PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

AUTOESTIMA OU ALIENAÇÃO DO POBRE ANGOLANO?

Voltei a vê-lo hoje na boleia (paragem de transportes públicos) e, quase quinze anos depois, era o mesmo invejável homem de personalidade rara, que me remeteu a uma urgente e profunda viagem mental aos seus tempos de glória. A forma como com a linguagem do corpo se punha em vantagem, numa situação até embaraçosa, fez-me lembrar o “optimismo” de meter medo, naquele filme americano sobre Edie, o pior realizador de sempre.
Quem me conhece sabe que sou sempre o mesmo, ora optimista e na maioria das vezes desesperado. Por acaso até, os últimos dias não me têm ajudado muito quando é para sustentar a auto estima, e você concordará comigo se lhe contar que é por carecer de dois elementos polémicos: mulher (mais do que sexo) e dinheiro (materialização de projectos, mais do que compra e venda, ou conta bancária encerrada); de resto, uma daquelas fases em que a pessoa só sai de casa por haver compromissos sociais inadiáveis, chegando mesmo a se esquecer de usar a calça mais limpa e coisas do género.
Conheci-o muito depois do nome na época das Lojas Francas, da Açucareira, da URSS, das motas MZ, óculos com jogo de luzes e vídeos Nokia. Só de pensar nele sinto-o tão perto, tão real, no seu habitual short (calções) jeans azul que usa propositadamente para exibir a marca e o feitio do calçado. Depois, já não é difícil ver o seu andar de extrema banga (vaidade), tanta assim que o calcanhar não toca o chão, para não falar do ritmo que se tornou regra – falo do balançar do seu “rabinho”, como se de uma moça à caça de homens se tratasse.
Era o rei do “Domingo angolano”, as tardes de disbunda (farra) no centro turístico dos Bambus, onde os animais enjaulados assistiam a escassos passos, suportando o barulho do gira-discos e leitor de cassetes e/ou uns tantos chatos que depositariam alguns insultos, do tipo: esse macaco é feio, esse jacaré é aquilo, olha só… e tal. Como me lembro de nunca termos dinheiro para um simples rebuçado, nem já para o acesso ao quintal, tendo de pular o cerco ou passar debaixo do arame, ajudados pela pequenez, passando mais tempo a fugir do guarda do que a dançar ao lado dos kotas (adultos)?! Chamou para si a alcunha “Dá que dói”, uma corruptela intencionalmente sensual do nome de uma antiga figura militar angolana na luta pela independência. Às vezes me pergunto se ele conhece a etimologia do nome. Famoso como ele e digno de dançar ao mesmo nível, só mesmo o “Gato”, feito de si célebre por dançar Vayola e possuir, dizia-se, cuecas com jogo de luzes!!!
E hoje, estávamos no mesmo Hiace na boleia da unidade operativa na Caponte, Lobito, ali onde quase ninguém mais fala, senão os cobradores de Hiaces, cujo pregão se diferencia pelo destino entre a vila da Catumbela e a cidade de Benguela. Sempre a seu jeito, ele senta-se na baúca (a parte posterior do assento do motorista, tampa do motor) … a razão é que só tinha quarenta kwanzas, contra os cinquenta vigentes há bué (muito) d’anos. A barba rentinha já não consegue esconder a idade, o que confirma um olhar rápido à parte exposta entre os seus calções jeans e os tennis converse da mayuya (imitação do original e produto de baixa qualidade). Levava um disco pirateado de kizomba lusófono. Ainda assim, estava aí, firme, sorridente, bangão, aparentemente feliz. Como será que consegue, com tanto desemprego, limitadas oportunidades de formação, corrupção em tudo quanto é canto… com tanta frustração social?
“Dá que dói” é um daqueles compatriotas em cuja aparência buscamos alguma força para o equilíbrio, quando todo o optimismo e a autoestima parecem sucumbir; um daqueles que hoje lutam contra a ordem natural da vida, o legado de que tudo tem seu tempo, regra essa que ajuda a saber ser e estar de acordo com o contexto. Mas será que tem noção disso? Será que o deixaram ascender à categoria tácita de cidadão observador atento, quando tudo indica que ele não sabe, no mínimo, assinar o próprio nome? É apenas uma questão de diferença de personalidade, ou “alienação” de mais um irmão angolano?
Gociante Patissa, quinta-feira, 24 de Agosto de 2006, 13:06

sábado, 19 de agosto de 2006

Como seria a vida sem vizinhos?

