PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

terça-feira, 17 de abril de 2018

Diário | Sogra entre aspas, né?

“Porque é que a tua secretária atende a minha chamada, se o número está gravado no teu telefone?! É só isso que quero saber...”
“Mas a pessoa já não pode fazer uso do momento privado a que tem direito, de libertar um peidozinho lá fora, deixar o telefone no escritório… já encontra problema?!”
“Não vale a pena me aldrabar, mor. Você sabe que não gosto de mentira! Eu vejo.”
“Amor, o dia mal começou, ainda nem 10h30 são, tu já te estás a estressar? Mas o que é que te irritou?”
“Porquê só que a tua secretária atendeu o meu telefonema, bebé, se no teu aparelho o meu número está gravado, não é desconhecido?! Isso ofende, sabias?”
“Mas, amor... Um chefe também é humano, não deixa de socializar com colegas de trabalho.”
“Aié? Assim quando as esposas dos teus colegas têm saudades e ligam para as secretárias dos maridos é para ordenar o quê, uma acta em folha de 25 linhas dos problemas do lar? É isso?…”
“Estás ir longe e a mostrar desconsidera…”
“Quer dizer, uma gaja liga para o baby, e uma simples secretária já tem a ousadia de atender. Assim quem lhe deu essa ousadia, se é que ainda posso saber, né?!”
“Se calhar podíamos continuar mais logo a tratar desse assunto... Que tal, meu bem?”
“Achas?! Queres-me pôr na agenda? Eu não sou assunto, ouviste?! Não me dá só horário, estou a avisar… Hum! Afinal nesse tal teu katelefone já assim que é tão importante, que até já somos atendidas por terceiras, gravaste o meu número com o nome de quê?”
“Mas esta cena toda porquê, como se houvesse motivo para insegurança, se te dei inclusive uma sogra e tudo?”
“Sogra entre aspas, né?”
“Sogra entre aspas? Ouvi bem? Você tem a coragem de dizer que a minha mãe é sogra entre aspas? Isso quer dizer o quê, que vai morrer daqui a pouco? Respeita só um pouco a mulher que me faz existir, faz favor, não peço muito, ya? Já agora, me define só ainda o que é sogra entre aspas...”
“As secretárias é que sabem explicar melhor. Elas tiram directamente inteligência do computador...”
“Não entendo”
“Caro chefe e sua secretária, só vos aviso uma coisa, ya? Sou mãe de três filhos, fora os outros, estás a ouvir mesmo bem, ne?!”

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Benguela, 17 Abril 2018 |

Obituário | Acabo de receber informação do falecimento do decano da sonoplastia radiofónica em Benguela, Alberto Isaac, Mega Isaac, 53 anos, hoje, por doença. Chorar é pouco

Reproduzimos a entrevista de uma homenagem que nos mereceu há oito anos

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

«Gostava de ter um trabalho que me complicasse», Alberto Isaac - No Espaço Homenagem, conheça a história do “Mega” Isaac, um veterano na sonoplastia radiofónica (*)

