PONTOS DE VENDA

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PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Galinha-do-mato e batuque foram ao palco

O Cine Imperium, situado na zona da Restinga, na cidade do Lobito, foi palco de duas peças teatrais, “Galinha-do-mato” e “O batuque”, exibidas nos dias 28 e 29/07 respectivamente pela Companhia Oásis. As peças da autoria do professor Africano Cangombe proporcionaram aos citadinos um fim-de-semana culturalmente rico. Casa cheia e calorosos aplausos serviram para manifestar a aproximação entre o público e a arte cénica.

A peça galinha-do-mato retrata a encarnação de um feiticeiro na pessoa do jovem Firmino, como maldição por cometer incesto com a galinha do primeiro. Já no batuque, a cena é em torno da turbulência social depois de um jovem da aldeia ter oferecido a um forasteiro o seu batuque, de si uma herança de grande valor tradicional.

Ouvido pelo Boletim “A Voz do Olho”, o actor e assistente de encenação, Adão de oliveira Rolf, revelou que a mensagem da peça galinha do mato “é de que não nos podemos apegar nas superstições”, enquanto que “ao falar do batuque estaríamos a falar da nossa identidade cultural angolana, que há bastante tempo está perdida”.

Rolf vê nos jovens a franja mais vulnerável. “A nossa juventude, hoje, se lhe falar por exemplo da cultura angolana, se lhe deres um conselho ‘você não se deve vestir assim, porque estas vestes não têm nada a ver connosco’ é capaz de dizer ‘épa, você está atrasado’. E não é por aí! – aconselha – Nós devemos preservar acima de tudo as nossas culturas, as nossas tradições”, rematou.

A satisfação era natural para o promotor do espectáculo e também responsável do Colectivo Tony Artes, António Pedro “Ratinho”. O objectivo do grupo “é fazer do Lobito palco nacional do teatro. E já estamos num bom caminho!”, desafiou.

(Fonte: Boletim "A Voz do lho, Edição Nº 6, Julho/2007)

Língua suja mancha crescimento do teatro

Tem-se observado com inusitada frequência o uso de palavrões em doses exageradas por parte de diversos grupos teatrais que desfilam pelos principais palcos da província de Benguela. A situação não deve fugir muito daquilo que acontece nas restantes partes desta imensa Angola, na medida em que não é apenas prática de grupos emergentes. O flagrante mais recente deu-se com a exibição da peça “Galinha do mato” pela Companhia de teatro Oásis, ligada à Força Aérea Nacional e radicada na capital do país.

Não é preciso ser perito para perceber que no afã de arrancar gargalhadas da plateia, os actores parecem aproveitar-se da tendência do público vibrar mais quando propositadamente se erra na pronúncia das palavras, se usa palavrões ou se abusa no uso de gestos obscenos.

Cai-se então no imediatismo oportunista, comprometendo-se desta forma toda uma necessidade de inculcar em próximas gerações a cultura do teatro. E é aí onde seguramente se está a pecar. Que impressão é que queremos semear? De que o teatro feito em Angola é “palhaçada”, tal como o considerou em Portugal o actor Orlando Sérgio, o “Moisés”, do “Conversas no Quintal?”

Será que não se leva em conta que os apelos dos artistas por via da imprensa fazem alguns encarregados levar filhos a cultivarem o gosto por teatro? Colocou-se a questão no final da peça ao actor do Oásis e assistente de encenação, Adão de oliveira “Rolf”. O teatro é o contraste da vida e tal como ele é, – defendeu – nós nos preocupamos muito seriamente com as técnicas que ele exige; não estamos muito preocupados com os palavrões, porque, até certo ponto, esses palavrões fazem parte do dia a dia. E eles só surgem para enriquecer, até certo ponto, uma determinada cena”.

Não seria arte obviamente se ocultasse os disparates ditos no dia a dia. Mas usá-los para “enriquecer”!? E o nosso entrevistado contradiz-se, quando de seguida afirma que “os palavrões não fazem parte da cena”, mas que estes dependem da “liberdade artística” do actor, embalado na emoção do personagem. “Mas nós também estamos preocupados com isso. Por exemplo na peça de amanhã não poderá haver palavrões”, dizia.

Também questionado pelo AV-O enquanto promotor do espectáculo e falando como professor, António Pedro “Ratinho” advogou que o uso de palavrões não é bem próprio das artes cénicas, não sendo também algo de ruim. E argumenta: “Nós somos artistas e a nossa é uma arte viva. O teatro é uma ilusão de naturalidade, de acordo com a época e a personagem a representar. E uma vez que é o teatro como se fosse um flash do dia a dia, nem sempre estamos em condições de ocultar os factos.

Até se poderia levantar como argumento o facto de acontecer de noite, conquanto em condições normais já as crianças estariam a dormir. Mas seria ainda assim um falso argumento.

Afinal, o crescimento do teatro angolano é um processo que hoje lança as bases, com o crescente surgimento de grupos e palcos. Enquanto coisa “nova” é ainda maior a responsabilidade educativa do artista, na medida em que não há limites de idade para massa assistente. (Fonte: Boletim "A Voz do lho, Julho/2007)

Pensar como zungueira

Manhã de sol envergonhado, na periferia. Poucos meses faltam para o fim d’ano, numa altura em que o inverno dá lugar ao verão. De todos os cantos cresce o frenesim por um dia longo pela frente, em matérias de ganha-pão. Três mulheres distanciam-se cada vez mais da sanzala numa direcção ainda difícil de adivinhar para o observador por quem passam. “Bom dia, mano!”, saúdam as três mulheres, como mandam os bons costumes.

