PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 15 de outubro de 2017

"Não há razões para teres um plano B, porque isto te distrai do plano A" (Will Smith, actor americano, sobre foco e determinação )

Citação

     “A separação de talento e habilidade é um dos piores conceitos para as pessoas que estão tentando se sobressair, que têm sonhos, que querem fazer as coisas. Talento você tem naturalmente. Habilidade só é desenvolvida por horas e horas de prática.”
      “Eu realmente nunca me vejo como particularmente talentoso. Onde eu me sobressaio é ridículo, revoltante, ética de trabalho. Enquanto o outro está dormindo, eu estou trabalhando. Enquanto o outro está comendo, eu estou trabalhando.”
       “Não há nenhuma maneira fácil em torno disso. Não importa o quanto você é talentoso, seu talento vai falhar se você não estiver qualificado. Se você não estudar, se você não trabalhar muito e se dedicar a ser melhor a cada dia.”
      "Na vida, cada pessoa esforça-se para atingir as suas metas; as pessoas de sucesso vão um passo além, elas sacrificam-se."

(Will Smith, actor americano, do filme “À Procura da Felicidade”)

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Divagações | Um kapedido só ao kota Celso, agora número dois no Ministério da Comunicação Social, ya?

No dia em que os noticiários propagaram a nomeação do comunicólogo Celso Malavoloneke (CM) para o cargo de Secretário de Estado do Ministério da Comunicação Social (cargo equivalente a vice-ministro), sua excelência eu "embrulha" os parabéns na memória deste encontro que "se dei" com a excelência dele ali pelas bandas do São Paulo, em Luanda, no 31-08-2016. CM junta-se, assim, ao jornalista e escritor João Melo, recém-nomeado Ministro da Comunicação Social, cujo perfil reacende a esperança de se introduzir uma reformulação dos conteúdos e postura dos órgãos de comunicação social públicos. Católico fervoroso e antigo quadro das nações unidas, fora a passagem recente por distintos sectores do governo enquanto assessor, tem um sobrenome proverbial que na língua Umbundu significa Filhos do Tempo, o que pode tanto ser interpretado como alguém que persevera a meio a turbulências da vida ou então, num prisma diferente, alguém cujos caminhos residem no enigma do tempo. Estamos a falar de Malavoloneke (assim grafado mas para se ler /mã-lã-vo-lo-ne-ke/), sobrenome entretanto lido (no som ruidoso da já habitual tendência aportuguesadora dos nossos locutores) como /mala-vo-lo-ne-ke/ (quando na verdade nada tem que ver com malas, mas sim mãlã, significa filhos). Quanto ao kapedido, que não é original, é só não colocar fora da agenda a idosa esperança de abertura da Rádio Ecclesia em Benguela, que mais tarde se reinventou como Diocesana, ya? Ainda era só isso. Obrigado hahaha
www.angodebates.blogspot.com  

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Diário | Mas já foste ao quarto dele. Ou não?

(I)
“Mas, filha! Esse vosso namoro afinal é como, tanto tempo que até já passou – estou a contar mesmo bem – do total dos anos que andou cá o colono português?”
“Assim mais é o quê?! A mãe também chateia muito…”
“Chateia? Mas isso mesmo é homem, que nunca só dá pelo menos a cara nas pessoas que trouxeram ao mundo a miúda que constantemente faz com ele…”
“MÃE!, faxavori, para só, ya? Estou a ver já aonde estás a ir com a conversa…”
“Estou cansada, filha! Você dorme com inimigo. Porque é essa a palavra. Ah porque fomos no KFC; ah, ah porque jantamos no Angry Lion. Ó filha, já viste como entre você e o frango não há diferença? É só comer… não se pergunta mais os pais…”
“Não exagera só mãe. Ele vai cumprir com a tradição. Há-de chegar o dia…”
“Esse dia então é quando?! Mas já foste ao quarto dele. Ou não?”
“Claro que já, né, mãe?!”
“E quem construiu a casa?”
“Mas para quê que vou saber isso… se não sou pedreira?”
“Estás a ver as nossas filhas?… É só ku-duro nesta cabeça… Lá ninguém te valoriza, senão te contavam a história da família.”

(II)
“Mãe! Não viste a visita?! É assim que se atende?! Depois fala que não apresento…”
“Este assim é quem? É outro que veio cobrar a dívida do cabelo brasileiro que a alma d’outro mundo que te namora promete assumir mas nunca chega a pagar?”
“MÃE! Ca-la-a-boca! Por favor, não me faças entrar no chão…”
“Será que falei demais, né?…”
“É ele…”
“Ele mais quem, então?”
“O meu boy. Finalmente estás de cara-à-cara com ele! Boy significa namorado.”
“Ah, entendi. Namorado que só ocupa não toma decisão de casar então é boi, né?”

(III)
“Muito prazer, mãezinha.”
“Demais, até. Imagino. E como se chama o filho?”
“Nascimento da Cunha…”
“Ah, quer dizer que o jovem é que está a estragar o país, né?…”
“Como?”
“Comendo lá ou não, filho, Angola ficou marreca de tanto levar a cunha na cabeça…”
“Hahahah. Adoro o sentido de humor da mãe…”
“E o filho Falecimento trabalha?”
“Nascimento!”
“Ah, desculpa. Nascimento, Falecimento, tudo passa no viver. Trabalha aonde?”
“Na ENDE e colaboro com a RNT… Sou despachador-chefe. Ligamos e desligamos as linhas de luz consoante solicitação de corte para restrições de racionalização…”
“Afinal é o pai que fez queimar a minha arca do negócio de gelado de múkwa?”
“Não é por aí, mãezinha…”
“ACABOU! JOVEM! EM NOME DO POVO ANGOLANO, SAI AGORA MESMO DA MINHA CASA, OK?!”
 www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Lobito, 5 Outubro 2017

(arquivo) Diário | Entre as desculpas e a cadeira assim vou escolher lá o quê?