Foto de autor não identificado
Sobre o factor vizinho já se falou muito: ora vizinho é melhor que família, ora vizinho só é bom quando não atravessa o muro. Quando é que começou a existir vizinhança, ainda está por saber. Mas a relação entre vizinhos é um daqueles temas de debate eterno, tal como o bem e o mal. Já serviu de matéria para romances, canções, produções televisivas e, infelizmente, também para tribunais, e por aí fora. Normalmente estão em causa o conflito, o boato, a intromissão em assuntos de família, e, já nos últimos tempos, o barulho da música ou do gerador da casa ao lado. Não teríamos mais paz vivendo sem vizinhos? Você já pensou nisso algum dia?
Havia um homem chamado Ferramenta que um dia resolveu realizar um sonho antigo: o de livrar-se dos vizinhos. Mas como? Foi na procura desta resposta que dedicou bons anos de sua vida a trabalhar duro, a economizar milagrosamente o pouco que conseguiu ganhar durante mais de quinze anos. Assim, a esposa só tinha que ir ao salão para tratar da beleza – evitando os dedos da vizinha que ganhava mais um mexerico pela trança; os filhos tinham computador, telemóveis, Internet, e todo o aparato possível para fazerem amigos sem precisarem o entra e sai da vizinhança; reuniu todo o equipamento de limpeza e higiene possível, deixando para sempre de precisar mobilizar os vizinhos para a campanha de limpeza.
Que não seja possível escolher os pais, avós, irmãos, tios, etc., que gostaríamos de ter, isso é algo com que temos de nos conformar. Cada um nasce e assume os restantes graus de parentesco, como o manda a lei da árvore da família… e não há como escapar. Mas nada mais o irritava do que as refeições atrasadas porque a esposa foi bater papo, os filhos da casa ao lado entrarem e saírem, ou os olhos da rua por cada artigo de valor que o vissem trazer para a casa.
Uma vez reunidas as condições, foi ao deserto viver numa casa projectada no isolamento, como sempre quis – sem vizinhos! A distância era por aí quinze quilómetros do seu antigo bairro. Tudo o que se ouvia à volta da casa era o assobiar dos pássaros, o soar do vento e até o jardim crescer, deleitavam-se observando a variedade de bichos. A vida tinha melhorado, e de que maneira! Afinal, quem é que não gosta de sossego?! Viviam uma paz perfeita até um dia ser invadido por antigos vizinhos numa onda terrível de violência. Os quinze quilómetros de deserto foram insuficientes para impedi-los. Tudo porque uma águia que sobrevoava o antigo bairro resolveu roubar um bebé que descansava ao pé da árvore. E então os moradores da aldeia decidiram seguí-la. Um tempo depois, e já cansada, a águia decide largar a presa. Só que, coisas do destino, o bebé foi pousar exactamente na nova casa do senhor Ferramenta.
– Pois então – indignaram-se os antigos vizinhos ao chegarem – mudaste de bairro é para roubares os bebés dos outros usando águias? Seu feiticeiro do raio!
Pouco tempo teve para se defender, mas a maioria caiu por cima dele com uma boa surra. Sobre ele pesava – e ao que parece para sempre pesará – a incisiva acusação de o isolamento ser só um projecto para o roubo de recém-nascidos. O grande desafio é convencer a sociedade do contrário, já que, quem é que em sã consciência acredita numa vida sem vizinhos?
Moral da estória: existem normas que servem de padrão para evitar medidas extremas no relacionamento entre as pessoas. Até porque cada um de nós é vizinho de alguém.
Adaptação: Gociante Patissa, 27 de Maio de 2006

Zangam-se as comadres, conhecem-se as verdades!”