.
O período da manhã é o mais agitado. Ainda assim, “Mega” Isaac aceitou a conversa, com a tácita anuência da Redacção, na emissora dirigida pelo jornalista José Lopes de Almeida Júnior.
«Sonoplastia ou sonorização tem a ver com a preparação de programas, gravação de peças, ou seja, dar tratamento ao trabalho antes de ir ao ar. Operação tem a ver já com a emissão do sinal, com os mesmos cuidados», esclareceu. E quanto ao envolvimento com a rádio – disse –, «Era o meu sonho, antes de sair das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA). Mesmo no exército, já fui radista durante quatro anos». Não obstante o gosto, viria a desistir, por causa do peso do equipamento. «Era um Racal 921, de12 kg, e a pessoa tinha que o levar às costas».
A entrada para a rádio dá-se em Fevereiro de 1985, após formação como operador. «Fiz na Rádio Escola, naquela época dirigida por Mesquita Lemos, durante três meses. Depois vi que no Bié as coisas não corriam bem», conta, numa clara referência à instabilidade provocada pelo conflito armado entre as forças militares da Unita e o exército governamental. O que ele não sabia era que apenas 17 anos mais tarde a guerra entre angolanos terminaria definitivamente, isso em 2002. Foi transferido então, a seu pedido, tendo no início ficado na Rádio Lobito. «Só que Luanda despachou para a Emissora Provincial de Benguela. Fui recebido por Cabral Sande, o director, no dia 11 de Outubro de 1988. O chefe da secção era o Adriano Calenga, já falecido. Trabalhei como operador. Depois veio uma reestruturação, e logo que apresentei documentação, passei para a sonorização». A Rádio Benguela possuía já o mesmo tipo de equipamento, considerado de ponta, com que se ministravam as aulas no centro de formação em Luanda. «Isto é que provocou que a Rádio Nacional despachasse no sentido de eu não permanecer na Rádio Lobito, que ainda não tinha tais meios».
Em cada cinco de Outubro, a Rádio Nacional de Angola completa mais um aniversário. Alberto Isaac, quadro “esquecido” no sector privado, guarda boa recordação dos ex-colegas (ainda no activo) na Rádio Benguela, entre eles o Pilartes Congo, a Teresa Alberto, o Kim Conde e uma rapariga de quem se lembra apenas pelo sobrenome Jorge. «Saí dali por desavenças laborais. O ambiente não era salutar, claro, não com todos. Vim para a Rádio Morena, em 2000, no dia 22 de Abril. Conversei com Zé Manel, na ocasião o director, que me recebeu. Fiquei um tempo na operação, à semelhança do que aconteceu quando cheguei a Benguela, e só depois na sonorização». Ali reencontrou-se com Cabral Sande, já na condição de sócio-gerente.
——————————————
 VAMOS AO BATE-PAPO

A Voz do Olho (AV-O): Por que foi que escolheu destacar-se pelas máquinas e não pelo microfone?
Alberto Isaac (AI): Olha, eu pelo microfone já andei. Porque o Bié, na altura, tinha um sistema: o operador não se limitava a isso, também tinha que fazer o trabalho de reportagem. Então, nos dias de folga, o chefe de turno escalava um operador para estar de plantão, e na falha de um, fazer a reportagem, preparar o trabalho, colocar voz, e submeter ao editor.
AV-O: A sua profissão não estimula tanto a juventude, não?

(AI): O problema que existe na juventude é, talvez, o imediatismo. Esta área requer paciência, coragem, e sacrifício. A juventude hoje em dia não gosta de levar tempo para adquirir conhecimento, quer-se tudo numa questão de dois ou três meses, e quebra-se logo o espírito do que se deseja fazer.
AV-O: Sua referência de profissional de rádio quem é?
(AI): É o Fernando Manuel, do Bié, como profissional e pela forma de ser, e não apenas por me ter recebido em 1985. É gestor e ao mesmo tempo locutor e repórter.
AV-O: Sente-se realizado?
(AI): Não digo que me sinta realizado, ainda falta muito. Há muito que preciso e que não foi feito. Embora a idade ainda não permita, tenho sempre aquela esperança de aumentar a formação.
AV-O: Tem algum filho com vontade de seguir os passos do pai?
(AI): Sim, tenho dois. Um deles faz 18 anos em Novembro. E eu aconselharia que ele continuasse com este sonho, numa classe que, embora de muita turbulência, é uma boa profissão.
AV-O: Porquê a rádio e não outros órgãos? Já pensou em ir para a televisão, por exemplo?
(AI): Não, embora já tenha estagiado como colaborador na televisão um tempo, lá no Bié. Depois “despistei”, não tinha muita queda. Voltei para a rádio, embora a sonoplastia na televisão também seja simples. Gostava de ter um trabalho que me complicasse (risos).
AV-O: Dos aprendizes que passaram por suas mãos, há alguém que lhe impressione?
(AI): Sim, por exemplo um que hoje está na Rádio Mais, o Manuel Chandikua. Este rapaz sempre se dedicou, sempre gostei da forma dele, e acho que vai mais além.
AV-O: Às vezes, há a ideia de que a tecnologia é contrária às gerações mais antigas. Como se deu essa passagem da bobine para o computador, ou se quisermos, do analógico para o digital?
(AI): Acho que essa mudança de tecnologia é bem-vinda. Eu começo pelo sistema mais antigo ainda. Com as bobines, embora a qualidade seja boa, era um sistema lento. Passar para uma bobine, desta para uma outra, e tal. O novo sistema está melhor, embora nos dê também dores de cabeça com bloqueios, a insuficiência da capacidade de espaço e memória. Porque a maioria de computadores que aparecem é dessa linha branca, e não suporta. Nós temos um trabalho de muitos arquivos, muito pesado. É aí que temos encontrado dificuldades, mas ao longo do tempo superam-se.
AV-O: Há vozes que se levantam a dizer que o futuro da rádio está ameaçado, uma vez que as novas tecnologias de informação tendem a ser mais atractivas. Também acha isso?
(AI): Não. A rádio vai continuar, e ainda continuará inovando.
AV-O: Quais são os segredos de sucesso para um sonorizador ou operador, técnicos de som?
(AI): (risos) Isso não vale a pena explicar agora, (risos) porque isso tem muito segredo, (risos) e não só. São segredos profissionais.
--------------------------------------------
“BILHETE DE IDENTIDADE”