"Pai sogro! - primeiro ainda bom dia, né? - É como o passado?"
"Não!, por acaso, mesmo com a ressaca daquele copo que pagaste ontem sem maneiras, ainda o passado lhe passamos bem, conforme é possível com a graça e companhia dos engraçados. Assim é escovar o álcool da boca e ir trabalhar..."
"Para ganhar o pão, não é isso?"
"Não!, por acaso! Se bem que o tal pão já sai com bolor do próprio forno..."
"Pão novo com bolor, meu sogro?"
"Salário sem poder de compra, meu genro?"
"Ah, é verdade. Ainda pensei que é mais uma das àtoíces de falar do pai sogro. Porque o pai quando pega para errar... Mas é assim, vamos ainda deixar o politiquismo para os que estudaram, meu sogro..."
"Não!, aí falaste, meu filho!..."
"Eu madruguei para vir pedir desculpas. Dizem que ontem não aguentei na chupeta, aterrei na cadeira, depois caí e a cadeira partiu-se toda..."
"Ah, afinal? Meu genro, entre as desculpas e a cadeira assim vou escolher lá o quê?! Não vamos se complicar, meu filho, compra só outra no lugar..."
"Assim o meu próprio sogro, hã, pai da minha mãe, - sim, porque esposa é como uma mãe, ou estou errado? - é verdade o meu sogro vai-me fazer pagar?!"
Gociante Patissa. Aeroporto Internacional da Catumbela, 08 Junho 2016

domingo, 1 de outubro de 2017

Crónica | O quinto amor

Foto sem identificação de autor
Saltou do banco corrido de idosa madeira em que andava estendido em posição cadavérica com uma gargalhada de não coincidir com nada mais próximo. Caía a noite, longa noite de pós-enterro. O Mateus, neto de Gociante Kapiñãlã, este, desistira dos seus trinta e quatro anos. Já não está entre nós. Reitera, tautóloga e afónica, a velha Flora. Calma, mãe, que isto há-de ser mentira. O breu segue o seu segundo dia de eficácia no subúrbio, três geradores domésticos bons de bufar, fala-se em vela gasta. Enquanto isso, nos céus, clarões e explosões anunciam obesas gotas sobre o salgado chão. Vai ser chuva. E a chuva do Lobito que gosta de aparecer nos noticiários. Lá o homem continuou na sua alegria, mais ou menos incontida, decidido a contagiar em tal toada os demais, na sua maioria mulheres que, não obstante tomarem por inconveniente o estado de alma do homenzinho, eram afinal as responsáveis, ou não tivesse passado por mãos prendadas destas o agente excitador. O feijão. Eu amo muito o feijão. Assim anunciou ele, não cabendo em si de contente, no momento em que entregava o prato para se lhe ser aviado. Mais que a cunhada?! Retorquiu uma voz da copa. Muito mais. A mulher, para mim, é o quinto amor. O silêncio não podia ser mais reprovador. Esperem, eu vou explicar. Assim, então, ao invés de casar a filha alheia, uma vez que amas mais o feijão, não faria mais sentido ficares com só com um hectare? Não! É assim: primeiro, amo o feijão. Depois amo o jogo; porque eu não vou fazer que o meu Primeiro de Agosto ou Real está a jogar, e a mulher fica a me chatear para lhe prestar atenção… Xê, oh coisa, se põe no teu lugar! Bom, em terceiro, amo o rio, porque gosto muito de beber água. Quarto, amo o ar, porque é preciso respirar. Depois já é que vem a mulher. As senhoras da copa, generosas em calibrar aquele feijão de fundo queimado típico de panelonas de óbito, não podendo, por pudor imposto pela cultura, verbalizar o mais fácil de especular, mantiveram uma abstenção, certamente a muito custo. Já eu, ora pois, até agora vou, na minha cabeça, a contabilizado sobre a testa do emissor o número de suplentes que lhe fazem a vez em cada ciclo do quinto amor. Talvez um vizinho a concorrer com o feijão, outro com o futebol, um terceiro com o rio (por que não um colega na vez do oxigénio?) Enfim… Viva o feijão.
Gociante Patissa | Lobito, 30 Setembro 2017 | www.angodebates.blogspot.com

Uma noite dormida ao relento (por imperativos familiares), e acordas constipado. Os guardas mereciam um monumento. Ainda só isso.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Um kapedido só ao confrade Luís Fernando, agora na presidência, ya?

