PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Lubango terá nova rádio comercial em 2008 (enquanto o Projecto da Rádio Ecclésia "dorme")

Texto da Voz da América, 28/12/2007: http://www.multipress.info/ver.cfm?m_id=24565

A administração municipal do Lubango vai criar em 2008 uma rádio comercial em cuja gestão do empreendimento estará entregue as próprias autoridades administrativas da cidade capital da província da Huíla, anunciou no Lubango o administrador municipal.

Vigílio Tyova, que falava por ocasião dos cumprimentos de fim de ano, anunciou ainda como medidas que visam a injecção de nova dinâmica na estrutura de funcionamento do município em 2008, algumas mexidas na estrutura governativa do Lubango, fazendo recurso ao novo estatuto da cidade já publicado em Diário da República.

Referindo-se à abertura no próximo ano daquela que se irá designar Rádio Lubango, o administrador municipal, disse encontrar-se já nacidade todo o equipamento de suporte da emissora estando em curso a criação das respectivas instalações. «Também ainda no próximo ano teremos portanto a inauguração de uma rádio cidade designada Rádio Lubango para a qual estamos a preparar as instalações pois os equipamentos já estão disponibilizados pelo Ministério da Comunicação Social».

Segundo o homem forte da capital da província da Huíla, a falta de recursos financeiros forçou a não execução de vários projectos que visavam o desenvolvimento da cidade, que diga-se pouco ou quase nada registou no ano que se presta em terminar.

São muitos os projectos de obras que se transferem para 2008, que vão desde à melhoria no abastecimento de água e energia aos munícipes até a urbanização e loteamento para a construção de residências unifamiliares e unidades fabris. «A carência de recursos financeiros condicionou e adiou mais uma vez a execução de importantes acções e projectos prioritários para a administração municipal do Lubango designadamente, a recuperação dos passeios da cidade a recelagem das ruas e avenidas da cidade, a reabilitação dos principais jardins da cidade, a melhoria do abastecimento de água às populações, o fornecimento de energia eléctrica, a urbanização e loteamento de zonas para a concessão de terrenos para a construção de residências unifamiliares e unidadesfabris e outras de grandes superfícies, a construção de novo cemitério e a construção de uma nova morgue principal».

A cidade do Lubango considerada como a mais importante no eixo das quatro cidades que compõem a região sul, nomeadamente Namibe, Ondjiva,na província do Cunene, e Menongue, no Kuando Kubango, precisa de da routro salto qualitativo em matéria de desenvolvimento se quiser mantero estatuto que ostenta na região.

As autoridades municipais acreditam que com o novo estatuto domunicípio e a aprovação pelo governo central da lei que confere aosmunicípios o estatuto de unidades orçamentais a partir de 2008 possamessas medidas conferir outra dinâmica no desenvolvimento da antiga Sáda Bandeira. (TA)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Elogio da poesia, do escritor João Melo (*) In Jornal de Angola, 12/11/07

Este fim-de-semana, voltei à leitura da poesia, algo que não fazia há meses. Depois de reler os primeiros autores – entre tantos que me são queridos –, uma pergunta me saltou, de repente: - Porquê?

Essa pergunta não tem resposta. Com efeito, a poesia está vinculada à aventura humana desde os primórdios.

Quando os homens se viram subitamente sozinhos, no meio da imensidão do planeta, inventaram a primeira forma de poesia: o grito. Depois, inventaram o canto. Finalmente, transformaram o silêncio, emprestando-lhe todos os sentidos possíveis.

Grito, canto e silêncio correspondem a funções essenciais da poesia, da súplica ou da revolta ao protesto tenso e contido, passando pela exaltação e louvação. Os teóricos encerram essas funções em categorias: engajamento, lirismo, épica, experimentalismo, hermetismo.

Em qualquer uma das suas formas-funções, a poesia é para ser partilhada. Por isso, a poesia e a música sempre estiveram juntas. Daí, também, as reuniões onde se dizia e escutava poesia. Hoje, à falta delas, posso assegurar aos leitores que ler poesia em voz alta pode ajudar a “captar” melhor todo o seu mistério.

É por essa razão – o imperativo de comunhão que está por detrás da poesia – que decidi partilhar o presente elogio de poesia com os leitores desta coluna.

Recordo, por exemplo, o meu encontro com a poesia angolana. Foi em casa do grande músico, atleta e hoje empresário da educação, Ruy Mingas, em Lisboa. O ano: 1970. Eu tinha apenas 15 anos. Quando li a Antologia de Poesia Negra de Expressão Portuguesa, organizada por Mário de Andrade, foi uma revelação. Um “Alumbramento”, diria o brasileiro Manuel Bandeira.

A poesia de Viriato, Neto, Jacinto, Ayres, entre tantos outros, era um grito a que ninguém podia ficar insensível. Por isso era perseguida. Por isso tinha de circular clandestinamente, de boca em boca, de ouvido em ouvido.

A poesia angolana também soube ocupar espaços disponíveis. Na primeira metade dos anos 70, os poemas de Arnaldo Santos, Jofre Rocha, Henrique Guerra, António Cardoso, João Abel e outros ensinaram-nos, entre as suas linhas cifradas, que atrás das grades havia pássaros que cantavam.

Soubemos mais tarde que a guerrilha também tinha produzido poetas. O maior deles: Costa Andrade (Ndunduma), o grande poeta épico da luta de libertação nacional. Merece, há muito, uma antologia final, com capa dura e papel de luxo.

Enquanto isso, quase em silêncio, três poetas produziam um trabalho pessoalíssimo, que, por isso mesmo, precisou de tempo para ser reconhecido: David Mestre, Ruy Duarte, João Maria Vilanova.

Nos primeiros cinco anos de independência, a poesia e o discurso oficial pareciam confluir (e identificar-se) na utopia revolucionária comum, mas a poesia cedo descobriu que entre o discurso e a prática havia um problema: “o discurso pôs-se à frente da prática/e agora anda à deriva/ como um cego”.

Henrique Abranches, em “Canto Barroco”, deu o primeiro aviso. Durante os anos 80, a poesia angolana foi profundamente renovada. Novos sujeitos, novos temas, novas formas, novas grafias ocuparam o seu espaço na cena política. Nada unia esses novos elementos, a não ser a decisão de fazer uma poesia livre de quaisquer programações, cumplicidades orgânicas ou calculismos.

A poesia cumpre, assim, a sua “missão” primordial: salvar o homem de todas as amarras.

Ninguém pode, portanto, vilipendiá-la.
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(*) Jornalista, escritor, deputado e empresário

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

«A língua portuguesa é património dos portugueses e de mais ninguém»?

O “maldito” acordo de unificação do português, entenda-se entre as variantes brasileira e portuguesa, abre uma fase de debates, trazendo cá fora, tanto críticas recheadas de razão, como também alguns dos mais infelizes argumentos. O canal televisivo português “Sic”, no seu espaço “Opinião Pública”, nesta quinta-feira, 21/12, promoveu um fórum com a presença em estúdio de uma ilustre professora de língua portuguesa, contando ainda com a participação de cidadãos de Portugal, Angola e Brasil, entre professores, tradutores e não só. Ficamos, nós os outros, a saber que neste acordo só Brasil, Portugal e Cabo-Verde foram tidos os achados, «porque o resto virá por arrasto».

Conservadora e efusiva nos seus argumentos, a pedagoga convidada considerou o acordo de unificação como sendo uma questão de “lobby” político do Brasil, que se “arroga” (termo nosso) do simples facto de ter uma população maior. Mesmo porque a língua não é estática, o que pressupõe dizer que os brasileiros, que impõe tal unificação, estão sujeitos a dinâmica evolutiva da língua e o neologismo continuará a ocorrer. Ou seja, quantos acordos de unificação mais serão necessários?

«É uma questão de facilitismo», considerou a professora que já garantiu não aderir a tal unificação, evocando ainda que a língua portuguesa tem uma origem, o latim, e uma história a respeitar. Ou seja, que o “h” mudo, o “c” (de acção) embora não se pronunciem, têm a utilidade de, não só evitar eventuais confusões com palavras semelhantes, como também ajudarem na entoação. Pelo que, os apologistas deste acordo para o qual nenhum exercício de auscultação pública foi experimentado, «estão profanar as origens» da língua (variante) portuguesa.

«Portugal tem figuras da sua história cujo valor é reconhecido pelo mundo, como é caso de Camões e as suas obras literárias. E, de repente, tudo isso não conta?», questionou. E com elevado pesar, viu-se a docente trazer cá fora os mais íntimos conceitos de património linguístico ao afirmar que «a língua portuguesa é património dos portugueses e de mais ninguém!». Será? Bom, a professora tem “bagagem” suficiente para tão arriscada asserção, embora nos pareça egoísta, considerando que, ao longo da história, Portugal e a língua portuguesa cruzaram a vida de muita gente, que se viu forçada a renunciar alguns dos aspectos mais sagrados da sua cultura, não tendo, hoje, língua própria, ou, se tem, com muito pouco poder de expressão.

As participações ao telefone sustentaram, na sua maioria, a tese da professora convidada, defendendo que «se os brasileiros quiserem falar "fato", por exemplo, em vez de "facto", que o façam, já que o acordo valoriza a pronúncia. Agora, forçar os outros, isso é que não!». E quase todos entendiam o acordo como uma vitória brasileira enquanto potência relativamente superior, perante (um) Portugal frágil, com o medo político de perder espaço. Basta ver que a variante brasileira cede apenas 0,4%, enquanto a variante padrão 1,4%. Tanta é a estranheza do acordo que o Brasil já disse que vai avançar com a implementação das propostas, quer Portugal concorde quer não, realçaram ainda os contestatários. «É um tipo de acordo que uma Inglaterra, por exemplo, jamais aceitaria, com todo interesse e respeito que tenha pelos Estados Unidos da América».