Nome: Alberto Isaac Jamba Kanoma. “Mega” veio de indicativo de rádio, no tempo dos walkie talkie.
Idade: 45 anos
Local de nascimento: município da Nharêa, província do Bié
Estado civil: casado
Filhos: sete
Onde encontra mais prazer, na operação ou na sonorização: Pelo tempo que estou nisto, tudo me apraz, Às vezes até a área eléctrica.
Momento mais alto da carreira: é melhor deixar para depois (risos).
Viagens: Até agora só para dentro de Angola.
Em termos de conta bancária, está satisfeito? Ou seja, consegue viver do que ganha?: Suficiente não digo, mas temos de nos alegrar com o que temos.
Tem casa própria? - Sim.
Gostos musicais: Na americana, a suave. Na angolana, o semba. Admiro o Carlos Burity, Bonga e André Mingas. Se o tempo voltasse, os punha outra vez na juventude para darem a carga que merecem (risos).
Já se imaginou a gerir uma rádio?  Eu gosto mesmo é da técnica e continuar com aquilo que sou.

(*) Entrevista conduzida por Gociante Patissa e publicada no Boletim "A Voz do Olho" (de que é editor e co-fundador), edição de Setembro-Outubro de 2010, veículo informativo, educativo e cultural dos Amigos da AJS-Associação Juvenil para a Solidariedade, ONG angolana com sede no Lobito, província de Benguela

Crónica | Roupa interior (*)

José da Silva Pinto (foto do autor, in FB)
Lá no prédio há um casal simpático de muita idade que eu gosto de encontrar sempre que posso. Ela, a D. Henriqueta, Ele o Sr. Alfonsinho... Qualquer um deles já passou largamente dos 80 e por isso sentem-se abençoados...

Há dias D.Henriqueta chamou-me à parte e em jeito de segredo perguntou-me se eu ainda era fotógrafo. Respondi que sim, que era verdade, que fazia uns bonecos. De seguida perguntou-me se também fazia trabalhos de fotografia sujos... sujos? Como assim D. Henriqueta? Perguntei eu sem conseguir perceber de todo o alcance da pergunta dela.

D. Henriqueta meio decepcionada disse-me que uma prima afastada do Cazenga lhe tinha dito que havia uns fotógrafos, os "babarrazos, ou sei lá o quê" que a troco de dinheiro se dispunham a fazer fotografias de pessoas sem que elas soubessem, se apercebessem disso... 

"Fotografias assim de gente a fazer coisas feias", percebe?

Percebi sim, disse-lhe que não era "babarrazo" nem paparazi e que tb não me dava nem conhecia nenhum. Ela lá me foi dizendo que era uma pena que precisava desesperadamente de um, que andava muito desconfiada com o estranho comportamento do Alfonsinho, que ultimamente, veja bem, desalvora porta fora pela manhã, diz-me que vai dar milho aos pombos e só me aparece em casa ao fim do dia, nem vem pro almoço... e com as galdérias que por aí andam à solta, nem sei no que é que ele anda pr'aí a tramar... até porque o Alfonsinho apesar dos anos todos não é flor que se cheire e desde que passou a assistir comigo à telenovela das sete, já nem quer ir para a cama ás nove como era hábito, para já não falar das conversas muito esquisitas sobre roupa interior que puxa logo que acabo rezar o terço e me preparo para ir dormir... 