O dia de hoje está a ser uma verdadeira roda-viva, entre renovar documento da viatura e a presença em inadiáveis visitas familiares, o que me manteve desligado dos canais convencionais de informação. A meio da tarde recebi via redes sociais um comunicado de imprensa atribuído ao recém-empossado presidente da república (PR), João Lourenço (aka JLo) que dá conta do elenco que passa a constituir os serviços de apoio ao PR, uma geração relativamente jovem, da qual destaco o jornalista Luis Fernando (LF), de quem sou próximo pela faceta de escritor. Tomamos posse enquanto membros da União dos Escritores Angolanos no mesmo dia, finais de 2009. Foi por este vínculo que "se dei encontro" mais de perto com o homem, quando em 2015 veio a Benguela (ladeado, como diria o erudito, de sua esposa, a mana Paula Fernando), sob escolha do secretário-geral, Carmo Neto, para capitanear o lançamento oficial do livro de crónica O APITO QUE NÃO SE OUVIU, de sua excelência eu. Foi um encontro memorável e para mim emocionante, num fim-de-semana prolongado daqueles de só conseguir quarto de hotel por "tráfico de influências" do amigo Efraim, passe algum exagero. Voltando ao hoje. Não tenho até ao momento confirmação do próprio quanto ao cargo de Secretário para os Assuntos de Comunicação Institucional e de Imprensa do Presidente da República, mas a fonte diz-me que se trata de um dado oficial, pelo que, por esta via também, reforço os parabéns ao confrade LF e deposito votos de êxitos neste exigente desafio. E para não terminar sem "embirrar", até porque temos de aproveitar quando os nossos sobem ao poder, ó meu kota lá do Tomessa, Uige, estou já adiantar com um kapedido só. É assim, tipo, eh, ora, vejamos... Quando vier a ser objecto de notícia, a redacção fica só mesmo «o Secretário para os Assuntos de Comunicação Institucional e de Imprensa do Presidente da República, Luis Fernando». O «Dr.», herdado do posto, cai, faxavori, ya? Ainda mba era só isso. Obrigado.
 Gociante Patissa | Benguela, 27 Setembro 2017 | www.angodebates.blogspot.com

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Crónica | O papel do multicaixa na prevenção de conflitos

Benguela, cidade, anda movimentada, como devia aliás andar, a caminho de trezentos e noventa e seis anos de existência. É evidente que a data oficial está longe de ser consensual, havendo intelectuais que se indignam por entenderem que, em cada dia dezassete de Maio, festejamos a vitória militar do invasor colonial português, representado por Cerveira Pereira, sobre os nossos antepassados, autóctones Bantu.

Janota, conhecido por doutor muito antes até de tirar a licenciatura, procurava preencher o vazio que tem sido a sua cama, desde que a esposa viajou para a China. Por muito que gostasse e bebesse de filosofia, estava difícil o jejum (devo usar uma linguagem mais ou menos sóbria, já que tenho sobrinhos menores seguindo-me no Facebook). Vai daí que Janota deu um salto ali para as bandas da Sé Catedral, onde se diz haver um bordel. Assim como ao lado de cada direito anda o respectivo dever, pureza e fé têm sempre uma tentação à perna.

Em coisa de minutos, Janota tinha uma rapariga, expedita vendedora de orgasmos simulados e um canto para o labor e o sabor, não sem antes ficar claro o preçário. A menina fê-lo chegar à China por alguns instantes. Ora, completada a viagem, surgia um tipo de conversa mais ou menos imprevista para aquele segmento de negócio. «E agora, como vamos fazer? Posso pagar com cartão?», indagava o saciado, enquanto calçava as meias antes de botar a calça.

A rapariga olhou para ele, como quem diz, caramba!, está aqui um espertalhão. E antes mesmo que ela emitisse uma palavra, o cliente continuou justificando-se: «Sabes como é que é. É fim-de-semana, a função pública pagou. Já circulei pela cidade e cercanias, mas nenhum aparelho tem dinheiro. Mesmo a nível de macroeconomia, honrar os salários dos professores é um caso sério, já que eles não produzem como tal. É um sector nobre, muito importante, mas pobre. Com os militares é a mesma coisa. Não sei como vamos fazer, sabes? Eu gosto de pagar as minhas contas, acontece que não consigo tirar dinheiro do banco, sabes que aquilo enche que nem uma coisa doida.»

A rapariga ouvia, franzindo progressivamente a testa. Pensava por dentro, do tipo, esse gajo não quer com este monte de palavras que no final fique tudo por um crédito sine die, não? «Doutor, pela próxima, quando é assim, avisa antes. Estás a ver se hoje eu não trouxesse o TPA, íamos mesmo se pegar nas camisas. E até não fica bem. Vá, dá lá o cartão multicaixa. Hôko!, assim também querias quê?!»

Bom, ao menos o final foi feliz para o professor Janota, uma vez que a menina, sendo profissional com visão empreendedora, tinha a sua máquina de pagamento electrónico na mesma bolsa em que guardava os preservativos, pensos e lubrificantes íntimos, não tendo sido necessário, como ela mesma disse, «se pegar nas camisas». Como diria o ditado, para um esperto, esperto e meio.
Benguela, 25 Maio 2013
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Gociante Patissa, Benguela, 11 Dezembro 2012. In «O Apito Que Não Se Ouviu», 2015. Pág. 60-61. União dos Escritores Angolanos. 1.ª Edição. Luanda, Angola . 2015 Colecção: «Sete Egos»

(*) livro de crónicas disponível na Livraria Sucam e na Tabacaria Grilo, em Benguela, ou na sede da União dos Escritores Angolanos, em Luanda, sita no Largo das Escolas. Mil kwanzas o exemplar

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Crónica | Caro compatriota João Lourenço, acabe só com isso, ya?...

