é divorciada, esqueceu-se indicar o nome do ex-marido e a data de nascimento. “Ainda bem que nunca me casei”, conclui Man’Toy, “era só o que me faltava, ter agora que decorar a data de nascimento da ex… ora essa, pedir isso é que não!!!!

Um folheto recebido à entrada dizia que deveria pagar 10 USD, pelo que Man’Toy adianta já à funcionária que só tinha mil kwanzas. Mas é-lhe recordado que em território americano o dinheiro é dólar. Neste momento percebe que, afinal, o poder do nosso dinheiro, que até tem caras dos presidentes, Neto e Zé Eduardo, não é perfurante em certas paredes.

Sensibilizada pelo insólito motivo da ida de Man’Toy aos EUA, a funcionária, que não tirava os olhos do cabelo despenteado do homem, disse que o valor (atenção, 131 USD e não mil kwanzas) ficava por conta do povo americano. O passo a seguir era o tão esperado momento da entrevista. Ele imaginava-se já numa sala cheia de "brancos, muito brancos" de gravata e tal... pelo contrário, foi abordado por uma moça profissional que o fez sentir como se já a conhecesse. A terminar ela recomenda-o a voltar ao guichet inicial para fazer o pagamento final de 10 USD, ficando o passaporte por levantar às 10h do dia seguinte.

Nisto começava o desespero de Man’Toy, rogando aos presentes que alguém lhe vendesse 10 USD. Mas ninguém acolhia o SOS. Havia inclusive um compatriota com farda da empresa de Man’Toy, a quem abordou e esclareceu que eram "sugados pelo mesmo piolho". Simplesmente, nada!

Os guardas aconselham-no a sair para localizar kínguilas (câmbio de moeda na rua). “Mas onde encontrar os kínguilas, eu que mal conheço as entranhas de Luanda?”, refilava, calado, o homem. “Aqui mesmo perto, no Gangula”, é só curvar ao lado do Cemitério do Alto das Cruzes, insistiam.

Lá ele saia atrás dos malditos 10 USD com auscultadores ao ouvido, fingindo sentir-se à vontade na rua, seus medos no entanto activos. É que seu telefone era rádio e music player, portanto interessaria a ladrões. Naquele momento, uma rádio destacava a notícia do guarda dos correios que foi morto e amarrado no interior da instituição.

Passava pelo famoso hospital Ngangula e nenhum sinal de kínguilas. Na sua província, os kínguilas ficam com o kumbu à mostra na mão, como um abano, o que facilita a localização. Mas em Luanda, não. Finalmente encontra um velho, a quem tenta enganar disfarçando a fala: “Paizin-ho, aqui tinha mbora kínguilas, já num'stão?”, ao que o velho responde: “Você lhes deixou atrás na árvore”. Agradece, dá meia-volta e localiza a kínguila: “maezin-ha, então tão mbora a si escondé?”, e a resposta é directa: “Pensamos que o filho é mbora fiscali”.

Compra então duas notas de 10 USD (não fossem os malditos faltar outra vez!) e volta ao guichet. Lá posto, a senhora emite o recibo e diz o que disse antes, “O senhor não paga, os emolumentos ficam por conta do povo americano”!

Gociante Patissa, Luanda, 23 Outubro 09

sábado, 17 de outubro de 2009

Crónica: "Desafiando o elástico dos olhos"


De acordo com o contador – de cuja fiabilidade não há motivos para desconfiar – este blog possui actualmente 610 Comentários em 287 Artigos! De parte a estatística, vem esta reflexão a propósito de dois motivos: primeiro, apresentar o nosso muito obrigado aos visitantes que de vários cantos do mundo nos chegam. Segundo, um olhar urgente à necessidade de desafiar o elástico dos olhos.

Em vários campos da vida, as perguntas costumam ser sagradas, quer pelo poder de darem ignição a conversas, quer pelo alcance filosófico que encerram. É neste prisma que julgamos justificar-se este texto, que surge em função de termos recebido, em jeito de comentário, uma visão preocupante. É crucial esclarecer que não se trata de “não levarmos desaforos para a casa”, porque tanto não se trata de desaforo, como nos sentimos em casa.

O desabafo em causa surgiu em reacção a uma crónica de viagem ao Balombo e a visita à fonte de águas quentes do “Kutokota”. «Com tanta coisa a acontecer no país e no Mundo vcs não têm vergonha de criar blogs para isso? Falem de algo que valha a pena. Estamos cansados...», diz o/a autor/a sob anonimato – o que por ora é irrelevante.

Depois de ler e reler o comentário, comecei a ter receios do que se queria sugerir. Era necessário desafiar o elástico dos meus olhos para capturar a expectativa do visitante. O que será que vale a pena abordar num blog face “a tanta coisa a acontecer no país e no Mundo”? Por muito que me custasse, fui obrigado a considerar a hipótese de que o autor (ou autora) é de nacionalidade angolana e daqueles que consideram coisa séria apenas os assuntos candentes da política. E é isto que acho profundamente preocupante, que as pessoas tenham o elástico dos olhos no limite, e não consigam apreciar as coisas belas na natureza e no lado interior das pessoas.