Sorri, aconselhei paciência, disse que talvez fosse só uma fase, que a coisa se calhar não era bem aquilo que ela imaginava e que se precisasse de desabafar podia contar comigo. Entretanto a coisa ficou por ali e não voltei a cruzar-me com nenhum dos dois…

-ora ontem, por acaso fui à padaria e resolvi atravessar o pátio da igreja para encurtar caminho. Neste pátio há bastantes árvores que dão uma sombra apelativa. Sob uma destas árvores e num banco consegui reconhecer de longe o Sr. Alfonsinho, que, sozinho meio cabisbaixo permanecia imóvel. Aproximei-me devagar e percebi que o O Sr. Alfonsinho ferrava uma soneca das boas.

No rosto sereno havia um sorriso de felicidade que indiciava um sonho doce. Sem o acordar lá fui comprar o pão.

Hoje se vir a D. Henriqueta vou aconselhá-la a deixar o Sr. Alfonsinho ver todas as novelas que bem lhe apetecer, porque de uma coisa creio estar quase certo, aquele sorriso durante o sono dele, só pode querer dizer que , o Alfonsinho ou sonhava com a actriz principal da novela das sete, ou então, vieram-lhe ao sonho os tempos em que ele falava com a Henriqueta abertamente sobre roupa interior…

Texto: José da Silva Pinto, fotógrafo (e cronista não assumido), Facebook
_________________
(*) Título da inteira responsabilidade do Blog Angodebates

Exclusivo | Entrevista ao poeta David Capelenguela, representante de Angola no Encontro de Escritores de Língua Portuguesa em Cabo-Verde pela UCCLA

Está confirmada a presença de Angola na 8.ª edição do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, a ter lugar na cidade da Praia, Cabo-Verde, de 19 a 21 de Abril. O poeta David Capelenguela é quem representa a União dos Escritores Angolanos (UEA) no certame da iniciativa da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa). O tema é «A Cidade e a Literatura: conexões entre Cidadania, Criatividade e Juventude». O incontornável Jacques Arlindo dos Santos é outra pena angolana de peso, o membro da UEA que foi presidente e fundou a Associação Recreativa e Cultural «Chá de Caxinde».

 
David Capelenguela (foto do autor)Adicionar legenda

Na entrevista concedida ao Blog Angodebates por questionário, Capelenguela foi confrontado com o facto de, nos últimos anos, diversos intelectuais terem posicionamento céptico quanto ao real impacto de instituições arreigadas ao discutível rótulo da lusofonia, tais como a UCCLA e a CPLP. Questionado se haverá algum ganho directo para a literatura angolana, o autor de «Ego do Fogo» optou pelo copo meio-cheio.

O escritor tem uma agenda recheada. De Cabo-Verde, voa para Portugal onde deverá participar de 23 a 26 no Festival de poesia de Foz Côa, no que será a sua segunda presença.

Actual secretário para as Finanças da UEA, David Capelenguela nasceu na província da Huíla em 1969. Licenciado em Direito e mestrando em Ciências Jurídico-Económicas e Desenvolvimento pela Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto, é jornalista e perito de desenvolvimento comunitário ao serviço do Fundo de Apoio Social (FAS).

Um passeio pelo acervo de Capenguela, nomeadamente «Vozes Ambíguas», antologia «Amor no Meio do Teu Mar» (organizada por António Panguila), «Verso Vegetal» (prefaciado pelo renomado professor Francisco Soares), enche os olhos pela plasticidade estética. Mas é ainda mais no campo da temática que predomina a marca do artista que trabalha com o substrato rural e etnográfico do sul de Angola. E sendo a literatura um veículo cosmopolita, estão lá com a devida pertinência poemas de temas mais universais.

Em «Vozes Ambíguas», nota-se um pendor hermético que por vezes vai além do proverbial, provocando no leitor uma espécie de sede de dominar o contexto. Mas, claro está, é algo que também não deixa de responder ao tema e fio condutor da obra, que são vozes ambíguas. Por outro lado, ao contrário da tendência moderna em Portugal e Brasil, fica-se com a sensação que o hermetismo (às vezes levado ao extremo) é já uma característica da nossa poesia, muito presente em JL Mendonça, no próprio Maimona, até mesmo em João Tala, talvez como forma de rotura relativamente à poesia engajada e dialogante de Neto, Viriato, e outros. Já em «Verso Vegetal», há poemas que têem assim aquele desfecho instigador, como quem partilha, à saída, a sabedoria de um provérbio.