Foto de autor não identificado
Cada vez que me tratam por doutor (o que por acaso não sou, mas também em nada mudaria se fosse), carrego a inevitável culpa de não poder – evitando ser deselegante – dispensar prontamente tal deferência. Ultimamente até nos noticiários, temos sujeitos com o título académico, principalmente quando detentores de cargos públicos, muitos dos quais arredondados por excesso, dado que, em termos concretos, não passam de uma licenciatura.

Aí, resta ao cidadão acrescer à pilha de "vergonhas colectivas " esta mania do elitismo. Por que raio tem de ser a frequência universitária parte da nossa identidade? O indivíduo faz uma chamada telefónica e tu ouves depois do pigarrear aquele "daqui fala o doutor não sei das quantas", e ficas a prever no outro lado da linha o emissor a endireitar o nó da gravata ou eventualmente a tirar o pó do bico do sapato, como se não atendesse às suas necessidades fisiológicas socorrendo-se dos mesmos órgãos sensoriais que os demais mortais. E aquelas cenas deprimentes então de estar aos copos em mesa de bar e nos tratarmos por doutor disto, engenheiro daquilo, arquitecto e bla, bla, bla?... O lugar da simplicidade qual é mesmo?

De que adianta a excessiva formalidade se, na realidade, muito do que você precisa no dia-a-dia é resolvido na relação com o país informal? Os exemplos estão à mão de semear. O doutor cai no radar por excesso de velocidade e… resolve no momento com o regulador de trânsito. Tem algum parente doente, recorre a influências para melhor assistência. É professor mas o poder de decisão no mais elementar, como a reprovação (ou não) do aluno ou aluna com fraco rendimento escolar, é condicionado pelo telefonema do degrau acima na hierarquia. E se nos preocupássemos mais, sob o ponto de vista da ética social, com o funcionamento eficaz das instituições ao invés de investir o tempo em categorizar indivíduos?

É que já trabalhei com alemães, belgas, quenianos, americanos, italianos, espanhóis, australianos, ingleses, franceses, etc., bwé de PhD, alguns até diplomados em universidades do topo do ranking mundial, e a prática é tratar a pessoa pelo nome, ou quando muito por senhor/senhora. A propósito de tendências que acabam por nos elevar ao patamar caricatural, recordo a troça de uma antiga amiga e tutora australiana, isso no sector das ONG’s por volta do ano de 2006, segundo a qual é fácil topar um angolano em voos internacionais. E como? Porque é o que mais se preocupa em se agrilhoar (termo meu) em fato e gravata (onde os demais procuram viajar em trajes casuais e mais confortáveis), mesmo quando a estação que os espera no país de destino é o verão.

A nossa comunicação social é outra promotora do vício, sobretudo no tratamento dado aos comentadores (residentes ou itinerantes, que por vezes também não acrescentam nada de novo ao senso-comum), o que indirectamente passa a mensagem de não haver sabedoria em quem não ostentar um grau universitário. As rádios e televisões em alguns países que visitei (EUA, Alemanha, etc.) apresentam os interlocutores pelo nome e função, no que se pode inferir que já se fartaram dos doutorismos, onde o acesso à universidade é um dever, não uma questão de luxo e/ou barreira social.

Aqui chegado, e não sendo ainda eu de andar a pedir favores a governantes (talvez tenha pedido alguma vez em pequeno na era do partido único e um ano antes do fim da guerra ao meu próprio pai, mas não me lembro), ou exceptuando a cedência de salas para lançamento de livros, já na condição de escriba, vejo-me neste contexto obrigado a abrir uma excepção. Portanto, caro compatriota João Lourenço (o "president to be", como diriam os anglófonos), faça-nos o favor de acabar com este "vazio interior" de esfregar o grau académico na cara da sociedade, ya? Ainda era só isso. Obrigado.

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Benguela, 25 Setembro 2017

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Crónica | Não me podem acusar é de não ter tentado singrar