Do lado contra, um cidadão brasileiro considerou que o acordo vem acabar com as dificuldades de compreensão enfrentadas por pessoas que falam a mesma língua, incentivando aproximação. A opinião mais radical foi manifestada por um cidadão português que classificou a professora como fazendo parte de uma elite que julga a história é algo estático e que fica escrita em mármore, repugnando termos excessivos como “profanação”. A reacção da professora não se fez esperar. Considerou os argumentos como sendo de baixeza e usados, e deixou bem claro que se recusará a adoptar a unificação «para não ensinar erros aos alunos».

Gociante Patissa

domingo, 16 de dezembro de 2007

A difícil arte de criticar

Tínhamos acabado de descer do autocarro da companhia de aviação, meia hora após o desembarque de regresso a casa, ávidos de gozar do merecido descanso, ontem, 15/12. A agitação característica das capitais é sempre um agente de fadiga para “provincianos” como nós. Mas, infelizmente, algo não corria bem na feira de ONG’s em prol da “Educação para todos até 2015”, com base na cimeira de Dakar, na qual vários estados do mundo (Angola inclusive), assumiram o compromisso de garantir o acesso à educação e melhorar a qualidade da sua oferta até 2015.

Na praça 1º de Maio então, na cidade de Benguela, encostamos a nossa "tralha" na sombra da tenda e pusemos a mão na massa. O sol, esquecido de que estávamos num sábado apenas e que domingo era dia seguinte, não abrandava. O resultado não podia ser mais frio: quase ninguém, refiro-me ao público, o enfrentava para dar uma espreitadela no que estava exposto. Entre as estratégias, “devoramos” o microfone com uma espécie de animação de rádio em directo, com entrevistas aos presentes e anúncios de curiosidades. As nossas vozes, que de certo modo são conhecidas em função do programa de debate que produzimos há um ano, representavam um dos atractivos.

Já no cair da tarde, fomos abordados por um “jornalista” da Delegação Regional da Televisão Pública da Angola (TPA), sem saudar nem nada, molestando-nos, ao meu produtor e a mim, face ao erro notado num dos dísticos: “Rede das ONG’s da Sociedade Civil?”, questionava com razão aquele cidadão. “Há por acaso ONG do Governo?”. A resposta imediata foi que não (embora a realidade em Angola demonstre que sim). Tratava-se mesmo de um erro involuntário. E acrescentamos que era um “pleonasmo feio”. E o "perfeito" megalómano apresentador de TV aproveitou as palavras para reforçar a sua correcção: “Um pleonasmo muito feio, até...!”, disse. Na verdade, tratava-se de um erro do qual nos apercebemos ao chegar ao local. Só que, ao megalómano jornalistazinho faltou o faro da busca da certeza e perguntar, no mínimo, quem havia produzido o referido dístico – porque o meu produtor e eu não podia ter sido. Basta para isso lembrar que andávamos em Luanda e, obviamente, que não temos o dom de estar em dois lugares ao mesmo tempo, não fisicamente, digo.

Acto contínuo, o companheiro do “Jornalista” vem também ter connosco, desta vez por causa de um antetítulo no Boletim “A Voz do Olho”, edição de Outubro. "Terá faltado respeito em Joanesburgo? Lucky Dube assassinado por batuqueiros”. A implicância residia na interpretação daquele intelectual, segundo o qual se deveria escrever “Terá faltado com o respeito”?”, como se a razão da morte de L. Dube tivesse sido o insulto a alguém. Tentamos, enquanto autores e responsáveis pelo Boletim, informar ao jovem que se tratava de uma pergunta no futuro do condicional, usado geralmente quando não há certezas: ou seja, ao invés de dizer “Joanesburgo, cidade sem respeito?”, optou-se por estruturar o antetítulo daquela forma, aproveitando a convicção do artista, de que com o respeito o mundo pode sim ser um bom lugar para se viver. Aliás, “Respect” era precisamente o título do último álbum daquele terapeuta do reggae moderno (já agora, meu músico preferido). Tentamos ainda, em vão, aconselhar o nosso crítico a ler a matéria toda e entender o seu contexto, o que em nada lhe fez recuar na apreciação de que se tratava de um antetítulo mal concebido. “O único problema é que permite dupla interpretação”, desdramatizamos.

E quando acreditávamos que esse choque tivesse já terminado, eis que o nosso jornalistazito dá prova de que não é só baixo de estatura, mas também possuidor de muito baixo grau de civismo e humildade. Resolveu então, no alto da sua estupidez, pegar num exemplar do boletim segurá-lo no mais expressivo gesto de desprezo e afirmar “isso aqui não tem nada de importante!”, até ser contrariado por uma cidadã que, até, não tem nenhuma ligação com a AJS. "É que já o li e está extemporâneo", rectificou. Como o leitor deve imaginar, não respondemos: por um lado por acharmos legítimo o direito dele a emitir opinião, mas também por considerarmos um desperdício de forças estar a discutir com alguém que, sem estar embriagado sem nada, revelou tão baixo carácter. Aliás, já dizia o outro, “os tambores vazios são os mais barulhentos”. Ademais, este tipo de atitude é alimentado por um grupo de infelizes, enciumados e perdidos no tempo e no espaço, para quem alguém do Lobito não se deve destacar na praça intelectual de Benguela, enquanto cidade.

Esqueceu-se o megalómano apresentador de TV (que conta na sua trajectória, entre os principais fracassos, o afundar da representação provincial de uma associação juvenil), e que tem o mesmo grau de formação que nós, o da escola da prática e as superações promovidas por uma ONG, já que não é prioritária por cá em termo de políticas de estado a formação de jornalistas profissionais. Esqueceu-se também que era em vão competir com um simples Boletim informativo de voluntários, quando o oponente é uma televisão estatal, de si sem concorrentes. Não se lembrou também que desafiava jovens de manifesto espírito empreendedor e que conquistaram espaço em função da sua capacidade de pensar e poder de acção, seja como activistas de educação cívica e direitos humanos, seja como promotores de debates radiofónicos e editores de um boletim de distribuição gratuita. Só sustentou, aquele profissional oco, que “os jornalistas são uma classe potencialmente de invejosos”, como temos vindo a ser acusados. Na verdade, também nunca poupamos uma crítica lá onde esta se imponha, mas nunca o fazemos como se fossemos a enciclopédia em matéria de jornalismo.

Longe de nos transformarmos em vítimas, serve o presente relato para reflectir um pouco na natureza da crítica. Como isso de criticar é também um exercício de arte!? Bom, como defendem os sábios, “a crítica tem um papel pedagógico, o de ensinar e aprender em conjunto”.
Gociante Patissa, 15/12/07

sábado, 15 de dezembro de 2007

Cemitério é lugar para fazer publicidade?

Ultimamente vimos observando com inusitada frequência o surgimento (ou adopção?) de manifestações que têm tanto de estranhas como de infelizes, que marcam as cerimónias fúnebres, usadas para simbolizar a dor de familiares e amigos do ente-querido "roubado" pela morte.
Se na verdade nenhuma sociedade é estática, também não é mentira que o elemento morte esreve sempre na base de muitos mitos e manifestações culturais, religiosas, políticas, militares, enfim, de todo o tipo.
A prática "que está a bater" agora é o uso de camisolas (T-shirts) brancas com a foto do (da) falecido (a) e os mais nobres desejos. Para lá vai ficando aquela prática do uso do trajo negro. Bom, até aí, nada de estranhar! A questão prende-se com o tipo de mensagem que se vai passar e reflectir sobre os custos que tal impressão acarreta, considerando que no mercado local a média é USD 10 por camisola.
Muito recentemente, encontravamo-nos envolvidos num cortejo cujo destino era o velho cemitério da Catumbela, situado na comuna com o mesmo nome. E, ao portão, o arco de pessoas mais chegadas, entre parentes, irmãos de igreja, amigos e colega, vestia-se predominantemente de branco. Curiosos aproximamo-nos até notar o seguinte: na parte frontal vinha a foto dele e o nome. Na parte posterior vinha em letra preta o texto "Descanse em paz" e em tamanhao ligeiramente superior e em letra azul o nome da empresa para qual trabalhou "Grupo tal...".
A rápida leitura leva a perceber que a empresa terá sido a patrocinadora da impressão das camisolas do óbito (não sabemos quantas). Tratando-se de uma empresa com capitais estrangeiros (asiaticos) e de dimensão tão grande no mercado nacional, não se pode considerar um gesto inocente. Há publicidade explícita, sim, na medida em que os demais colegas do falecido, também presentes ao funeral, usavam igualmente camisolas brancas com a publicitação do spray anti-mosquito.
Bom, adimitindo a hipótese de erro nosso de inperpretação, pode a empresa imprimir camisolas para o funeral de um falecido e estampar nelas o nome? Já não basta o facto de o nome da empresa aparcer no elogio fúnebre?
Continuamos a considerar (embora dando o benefício da dúvida) que, neste caso particular, a ingenuidade da família ou de quem quer se encarregou da produção das camisolas foi aproveitado pelo "institnto" de um gigante comercial do mercado nacional para "vender" a sua marca.
GP
(escrito a "correr" numa curta passagem por Luanda)

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Debate: “O Impacto das TIC no Comportamento juvenil” . Vídeos pornográficos nos telemóveis: uma questão de falta de educação e comportamento infantil

Ela e ele encontram-se em casa ou no carro. Vai um beijo, abraços, o clímax aquece e fazem amor como sempre fizeram, como é direito dos namorados. Só que, desta vez, ele tem em mãos um telemóvel novo, caro e cheio de funções. E, pondo em prática a máxima de que “amar e ter juízo não é possível”, ele decide filmar o acto sexual. Ela, um tanto perdida no calor do momento, ou se calhar nem por isso, sorri de surpresa, nega um bocado, mas “como ele é o dono”, deixa filmar. Depois do acto o casal ri-se do que foi capaz de fazer, quando ambos viajavam de excitação. Ela parte para a casa e “está tudo bem”. Mas só após o namoro terminar é que percebe o quão parva chegou a ser ao deixar-se filmar tal como veio ao mundo e logo na hora de obedecer a libido. Mas já é tarde: a imagem já circula na Internet e no telefone de quem quiser. Desengane-se, caro(a) leitor (a), que não se trata de um caso de ficção, mas de uma realidade que se repete.