Conta-se que a Dona Kandimba e a Dona Lagartixa eram boas comadres. O tempo foi passando e os hábitos tomaram corpo: trançavam-se o cabelo uma da outra, fofocas bem actualizadas, desabafavam os fracassos dos maridos (nas finanças e na cama), baptizavam os filhos, etc., etc. Tudo corria a mil maravilhas, até o tempo provar que é o senhor da razão.Certo dia, vinha a D. Kandimba de uma aldeia vizinha, completamente histérica: pulava p’ra lá, pulava p’ra cá, cabelinho arranjado, uma calça da Nigéria, um óculos por causa da conjuntivite. Mas doesse como doesse, ela vinha alegre. Trazia numa mão a felicidade e na outra a carne de vaca para partilhar com a família. A carne lhe fora oferecida na festa. Mal se aproxima da aldeia vê uma goiabeira frutos bem amarelinhos, e o aroma então, esse era completamente tentador! Para uma D. Kandimba, toda emancipada, trepar uma goiabeira não é apenas para homens, e resolveu trepar para saborear as goiabas, deixando a carne ao pé da árvore, sobre uma pedra.Ainda não tinha comido um único fruto, quando ouviu gritos lá debaixo da árvore:- Achado não é roubar! É minha sortiiiéééé!!!!!- Espera aí, comadre, deve haver uma confusão. A carne é minha, deram-ma na festa…- Nunca, comadre Kandimba! – interrompeu a lagartixa – Isso é que a carne não é!!! Nem penses!- … Mas é verdade, sim. Só parei para comer algumas goiabas e então deixei-a ao pé da árvore. Deixe-me dividir um pouco consigo, cara comadre…- Não senhora! Não posso dividir o que achei. Assim perco a minha sorte. Ou levamos o caso ao rei ou já não sei… hum! Isso é azar!!!Partiram ambas para a residência do Rei, cada uma convencida de que tinha a razão. Chegadas lá, a Dona Kandimba ainda tentou argumentar, mas a Comadre lagartixa não parava de falar: era lógica atrás de lógica, até que: “ó Rei – disse a lagartixa – se a carne fosse da comadre, não teria trepado com ela?Engasgado, o Rei não teve outra saída senão atribuir a carne á Dona Lagartixa. Esta partiu em alta velocidade para a casa, tanto assim que ao dar a refeição aos filhos deixou a cauda de fora. A D. Kandimba que vinha cabisbaixa, derrotada quase a chorar, ao ver a cauda agarra-a e grita:- Zás! Achado não é roubado! Achei uma cauda de lagartixa, é minha sorte!- Pára, pára, pára aí, ó comadre Kandimba! – dizia a Lagartixa a pedalar – Não está a reconhecer a minha cauda? Isso já é abuso, não te parece?- Não... eu achei a cauda, comadre Lagartixa…- Mas como é que vai achar uma coisa que está presa no meu corpo? A comadre só pode estar a querer apanhar-me a pata! Vamos só para a Residência do Rei.De novo lá e ouvidas as duas versões, o Rei já não teve problemas em decidir, e disse: “Se entrou para a toca, D. Lagartixa, e deixou a cauda de fora é porque não é Sua. Não foi o mesmo com a carne da outra? A Lagartixa ainda tentou, a esmo, dizer algo afim de inverter o curso dos acontecimentos mas: “D. Kandimba, eis o machado e corte a cauda à sua Comadre. Não se divide algo achado, senão perdes a sorte.Se o Rei bem o ordenou Kandimba melhor o fez. Cortou a cauda e como não precisava dela jogou ao chão, aí mesmo na residência do Rei. A Lagartixa, recolheu-a e saiu desesperada a procura de um bom cirurgião plástico para lhe repor a cauda. A ideia foi boa, mas a técnica naquela altura não estava tão desenvolvida. Por isso é que sempre que se dá uma pancada à cauda da lagartixa, ela cai (e por vezes nos assustamos).Moral da estória: quando nos apoderamos de algo alheio, por vezes acabamos por perder algo maior. O que é nosso em nossas mãos vem parar.Adaptação: Gociante Patissa, 2003(Contos da minha terra, originais em língua Umbundu)Gociante Patissa, segunda-feira, 19 de Janeiro de 2004, 17:11:18

Homens são vontades!!!

Depois de ter tido a oportunidade de publicar textos em páginas de amigos e não só, nunca mais parei de exigir de mim o dever de contribuir. A ideia de criar esse blog pode ser semelhantes a muitas outras (idiotas, talvez), mas que ajudam a fazer alguma coisa nesse mundo. Mais do que simples ilusão apaixonada, ao longo dos temp0~s os blogs têm sido uma importante ferramente na promoção da mudança sociail. Fico mais contente porque não estarei a dizer novidade para ninguém.

Vou lançando, hoje, agora, a minha primeira pedra. É um blog que se pretende pacífico, participativo, apesar de "íntimo", ou seja, misturar doses moderadas de debate cidadão com contos e provérbios, no fundo sevir como o bloco diário de apontamentos desse vossomeu/ amigo. A ideia á fazer desse canto um espaço sem limites, quanto mais não seja de língua. Que as diferenças nos juntem, mais do que afastar. Se você é mulher, homem, fala que língua for, isso não deve estar em primeiro lugar. Vale sempre a intenção.Volto daqui a pouco.