Está a sair-se divertida a experiência da interacção via chat (sim, o chat, voltei a usá-lo em termos "boca livre" para atender os interessados em comprar a máquina fotográfica). ESTOU A VENDER UMA MÁQUINA NIKON D3300 NOVA (180 mil kwanzas). INCLUI MOCHILA, PEQUENO TRIPÉ E LENTE EXTRA 55-200mm. Negociação sobre formas de pagamento "inbox" (ou chat, excepcionalmente aberto para este fim). Ainda era só isso. Obrigado, Gociante Patissa, dizia o anúncio estampado no meu mural e graciosamente partilhado por outros amigos virtuais e não só. Quanto aos termos de pagamento, estes, reservei-os para o privado. Na verdade também não têem assim muito de voltas a dar. A condição é pagamento via banco, e ali é que a coisa roça o remoinho tragicómico. Na fila de frente das dúvidas que me chegaram, destacou-se pela pertinência a seguinte: “Quanto custa a máquina?” Tenho estabelecido, em conversas com pessoas chegadas, um certo paralelismo entre o Facebook e o ambiente de uma escola de condução, pelo seu carácter homogéneo (digamos misturador), onde volta e meia todos os níveis de ensino são encaixados na mesma turma, o mesmo que dizer da experiência de vida, das gerações e afins. A parte mais doce é do tipo “Vendes máquinas ou só tens uma”? No momento da resposta eu era capaz de jurar em como deixei isso claro no anúncio, pelo que ainda me ocorreu atribuir as culpas de um tal ruido na comunicação à oposição (como, de resto, tudo o que corre mal em Angola, não é?), mas você já sabe aquela preguiça… E pronto, acabei assumindo eu mesmo o benefício da culpa. Eram já quase meia-noite, se não mais. Lá regressei à rede social e acrescentei: Sim, está à venda. A máquina fotográfica é nova. Sai a pronto pagamento ao preço de 180 mil kwanzas. A entrega é imediata. Tinha-a adquirido para equipamento auxiliar. Ainda era só isso. Obrigado. Na sequência veio alguém ao chat pedir que fizesse fotografias do equipamento à venda. Não fiz, mesmo até para não decepcionar quem realmente teve a perspicácia de topar o ar de burlador visível na foto que tenho no perfil de Facebook. Ah, o nome, este meu, visto está, só pode ser de burlador. Juntamente com os contactos telefónicos dei o número da conta bancária, em nome de Daniel Gociante Patissa, do Banco BCI, o que, como se pode ver, são características de um burlador rodado na matéria e provavelmente já com as malas feitas para passar o resto de verão nas europas, para assim realizar o sonho de laifar com os 180 mil kwanzas do preço de máquina fotográfica, mais do que suficientes para alugar um jacto privado. Por fim, um dos clientes, talvez o mais conversador, intrigado, com razão, por não se lhe aceitar a modalidade de pagamento em cash, não escondeu que se sentia inseguro. Se preferires, tranquilizei-o eu, podes vir a Benguela amanhã. Ando com a máquina no carro e fazes o depósito. Como das dez da manhã (hora combinada para o encontro) para cá já passam largas horas, sem sinal do meu cliente, é bem possível que algum excesso de burocracia na procuradoria esteja a impedir o mandado de captura do presumível burlador. De maneira que me encontro arrepiado de medo, a tremer mesmo, na iminência de ser capturado. No final do dia, não me podem acusar é de não ter tentado singrar no empreendedorismo burlesco. Ainda era só isso. Obrigado. hahahah
www.angodebates.blogspot.comGociante Patissa, Benguela, 21 setembro 2017

Se vivesse em Luanda tentava na rádio MFM. Há muito que a alma profissional precisa de um "mudou e gostou". Ainda era só isso.Obgd

O melhor para governar Benguela terá de ser requisitado junto dos bons cristãos, chama-se Jesus Cristo. Ainda era só isso.Obrigado

domingo, 17 de setembro de 2017

Citação

"Os comprimidos que são para curar ainda causam efeitos colaterais. Tens de curar os efeitos colaterais com mais comprimidos." (Ras Nguimba Ngola, 16. 09. 2017)

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Diponível para download | Programa ENTRE NÓS - Homenagem ao Dia do Herói Nacional, Rádio Benguela 15.09.2017 (poesia e trova)


- Trova/Músicas originais: Syrimus Mulaja (músico e compositor benguelense)

- Emissão e concepção: Rádio Nacional de Angola-Benguela, programa "Entre Nós", manhã de Sexta-feira, 15.09.2017
- Apresentação: Filomena Maria
- Poesia de António Agostinho Neto (1922-1979) poeta, médico e político angolano)
- Compilação, narração de poemas e fotografia: Gociante Patissa

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Diário | Dizer que alguém ‘está tão jornalista’ hoje em dia é ofensa?

“Com que então, numa altura em que as políticas estão preocupadas na esteira da reestruturação familiar, perseguindo o melhor desenvolvimento da criança, o senhor diz que está determinado, quer mesmo o divórcio?”
“Sim, doutor Juiz, ela foi longe demais!… É que tudo, menos isso!”
“Mas o que foi que a senhora aprontou ao seu marido afinal, que o tenha ofendido a este ponto?”
“Eu até não estou a ver, doutor Juiz, falando a verdade. Aquilo foi só uma conversa banal…"
"BANAL?! AIÉ? VISTE MESMO QUE FOI BANAL?!"
“Ó meu caro amigo, não se exalte! Contenha-se que estamos a tentar uma conversa civilizada para um desfecho definitivo airoso, e este seu tom não é o mais curial… Até porque a linguagem da lei é dura, mas não grita. Ou não é assim?”
“É desculpar, doutor… Oh, minha mãe debaixo da Terra! Você ia imaginar um dia um insulto destes arremessado contra aminha pessoa?…”
“Mas ajudem-me, caro casal, a perceber o problema. O que foi que se passou, se é que não estou a extravasar os limites da privacidade?”
“Então, eu, como marido, né?, só aconselhei que essa coisa de chegar à casa e encontro a mulher não bateu funji – que é carregador de macho – e só fica nessas comidas de crianças e pássaros, ah porque massa, arroz com feijão, bife, bitoque, etc., qualquer dia a pessoa arranja outra segunda via extra conjugal…”
“E então?”
“Aí é que ninguém esperava a ofensa que saiu da boca desta mulher, ó doutor Juiz. Assim estás a lhe ver tipo é madre em dia de preguiça, né? Hum! Boca dela, boca dela, boca dela!… Falou mesmo assim: ‘Hoje estás tão jornalista, pa!’”
“Mas dizer que alguém ‘está tão jornalista’ hoje em dia é ofensa?”
“Mas o doutor Juiz não é de Benguela ou quê?! Quando é assim anda a perguntar. Todo o mundo já sabe. Jornalista, eu?!O que é que a alma da minha querida mãe vai pensar da educação, da moral que me transmitiu, já sem falar do bom carácter e escrúpulos, hã?!”