O progresso das tecnologias de informação e comunicação, dentre as quais a informática e a Internet são os mais gigantes tentáculos, lançou o mundo para uma revolução irreversível. Como é dialéctica da vida, infelizmente, paralelamente às incomensuráveis vantagens, a globalização faz com que as fronteiras entre as nações se desvaneçam, ainda que virtualmente, permitindo que um acontecimento na mais remota comunidade seja acompanhado em tempo real em qualquer parte do mundo. E as sociedades menos desenvolvidas vêm-se então em maior desvantagem ainda para a sobrevivência de alguns dos seus aspectos culturais mais sagrados, perante as influências políticas, culturais, etc., das sociedades mais desenvolvidas.

A sociedade angolana, e a benguelense em particular, vê-se apanhada desprevenida por este fenómeno atípico da sua forma de ser e de estar. É urgente a necessidade de promover reflexões permanentes sobre o impacto e as implicações do (mau) uso das tecnologias de informação e comunicação, TIC, no comportamento das pessoas. Foi com esta preocupação que a produção do programa “Viver para Vencer” agendou para debate, a 20/11.

Pouco depois do anúncio do tema, da cidade do Lobito ligou um cidadão, que preferiu anonimato, chamando atenção da sociedade para o uso racional dos telemóveis: «De princípio têm uma utilidade boa para a nossa evolução, mas por outro lado temos umas grandes falhas, como o caso destas imagens que estão a aparecer agora. Acho que temos que ter mais responsabilidade com os telemóveis para que não sejam uma coisa para brincar, mas sim para resolver problemas, coisas urgentes. E dou um apelo a todo o pessoal, que se organize!». O mesmo ouvinte partilhou connosco uma experiência pessoal em que o telemóvel foi a tábua de salvação: «Foi a altura em que estava a sair de uma discoteca, o camião estava parado e como eu vinha com excesso de velocidade, cambaleei e o telemóvel foi a saída para pedir socorro», revelou.

O mundo guarda ainda frescas as polémicas imagens captadas à revelia por um telemóvel, denunciando a humilhação perpetrada por aqueles que se julgavam implementar a justiça na cena do enforcamento do antigo presidente iraquiano, Sadam Hussain. Na verdade, a ênfase ao telemóvel foi só um chamariz para uma abordagem mais alargada sobre as TIC.

Entretanto, como realça a “Gazeta Online” do Brasil, «o fosso entre os países em relação ao acesso a tecnologias de informação ainda é enorme no mundo: o habitante de um país desenvolvido tem 22 vezes mais chances de ser usuário de internet do que o de um país subdesenvolvido. No entanto, o acesso as TIC tem aumentado e se tornado mais igualitário, de acordo com o "Índice de Oportunidade Digital" da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad)». Acrescenta ainda aquele órgão informativo que, até 2006, «os países com maior índice digital são Coréia do Sul (0,79), Japão (0,71), Dinamarca (0,71) e Islândia (0,69). O Brasil não é citado no relatório resumido divulgado à imprensa. E segundo o levantamento, que será divulgado anualmente até 2015, há 3,3 bilhões de usuários de celular no mundo, o equivalente a 51,76% da população mundial. Na Europa, esse percentual chega a 124,32%, ou seja, algumas pessoas têm mais de um aparelho no continente. Na África, o percentual é de 15,92% e nas Américas, 78,94%».

O Dr. Jorge Crisóstomo, presente ao debate em representação do Comando Provincial da Polícia Nacional, considerou que as TIC são, hoje em dia, um factor importantíssimo a nível do universo. «Há necessidade, no caso de Angola, investir-se muito na educação. Porque nós estamos a ter a tecnologia e vai haver uma grande parte da sociedade que vai estar excluída deste grande contexto de obtenção de informação aproveitando as tecnologias de informação».

Quanto à Internet, cada vez mais frequentada pela juventude, os participantes ao debate defenderam a necessidade de se investir na educação desde a base para uma melhor aproveitamento. «Porque vivemos num universo de informação global. Agora, é preciso saber educar os nossos adolescentes e jovens como ir buscar esta informação importação», já que, tratando-se de uma sociedade com poucos hábitos de leitura, «vão buscar pornografia, vão para jogos na Internet, mas há muita coisa mais importante. Então é preciso incutir desde a Escola, tudo que é lixo deve-se desprezar», recomendou o Dr. Jorge.

Por seu turno, o Reitor do Seminário Maior Bom Pastor, Padre José Cassanji Santos, acredita que as estruturas do Governo estão a acompanhar e a arranjar mecanismos para a introdução daquilo que considerou de Disciplina Global de Informação. «Porque é um risco, é uma mentalidade que se adquire, que, depois dentro de 50 anos, nós vamos sofrer as consequências, alertou para a seguir apontar que «o mau uso das TIC pode prejudicar não só os utentes como também as famílias. Porque as informações podem deturpar o modo de entender dos amigos», advertiu.

Já o estudante do curso de direito, José Sikuete Viagem, sublinha a ideia de que o débil diálogo dos pais em casa para com os filhos pode contribuir para o mau uso das TIC. «Essa informação que ele não consegue com os pais, vai busca-la na televisão, na rua», referiu. Quanto à exposição da privacidade de outrem através de fotografias e vídeos, Viagem julga ser reflexo generalizado da falta da cultura jurídica. «Há direitos de personalidade que são invioláveis. Então eu se não estiver informado sobre o direito de personalidade, à integridade física, ao nome e à honra, e for para um meio público, vou fazer o uso do meu telefone de tal modo que não respeite estes elementos, porque eu entendo que o telefone, por ter câmara, é para captar tudo que é imagem mesmo sem o consentimento destas pessoas», ilustrou.

Mas será que o facto de ser namorado dá o direito de filmar a rapariga e expor a sua nudez? O «Não!» foi unânime. Para o doutor Jorge, não se trata de comportamento patológico, mas sim de comportamento infantil e que «à nossa juventude falta conhecimentos básicos para se viver em sociedade condignamente e passa necessariamente pela educação». O Pe. Cassanji Santos defende que os princípios éticos sob os quais nos guiamos deviam ser claros, na medida em que pessoa deve sempre «ser vista como um fim e nunca como um meio. Todo aquele que quiser lesar, por brincadeira que seja, a integridade física ou moral de quem quer que seja, atenta contra os princípios sagrados da privacidade e do direito individual» rematou.

Gociante Patissa (publicado na edição de Novembro/07 do Boletim "A Voz do Olho", projecto informativo, educativo e cultural dos amigos da AJS-Associacao juvenil para a Solidariedade, ONG, no Lobito)

«As mulheres são os melhores condutores que temos», diz Inspector

O Chefe do Departamento de Prevenção Rodoviária da Direcção Provincial de Viação e Trânsito, Inspector Pinto Caimbambo, denunciou que a negligência está na base da maioria dos acidentes que se assistem nas estradas. Enquanto isso, os mototaxistas, vulgo kupapatas, representam 40 por cento dos acidentes, ao contrário de automobilistas do sexo feminino, cuja taxa de acidentes é quase nula.

«A situação da sinistralidade rodoviária na nossa província, e no nosso país em geral, é bastante preocupante», considerou o Inspector Caimbambo, apontando entre os factores um certo entusiasmo da parte dos automobilistas dada a melhoria que se verifica um pouco por todo o país nas estradas. “Isto provoca com que os homens aumentem a sua auto-estima e, se calhar, considerem que os seus veículos são os melhores e tentam dar o máximo. E isto tem causado consequências bastante graves”, considerou o Inspector Caimbambo ao participar do debate sobre “Os acidentes na estrada”, que foi tema da 55ª edição do programa radiofónico “Viver para Vencer, oferecido pela AJS através da Rádio Morena, no passado dia 08/11.

Da mesma opinião partilha Simão Marques, membro da AJS. «Num outro ponto - disse - eu acho que talvez é a ignorância dos próprios condutores que passam por cima da lei».

«Penso que é um problema de mentalidade dos homens do volante. E penso que temos que mudar porque senão vamos continuar a morrer ingloriamente. Porque em quase todos acidentes registados há sempre uma transgressão. Se não é excesso de velocidade, é falar ao telefone ou ter a música demasiado alta», denunciou, para a seguir surpreender: «Eu faço uma apreciação positiva, sobretudo da parte das senhoras, hoje. O nosso balanço em termos de acidentes de viação o número de mulheres é quase zero. Se calhar eu consideraria as mulheres de mais prudentes. Porque, a mulher, quando estiver a aproximar uma viatura, mesmo com prioridade, não avança. As mulheres são as melhores condutoras que temos hoje».

Mas são os acidentes a principal causa de mortes ou a débil capacidade de resposta dos serviços de urgência? Este é um debate “incómodo” suscitado por vários intelectuais e observadores atentos, por exemplo na realidade de Portugal, que questionam se os acidentes é que são mortais ou se a capacidade de resposta dos serviços de emergência é que, às vezes, não chega tarde demais... quando chega.

A mesma questão foi colocada ao Chefe dos Serviços de Urgência do Hospital Central de Benguela, Ernesto Gomes, que avançou que «os serviços de saúde a todos os níveis estão criando condições cada vez mais para que esses casos de acidentes tenham a sua condição rapidamente suprida». E para os casos de acidentes que aconteçam longe dos bancos de urgência, «o hospital Central de Benguela está apetrechado de ambulâncias. Tem acontecido que, nalguns casos de acidentes, pessoas de boa fé comunicam ao banco de urgência e nós movimentamos uma ambulância para a busca do sinistrado e levamos para a área mais próxima», revelou, pondo à disposição do público o terminal telefónico 917 335 308, o de emergência hospitalar.