Uma delas leva às costas um bebé, que, tal como o observador, ignora positivamente se o passo semi-apressado é para findar apenas na paragem de Hiaces e autocarros, a dezena de metros, ou se a meta provisória é a estação de Comboio, a um quilómetro. Seja como for, o que é certo mesmo é que o mediático "Afrobsaquete" passa bem a leste das suas preocupações.

Vão na casa dos 24 anos em média, isso dependendo do ângulo de observação. O timbre de voz denuncia uma juventude corrompida por uma velhice existencial, enquanto suas vestes denunciam a coabitação entre a idade cronológica e a responsabilidade social no contexto peri-urbano. Ou seja, muitas vezes, não se é adulto só pelo número de vezes que se “viveu” o natal, mas, isso sim, a partir de quando se deu à luz. Não importa se em casa dos pais ou em “beco” próprio.

“Zungueira ou lavador de carros, não é de se ter vergonha”, o pensamento da música conjunta dos grupos de RAP angolano SSP e Afroman, na música “O vencedor”, é posto à prova:

– Zungueira te sustenta, diz uma.

– Mulher Kunanga é prejudicial, denuncia a segunda.

– Ele é burro, não sabe que enquanto sai, a mulher dele entra com outro homem em casa! – condena a terceira, trazendo à luz o motivo da conversa.

Já agora com o fio da conversa em posse, o observador, que não passa de simples figurante nesta cena flagrante da vida real, segue discreto os passos das jovens senhoras, para perceber ainda melhor como pensam as zungueiras. A curiosidade reside não tanto em “quem é ele?”, mas principalmente no “que se vende?”. Não levavam à cabeça baldes brancos, logo não podiam ser vendedoras de yogurte caseiro. Zungueiras de quê, então?

– Eu saio de manhã p’ra fazer o meu dinheiro. No fim do mês ainda posso apresentar uma quantia boa na minha pasta – insiste ainda a primeira.

– Ele não sabe. Pensa que Zungueira é mulher qualquer – dizia s segunda.

– Uma mulher é aquela que não se deixa!

Lá vão os tempos em que o ganha-pão era responsabilidade só dos homens, quando ninguém engravidava antes de formar seu próprio lar. Mas como é que a coisa mudou, então? Uns acusam as mulheres de facilitar, entretanto outros vêm na extrema natalidade uma questão de “patriotismo”. Convém explicar: se o país tem mais mulheres do que homens, é, matematicamente, “ético” os “poucos” que sobram fazerem a vez dos outros tombados pela liberdade histórica.

E a sobrevivência passa a ser uma questão de equilíbrio de género, onde a mulher carrega tudo: carrega a criança às costas, carrega o sol na testa quando sai e regressa com ele “nos cornos” à noitinha, trazendo os mantimentos para o dia – porque para amanhã, vê-se amanhã! Carrega, quando muito, a ingratidão do marido, que já está com os copos. Depois carrega mais ainda…

Pois, carrega as lamentações das crianças, as quais deverá aturar até à hora da novela, depois da qual virá a ordem do companheiro que “já quer fazer”, sem se lembrar que a esposa não teve tempo sequer de tomar um banho e preparar a mente para mais um exercício sagrado, muito menos se está no período fértil ou não. “Em minha mulher mando eu”, pensará com machismo o ignorante.

Conhecem a cidade não pelos monumentos, mas em função dos clientes que se familiarizaram com os seus pregões. Levam os supermercados ao portão do habitante preguiçoso, conhecendo pela necessidade a cidade de lés-a-lés. São o rosto visível do fenómeno que lançou a mulher para as ruas nos centros urbanos, no seu dever de produzir para sustentar a sociedade - sociedade essa, que a condenará amanhã por não ter ido à escola e não participar na vida política.

Gociante Patissa, Agosto 2007

sábado, 11 de agosto de 2007

Morreu o músico Viñi, Viñi

Aos 48 anos de idade, António Venâncio, ou "Viñi, Viñi" como era conhecido no pela sua arte de bem cantar, faleceu domingo, num dos hospitais da capital de Cuba, Havana, vítima de diabetes de que, segundo informaou a TPA, padecia desde 2005. Citando os familiares do malogrado, a rádio Lobito dá conta que o empresário Valentim Amões foi dos que mais estenderam a mão toda vez a saude de Viñi, Viñi o exigiu, sendo por conta daquele empresário do Huambo que se materializou a viagem em busca de saúde em Cuba, de onde não mais pôde voltar com vida.

Viñi, Viñi nasceu na província do Huambo, tendo-se notabilizado na arena musical ainda na década de oitenta com a sua participação em diversos concursos, entre os quais o da melhor canção política no tempo do monoipartidarismo. "A morte de um Herói", que dedicou ao guerrilheiro Apolinário, foi uma pérola do acervo musical do finado artista. Sua trajectória conta com três CD's publicados.

Viñi, Viñi foi um cantor "do povo", habituado a "acasalar" a harmonia melódica com uma letra sempre retratando o quotidiano da maioria dos angolanos. Na música "Trititi, não chores mais", por exemplo, retrata um pai que esgotado de recursos e palavras de consolo ante o seu filho que clamava por um pão a dada altura se ouve "Ukalile vali, ota, nadaka. Não chores mais, porque o papá não tem pão para te dar".

Qualquer isenção é falsa quando se está perante a morte de músicos e artistas tão comprometidos com a causa do povo, e, embora não siginifique muito, esse vosso escriba rende aqui parte da sua profunda dor. O país, a cultura e o Huambo perderam um
verdadeiro músico e Heroi.
Gociante Patissa