Aliás, cada hora é certa para lançar a nossa primeira pedra construtiva nessa obra chamada mundo.Há sempre algo a fazer, para quem tem vontade para tal. Comente, critique, escreva, leia. Só não se esqueça que "é má ideia não ter ideias"
Eu

Falando difícil


Dá para repensar a diferença entre falar ecomunicar-se.!!!!!!!!!!!!
E antes que me esqueça, a foto não é minha.
U abraço

terça-feira, 15 de agosto de 2006

POR QUANTAS VEZES MAIS...??? (*)

Uma voz, a habitual para ser sincero, lançava ao vento palavras de consolo, equilibrando-se entre o repouso agora e um espaço melhor num futuro distantíssimo, enigmático.
“Não sei quantas vezes mais terei ainda de voltar aqui, mas a chatice de cá estar é sempre a mesma”, desabafei com um amigo. Já fora, no fim de tudo, uma senhora em trajo preto desabafava impotente com uma suposta amiga (ambas para mim eram desconhecidas, sendo a viatura e a viagem a única coisa em comum entre nós): “uma gaja nunca vem aqui para relaxar… é sempre com problemas. Possas!”
Voltará a sorrir tão cedo a pobre mulher? Talvez (espero que sim!), mas o rosto transparecia abalo, com um suspiro sentido, enquanto tentava sentar-se no pára-choques traseiro empoeirado da viatura, que não sabia a quem pertencia nem o sujeito que a conduziria. Nestes momentos, qualquer carro dá, não há lugar para formalidades. No fundo todo o mundo vai ao mesmo sítio e volta já, já, à base – excepto, claro, a pessoa do dia.
E os primeiros instantes no destino então são os mais ingratos, sobretudo quando no quintal – cujo branco não é sinónimo de uma paz sincera, racional, mas apenas de conformismo, face a uma derrota sem recurso impeditivo – a leitura daquele texto de costume caminha para as últimas linhas.

Como sempre, já sei o que vem a seguir. Mas me retiro, e é agora, para não olhar de frente, pelo menos desta vez, o passo mais concreto de toda a cerimónia (aquele momento que põe de parte toda a natureza de aparências que normalmente norteiam o socialmente recomendável em termos de apresentação individual e de discursos em relação ao personagem único; o momento pragmático do “terra p’ra terra”). Dou dois passos à retaguarda devagarinho para não dar nas vistas (péssimo momento para um eventual show-off!). Uma obra de arte castanha, que atende pelo nome de caixa, capitaliza as atenções, disputando nalguns casos com os rostos húmidos daqueles directamente mais atingidos (oh, e há sempre!).
O filme é repetido e o impacto também. Enquanto deixo o círculo em busca de forças, sinto as pernas trémulas, a cabeça doendo… Estão muito frescas as imagens de uma conversa de “amizade em trabalho” que travamos na única pensão do Cubal, há um mês. Tudo agora passa para a classe de um passado sem interacção, juntamente com os seis anos da relação de colegas de “profissão”. É mais uma repetição da triste constante: a vida um dia nos junta e, logo, logo, nos separa…!
O homem da bata branca, de livro de capa azul na mão, com os olhos por detrás dos óculos, continuava a apregoar o Senhor e o descanso eterno, enquanto amigos e familiares se rendiam em segurar as poucas pás disponíveis. E cada pausa do seu discurso corajoso era preenchida por um barulho agudo, num compasso que se tornou perfeito face à peculiar frequência ao longo dos anos. O buraco tinha de ser tapado, o homem ficaria mesmo!
A poucos passos, um atraente vaso na cabeceira de uma campa de humilde aparência salta à vista. É natural ou artificial? Agacho-me, arranco uma folhinha e o verde húmido entre o meu polegar e indicador, ao esmagá-la, diz tudo. De um verde nutrido e uma flor amarela sorridente, foi trazida para cá no meio de lágrimas e choros de uma família que depositava para sempre mais um ente querido, como essa, hoje, agora. Não há dúvidas. Ela, a flor, sem me dizer há quanto tempo não recebia irrigação, só mostrou que tem conseguido sobreviver, ao lado de um vasto universo de flores artificiais em vasos com água.
Por mais voltas que dermos vamos lá sempre ter… no cemitério. Como é chato, principalmente quando cada visita representa sempre a partida de alguém conhecido e/ou chegado, para nunca mais se voltar a ter novidades?! Como doem as habituais irrespondíveis perguntas lançadas aos choros por órfãos, viúvos/as e familiares em geral? Como é ingrato sabermos que o fim da vida dessa pessoa é o início de um problema para muitos, o de dar seguimento ao seu projecto de vida? O hoje lá se vai, mas quem sabe o amanhã? Ou melhor, é coisa de a pessoa se perguntar: por quantas vezes mais terei de voltar ao cemitério?
Por: Gociante Patissa, em memória de Gabriel Agostinho, o “Gaby” da Okutiuka, Lobito, 12/08/2006

(*) para arquivo. Publicado no Blog do Pacatolo sob o link http://upindi.blogspot.com/2006/08/por-quantas-vezes-mais.html