Quanto ao argumento de muitos automobilistas que se recusam prestar socorro com suas viaturas temendo serem apontadas como culpados do acidente, o Inspector Caimbambo garantiu que os dados recolhidos pela polícia servem apenas para completar as formalidades de ocorrência, sendo que em caso de inconsciência do sinistrado o automobilista serve apenas de contacto. Entretanto lamentou também haver casos de automobilistas que atropelam e se fazem passar por inocentes.

E como a figura do kupapata é já uma referência obrigatória em qualquer análise dos fenómenos do trânsito em Angola, foi solicitado do representante do Comando Provincial da Polícia Nacional um pronunciamento sobre a medida mais badalada, que é o uso do capacete. «É uma medida que está a ser acolhida mal, mas era bom que as pessoas nos compreendessem. A nossa intenção não é criarmos o desconforto às pessoas, é sim evitar as mortes na via pública”, lembrou. «Porque, se imaginássemos que uma mota, uma Delop que percorre uma velocidade instantânea de cerca de 70 km/h, ao embater contra um animal, qual seria o impacto da queda dos utentes da mota?», indagou.

Sem contudo revelar dados estatísticos locais, aquele oficial da Viação e Trânsito adiantou que, em termos percentuais, as motas contribuem com cerca de 40 por cento de acidentes registados semanalmente pela Polícia Nacional em Benguela. A causa é a «inobservância das regras de trânsito, logicamente, porque as ultrapassagens são feitas à direita e quando o automobilista tenta dar por si, já está envolvido num acidente», descreveu.

A nível dos bancos de urgência o quadro é dramático: «Podemos considerar 24 horas por dia. Não há sequer hora que se descanse nos bancos de urgência, área de pequenas cirurgias. E esta situação está a provocar muitas deformações e deficiências ao ser humano. Se nós tivéssemos que convocar todos aqueles que passam por estes acidentes, haveriam de ver que é um número grande de engessados. E é uma preocupação grande, que, de facto, casos de acidentes rodoviários passam a ser problema de saúde pública», concluiu Ernesto Gomes.

Por
Gociante Patissa (publicado na edição de Novembro/07 do Boletim "A Voz do Olho", projecto informativo, educativo e cultural dos amigos da AJS-Associacao juvenil para a Solidariedade, ONG, no Lobito) (


quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Crónica: "A Catumbela já não corresponde"

Gosto particularmente de escrever-te, porque sinto que me remetes sempre aos nossos tempos de adultos forçados pela conjuntura, anos em que a luta para ser alguém na vida (trabalhando ou esforçando-nos para tirar notas altas na escola) nos retirava o direito de sermos adolescentes normais, como qualquer um da nossa idade.

Perguntas sobre muita coisa cá da banda, mas é sempre difícil apresentar um retracto de uma localidade em que se reside há tantos anos e com a qual temos uma espécie de amor eterno. Primo, azar teu de não poderes ainda regressar!

Angola não tem outra escolha senão gerir o processo de paz que se acentuou com o calar das armas, numa altura em que se mobilizam sinergias para a reconstrução nacional, desde o discurso até ao alicerce. E por falar em alicerce, tu não vais acreditar. Não é que agora a pessoa dorme e, ao acordar, o terreno que era do todos no Bairro já pertence a um desses empresários emergentes!? A moda é colocar placas e estacas: isto pertence ao prato, aquilo pertence ao garfo, futuras instalações do abacate… enfim, uma salada russa!

Você nunca foi de fraca memória, primo, por isso ponho a mão no fogo em como não se esqueceu do nosso “Kacipaio”, aquela casa cantoneira amarela entre Lobito e Catumbela, a dos guardas Kamigue e Nguendo, do velho Napokwenhe, da cana cascada. Não é que certo boss bem intencionado concluiu que a reconstrução nacional consistia em aplicar um belo alicerce no caminho que saia do Vikundo…! É impressionante, primo, mas vinte anos depois de passares por um caminho deixado inclusive pelo colono e pela falida Açucareira, com estacas e arame farpado alguém atira p’ro esgoto o passado do nosso místico Kambandjo e de sua gente, que via no acesso à linha 11 um recurso para emergências, para já não falar de funerais.

Mas vou te falar, primo. Mando esta carta escrita em papel, porque essas coisas que me obrigas a usar para substituir uma missiva regular retiram uma certa magia. É como digo, não é mesma coisa. Hás de concordar comigo que nada substitui a ansiedade que aumentava quanto mais perto a pessoa chegasse dos CTT a fim de ver se caiu algum correio na caixa postal. Lembro-me de como recebíamos com emoção cartas de vários pontos do mundo, celebrando cada resposta, fosse ela de instituições ou de pessoas singulares, pessoas estas que considerávamos automaticamente nossas amigas. Prazer igual não nos dará jamais a sua amante Internet.

E não era só isso. Quando você me falou de taxis que levam porta à porta ali na sua Europa, lembrei-me que aqui também já temos serviços do género – é claro, sem gravata nem ar condicionado. Mas taxis mesmo, meu caro primo, com forte componente envolvente contam-se aos dedos e já não se fazem como antigamente.

Lembro-me bem da tua cara de adolescente emocionado cada vez que apanhássemos os nossos Kalumba-Catumbela, viaturas que marcaram a história socio-económica da província de Benguela. Tás a ver as Peugeot’s do Passos, do Chiquinho da barba branca na via da Baia Farta? E as Bedford’s então de João Vazio, do Liambandino (Diamantino), do velho Mussungo, do Sr. Vieira do Bairro da Luz, do velho Chico Queima-Vela que buscava frutas em Muhaningo no Dombe Grande, e o Pangulula com a sua Chevrolet “verde sem cor”.

Você pode dizer que a idade avançada dos veículos terá contribuído para vários acidentes, mas não me podes negar que acidentam também carros que nem chegam a tirar a rodagem ou pagar o crédito. Crescemos sim nos nossos candongueiros que travavam com água de sabão, e não me venhas com a história dos airbags, porque te vou lembrar do Sambapito, a Bedford verde cabina avançada sem parabrizas, cuja buzina era um apito germânico que o motorista trazia à boca o dia todo. Veículos que, não fosse a distracção dos investigadores, mereciam entrar para o Guiness, o livro dos records.

Já agora, deixa-me dizer-te que dentro de uma hora estarei a lamber selos nos Correios para colá-los no envelope, uns milímetros acima do teu endereço. E não precisarei do serviço expresso nem registado, porque a rapidez de que te gabas nos teus e-mails e chats, também acompanha os serviços de correio postal. Dentro de uma semana receberás a carta, de punho próprio, no teu apartado.

A “tua” Internet e o avanço das tecnologias de informação e comunicação, chegados ao alcance de uma sociedade consumista e escrava da moda, vão “destruindo” práticas como a correspondência que, para além da utilidade objectiva de promover a comunicação, também permitia o aperfeiçoamento da arte de redigir uma carta e melhorar a caligrafia. Com tristeza, ao passar pelos correios da Catumbela, do Velho Tchimuco (já falecido), o cenário é de muitas caixas postais encerradas. A Catumbela, primo, hoje já não corresponde...!

Gociante Patissa (publicado na edição de Outubro/07 do Boletim "A Voz do Olho", projecto informativo, educativo e cultural dos amigos da AJS-Associacao juvenil para a Solidariedade, ONG, no Lobito)

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Chipilica recua e retira queixa contra AJPD

O antigo ministro da justiça e actual provedor de justiça, Paulo Chipilica (na foto), terá retirado a queixa intentada contra a Associação Justiça Paz e Democracia (AJPD) por difamação.
A informação é do padre Pio Wakussanga, promotor da vigília de ecuménica marcada para hoje, em solidariedade com os membros da prestigiada ONG cívica.

Os arguidos teriam de responder a tribunal nesta quarta feira, depois da notificação recebida no meio da semana passada.

«A vigília que podia juntar cristãos de varias denominações e membros da sociedade civil já não se vai realizar, pelo facto do D. Paulo Chipilica ter retirado a queixa, no passado dia vinte de Novembro», explicou Padre Pio Wakussanga à Rádio Ecclésia.

No entanto fontes daquela estação radiofónica da capital, revelam que foram envidados esforços para ouvir Paulo Chipilica, mas não houve qualquer pronunciamento do seu advogado por enquanto.

A mesma fonte indica que também, a AJPD, liderada pelo jusrista Fernando Mcedo, prefere manter-se em silêncio enquanto não dispor de qualquer documento formal, que confirme a viravolta do governante.

Nov 27, 22:50 Texto: Angonoticias/ Fonte:Rádio Ecclésia/Apostolado

Embaixada de Angola critica entrevista do Programa do Jô

A embaixada de Angola no Brasil criticou à Agência Lusa a entrevista feita no Programa de Jô que abordava a sexualidade das mulheres angolanas, exibida pela Rede Globo de Televisão e que está sendo investigada pelo Ministério Público Federal no Rio de Janeiro sob a acusação de preconceito.

"Com a manifesta conivência do entrevistador, aparentemente apostado em estimular índices de audiência, recorrendo ao primarismo do culto ao bizarro, o entrevistado deturpou e manipulou tradições culturais e costumes locais, dando-lhes colorido anormal", afirma a embaixada de Angola em comunicado divulgado à Agência Lusa.

A nota da embaixada afirma ainda que "mais uma vez, o apelo ao exotismo, real ou imaginário, foi usado como meio de marketing para vender jornais, programas de rádio ou de televisão de má qualidade".

As denúncias contra o programa de Jô Soares surgiram há dez dias e ainda não há uma conclusão da procuradora regional dos Direitos do Cidadão, Márcia Morgado, responsável pelo caso, declarou nesta terça-feira à Lusa o Ministério Público (MP).

No Programa do Jô, que foi exibido no último dia 18 de junho, o angolano Ruy Morais e Castro, atualmente taxista na cidade paulista de Campinas, comenta costumes de uma tribo de seu país a partir de fotografias, relacionando os penteados das mulheres com a sexualidade.