Gociante Patissa | Benguela, 13 Setembro 2017

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Humor americano | O JARDIM E O VALOR DA ESTRATÉGIA (*)

Um senhor que vivia sozinho em Minnesota queria cavar a terra do seu jardim para plantar flores, mas era um trabalho muito pesado. O seu único filho, que o ajudava nesta tarefa, estava na prisão. O homem decidiu então escrever a seguinte carta ao filho:plantar 

"Querido filho, estou triste pois não vou poder plantar o meu jardim este ano. Detesto não poder fazê-lo porque a sua mãe sempre adorou flores e esta é a época certa para plantar. Mas eu estou velho demais para cavar a terra. Se estivesses aqui, eu não teria esse problema, mas sei que não me podes ajudar, uma vez que estás preso. Com amor, seu Pai."

Pouco tempo depois, o pai recebe o seguinte telegrama do filho:

"Pelo amor de Deus, Pai, não escave o jardim! Foi lá que eu enterrei os corpos".

Como as correspondências eram controladas na prisão, às quatro da manhã do dia seguinte, uma dúzia de agentes do FBI e polícias apareceram e cavaram o jardim inteiro, sem, no entanto, encontrar qualquer corpo. Confuso, o senhor escreveu uma carta para o filho, contando o que acontecera. Resposta do filho:
"Pode plantar o seu jardim agora, amado Pai. Isso foi o máximo que eu pude fazer para o ajudar, no momento..."
(*) Texto disponível em diversas fontes pela Internet pelo menos desde 2009, entretanto sem menção do autor. Título do blog Angodebates

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Crónica | Onde andará a bússola?

No bairro em que me fiz homem, os homens, os mais jovens, os intermédios e os de meia-idade, eram muito dados a festas. Isolando aqui as de aniversário, mais intimistas, ressalto as dos grupos organizados. Várias por ano. O réveillon era o apogeu em princípios da década de 2000 no bairro da Santa Cruz, Lobito. As festas, cada igual à sua antecessora, terminavam da mesma forma. Com pedradas. Umas mais a dar mais para o verbal, outras no entanto físicas mesmo, feridas e tudo. Testemunhei muitas delas como fotógrafo, mas não só. Contavam-se aos dedos de uma mão – se caso as houvesse – aquelas que terminavam tal começassem, felizes. Era como se o guionista de todas elas fosse um só. Seguia-se a próxima estação do ciclo, o mesmo entusiasmo de campanha, a mesma socialização, mas, também, o fim já previsível. Brigas. Talvez por isso não tenha recebido com o júbilo esperado por parte do especialista que a idealizou, falo da associação das eleições angolanas com festa, no caso a «festa da democracia». O povo eleitor, este, não pôde mais do que papagaiar o slogan, mesmo aqueles que abominam a implicação semiológica do termo (quando não descambam pelas bebedices, as festas costumam pulverizar decibéis da poluição sonora). E saímos de casa sem traumas, provavelmente convencidos que, uma vez ocorrendo à luz do dia, seria uma matiné, do tipo sunset, inofensiva até para crianças. Votamos, pois. Serenos. Cidadãos, pacíficos e pacifistas. E depois? Volvidas pouco menos de duas semanas, vivemos dias que aconselham aquele «cala-te ou fala algo que valha mais do que o silêncio». Prudência parece ser o conceito mais transversal neste quadro. Mas é um silêncio que me vejo forçado a romper por imperativos de consciência, sob pena de hipotecar a voz. Sou um simples escritor sem pretensão alguma de distribuir sermões académicos, como nos habituaram os nossos prendados sofistas, legitimados pelo quilate de seus diplomas. Até porque em matéria de realização neste campo, define-me melhor o que não consegui ser. Na crónica que escrevi aqui no Blog Angodebates no passado mês de Março, confessei logo no título como «Não gosto de eleições». O parágrafo de abertura dizia o seguinte: «E chega aquela fase de usar camisinha nas palavras. Já vamos na quarta. Assim manda a democracia, sistema de governo que, entre nós, tende a captar holofotes pela tendência de se embrutecer na sua faceta dos ciclos eleitorais, pondo em risco importantes conquistas da coabitação e do próprio exercício da cidadania». E acresci: «Francamente não gosto eu é do pico do processo que leva às urnas, em função da agitação social, nem sempre saudável e de sequelas indeléveis. Se em política tudo (parece que) vale, sou entretanto adepto de que qualquer que seja o sistema vale muito mais pelo quanto aproxima do que divide famílias. (…) No final do dia era suposto tornarmos às nossas casas em paz. Adversários, mas juntos por um ideário maior: Angola». Ora, desenha-se para dentro de cinco anos a incontornável realização de mais uma «festa da democracia» quando ainda não sabemos como vai terminar o novelo presente. Fica claro que tudo se resume à disputa… afinal. Para haver festa, precisaríamos de estar irmanados num mesmo lado. É o contrário. De um lado os que tudo acusam, do outro os que tudo negam. E a cada dia, vamos para a cama sem fazer ideia da conferência de imprensa que nos vai acordar, qual delas a mais atlética. Bem ao ritmo da onda, vai renascendo a cluster de «experts» sobre Angola na media mundial, sem falar das peças negativas nas grandes agências noticiosas. Oh, prezados mais-velhos da classe política, onde andará a bússola do entendimento? E nisto a nossa história tem algo a dizer: quando aumenta o número de sábios lá fora, é porque está a faltar sabedoria cá dentro. Ainda era só isso. Obrigado.