Blog Angola, Debates & Ideias (Angodebates): Vai sob indicação da União dos Ecritoes Angolanos (UEA) ou foi um convite à parte?

David Capelenguela (DC): Sim vou representar Angola. Vou em nome da UEA.

Angodebates: Que expectativas tem em relação ao evento e o que representa para si este intercâmbio?

DC: A minha expectativa é de poder perceber como tem sido a produção literária de outros países, e neste caso, particularmente a de Cabo Verde.

David Capelenguela exibindo o livro de poesia
«Verso Vegetal» (esq) e Gociante Patissa (dir.),
por ocasião do lançamento colectivo das obras dos
designados novos autores e vencedoras da Bolsa
Ler Angola (Grecima). Cerimónia decorrida na
Mediateca de Luanda no dia 07.11.2014
Angodebates: É dos poetas que mais trabalha na vertente antropológica do sul de Angola, nomeadamente a representação da idiossincrasia dos Nyaneka e Kwanyama, a par dos ovimbundu ao qual pertence. Haverá alguma meta, um objectivo subjacente neste quase solitário apego à temática telúrica?

DC: Objectivos há sempre, me parece, para  nós que estamos ao exercício da escrita. Quem escreve espera sempre ser lido. O que tenho estado a tentar representar nesta vertente/estilo de produção literária tem sido uma espécie de rotura com o modo comum de apresentação estético-literário.

Julgo [que] tenho sido, já há algum tempo, um daqueles autores cuja matriz textual procura evidenciar rotura com os formalismos, onde o recurso a interpretação de uma dada canção, provérbio, adágio, adivinha ou outra manifestação da tradição oral, é motivo de inovação, tanto ao nível formal da elaboração semântica como da urdidura estético-formal, da reinvenção verbal e da elaboração figurativa da linguagem, resgatando e descodificando símbolos, signos, com fito único de enformar a angolanidade literária.

Só assim se pode compreender que o apego à temática telúrica é um exercício de realce ao encontro da identidade assente na combinação de pátria e terra. Esse exercício, quando realizado com subtileza e maestria para o texto, realiza a solenidade da poesia e os cultores  que a alcançam podem orgulhar-se de lhe terem rendido à excelência.

Angodebates: Tem havido da parte de diversos intelectuais um posicionamento crítico e céptico quanto ao real impacto de instituições como a UCCLA e a CPLP. Da sua perspectiva, que impacto ou vantagens objectivas trazem esses encontros da UCCLA ou as bienais de jovens criadores da CPLP? Colocado de outra forma,  há algum ganho directo para a literatura angolana?

DC: Penso que num  intercâmbio como o que vai acontecer, há sempre alguma coisa de boa que se possa colher e partilhar.

Angodebates: Lançou no passado dia 13 de Março em Luanda o livro de poesia Ego do Fogo, o qual ainda não tivemos a oportunidade de ler. Por isso gostaríamos de pedir que nos fale dele

Jornalista Fernando Noé, da Rádio Kunene (ao centro),
anfitrião de magazine informativo matinal na estação em
que o locutor Capelenguela (à dir) colaborou durante os
anos que serviu o FAS naquela província. GP à esquerda.
DC: «Ego do Fogo» é uma obra de homenagem a todas as mulheres. Mulher mãe, esposa, irmã, filha, enfim mulher companheira. Assiste-se nos nossos dias [a] uma inversão de olhares, onde para muitos casos a mulher não passa de um produto. Produto descartável ou, se quisermos, sem valor. O escritor deve-se situar no nível médio-alto, pois instado ao exercício do seu ofício, é formador de opinião. Para tal, devemos pautar uma conduta de intelectualidade, saber ser e estar, pois os olhos da sociedade estão sempre sobre nós.

Por esta razão em «Ego do Fogo» procuro enaltecer e elevar a imagem e o preponderante da mulher na sociedade, procurando demonstrar e elevar as coisas positivas e repudiando as negativas que são praticadas pelas mulheres, de forma poética, claro.