Em um dos exemplos, o entrevistado diz que o penteado de uma mulher na faixa dos 20 anos indicaria que ela havia feito uma incisão no clitóris para que se tornasse tão "apertada" quanto uma menina de seis ou sete anos, idade em que as mulheres dessa tribo iniciariam a vida sexual.

"Foi uma atitude bizarra do Programa do Jô, que deveria nos dar um direito de resposta. A entrevista com o taxista foi uma aberração porque expôs, execrou a mulher, e não levou em conta os valores de uma cultura e de sua ancestralidade", disse à Lusa uma coordenadora do Coletivo de Mulheres Negras do Rio de Janeiro.

Essa entidade, que impulsionou outras organizações sociais a entrarem com queixa no Ministério Público contra o Programa do Jô e a TV Globo, considera que a entrevista foi "ofensiva a todas as mulheres, em particular às mulheres negras, pelo tom de deboche e desrespeito às mulheres muila".

Segundo outra representante do movimento negro brasileiro, Alvira Rufino, houve uma "violência psíquica contra a mulher negra".

"Não se pode analisar a cultura de um povo e fazer críticas a costumes pré-estabelecidos partindo de uma visão eurocêntrica. O programa foi preconceituoso, racista e teve a intenção de desvalorizar os costumes de um povo", disse à Lusa a presidente da Casa de Cultura da Mulher Negra.

A organização não-governamental feminista E'leèkó - Gênero, Desenvolvimento e Cidadania-, se manifestou igualmente contra o programa e qualificou a entrevista como "desrespeitosa para com a mulher angolana".

"O preconceito saiu do taxista, mas o Jô não só entrou na brincadeira, como foi jocoso e também riu muito. Temos mesmo que procurar a justiça para reeducar a sociedade, porque não temos no Brasil o exercício do cotidiano da cidadania", disse à Lusa a representante da ONG, Rosália Lemos. As investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro deverão ser concluídas em um mês.

De acordo com a assessoria de comunicação do MP, se for comprovada a existência de irregularidades no programa, a procuradora Márcia Morgano poderá entrar com uma ação na justiça ou atuar de maneira extrajudicial, fazendo apenas uma advertência ao Programa do Jô e à TV Globo.

Texto: ngonoticias (citando a Lusa)
Nov 28, 07:30

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Terá faltado respeito em Joanesburgo? Lucky Dube assassinado por "batuqueiros"

Foto de autor não identificado
“Uma morte absurda”, assim consideraram amigos, artistas, políticos, intelectuais, enfim, cidadãos do mundo, quando apanhados desprevenidos pela velocidade sanguinária da violência urbana na África do Sul. Segundo a polícia, Lucky Philip Dube, de 43 anos, foi assassinado por supostos ladrões de carros, ou “batuqueiros” como são conhecidos entre nós, no dia 18/10, depois de ter deixado dois filhos adolescentes, à noitinha, em casa de um irmão em Rosettenville, subúrbio de Joanesburgo.
Os meliantes surgiram de súbito, abriram a porta de seu Chrysler e dispararam à queima-roupa, uma cena assistida pelo filho, que chamaria pela polícia instantes depois, enquanto o artista tentava fugir, até a viatura embater num obstáculo metros adiante e perder a vida. A polícia já deteve quatro presumíveis assassino, entre 31 e 35 anos, nomeadamente, Sifiso Mlanga e Julius Gxowa, de nacionalidade sul-africana, e os moçambicanos Thabo Mafoping e Mbofi Mabe, cuja sessão de discussão em tribunal deveria acontecer no fim de Outubro, de modo a permitir-lhes a constituição do suporte legal a que têm direito.
No domingo, 28/10, Lucky Dube, que deixa viuva, Zenale, e sete filhos, foi a enterrar em cerimónia restrita à família e amigos mais chegados, na sua fazenda, situada em Newcastle, província de KwaZulu-Natal. O enterro entretanto foi alvo de polémica, já que, para cumprir aquilo que a família considera ser o último desejo do malogrado, o funeral deveria ser algo restrito e simples; ou seja, a participação de milhares de pessoas de todo o mundo limitar-se-ia ao velório, reservando-se os familiares e amigos chegados o privilégio de acompanhar Lucky até à sua última morada, o que, embora legítimo, é desproporcional à dimensão deste terapeuta do reggae contemporâneo.
«Devemos continuar a agir em conjunto como um povo que combate esta terrível onda de crime, que tem tirado a vida a demasiados sul-africanos», disse o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki.
Apesar de nunca ter estado em Angola, a morte Lucky Dube enlutou admiradores da sua música, amantes do Reggae e os amigos do povo-sul africano de modo geral. Amplamente anunciada pela imprensa angolana, a notícia teve como reacção mais sonante a marcha organizada pelo Movimento Rasta Fari em Luanda, a 26/10.
«É importante rendermos homenagens as pessoas, como ele, que lutaram pelo bem-estar social, e condenar estes tipos de acontecimentos criminais, porque só assim conseguimos demonstrar para as outras pessoas que estamos unidos em laços de irmandade», disse à Angop o ancião da comunidade Rastafari de Angola, Faia Congo.
O relatório da polícia enfrenta ainda um implícito inconformismo quanto à ideia de se tratar (só) de um assalto de ladrões de carro, já que, para além de não ter sido levada a viatura, Lucky Dube é a segunda celebridade abatida em menos de um mês. No passado dia 15/10, o actor Patrick 'Kid' Mokoena, que se notabilizou na série televisiva 'Soul City', foi também assassinado a tiro num bar na zona de Jeppe, perto do centro de Joanesburgo.
A criminalidade é um gritante ponto fraco da governação do país que se ressente ainda do espectro do Apartheid, regime baseado na segregação etno-tribal e na supremacia económica, cultural e política da minoria branca, tendo sido o uso da violência recurso do povo negro na luta pelo direito à dignidade. E a insegurança poderá afugentar turistas e investidores quando a África do sul albergar o Mundial de Futebol em 2010.
De acordo com o site brasileiro www.primeirahora.com.br, citando fontes oficiais, a África do Sul regista mais de 19 mil assassinatos e 400 mil ataques por ano. A polícia sul-africana registou aproximadamente 20 mil assassinatos no período entre Março do ano passado e o primeiro trimestre deste ano, o que representa um aumento de 2,4 por cento em comparação com os índices do ano passado. São também tidos como altos os número de estupros e de roubo de carros(Reuters).
Perfil
O nome Lucky foi-lhe atribuído pela mãe por ter nascido em condições difíceis de saúde, a 03/08/1964, em Ermelo, no Transvaal Leste, hoje Mpumalanga. Cresceu sob cuidado da avó, enquanto a “mãe solteira” Sarah, tinha de trabalhar. Sua infância foi marcada pela miséria e pelo Apartheid.
Iniciou a cantar em bares na sua cidade natal e na igreja, e logo fez parte da banda Love Brothers, na qual tocava mbaganga durante dois anos. No início dos anos 80 decide abraçar então o estilo Reggae.
Criança ainda, trabalhou como jardineiro em casa de uma família branca, o que viria abandonar face as humilhações e pouca remuneração, optando por estudar. E na escola forma a sua primeira banda,'The Sky Way Band'. Desde a gravação do primeiro álbum em 1986, "Rastas Never Die," sufocado na época pelo poder da sensura, até atingir o apogeu, Lucky manteve a humildade, o que lhe permitiu estar sempre perto do seu povo. Lucky Dube foi o primeiro artista negro na África do Sul com a música a tocar numa estação de Rádio.
Ao contrário do estereotipo de músicos, especialmente do estilo Reggae, Lucky Dube não fumava marijuana (liamba), não bebia, muito menos permitira integrantes da banda consumirem álcool antes do espectáculo. A sua mensagem aborda questões políticas, sociais e pessoais – coisas que jogam importante papel na vida de qualquer cidadão. Uma vez foi questionado sobre o que o inspirava, ao que humildemente respondeu: «As pessoas! Olhar as pessoas, observar movimentos e o que fazem, em situações e experiências da vida real de pessoas» (blackwomanineurope.blogspot.com.
Publicou 21 álbuns em Zulu, Inglês e Afrikaans, num período de 25 anos, e conta ainda a sua trajectória com 20 distinções pela voz, música e vídeo, chegando mesmo a ser condecorado cidadão honorário do Estado de Texas, EUA, a 27 de Maio de 2007.
«O amor e o respeito deviam andar de mão em mão; é impossível ter amor por alguém se não o respeitas. Com respeito, o mundo pode ser um local melhor para se viver», era a forte convicção de Lucky Dube quando lançou o seu último álbum “Respect”.

Temos vergonha das nossas línguas?

O uso das línguas nacionais na promoção da saúde pública foi tema de debate, na 51ª edição do programa radiofónico “Viver para Vencer”, no passado dia 09/10, juntando mobilizadores comunitários, jornalistas e técnicos de saúde.

«A nossa população nem toda consegue entender o português. E, na sua maioria, a juventude, pelo contrário, não entende a língua nacional e também tem dificuldade em se expressar, como tal, em português» caracterizou Adriano Justo (AJ). E atribui tal fenómeno ao desprezo que o colonizador, durante séculos, impôs às nossas línguas nacionais, «de tal modo que os pais não transmitiram estas aos filhos», defendeu AJ.

Do mesmo ponto de vista alinha Adelino Kosengue (AK), do Departamento Provincial da Cultura, que julga necessário debater-se sobre o assunto: «porque a nossa juventude, muitas vezes não percebe o que é a língua nacional e se calhar dá importância a outras línguas e deixa aquilo que é natural, do seu país, da sua origem», descreveu.