Para mim (e isso vincula o Blog) a denúncia de defeitos e incongruências humanas é tão séria quanto a publicitação de virtudes humanas, a ascensão social na base de valores como o trabalho, a solidariedade e a honestidade. Há emoções virtuosas que não devem passar sem registo, sob pena de nos arrependermos um dia. Se a natureza quiser sorrir, lá estaremos com a máquina fotográfica e caneta. Nalguns casos, melhor do que gritar é desafiar o elástico dos olhos.

Portanto, é muito grave, e abala-me, a ideia de deixar que a indignação diante dos erros dos poderosos nos impeçam de ver o que há de belo, de construtivo, de cultural e de harmonioso no pensar das pessoas, que lutam para vencer na vida.

A terminar deixo um desafio: continuemos a desafiar o elástico dos nossos olhos. Pode ser?
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Gociante Patissa, bairro da Santa-Cruz, Lobito, 17 de Outubro de 2009

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Crónica: “Quando a pedra afinal é parte de nós”


Está difícil. Sei que lá vai um bom tempo que da minha lavra não sai uma crónica, daquelas que algumas pessoas sentem falta (sendo eu uma delas, claro). E não julgue que é por falta de vontade. Tenho até tentado capturar os múltiplos vultos de ideias que passam pela ponta do meu nariz, mas, quando chegam na cauda do funil, atolam-se (permitam-me brasileirismo).

Sou, antes de escritor, um sentidor. Daí referir que as ideias passam pela ponta do nariz. O facto de nascer num berço camponês permite-me desde cedo sentir os mundos, do abstracto ao concreto. E não foram poucas as vezes que se confundiram um com o outro, digo, chegando mesmo o abstracto a ser rijo como uma pedra.

Ultimamente não são só as ideias que se atolam no cu do funil, mas também as emoções, umas destacando-se por não serem usuais. Talvez tenha empurrado a pedra a vida inteira para caminhar. A pedra sempre lá, antecipando-se a cada alcance. Agora, mais emoções agradáveis que o oposto, é verdade; mas, para um sentidor, não é determinante. É, às vezes, preferível que as emoções tenham um só sentido a terem que se misturar de forma intensa e ao mesmo tempo.

Sim, faz-me bem que em algum lado me valorizem em função do potencial interior – não vou fingir o contrário, é inútil! Fase difícil da vida. Deu-se início, em 2003, o cultivo com vista ao escoamento do excedente dos sonhos. E, sinceramente, com mais de uma coisa agora a exibir frutos quase maduros… talvez eu não esteja preparado. É como se a pedra já não estivesse no local, esperando ser empurrada antes de cada alcance.

«Mas é como se tivesses receio, parece um processo emocional violento», diz a amiga de Sines com quem tomo café no messenger, «porque as coisas que estão acontecendo são positivas». E ela segue digitando, eu de olhos exageradamente abertos sigo o raciocínio, rezando só para a ligação da Internet não falhar. «Serão várias pedras, e vais removendo algumas, mas elas estiveram lá tanto tempo, que quando não as vês nem sabes bem o que sentir».

Preciso, acho que sim, de expert em gestão de emoções. A solidão à porta fechada já deu o que tinha a dar neste papel. Mas que entenderão de gravidez espiritual da criação os que me rodeiam? Conseguiriam vislumbrar a dimensão da pedra, esta, que, até sabe mover-se à vontade para qualquer direcção? Sentiriam a ansiedade de uma viagem saída da lotaria para ver outro continente, dezasseis anos depois de se apaixonar pelo Inglês?

No outro dia, falei com uma pessoa que presta, pedindo ajuda para empurrar a pedra que me mantém, qual prostituta de subsistência, preso ao estômago. A acontecer, "posso morrer, já vi Angola [do meu ego] independente". Nesse dia, juro, parecia não existir a pedra, diria mesmo que não a tive de empurrar, para chegar à pessoa.

«Serão várias pedras, e vais removendo algumas, mas elas estiveram lá tanto tempo, que quando não as vês nem sabes bem o que sentir». Ora, se a minha amiga de Sines tiver razão, então o meu será daqueles casos de se dizer que a pedra afinal é parte de nós.

Gociante Patissa, 14 Outubro 2009

Aventura na estrada: Viajando do Huambo a Benguela ao volante de triciclo motorizado


O Blog Angodebates foi tentado a entrevistar um anónimo recordista das estradas do centro e sul de Angola, um trabalho que só agora nos é possível divulgar em função da recente avaria do nosso computador.

Há dois anos que Luís Xavier foi transferido para a província do Huambo, onde representa uma ONG. No entanto, tem a família na cidade de Benguela, o que o leva a enfrentar com certa frequência os cerca de 800 quilómetros de autocarro para matar as saudades. A sua mais recente vinda foi marcada por uma aventura, no sentido literal do termo. Luís decidiu fazer a viagem ao volante do triciclo motorizado Bajaj, adaptado para pessoas que, como ele, têm deficiência dos membros inferiores.