Angodebates: De resto como vai a sua lavra literária?

DC: Tenho trabalhado, como sempre. Estou num campo de actuação, onde o meu exercício de assistente de desenvolvimento local (trabalho com as comunidades rurais) no âmbito do meu exercício profissional no FAS-Fundo de Apoio Social e o exercício do jornalismo investigativo (queira antes no Jornal de Angola, Angop, na rádio Namibe, Huila, Cunene, bem como actualmente na Rádio Lunda Sul) têm-me permitido ter um olhar diferenciado sobre a nossa identidade cultural.

É isso que me anima, revigora e retempera o meu compromisso o trabalho literário sobre o assentamento oral numa tentativa não apenas de resgatar a riqueza do patrimônio etnográfico e os valores tradicionais do depósito oral, mas também de servir de fiel repórter e uma espécie de «fio condutor» para aproximar o campo à cidade, ou vice-versa, sem que nenhuma absorva a genuinidade da outra.

Angodebates: De economia e estabilidade cambial, estamos numa fase transversalmente complexa, quanto mais para sonhadores. É sabido por exemplo que a UEA deixou de receber o patrocínio do seu principal mecenas, a Sonangol, que suportava a edição de livros e o Prémio Revelação. Enquanto isso, parece surgir a cada dia uma editora emergente,  muitas arrojadas e tuteladas por jovens ontem potenciais poetas, que apelam ao auto-financiamento por parte dos próprios autores das obras a editar. Que leitura faz deste quadro?

DC: Assistimos hoje [a] uma ambivalência. Ou seja, como posso ser autor agora também daqui há mais algumas semanas, com um empurrão do padrinho X ou Y, transformo-me num editor. Banalizamos tudo, pois para alcançar objetivos, ainda que obscuros, tudo vale. De facto a União dos Escritores Angolanos não tem conhecido bons momentos, sobretudo quanto à sua principal missão que é de editar obras de seus membros. O país assiste a uma recessão econômica que arrasta todo o resto. 

Mas é preciso que a actual geração procure compreender os fenómenos e lidar com eles. Temos uma responsabilidade no processo e se quisermos que o barco não afunde de todo, precisamos [de] olhar mais com olhos ver. Precisamos [de] desmistificar os pseudo-escritores do top, e com agravante de que muitos deles dão ousadia para gerações mais novas pensarem que já são e podem tudo. Como diz um ditado da etnia Herero (do Sul de Angola) «ondyala itia, kavake-kavake, okomunyandi katyeta ovinkhodo», ou seja, «a fome ouve-se a dizer, rouba-rouba, as aderências do pau de mexer o pirão». Pois é, precisamos [de] corrigir o tal de que «onde há fome, safa-se quem poder».

www.angodebates.blogspot.com | Benguela, 17 Abril 2018 | Gociante Patissa

domingo, 15 de abril de 2018

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Diário | Ou será que estamos a falar chinês?

"Boa tarde, tio Coordenador do Bairro. Vim fazer queixa! Para não falarem só que fui directamente nas autoridades, né?... É assim, se discutimos com a minha irreval. Ela me ofendeu muito, que na qual até despiu as minha família com a boca dela."
"Ok, Ok, Ok. Mas assim, resumindo, assim, né?, mais ou menos em poucas palavras, qual é mesmo o problema?"
"Se discutimos com a minha irreval..."
"Neste caso DISCUTIRAM, não se discutiram. Também não se diz irreval. É RIVAL. Irreval não existe..."
"Mas a minha prima tem... Como assim, irreval não existe?! Então uma mulher que anda com o teu homem é quê, madre Teresa de Calcutá?!"
"Tem mesmo irreval a sua prima? A senhora tem a certeza disso?"
"Sim. Uma burra só aí... Mas assim então essa dúvida mais saiu de onde, oh senhor Coordenador do Bairro? Será que agora mesmo se você e eu vamos ir na tua casa, a tua mulher também vai dizer que nunca ouviu falar de irreval? Estás só a se fingir porquê, ó camarada Coordenador?! Ou afinal estamos a falar chinês?"
"Tem é rival. R-I-V-A-L. Irreval está errado..."
"Mas irreval é no nosso português angolano, está certo. Não sou obrigada a falar como os brancos lá de Portugal ou do Brasil, cada povo com o seu sentimento..."
"O problema é esse. Seja qual for o sentimento, irreval mesmo está errado. Mesmo esse português de 'que na qual', também não existe..."
"Mas a minha prima de Luanda, ainda na semana passada se discutiram com a irreval dela, e a polícia resolveu. Só aqui na coordenação é que afiançam as irrevais? O chefe parece é mulherengo, que na qual está só a me complicar pra me entrar na mente, né?"
"Minha senhora, olha o respeito..."
"Ó senhor Coordenador, se eu arrebentar aquela gaja com umas cabeçadas, você e esse teu português de se estranhar é que vão assumir, ya? Estás a me confundir, né? Tipo já, essa gaja, como é do bairro, rua está cheia de lama de chuva, enfim, lhe dou de nada, né? Achas que não estudei ou o quê?! Sempre tirei de quinze para cima em português, Ok?"
"Mas a senhora assim vai aonde, se ainda não concluí a... o coiso, digo o registo da ocorrência que vai determinar se chamo o patrulheiro da polícia ou não?"
"Vou-te esperar? Vou na polícia e lá trato directamente com o dono do cão. Uma gaja ainda fica aí a perder tempo, ah porque irreval não existe? Miux..."
https://angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Benguela, 13.04.2018