Gociante Patissa | Benguela, 04 Setembro 2017 www.angodebates.blogspot.com

Cartoon

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Qualquer dia, até tossir em espaços públicos será proibido | Do país em que até para fotografar a própria sobrancelha é preciso autorização da direcção de um estabelecimento privado

Enquanto se aguarda por uma segunda viatura para regressar à casa, depois de apreciar no Cinemax do Kero de Benguela um filme infanto-juvenil, os sobrinhos sugerem tirar fotos no parque de estacionamento para registar a socialização para a posteridade. Aí é que entra o guarda, armado mas bem educado, a proibir. Porquê? Porque está escrito. "É preciso pedir com adecedência", diz ele. Mas pedir autorização a quem? "Na Direcção mesmo". Caculando que talvez se devesse ao tamanho da minha máquina fotográfica semi-profissional, atiro: mesmo que seja para fins familiares? "Sim, é mesmo isso, é preciso autorização." Parece ridículo e nada melhor que ridicularizar: e se fosse uma selfie com telemóvel, também teria de pedir autorização? "Sim." Não gostando de desautorizar ninguém em posto de trabalho, acedi à "ordem" do segurança e fui ler o cartaz a que este post faz referência. Honestamente, não vejo que prejuízos à imagem do Kero de Benguela é que uma selfie tirada no parque (vazio) de estacionamento representa, ainda mais numa era em que um simples botão de lapela de qualquer casaco ou blusa pode fazer fotografias ou vídeos em investigação forense. Só pode ser uma reprodução de práticas de excesso de zelo do tempo de guerra em que imperava o estatuto de "objectivos estratégicos", no que entravam os aerportos, as barragens e afins. Portanto, menos, caros gestores, muito menos! Ainda era só isso. Obrigado
Daniel Gociante Patissa (cidadão e cliente) | http://angodebates.blogspot.com/

domingo, 27 de agosto de 2017

Diário | Negar uma simples água?! Mas você afinal é assim complicado porquê, velho?

“Mas não estão a ouvir?! Ainda vou bater com mais força. – tóc, tóc, tóc, - Estão ali?”
“Mas quem é?”
"Sou eu, vizinho.”
“Eu ainda tenho vizinho?”
“Assim então estás a falar como?! Sou eu, o teu brada Venceslau, da parede ao lado…”
“Não conheço…”
“Ah, é de se desprezar? Então, 15 anos de porta à porta, agora já não me conhece?”
“Mas não me chamaste de bruxo, bwé de nomes feios – filho disso e  daquilo – antes de me bloquear, só por alertar que na campanha é preciso pensar no dia seguinte, que somos o mesmo povo, que daqui a cinco anos haverá mais?!”
“Ai!… Afinal não sabes, né? Eu sou uma pessoa de mente aberta, vizinho. Posso te ofender no facebook, te bloquear, ficar inimigo contigo, né?, mas pensas que, tipo, aqui em casa misturo? Aquilo fica mesmo nas redes sociais. Fora comemos e chupamos juntos. Se tens dúvida, experimenta pagar aí na cantina. Estás ver, né?”
“Por acaso, não. Não estou a ver…”
“Meu, mano, isso é século 21. Nas redes sociais é uma coisa, aqui no dia-a-dia é diferente. A nossa amizade não pode ficar afectada…”
“Aié? E nas redes sociais estás com que nome?”
“Venceslau mesmo…”
“E eu?”
“Você mesmo…”
“Ora pois. Então tu me sujas, ameaças, eliminas os meus comentários de me defender, insultas a torto e a direito… agora queres-me convencer que tens duas caras?!”
“Ainda põe pause nesse tema, velho. Venho em paz, naquela base habitual já…”
“Que base?”
“Só para o vizinho esticar a mangueira em cima do muro. Me cortaram a água, velho. O que faz esse governo, esse governo!… Quer dizer, a pessoa vota, e o resultado é esse?!”
“Mas cortaram porquê? Deves ter dívida com a Empresa de Águas e Saneamento, não?"
"Até só perdi o meu rico tempo a tentar-lhes explicar. Quando acabar de pagar o crédito da motorizada, até vou regularizar a dívida, faltam só dois anos…”
“Hahahahaha. E o estado vai esperar dois anos para facturar o que consomes?!”
“Por isso vim aqui como homem, na paz, apelar o vizinho, exortar por uma mente aberta e neste âmbito me fornecer água durante o defeso. Até não é bem por mim, é mais pela família, as crianças que vão à escola. O irmão, sendo pai, o que tem a dizer?”
“É simples. Pega nas bandeiras e T-shirts, faz um cordão enorme, amarra no arco do balde e lança ao parlamento ou ao comité. Não andaste aí todo radical?”
“Também não é assim que se tratam os amigos, velho, desculpa lá! Acha isso realista?”
“Ah, é, né? Neste caso, pede a qualquer um dos deputados para te fornecer água de Lexus, ya? Agora me dá licença, vou mais é ajudar a mulher a lavar a loiça...”
“Até era uma coisinha de nada. Negar uma simples água?! Mas você afinal é assim complicado porquê, velho?”

Gociante Patissa | Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto – Catumbela | 27 Agosto 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

“RAÍZES CANTAM” NA PENA DE JOB SIPITALI - Prefácio de Gociante Patissa no Jornal Angolano de Arte e Letras

A província de Benguela volta a inscrever, com caneta dourada, na história da produção literária angolana, um poemário consistente, «Raízes Cantam», que desponta da segunda década do pós-guerra, cujo marco é o ano de 2010, da qual o autor faz parte.