Questionado sobre a razão de trazer a utilidade das línguas nacionais para debate, o Produtor do programa, Júlio Lofa, argumentou: «nós estamos também preocupados com as pessoas que vivem nas comunidades muito distantes das zonas urbanizadas», para adiante notar que «há muitos projectos a serem desenvolvidos aqui; e o problema da saúde preventiva não é só das cidades, mas também daquelas comunidades onde não se fala o português ou fala-se com muita dificuldade. Portanto, há toda uma necessidade de nos avaliarmos, nós activistas que estamos neste desafio, se, de facto, estamos em condições de levar a mensagem lá onde existe pessoas que precisam de uma outra língua para terem uma informação correcta», justificou.

Com base na sua experiência de jovem promotor da saúde, João Pedro (JP), do projecto da Cáritas Diocesana, “Vida com Esperança”, conta que a dificuldade aumenta à medida que se deixa as sedes municipais, e se atinge as zonas recônditas, exigindo do técnico a adaptação à realidade local para o êxito da missão.

AJ sublinha ainda como incentivo à juventude no uso das línguas nacionais o enquadramento de novos quadros em vários sectores da função pública, ante a necessidade de se adaptarem, para a vital comunicação, ao uso da língua dominante nas áreas em que são inseridos. «Na área de saúde, o conhecimento da língua local é muito importante, porque quando o técnico se expressa na língua materna, o doente tem mais liberdade de se expressar», disse.

«Tenho um sobrinho que, hoje mesmo, perdeu a oportunidade de “agarrar” um emprego por não saber falar a língua nacional», lamentou ainda AJ.

César Kangwe (CK), músico e locutor da língua Umbundu há 23 anos ao serviço da Rádio Nacional, denunciou que na sociedade benguelense o quadro da rejeição virtual da língua materna é mais notório, contrariamente ao que se assiste com os kimbundu, Cokwe, por exemplo.

«Até há pessoas mesmo que sabem falar Umbundu e fingem que não o falam. Procuram formas, quando quiserem pronunciar uma ou duas frases em Umbundu, de fugir um pouco da fonografia da língua, desafinam, que é para darem a entender que não falam. Esse é um pecado que a sociedade vai cometendo», condenou CK.

Mas como fazer com que os termos correntes nas cidades não representem um lesar dos costumes e sensibilidades uma vez levados às zonas rurais? JP reconhece ser uma constante difícil, mas superável: «uma das grandes vantagens que têm feito com que não tenhamos tantas dificuldades, é a recruta dos activistas comunitários locais. E estes submetidos a uma formação, também vão nos ajudar a levantar os termos, especificamente, na língua materna», revelou.

Por seu turno, o Coordenador do Projecto “Viver Contra a Sida-3”, Salomão Gando, é de opinião que o contacto com as línguas nacionais para técnicos de saúde deve iniciar mesmo durante o processo de formação, durante a fase de estágio curricular.

A reportagem simultânea do programa radiofónico “Viver para Vencer” e do Boletim “A Voz do Olho” ouviu Justino Tchapwiya, professor e responsável da Associação dos amigos da língua inglesa (Afela). Tchapwiya recorreu ao exemplo das igrejas na veiculação do evangelho para ilustrar a utilidade da língua local para que a população compreenda a mensagem que lhe é transmitida. Contudo, considera ser necessário trabalhar-se mais com o activista, o mobilizador comunitário, em termos de seminários, palestras e treinamento para passar a informação de base, cooperando com sobas e agentes comunitários, uma recomendação também reforçada por Armindo Jonatão, funcionário do Departamento Municipal do Lobito da Cultura.

O representante do Departamento Provincial da Cultura, AK, lembrou algumas recomendações do 2º Encontro Sobre as Línguas Nacionais: «Que se proceda a integração das línguas nacionais em todos os domínios para que elas possam contribuir para o desenvolvimento global do país; que se proceda a valorização, protecção e divulgação das línguas nacionais como forma de preservação da cultura nacional e consolidação da integridade cultural».

Entretanto algumas iniciativas mereceram elogios dos convidados ao debate. Tal é o caso dos painéis com mensagens de boas vindas “Akombe veya”, por ocasião do Afrobasquete 2007.

Fonte: Boletim "A Voz do Olho", projecto informativo, educativo e cultural da AJS e amigos, edição de Outubro/2007

Cidadã morre soterrada (Quando desafiava montanha para sustento)

Uma cidadã de 32 anos, que em vida se chamou Maria de Fátima (MF), moradora do Sector da Hondokela no Bairro da Santa-Cruz, Lobito, faleceu soterrada no passado dia 29/10, por volta das 10h50. Maria deixa viuvo e dois filhos.
MF fazia parte do grupo de mulheres entregues à miséria e que, para a sua subsistência, se dedicam à extracção de terra arenosa, daquilo que ainda sobra do antigo morro residencial da já falida Açucareira, junto da ponte do Estádio do Buraco. O produto, que transportam à cabeça, é comprado geralmente por pessoas de baixa renda, que, na falta de cimento, rebocam as suas obras com terra e areia.
«O lugar estava húmido, mas ela não conseguiu dar conta do recado. Chegou ao local, tentou extrair a terra e automaticamente a terra desabou sobre ela. E, o pelo peso da terra, já não resistiu e acabou por sucumbir», contou à reportagem do Boletim a Voz do Olho um dos mais antigos responsáveis da Subcomissão de Moradores do Bairro da Santa-Cruz, Celestino Dias “Tino” (CD). Após o alerta de testemunhas, conta a nossa fonte: «nós demos todos os procedimentos jurídicos: ligamos para a terceira esquadra, a qual nós pertencemos, e por sua vez também ligou para a investigação criminal para fazer chegar ao piquete».
A área representa um perigo eminente, já que, tendo sido desbastada pela construtora francesa, Satom, pouco sobrou do morro para aguentar o poste de alta tensão, o que vem sendo agravado pela erosão e pela acção de cidadãos que vêm neste “garimpo” um ganha-pão. A par disso, a bacia formada à sua volta pela força das chuvas tem constituído também um risco de afogamento para os petizes que fazem da água parada uma “piscina”.
«Não é a primeira vez» - recorda CD- «Pela primeira vez se deu, se bem me lembro, o ano passado, já se deu um caso idêntico: a terra desabou e houve unicamente um ferimento. Pela segunda vez, a terra desabou, acabou por sucumbir uma senhora e saíram dois feridos. E esta, nós podíamos denominar como terceira vez».
Após este recente infortúnio, nenhum “garimpeiro” voltou ao local, algo que CD encara com indiferença por recear que, passado o choque, tudo volte à mesma. E justifica: «Nós já havíamos alertado que ninguém mais deveria fazer aquele trabalho, mas como se sabe, que hoje o índice de desemprego é maior, nós podemos alertar, eles fazem daquilo o seu ganha-pão; eles continuam a levar a sua actividade laboral, que é a extracção de terra junto do poste de alta tensão».
Sabe o AV-O que o entulho do local é a solução projectada pelas autoridades.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Comentários racistas e pedófilos sobre a mulher angolana no programa de Jô Soares geram onda de protesto no Brasil

Foto de autor não identificado
"Acabo de receber um e-mail que originalmente foi postado por Vilma Piedade do Movimento de Mulheres Negras do Rio de Janeiro. Ela envia o link de um recente programa do Jô Soares onde ele entrevista um sujeito que atende pelo nome de Rui Moraes e Castro. O tal foi no Jô sabe para quê? Para explicar a relação do penteado das mulheres negras de Angola com as suas vaginas", escreve Ranato Rovai, editor da revista Fórum no Brasil.

"Entre outras coisas o tal mostra um corte de cabelo, que segundo ele foi armado com bosta de boi e fala que aquela mulher quer mostrar que está "mais apertada". E diz, em resumo, o seguinte: "como o negro começa sua relação sexual com seis, sete anos e essa mulher já tem 20, 21 anos ela está velha, acabada, larga. Então ela fez uma operação no clitóris a sangue frio, com uma faca de sapateiro, e fica mais fechada. Com esse cabelo ela está dizendo ao homem que voltou a ficar fechada e que vai dar tanto gozo ao homem como uma garota de sete ou oito anos...".

"Sabe o que o Jô fez, divertiu-se a beça com a história. E continuou a entrevista com preconceitos e histórias horrorosas assim por mais uns cinco minutos."

Outros protestos referem que o "Jô Soares e sua equipe deveriam se informar melhor sobre a história pessoal de seus entrevistados e o conteúdo que supostamente têm a oferecer. Em sua ignorância o senhor Morais e Castro chega a afirmar durante a entrevista – entre outras coisas – que certa região de Angola situa-se perto “da fronteira com a África do Sul”. (!)

Ficamos nos perguntando no que aquele conjunto de impropérios, preconceitos, comentários jocosos e degradantes, absolutamente descontextualizados, vem contribuir para um projecto de sociedade mais justa, mais tolerante, mais equânime – projecto com o qual nos identificamos e para o qual temos trabalhado em nossas áreas de actuação profissional e de militância política.

A cena dantesca de dois homens “bem-sucedidos” e com acesso a uma rede de televisão com o poder da Globo (não só no Brasil, mas também em Portugal e em Angola) fere gravemente tanto a nossa constituição quanto o projecto – construído a duras penas – de uma sociedade brasileira aberta à compreensão e ao respeito pelos diversos grupos culturais que a compõem, suas práticas e sua história. A nosso ver, isto é o que torna a humanidade o que ela é: rica, porque diversa.

É impossível silenciar diante desta manifestação torpe de racismo e etnocentrismo. Esperamos como cidadãos e cidadãs uma retratação dos protagonistas deste circo dos horrores, para que possamos continuar nosso trabalho diário junto a jovens, educadores e crianças e reafirmar que o tempo de desqualificar o que não compreendemos e de tratar o diverso como animalesco já passou", escreve Mailsa Carla Passos e Aldo Medeiros.