A essa altura, você estará aflito pelo bem perdido, sem fazer ideia do paradeiro. Se esse bem é chuva, pode vir buscar em Benguela

Citação

"Nada pior do que um homem cujos amigos pensam e decidem por ele." (Jandira Zanchi, escritora brasileira. in FB, 11/4)

terça-feira, 10 de abril de 2018

Uma resenha de babar! REVISTA SUBJECTIVA, DO BRASIL, ALCANÇA ÂNGULOS PROFUNDOS NA OBRA "O HOMEM QUE PLANTAVA AVES"... QUE ATÉ SURPREENDEM O PRÓPRIO ESCRITOR


«O HOMEM QUE PLANTAVA AVES📚 . Autor: Gociante Patissa GÊNERO: Contos ANO: 2017 PÁGINAS: 184 | Pólen Bold 90gr

SINOPSE: Com um conjunto de 14 contos e uma fábula Gociante Patissa constrói suas histórias explorando um enredo criativo, único. Na história que dá nome a obra “O Homem que Plantava Aves” a ficção constrói-se sobre a história de um povo rural devoto a natureza. A narrativa de Patissa marca-se como uma escrita crítica, que pela construção de um humor fino destila suas críticas contra os paradigmas do homem. Ainda na história, este povo rural citado enrijeceu-se sobre a crença de que as pessoas portadoras de deficiência não podiam ter seus direitos igualados as das ditas pessoas sadias; a ficção do escritor irá se desenvolver no sentido de desconstruir a barreira de preconceitos levantados pela sociedade. Esta acidez singular de Patissa também se mostra na história “A Meia- Viagem do Senhor Serviço”, na qual a narração denuncia a hipocrisia inerente aos status sociais, através da elaboração do humor, com isto, astutamente o escritor marca seu ponto de vista trazendo ao final dos seus contos a comicidade dos desconexos preconceitos humanos, que quase sempre recaiam sobre a mesma população que os criou e sustentou. Com a característica de um escritor-parodista, Gociante Patissa cria suas histórias com uma escrita concisa e leve, porém estruturada pelas palavras de um homem que enxerga além da construção social, tão aceita, mas tão necessária de ser repensada . . . . #autordasemana #mediumbrasil #brasil #lovebooks #author #biblioteca #authors #bookstagram #booksphotography #livroseleitura #instablog #instalivro #bookaddict #bibliophile #amoler #reader #igs #bookworm #sinopse #autoresbrasileiros #bookstagram #poetry»

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Crónica | Aprendendo com o “trisal”. Você já ouviu falar?


Quando a política, a cultura e a economia enjoam, resta pesquisar sobre o intrigante campo do sexo. E surpreendeu-me hoje – aqui confessando ignorância sobre tendências cada vez mais liberalizantes de usufruir a vida sexual – um vídeo que vi no youtube. Nele, um casal (de marido e mulher), na casa dos 28 anos de idade, que é proprietário do canal, aparece sentimentalmente destroçado pelo fim do que denominaram "trisal".