Angodebates: Sei que veio ao volante da sua motorizada. Porquê?

Luís: Às vezes é preciso também ser um pouco atrevido, imaginar que nós podemos chegar até onde queremos. Eu, antes de fazer este percurso, Huambo-Benguela, de Bajaj de três rodas, fiz um cálculo. Porque só a nível da cidade, as trajectórias que eu faço, até à tarde, em termos de quilometragem seria uma caminhada idêntica a Huambo-Benguela.

Angodebates: Matematicamente, foram quantos quilómetros?

Luís: A minha motorizada já não está marcar a quilometragem, mas por aquilo que me apercebi, do Huambo ao Balombo são 170 quilómetros, do Balombo da Benguela são 160 quilómetros. E eu parti às 5h do Huambo, às 9h estava no Balombo, tive que descansar umas duas horas para não esforçar muito a motorizada. Às 12h30 continuei a caminhada. Como o troço Balombo-Amela ainda tem problemas, gastei quase três horas. O troço ali está muito mal. Entrei no Lobito deviam ser 17h. Se não fosse o troço que está mal, entraria por volta das 15h.

Angodebates: Em termos de combustível, quantas vezes teve de abastecer?

Luís: Abasteci no Balombo [10 litros de gasolina], mas, na altura, a motorizada ainda não tinha pedido reserva, ainda poderia andar até ao Bocoio [50km aproximadamente]. Atestei o depósito e a motorizada só começou a dar sinal a 30 metros da minha casa [cidade de Benguela]. Como a motorizada ainda é nova, o carburador é novo, não consome muito combustível.

De referir que os triciclos motorizados Bajaj, de origem indiana, surgiram com certa mediatização há seis anos na província de Benguela. Faziam serviço de moto-taxi nas cidades de Lobito e Benguela, sob gestão da Cooperativa de Pessoas Portadoras de Deficiência, iniciativa do projecto “Dignidade”, implementado pela Lardef (Liga de Apoio e reintegração dos deficientes).

Habituado a bater-se pelo direito à dignidade das pessoas com deficiência, Luís vê na viagem um motivo de intervenção social. «Na verdade, muitas [são]as pessoas que não estão a acreditar que vim de motorizada. Normalmente, as pessoas olham para essas motorizadas e, logo, a primeira coisa é reparar a pessoa que está a conduzir a motorizada. E olhar para onde? Para os seus pés. Quem está a conduzir esta motorizada. E vêm logo, “ah, é uma pessoa que tem deficiência”, e só depois é que olham para a motorizada. Naquele grau que diminuem na pessoa com deficiência, diminuem também o próprio meio que é conduzido pela pessoa com deficiência. Eu vim e foi bom!»
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Gociante Patissa, Benguela 2009

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Canhangulo, armamento destruído pela história... e ainda bem


Deve ser evidente que não tenho mesmo jeito com as armas, não? Pois já o sei, tanto assim que acho o quadro a coisa mais fotogénica. Nossa objectiva no município do Balombo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Depois do Congo Brazavile, angolanos escorraçados da RDC

As imagens são desoladoras, os relatos um pouco piores. Centenas de angolanos viram-se forçados a abandonarem a vizinha República Democrática do Congo (RDC). Multiplicam-se denúncias de maus-tratos nessa expulsão compulsiva que não poupou estudantes nem os residentes em situação legal. Em causa, a “operação repatriamento” das autoridades migratórias angolanas, que visa expulsar estrangeiros ilegais, maioritariamente ligados ao garimpo de diamantes.

O quadro piorou uma vez que terminou ontem (06/10) o ultimato das autoridades da RDC, que tem o aval da Assembleia Nacional. Vários retornados ouvidos pela rádio nacional angolana referiram que foram expulsos sem terem a oportunidade de retirarem das residências os seus bens. Houve quem falasse em queima de haveres, incluindo viaturas, para além da perda de emprego.

Está em curso a máquina da diplomacia de ambas as partes, sem no entanto estar à vista uma data para a normalização da situação. O ministro da Reinserção Social, João Baptista Kussumua, entrevistado pela TPA, avançou que, numa primeira fase, os regressados estão a ser acondicionados em tendas na província do Zaire, para posterior identificação de seus familiares e zonas de origem. No entanto, pior ainda pode acontecer, a fazer fé nas palavras do jornalista Nicola Vadjon, ligado ao governo congolês, que, ouvido pela TPA ao telefone, falou de um plano de "expulsão massiva".

Há pouco menos de uma semana, as autoridades do Congo Brazavile tomaram a iniciativa unilateral de encerrar a fronteira que liga a província de Cabinda com a região de Ponta-Negra. Como resultado, vários angolanos ficaram retidos do outro lado, chegando-se inclusive a mobilizar a intervenção da Cruz Vermelha para assisti-los com mantimentos. Felizmente a situação já está ultrapassada.

Note-se que os dois Congos se queixam de humilhação, uma vez que, sustentam, não foram informados pelas autoridades angolanas em relação a expulsão dos seus concidadãos, não obstante as relações de irmandade existentes.

Gociante Patissa, 7 Outubro 09