Nov 20, 08:08Fonte: AngoNotícias

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Obrigado, senhor Agente... É essa a polícia que queremos

Trânsito ajuda vendedora ambulante

Cidade de Benguela, 14/09: Um agente regulador de trânsito da polícia nacional destacado no cruzamento da Naipe, como é vulgarmente conhecido, tomou a liberdade de revolucionar um pouco a sua forma de actuar, no início da tarde desta quarta-feira: perante um trânsito incomodado pela lama da chuva da noite anterior, o agente abandonou a pinhanha e, num gesto ímpar, via-se, de vez em quando, o agente suspender a marcha das viaturas para permitir a travessia de vendedoras ambulantes, as quais acompanhava com a mão no ombro, num gesto típico de “irmão mais velho”.

Esse gesto pode, aparentemente, ser irrelevante para muito boa gente, menos para aqueles que acompanham com preocupação a dificuldade que os nossos vendedores ambulantes enfrentam no seu dia a dia, quanto mais não fosse pelo risco de atropelamento, sobretudo em áreas sem passadeira de peões como tal.

Numa sociedade como a angolana em que a relação entre vendedores ambulantes e agentes da ordem é conhecida principalmente por alguma violência e usurpação de haveres, é de todo justo merecedor de um grande elogio esse gesto.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

De repente desafio o meu vício

Estou num cyber café
E é sempre a mesma irónica sensação:
(esconder-se e, ao mesmo tempo, estar tão exposto ao mundo)
tomando o café vicioso chamado Internet!
O tempo passa e parece que nada disso importa
À minha direita abre-se e se fecha constantemente a porta
As atendedoras olham para mim
Feito um “louco” com os olhos atrás dos óculos
“comendo” a tela, como se nada mais houvesse à volta
Isso lá pouco importa!

Uma rápida visita aos e-mails
Diz que nada de novo há para hoje
Somente uns kambas que encaminharam o habitual:
Aqueles e-mails que, ora nos levantam, ora nos deixam lá embaixo

É grande a ambivalência
Um lado pede para levantar-me
O outro diz que não, que ainda não se matou a saudade com os kambas
O lado da razão me lembra de mais um elemento: a distância
30 km de estrada entre Lobito e Benguela para uns costumam durar eternidade

Um tanto estranho pensar assim,
mas ter 100 kz no bolso não garante que o taxi chegue cedo
portanto, convém pôr-me andando
enquanto o sol ainda tem rosto
e guardar para o fim
a vontade de relaxar depois de mais um dia de salo
Afinal, amanhã é dia de folga
e o que não der hoje, há-de-se fazer amnhã.
De repente me lembrei que deve sobrar um espaço tempo
Para a família, antes que anoiteça

De repente, a pessoa pensa o quanto muitas vezes
Sacrificamos o direito da famìlia à nossa companhia
Divagando em conversa com kambas ou torturando algum teclado qualquer!!!

(Mas que "vício")
De repente desliguei, e sapei

Gociante Patissa 08-11-2007/ 17:38

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Denúncia: há cábula em todas as instituições de ensino

Você já fez cábula? É uma pergunta aparentemente simples, mas que deixa pouco à vontade muito boa gente, a depender da circunstância. Uma prática antiga e ainda polémica. A 47ª edição do programa radiofónico “Viver para Vencer”, oferta da AJS através da Rádio Morena, foi dedicada ao debate antecedido de uma reportagem sobre o fenómeno cábula. É simplesmente uma ajuda à memória ou algo que se deve combater?
Ouvimos Valdemar Manuel, estudante finalista do Instituto de Ciências Religiosas de Angola (Icra): “Já fiz cábula uma vez. Tinha dificuldades em História e decorar números. Na altura não sabia que era tão bom ter a capacidade de decorar números. Então as datas e séculos escrevia nas mãos”, confessou, para a seguir apontar a prováveis causas: “A preguiça mental, alguns porque são viciados, outros porque não se acreditam que são capazes de reter ou compreender o conteúdo que têm. Alguns alegam falta de tempo e por isso fazem cábula”. Preocupado com o futuro, Valdemar aconselha: “A cábula não leva a um conhecimento eterno, leva sim a um conhecimento imediato. Vocês têm que optar em estudar”, frisou.
Outra estudante, de 18 anos, finalista do Centro Pré-universitário (Puniv), que só sob anonimato aceitou falar à nossa reportagem, denuncia como o avanço da tecnologia é aproveitado para aperfeiçoar a cábula. “Agora, com a tecnologia, já dá para fazer cábula pelo telefone, pen-drives. Antes era com papelinhos, escrever nas carteiras, nas batas”.
Já o docente de Práticas de Metodologia de História no Imne do Lobito, Ismael Andrade, considera que a forma como se elabora a prova e a característica da sala podem estimular o aluno a fazer a cábula. “Temos que culpar alguns professores que na elaboração das suas provas convidam os alunos a, em vez de puxarem pela cabeça, tirarem o recurso ilegal que trazem para tirar notas positivas, e a disposição da própria sala de aula. Se o professor não verificar as carteiras, se a sala não permitir que os alunos se sentem mais confortavelmente também facilita a cábula. E, por último, a forma de elaborar a prova, usando perguntas directas do princípio ao fim, o aluno fica preguiçoso”. Desafiado a deixar recomendações, Ismael não hesitou: “Provas bem elaboradas, professores actuantes e com sanções adequadas, acredito que por essa via a prática da cábula vai diminuir gradualmente das nossas escolas”.
O painel de convidados no estúdio constituiu-se de agentes com experiência na docência, entre eles os representantes do Ministério da Juventude e Desportos e o da Escola do segundo nível Luís Gomes Sambo.
No entender de Manuel Kavambi, docente do ensino médio e estudante universitário, “a cábula é um fenómeno social que ameaça o futuro de qualquer sociedade e nunca foi ajuda à memória. Antes de mais, no momento em que um estudante estiver a usar a cábula, ao invés de ajudar a memória estará a dispensá-la”, asseverou, para adiante considerar com ironia que cabular é só “um simples exercício de caligrafia.”
O educador social Manuel Rita Gaspar vê na cábula um fenómeno social que atinge todos os níveis de ensino e lamentou ainda a falta de uniformidade nos critérios de sanção, já que, referiu, cada escola age à sua maneira. “Porque há até alunos apanhados a fazerem cábula e tiveram um tratamento, mas outros noutra escola o tratamento foi diferente; só foram retiradas as folhas de provas e receberam outras para continuaram a fazer. Acho que isto não é correcto!”, condenou, sugerindo ao Ministério da Educação a estipulação de medidas disciplinares. “Eu penso que, quando se trata de escola, independentemente da entidade que a promove, a política de estado é tutelada pelo Ministério da Educação. Quer seja a escola da igreja, ONG, colégio, é o Estado quem deve meter a mão e solicitar essas forças vivas e traçarem mecanismos para actuarem neste sentido”, asseverou.
Entretanto quanto a sanções disciplinares, defendeu o representante do Minjud, Ndituavava Gonçalves, “elas estão regulamentadas. A aplicação é que não tem sido aquela. Existem escolas mais flexíveis. A questão só está aí e não na falta de medidas”.
António José, docente da escola do segundo nível “Luís Gomes Sambo”, contou que naquela instituição as crianças também já dão sinais de prática de cábula, embora sejam fáceis de detectar dada a pouca experiência, mas no ensino de adultos, o problema é mais sério. Por exemplo, como se vendiam folhas de prova com certa antecedência, estudantes há que traziam-nas já preenchidas com o que presumiam vir à prova e outros escrevem a matéria nas carteiras.
É caso para pensar: qual é o resultado de um médico que se formou no ciclo vicioso da cábula? De resto, a preocupação contra as fraudes nas provas não é recente. Pelo menos até finais de década de 80 os enunciados, a chave bem como as folhas de prova do segundo nível em diante eram trazidos ao recinto escolar por oficiais da Segurança do Estado devidamente uniformizados e identificados, sendo óbvio o clima de medo quanto a eventuais consequências. Se foi o método mais eficaz ou não, isso não é para aqui chamado. Entretanto, o que importa é ver que, como qualquer problema, mais do que dar relevância ao tratamento das consequências, no caso a sanção, impõe-se a adopção de medidas que visem tratar o problema a partir da sua origem, sendo a cábula uma questão de atitude.
Víctor Barbosa, por exemplo, que durante mais de 30 anos foi director de um Puniv, em Luanda, é de opinião que “a cábula resolve-se com muitos outros aspectos, não apenas com punição quando ela acontece. Temos que criar um ambiente escolar, menos alunos por professor, espaços que permitam os alunos questionarem o que estão a aprender e sentirem que todos os momentos em que estão na sala de aulas são momentos para porem à prova aquilo que sabem e não apenas no momento da prova. Acabar com o excesso de peso que se dá à prova”, o que, em sua análise, “várias vezes traumatiza também os próprios alunos e é necessário criar um ambiente de maior diálogo; e a democratização da escola podem contribuir para o combate à cábula”, acentuou aquele pedagogo assumidamente seguidor de Paulo Freire.
(AV-O/ Palmas da Paz)

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Lucky Dube, gigante do reggae, assassinado na Africa do Sul

Fonte: BBC Brasil

Lucky Dube, o astro sul-africano do reggae, foi morto a tiros em Johannesburgo, na África do Sul.
Um porta-voz da polícia disse que o cantor, que tinha 43 anos, estava levando o filho de carro a uma localidade no subúrbio de Rosettenville quando foi atacado por bandidos armados que teriam tentado levar o seu carro.
Seu filho já tinha deixado o carro quando viu o ataque e avisou a polícia, segundo o porta-voz.
Um dos artistas mais populares do país, Lucky Dube fez várias turnês mundias, divulgando suas músicas pregando justiça social.
Ele esteve no Brasil em 1997, participando o Reggae Ruffles, e em 2004, quando foi o destaque do Expresso Brasil.
Nascido Ermelo Dube, segundo o site allmusic.com, o músico gravou seus primeiro álbuns cantando na língua zulu, no início dos anos 80. A partir de 84 ele passou a se dedicar exclusivamente ao reggae, inspirado na luta contra o apartheid.
Seu primeiro álbum do gênero, Rasta Never Die, foi proibido de ser executado nas rádios sul-africanas.
Seus álbuns Slave, Prisoner e Together As One, projetaram sua fama internacionalmente.
Lucky Dube lançou 21 álbuns, seu mais recente, Respect, em abril passado.
Para mais notícias, visite o site da BBC Brasil