Para ajudar a compreender, já usando as palavras do casal, ela tem um marido mais um namorado dentro de casa, ele uma esposa e um namorado. Tão matemático assim. Vida a três. O "trisal" é completado por um jovem que é ao mesmo tempo namorado da esposa e do marido, tudo muito aberto e integrado. A este era dada a liberdade de levar a vida que quisesse fora, sublinhava a mulher, toda ela chorando cântaros, de coração partido.

O casal de youtubers, que já existia muito antes da entrada de um terceiro amor, gaba-se de ser bastante liberal nisso. A relação a três funcionava na lógica de orgia, o que em princípio seria coisa de dizer respeito só e apenas ao trio, até ao momento em que resolveram expor a sua intimidade nas redes sociais, qual diário de um "trisal" de sucesso, com o já conhecido expediente de pedir likes a cada vídeo para manter o canal.

Num episódio anterior, quando o casal vai ao laboratório de testagem de doenças sexualmente transmissíveis (todos os testes deram negativo), a médica pergunta como é que ela faz para se prevenir. A resposta não podia ser mais directa. Com o marido faz sem camisinha, já com o seu namorado faz questão de usar. Perante a perplexidade da médica, ela completa: porque eu tenho um marido e um namorado. Claro que ele, bissexual, disse o mesmo. A teoria do desapego parecia, todavia, fora da agenda.

Opinião | Um serviço de tradução das autópsias em Benguela?

Imagens 1: OPaís; 2: fonte sob anonimato
Foi pouco depois das 23 horas de sábado (07/04) que caíram na minha caixa de correio quatro imagens de um mesmo conteúdo reportando algo à primeira vista aterrorizante, o boletim de verificação de óbito do sindicalista Armindo Cambelele.

Datada de 07 de Abril e lavrada a punho da médica legista Maria de Fátima João de Almeida, a lacónica narrativa das causas da morte do sindicalista eleva, ainda mais para um leigo, a nebulosidade, ao contrário do que se esperava, que é fazer luz sobre o dramático fim de uma vida, ocorrido na tarde de sexta-feira (06/04).

Foi mesmo suicídio? Eis a dúvida mais registada consoante a notícia se foi espalhando. Afinal, faltavam três dias para a realização da fracturante greve geral de professores, convocada pelo “combativo” Sinprof (sindicato de professores), do qual Cambelele foi representante na província de Benguela, apesar de reformado há já três anos. O corpo de Cambelele, 57 anos, natural da província do Uíge, conhecido pela intensidade no papel de interlocutor da classe por condições mais dignas, foi encontrado estatelado no seu apartamento na cidade de Benguela, segundo relatos, com uma corda à volta do pescoço.

domingo, 8 de abril de 2018

Um dos 120 títulos com que a editora brasileira Penalux concorre ao Prémio Oceanos 2018 é O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, do angolano Gociante Patissa. O resultado dos 50 finalistas sai em Agosto. É sempre um incentivo, né? heheh



Nessa instigante coletânea de contos, Gociante Patissa transporta os leitores para os contornos de uma Angola imprevisível. Em catorze temas, o escritor angolano tricota os cordões que passam pelo registo da memória coletiva à recriação de uma guerra civil de três décadas, a qual o arrancou aos sete anos de sua terra natal, Monte Belo. Também encontram-se em sua escrita os desafios do pós-conflito e de cidadania na antiga colónia portuguesa situada na África austral. A província de Benguela e a região etnolinguística Umbundu são o cenário da generalidade dos contos. A alternância cidade–campo resulta numa tensão que ao mesmo tempo remete ao pedagógico e ao satírico, neste livro que poderá ser o mais cómico da lavoura literária de Patissa.

“Uma parte de mim ficou congelada no tempo, mas não me queixo. Ninguém me aponta o dedo. Não matei e não morri completamente.”

PS: Os outros angolanos concorrentes são José Eduardo Agualusa, com a obra «A sociedade dos sonhadores involuntários», por meio da editora Quetzal / Tusquets, ainda J.A.S. Lopito Feijóo K., com a obra «Imprescindível doutrina contra», pela editora Rosa de Porcelana e Job Sipitali, com a obra «Raízes cantam», que saiu em Portugal sob chancela da editora Perfil Criativo