Pede-me o Job Sipitali que prefacie o seu livro. Ora, tenho duas boas razões para negar. A primeira é poupá-lo do azar (a única vez que prefaciei um livro no prelo foi há coisa de cinco anos, e nunca chegou a ser publicado). A segunda razão – e a mais forte – é que a obra tem tudo para vingar por si, com uma maturidade estética tão rara em estreantes e que, por isso mesmo, dispensa qualquer empurrão. Agradeço pois a honra e partilho então estas linhas pela consideração que me merece o autor e a riqueza do texto.

«Raízes Cantam», poesia contemporânea congénita, recebe por empréstimo do seu fazedor a relação intensa «cidade-campo», com este último sócio-antropologicamente inconformado na Camisa-de-forças do espaço urbano, onde se viu encaixado à ordem da pólvora. Fica também a interrogação quanto ao que ficou por dizer da parte do autor, tendo em conta as reticências que antecedem e encerram o título de cada poema.

Para um leitor que seja falante da língua Umbundu (onde língua implica a cultura deste grupo etnolinguístico de origem Bantu, que predomina no litoral centro, sul e sudoeste de Angola), será inevitável experimentar a intertextualidade entre a tradição oral e o tricotar alegórico do poeta. Temos isto mesmo em ...A ELEIÇÃO DO VERBO..., onde «Acorda-se o silêncio com o sino rural: cocorocó – cocorocó…/ E uma merenda sobre as brasas do fumo/ ergue os olhos da enxada.» Este vívido rural lembra um cântico que indaga com melancolia: «Kulo ka kuli akondombolo / pwãi kucaca ndati?» (Aqui não há galos / então como é fazem para amanhecer?). De resto, «A escrita rural / voa com o fumo / na chama dos parágrafos», como bem advoga o poema …SÁBIO RURAL…

No poema …FUTURAS PALAVRAS…, temos a enunciação que leva a inferir que a saúde do futuro reside no reencontro com o que há de lição e tradição no passado, na essência griot. «Vão ao serão / não serão / órfãos de palavras. / No serão ouvem-se / palavras circuncisas./ Vão. Não serão órfãos.» Só mesmo a embriaguez de poeta para ainda crer na exequibilidade de uma tal sugestão de resgate, precisamente numa sociedade, como a angolana, que faz culto (institucional, até) à encarnação mecânica de modelos/padrões identitários e civilizacionais que implicam a auto-negação ontológica africana. Mas há que vestir a certeza que o autor pinta na estrofe primeira do poema …VIAGEM…, que abre o livro: «Verdade ou não importa / o imperativo / dos sonhos.»

Atento aos fenómenos, virtudes e degenerações no rumo da sua sociedade, temos no poema …ADJECTIVO… o desencanto pelo papel do intelectual moderno, de quem se esperava, vagalume, guiar o seu povo, intelectual este que, no lugar de defender causas, escolheu defender lados conforme o charme do aceno. O que resta é que «As almas defendem-se / dos corpos epistémicos / dos filósofos nos olhos.» Ou, dito de outra forma, «O ex professo / Carrega consigo / O nacionalismo aurido» (do poema ...MISSÃO…)

Nota-se um distanciamento em relação à tendência dos da sua geração, aquela nota acentuadamente sócio-realista e declarativa, com textos prolixos e a passar ao lado do labor estético. Job Sipitali desponta pela diferença. Traz uma poesia concisa, proverbial e penetrante, enfim um material esteticamente cozido para saltar da gaveta para as páginas de um livro. Que desta promissora lavra venham outros e que receba um acolhimento à altura. Ainda era só isso.

Benguela, Angola, 01 de Julho de 2017, publicado no Jornal Cultura, de 15 a 28 de Agosto  de 2017 

Job Sipitali apresentou no domingo (30/07) ao público na Mediateca de Benguela a obra literária de estreia intitulada “Raízes Cantam”. Com 55 páginas, o formato é de livro de bolso e sai pela editora Perfil Criativo, com sede em Portugal, que para a primeira edição coloca à disposição de amantes da leitura 150 exemplares.
Job Sipitali (1985) nasceu no Município do Cubal, Província de Benguela - Angola. É Bacharel em Linguística-Português pelo ISCED (Instituto Superior de Ciências da Educação) - Benguela. É membro e co-fundador da ALCA (Associação Literária e Cultural de Angola), onde exerce a função de coordenador do distrito de Benguela. Escreve, principalmente, poesia e contos.

…NOÇÃO DE CONCLUSÃO…
Concluo fazendo o tempo: dos homens,
da terra, dos objectos,
das vozes naturais, do silêncio celeste.
Mas o tempo não cabe na conclusão
nem nas coisas vitais.
Cabe no Homem.
O tempo é ele mesmo.
Não tem género.
Sigamo-lo com a escrita não com os pés.

…A GRAMÁTICA E A ZUNGUEIRA…
Corrige-me
o destino
não o pensamento.
Corrige-me o sofrimento não a gramática
que gosta de comer bem com os verbos
e esquece-se dos
pronomes personificados, dos pratos típicos
e quentes da sintaxe.
Corrige-me a palavra,
não a polissemia que gosta de ser híbrida.
Corrige-me tudo, menos o pensamento.