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

DIRECTOR DO «SEMANÁRIO ANGOLENSE» CONDENADO A OITO MESES DE PRISÃO EFECTIVA

(03/10/2007)
O director do semanário Angolense, Graça Campos, foi condenado esta quarta-feira pelo Tribunal Provincial de Luanda, a oito meses de prisão efectiva, por crime de difamação e calúnia contra o antigo ministro da Justiça, Paulo Tchipilica. O actual Provedor de Justiça teria se sentido velipendiado na sua honra, na sequência de uma matéria publicada no «Semanário Angolense» sobre desconfiscos de bens imobiliários, tendo intentado uma acção judicial contra Graça Campos.
O jornal dizia que Paulo Tchiplica, enquanto ministro da Justiça, teria favorecido cidadãos portugueses no sentido de reaverem bens imobiliários que o Governo angolano havia confiscado no periódo pós-independência. A matéria em causa trazia como título, «Se este homem não for travado vai vender todo o país».
Tanto quanto se sabe, Graça Campo foi julgado à revelia, tendo comparecido ao Tribunal apenas hoje, dia da leitura da sentença. O seu advogado, Paulo Rangel, justifica que não houve uma comunicação eficiente entre o tribunal e o jornalista agora condenado, situação que impediu a recepção das convocatórias daquele órgão de justiça em tempo oportuno.
Paulo Rangel acrescentou que ainda tentou impor recurso com efeito suspensivo, mas o juíz da causa, Pedro Viana, rejeitou categoricamente o pedido. «O tribunal não o notificou convenientemente. Uma vez o notificou, mas ele não se encontrava no país, da outra vez foi notificado através de advogados indicados pela Ordem, que não lhe contactaram. Houve problemas de comunicação, mas ainda assim, o juiz avançou com o julgamento. E o que é caricato é o facto de ele ter sido condenado a uma pena de oito meses.
Quando nós nos apercebemos pedimos o adiamento da audiência ou a repetição do julgamento, o juiz não aceitou. Leu a sentença, fixou uma pena de oito meses e, sendo pena correccional, podia ter suspendido a execução da pena e aceitar a caução. Até porque no fim, eu como advogado, interpus recurso com efeito suspensivo e ele não aceitou e mandou o homem recolher à cadeia, o que é uma aberração de todo o tamanho. E quando eu o interpelei depois, disse que o julgamento correu à revia e a pena já constava na sentença».
Paulo Rangel anunciou que vai dar entrada amanhã, no Tribunal Supremo, de um recurso sobre admissão de recurso, ou seja como não foi admitido o recurso da defesa, esta fará uma reclamação pela forma como o juíz conduziu o processo.
«Também devo dizer que o ofendido é o doutor Paulo Tchipilica e que o próprio Tribunal não o tratava como um cidadão normal, mas como provedor, quando se sabe que ele não compareceu ao Tribunal nas vestes de provedor, nem de ex-ministro da justiça. Ele esteve lá como cidadão e não devia ser tratado de forma tão protocolar. Era senhor provedor para aqui, senhor provedor para ali. Portanto, Graça Campos partiu logo com estas de vantagens todas. Os advogados não sabiam de nada por falta de comunicação e eu próprio só fui lá para a leitura da sentença».
O director do «Semanário Angolense» foi encaminhado hoje mesmo para a cadeia central de Viana, onde se vai juntar a outros ilustres prisioneiros como o general Fernando Garcia Miala, ex-chefe dos serviços secretos angolanos e outros antigos responsáveis que foram recentemente condenados e encontram-se a cumprir pena no mesmo estabelecimento prisional.

Texto: http://www.multipress.info/ver.cfm?m_id=23638

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

“A senhora vai engravidar hoje mesmo”, garante pastor... Quando a fé caminha para publicidade enganosa

Uma senhora que, supostamente, anda aflita tanto quanto o marido, pelo facto de o casal não conseguir procriar, telefona para o programa da Igreja Universal do Reino de Deus, emitido pela Rádio privada em Benguela, na manhã de 27/09. O pastor, confundindo os seus limites e numa clara manifestação de ignorância, “atira à queima-roupa”: «A senhora vai engravidar hoje mesmo! Vou escrever seu nome no travesseiro sagrado».

Já não sendo a rádio a via mais aconselhável para consultas a esse nível, no seu característico sotaque brasileiro, o pastor nem sequer procurou saber de eventuais antecedentes de problemas de saúde, se a mulher está no período fértil e muito menos se o marido está presente. Será que a fé do pastor é determinante para o surgimento de uma gravidez na data em que ele, o pastor, pretende?

Pouco tempo depois, liga uma menina do Lobito cuja mãe andará com as pernas inflamadas há uma semana. Sem se dar conta, o megalómano das soluções instantâneas incentiva a violência: «Lançaram mau olhar sobre ela, alguém que quer tirar vida à sua mãe. A tendência é derrubar a sua mãe e atingir os filhos. Compareça na nossa Catedral da Fé, junto à identificação, no Lobito, a partir das 17 horas».

“Será que este pastor estudou?”, reage indignado um estudante do Instituto Industrial que vinha no Hiace do Lobito. “Tira esse boateiro!”, exigiam os demais passageiros, cujo pedido entretanto é chumbado por outros que, ou gostavam da mensagem, ou viam nela uma anedota “agradável” para começar o dia.
Gociante Patissa

sábado, 22 de setembro de 2007

AUTOESTIMA OU ALIENAÇÃO DO POBRE ANGOLANO?

Voltei a vê-lo hoje na boleia (paragem de transportes públicos) e, quase quinze anos depois, era o mesmo invejável homem de personalidade rara, que me remeteu a uma urgente e profunda viagem mental aos seus tempos de glória. A forma como com a linguagem do corpo se punha em vantagem, numa situação até embaraçosa, fez-me lembrar o “optimismo” de meter medo, naquele filme americano sobre Edie, o pior realizador de sempre.
Quem me conhece sabe que sou sempre o mesmo, ora optimista e na maioria das vezes desesperado. Por acaso até, os últimos dias não me têm ajudado muito quando é para sustentar a auto estima, e você concordará comigo se lhe contar que é por carecer de dois elementos polémicos: mulher (mais do que sexo) e dinheiro (materialização de projectos, mais do que compra e venda, ou conta bancária encerrada); de resto, uma daquelas fases em que a pessoa só sai de casa por haver compromissos sociais inadiáveis, chegando mesmo a se esquecer de usar a calça mais limpa e coisas do género.
Conheci-o muito depois do nome na época das Lojas Francas, da Açucareira, da URSS, das motas MZ, óculos com jogo de luzes e vídeos Nokia. Só de pensar nele sinto-o tão perto, tão real, no seu habitual short (calções) jeans azul que usa propositadamente para exibir a marca e o feitio do calçado. Depois, já não é difícil ver o seu andar de extrema banga (vaidade), tanta assim que o calcanhar não toca o chão, para não falar do ritmo que se tornou regra – falo do balançar do seu “rabinho”, como se de uma moça à caça de homens se tratasse.Era o rei do “Domingo angolano”, as tardes de disbunda (farra) no centro turístico dos Bambus, onde os animais enjaulados assistiam a escassos passos, suportando o barulho do gira-discos e leitor de cassetes e/ou uns tantos chatos que depositariam alguns insultos, do tipo: esse macaco é feio, esse jacaré é aquilo, olha só… e tal. Como me lembro de nunca termos dinheiro para um simples rebuçado, nem já para o acesso ao quintal, tendo de pular o cerco ou passar debaixo do arame, ajudados pela pequenez, passando mais tempo a fugir do guarda do que a dançar ao lado dos kotas (adultos)?! Chamou para si a alcunha “Dá que dói”, uma corruptela intencionalmente sensual do nome de uma antiga figura militar angolana na luta pela independência. Às vezes me pergunto se ele conhece a etimologia do nome.
Famoso como ele e digno de dançar ao mesmo nível, só mesmo o “Gato”, feito de si célebre por dançar Vayola e possuir, dizia-se, cuecas com jogo de luzes!!!E hoje, estávamos no mesmo Hiace na boleia da unidade operativa na Caponte, Lobito, ali onde quase ninguém mais fala, senão os cobradores de Hiaces, cujo pregão se diferencia pelo destino entre a vila da Catumbela e a cidade de Benguela. Sempre a seu jeito, ele senta-se na baúca (a parte posterior do assento do motorista, tampa do motor) … a razão é que só tinha quarenta kwanzas, contra os cinquenta vigentes há bué (muito) d’anos. A barba rentinha já não consegue esconder a idade, o que confirma um olhar rápido à parte exposta entre os seus calções jeans e os tennis converse da mayuya (imitação do original e produto de baixa qualidade). Levava um disco pirateado de kizomba lusófono.
Ainda assim, estava aí, firme, sorridente, bangão, aparentemente feliz. Como será que consegue, com tanto desemprego, limitadas oportunidades de formação, corrupção em tudo quanto é canto… com tanta frustração social?“Dá que dói” é um daqueles compatriotas em cuja aparência buscamos alguma força para o equilíbrio, quando todo o optimismo e a autoestima parecem sucumbir; um daqueles que hoje lutam contra a ordem natural da vida, o legado de que tudo tem seu tempo, regra essa que ajuda a saber ser e estar de acordo com o contexto.
Mas será que tem noção disso? Será que o deixaram ascender à categoria tácita de cidadão observador atento, quando tudo indica que ele não sabe, no mínimo, assinar o próprio nome? É apenas uma questão de diferença de personalidade, ou “alienação” de mais um irmão angolano?
Gociante Patissa, quinta-feira, 24 de Agosto de 2006, 13:06